O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 8

Chapter 8 3,650 words Public domain Markdown

Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen. Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle, cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido, que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.

--Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta.

Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.

--Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.

Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com enthusiasmo, dizendo alto:

--Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!...

E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:

--Amo-te.

A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para mim e com a voz abafada:

--Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.

--O quê?

--É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres um pouco de mim.

O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a logica, disse-lhe:

--Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates!

Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos.

A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...»

V

Ao terceiro dia de viagem do _Ceylão_, um dia antes de avistarmos Malta, um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente _byroneano_. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e valsar á noite, na tolda, á luz d'um _punch_ collossal.

O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas taças facetadas; a pesada _pale ale_ espumou; o Xerez ferveu na _soda water_. Carmen, pela sua belleza e pela extranha _verve_ da sua agitação, foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.

Houve _toasts_, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á companhia _P. and O._; e um inglez rico fez um _speech_ aos estrangeiros: _The count and countess of W_.

--Peço um _toast_, disse Carmen, de repente.

Os copos tiniram, estalaram as rolhas.

--Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que salvam as damas que têem á garupa!

A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o _toast_ era excentrico, foi escoltado d'applausos.

--_Oh! shocking!_ disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventre do _Purser_ uma fascinação concentrada.

--_Not at all, Madam!_ disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional...

A ingleza escutava, como quem se instrue.

-- ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com mãos impias os seus oculos, milady...

--Ouh! gritou ella.

-- ... era ainda o sangue meridional!

--_Oh! very shocking the_ sangue meridional.

Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.

No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools. Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.

A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.

D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de Ceylão.

Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.

--Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das _misses_: como senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras, frias e leitoras da _Revista d'Edimburgo_. Estão na verdade do seu caracter: um pouco menos vivas seriam de _biscuit_, um pouco mais seriam _shockings_. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma italiana, uma portugueza, caindo no _missismo_, e dando-se ares vaporosos, hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não serve para esconder dois.

Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.

--Perdão, _señora_, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras maneiras não são o _salero_, são a _gravidade_. O _salero_ póde ser bom no theatro, na _zarzuella_, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala.

Ella empallideceu levemente, e fitou-me:

--_Caballero_, perguntou, _es usted pedante de rhetorica?_

Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo _toast_.

Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras, tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer--_pedante de rhetorica_, e exclamava para os outros inglezes, rindo:

--_Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!_

Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á _cabine_, adormeci ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.

Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o _punch_. Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares escuros saiam risadas de _flirtations_. Havia uma flauta, e uma rebeca. E já um ou outro par valsava em roda da _clara-boia_ da tolda.

A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do _punch_, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.

Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes de dança macabra...

Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do _punch_, travava do braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque. D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe _punch_ pela bocca: elle abria uma frestado olho:

--_Thank you_, caballeros! e adormecia.

--Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o... Quero valsar com elle.

Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.

--Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.

Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.

--Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.

A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos desmanchavam-se; a luz do _punch_ tremia; ao compasso rapido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.

--Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.

A luz do _punch_ erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os; parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:

--Hip! hip! hip!

Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer n'uma voz grave e reprehensiva:

--Não dance mais.

Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, tão casta, tão timida!...

Approximei-me d'ella.

--Prima, é tarde. Não quer descer?...

Ella olhou-me serenamente, sorrindo.

--Não. Porquê?

E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quasi escura.

Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado opposto, e quasi sem querer ouvi.

O capitão dizia-lhe:

--Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem uma recordação é...

Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar...

Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen que dizia:

--Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procural-os.

Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda _fumoir_, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.

Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando:

--Rytmel! Rytmel!

Eu adiantei-me, dizendo:

--Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais...

Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente.

--Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.

Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:

--Está frio, adeus!

Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.

Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido, e d'orgia.

--Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma _seguidilla_ ou uma _habanera_! Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui _gentlemen_ que nunca ouviram a musica dos nossos paizes.

--Sim, sim, gritaram todos. _Uma seguidilla_!

Ella queria recusar-se, descer ao beliche.

--Não, não, cante, mylady, cante!

Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e languida:

Á la puerta de mi casa Hay una piedra mui larga...

Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou:

--Pela _señorita Carmen!_ hip! hip! Hurrah!

Os applausos echoaram no mar.

Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.

--Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pandiga.

Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.

Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio de _punch_:

--A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!

--Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.

E o echo triste do mar, repetiu:

--Hurra!

Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar.

De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:

--_All is well_.

Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do helice.

De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito.

VI

Dei um salto, corri á porta do beliche:

--_Stewart! Stewart!_

_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.

--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?

--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.

Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.

--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada.

A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a _cabine_.

Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais lugubre. A officialidade estava impassivel.

--Que foi? que foi? perguntei a alguem.

--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel vendaval...

--Estamos perdidos!

--O navio é seguro, respondeu o outro.

Ao lado diziam:

--O capitão devia deitar as lanchas ao mar.

O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida.

Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:

--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas vezes d'Aden a Bombaim.

Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim, appareceu:

--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco dias.

No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma. Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.

A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas, mas graves, ficaram no convez.

Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem cessar.

Captain Rytmel approximou-se de mim.

--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo, Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?

Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e pallida.

--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o perigo!

Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.

--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se, havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma baleia morta!...

Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.

Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos crusadas.

--Morremos, hein? perguntou ella.

--Tem medo? disse eu.

--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...

--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.

--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes, deshonra a Peninsula. Ahi está.

--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ella.

--E que me importa a mim esse cavalheiro?

E deu uma curta risada.

No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar, apesar do ruido do vento.

Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:

--E custa-lhe morrer?

--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?

--Se a minha amisade é para si um interesse profundo...

A condessa calou-se.

--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa. Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a sua alma...

--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos passear, vamos ver o mar.

O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina trabalhava-se sempre.

Rytmel continuava fallando á condessa.

--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.

--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...

--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos levaria? ou ao despreso ou á tortura...

Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.

De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante:

--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?

--Penso, condessa.

--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!

E depois de um momento:

--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.

N'este momento um ruido extranho tomou o navio.

Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei para a abertura que desce á machina.

--Que é? perguntei a um official que subia.

--Um milagre de Pernester!

Todos tinham corrido. Era uma anciedade.

O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da machina sobe ao pavimento do navio.

Estava radiante.

--Imaginem que Pernester...

--Sim, sim, interrompi, mas então?

--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.

--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.

O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse n'um tom suave:

--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._

VII

No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_, elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular. Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.

Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso, que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, _viajante por tedio_, dizia elle.

Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de _miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel.