O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 7

Chapter 7 3,728 words Public domain Markdown

A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos vivos aromas.

--Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só...

--Só? perguntei eu.

Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte luminoso.

--Só... disse ella, não!

--Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois...

--E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto vermelho.

Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no mar um tiro de peça.

--Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.

--Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.

--Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador.

Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de _Club-House_, ruido, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam.

Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço, na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.

Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.

Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a condessa.

O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas.

--Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo. Quem será?

--Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre, capitão?

--Um pouco. Falla o inglez sua prima?

--Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.

Separámo-nos.

--Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima--disse eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;--um romance onde se caçam tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglezas, e elephantes...

--Ah! como se chama?

--Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito _gentleman_.

--Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.

--Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!... murmurava elle, fazendo ranger a penna.

Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o _Ceylão_. Eram 7 horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á _cabine_, para dormir um pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.

A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas povoações hispanholas que assentam na bahia.

O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.

--Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz caricaturas.

A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.

--Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?

--Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.

--Demora-se em Malta? perguntou a condessa.

--Uma semana.

A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:

--Ah! vae deixar-me ver o seu album.

--Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares, apontamentos topographicos.

--Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma bayadera!

E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.

O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos, risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do _Club-House_.

O conde tinha-se approximado.

--Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão. Que desenho! Que verdade!

--Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em _Club-House_; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis que deve ser castigado.

--O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Ha de ser o nosso _cicerone_ em Malta. Mas que talento! Que verdade!

E fallando em portuguez para a condessa:

--E um bebedor de cerveja, hein?

N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço.

III

Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.

Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao pé do capitão. O commandante do _Ceilão_ era um homem magro, esguio, com uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.

Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o _Purser_, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de Londres. O _Purser_ era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O _Purser_ tinha uma fraqueza que o dominava--era o desejo de fallar bem brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas _misses_ alegres e loiras, um _clergiman_ com doze filhos, e duas velhas philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos patagonios.

Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:

--_Viva Dios!_ É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo, hombre, está mais gordo!

Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.

A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que Beaudelaire chamava _tenebrosos_. Vestia de seda preta e com mantilha.

--Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.

--Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta. Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se hein?

--Captain Rytmel--disse sorrindo friamente Carmen--esquece depressa, e bem!

No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a _sublime_. Eu admirado tambem, disse á condessa:

--Que formosa creatura!

--Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.

Olhei para a condessa, ri:

--Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar, aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes...

No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não comia, parecia nervosa.

--Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.

Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:

--Está incommodada a condessa?

--Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe da India. Eu, não posso deixar este _carril_...

Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen, concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.

Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um _bournous_, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada n'uma alta bengala de castão de marfim.

O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.

A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão Rytmel, n'um _pliant_ de vime.

Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no flanco dos galeões!

IV

D. Nicazio Puebla, que o _Purser_ me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.

--Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.

--Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle. Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!

--O capitão é um valente official.

--É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida.

--N'alguma caçada.

--Eu lhe conto.

Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:

--Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?

A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas ergueu-se e seguiu a hispanhola.

Eu approximei-me da condessa.

--Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula.

Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.

--Viu aquelle movimento de sua mulher?

--Vi.

--É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou pelos habitos d'aquella senhora...

--Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!

--Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda!

A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.

O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo _do boi_...

Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:

--Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?

--É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer que lhe conte?...

--Diga lá.

Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.

--Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor...

Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos seus albuns de impressões de viagem.

* * * * *

...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que chega á India é caçar o tigre.

D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia. Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá. A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.

Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido, meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormia sempre em cima de uma palmeira.

Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.

Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam, sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente; os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.

Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos proximo da clareira.

Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e agua...

Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu.

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

--Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!

--Está rindo, capitão...

--Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

--Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.

--Só hoje?

--Sempre, e bem sabe por quê.

De repente o meu cavallo estacou.

--O tigre! o tigre! gritaram os malaios.

Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.

Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.

--D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma!

D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz suffocada:

--Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver perigo...

Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso.

Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.

--Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro d'uma gaiola...

Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo. Disse-lh'o.

Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam d'alli...

Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.

Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.

Carmen apertava-me exaltada.

--Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.

Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar...

--Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!

Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o salto do tigre. Eu déra uma _cuchilla_ a Carmen, tinha na mão da redea um forte rewolver e na outra um punhal curvo...

De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se, sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.

Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.

Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despedaçados.

E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle, succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.

--Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.