# O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

## Part 6

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/o-mysterio-da-estrada-de-cintra-cartas-ao-diario-de-noticias-20574/index.md

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno d'elle?

As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a religião do caracter?

Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de acção?...

Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.

Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara, solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.

Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!

Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé.

Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome.

Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me permittido acrescentar uma derradeira palavra:

A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.

Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim, collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.

Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.

Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos commensaes, isso acho logico, e é possivel.

Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!...

E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade humana!

Que remedio?!

Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!

+Segunda carta de Z+

Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C.

Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro mysterioso e lugubre.

Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro voluntario, se n'uma sequestração forçada.

Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.

O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta invenção:

Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave affirmativa.

Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.

É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?

Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!

E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão de S. Carlos, não diga ao passar por elle: _lá vae fulano!_ E é de noite, ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comedia! Comedia!

E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar, n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer.

Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?

E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?

Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? Comedia! Comedia sempre!

Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas, tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.

E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua d'uma cidade, dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?

E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?

--O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!

--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.

Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lôrpa?

E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos: dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?

Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a paixão, como explica o roubo?

Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer _tableau_ em volta d'um cadaver?

Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F... que não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas d'um jornal honesto.

Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.

Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.--Z.

NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+

I

Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu. Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se não fizer isto, denuncio-me á policia.»

Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia das dores mais profundas d'um coração que estimo.

Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a _graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do sol.

Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho sonho de se affogar n'aquelles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.

De resto, simples e espirituosa.

Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho. Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancolicos.

--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella.

Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:

--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel.

Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_.

O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas gravatas.

Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes olhos arabes...

--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.

--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a Malta. Venha tambem, primo.

--Está claro que vem! gritou o conde.

E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um navio, e que me deixava seu herdeiro.

Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos faziam rir...

Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete da India.

Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude e no rosto.

--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...

E mais baixo:

-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?

Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:

--Sabe que está linda!

--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!

Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o capitão approximou-se:

--Conhecem aquella luz?

--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi.

--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.

Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para sempre d'uma existencia.

Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas infinitas da paixão?

Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.

--Detesto os inglezes, disse a condessa.

--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os inglezes?

E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:

--Detesta os inglezes, menino!

II

Sr. Redactor.--Em Gibraltar fomos para _Club House-Hotel_. Os quartos abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de Africa.

Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas convivencias hispanholas um espirito teimoso.

O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de _cottages_, de jardins, de pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes, nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.

A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha _verve_, e uma luz bailava-lhe nos olhos.

Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias. Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal! Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado, absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz. Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das _cornemuses_ que tocavam as arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces, ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.

