O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Part 5
--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz. Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua, tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale, estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo, e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.
--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui.
--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?
--Nenhum.
--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!
--Então que dizem por ahi de mim?
--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que tem partes com o demonio.
--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom.
--Isto assim?
--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira da porta... Basta!
--Não quer mais nada?
--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.
--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta...
--A fallar-lhe a verdade gosto!
--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!
--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem...
--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!
O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para se deitar.
O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso visinho.
III
A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ageitava para dormir.
--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu, dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de _medium_...
E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.
Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.
Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.
Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro. Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama.
No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.
O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da cama abaixo.
Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:
--Quem está ahi?
Respondi-lhe:
--Sou eu.
--Quem és tu?
--E tu quem és?
--Frederico Friedlann, cidadão prussiano.
--Ah! disse eu.
--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth, os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da Europa.
--Bem! observei.
Elle continuou impassivelmente:
--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?
--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade e o meu tedio. Não sou espiritista.
--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha ainda a ser uma religião.
--Puff! exclamei eu rindo.
--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na philosophia do futuro.
--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa...
--Tem-me ás suas ordens.
--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!
--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza d'ella.
--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que veiu ajudal-o a mudar a cama?
Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excentrico.
--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!
Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da sinceridade e da convicção mais profunda!
--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que lhe consta?
--Eu lhe digo...
--Sinceramente!
--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este mundo.
--Qual é então o seu juizo, vejamos?
--É evidentemente...
--Diga! diga!
--Presumo eu, pelo menos...
--Vamos! sem rodeios, francamente!
--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.
IV
As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de uma revelação que me obrigava a meditar.
O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me deparava por visinho.
Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra, elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra da senha.
--_Salut, mon frêre!_ exclamou elle.
--Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me déra.
Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha removido, e deitei-me vestido.
Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.
N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças, d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção.
Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?
Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!
Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.
Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios que se collavam nos d'elle!
Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.
Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos achamos hoje.
Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas palavras:
--Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?
--Sei que as trazia, dizia outra voz.
--É atroz então!
Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!
É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia.
As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais tenebrosa suspeita.
O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.
Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia, affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta casa com a probidade e com a honra.
Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.
Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde estou.--Adeus.--_F_
* * * * *
Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente publicadas n'esta folha:
F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprasava uma entrevista.
Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.
F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal.
Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.
O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua indignação e o seu odio.
Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.
Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.
Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero innocentes?
A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.
Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo:
* * * * *
«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»
Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.