O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Part 3
--Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um grande segredo occupava a vida d'este infeliz...
--É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.
--Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava...
Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões.
--Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.
E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.
--Leia, disse elle ao mascarado.
Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.
Ergui o papel, li:
_I declare that I have killed myself with opium._
(Declaro que me matei com opio).
Fiquei petrificado.
O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho:
--Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio!
Vinha a amanhecer.
Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até ámanhã.
VI
Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe.
A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo, cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.
O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a cabeça apoiada nas mãos.
O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.
Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros. Entrava uma luz lugubre, esverdeada.
--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o exame do quarto, movel por movel.
Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque.
Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicidio.
Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com aquelle aposento e que devessemos visitar.
--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.
Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto, esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto.
Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava presumpções ao crime.
Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava escripta a declaração do suicida.
--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta!
Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta, d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e preparada fóra.
--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro.
A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um _buvard_, um lapis.
Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem corôas.
Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_.
Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.
Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz, distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente efficaz e seguro.
--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida. N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta por inteiro.
Voltando-se então para M. C.:
--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada.
--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com surpreza.
--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?
M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.
--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.
Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo:
--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher.
--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda.
--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...
--Ou a qualquer outro fim.
--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
--Muitos homens o usam!
--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro...
O mascarado calava-se.
--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabello!
--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra.
--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?
E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente, examinou-o e guardou-o.
M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com voz humilde, quasi supplicante:
--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?
--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?
O mascarado calou-se succumbido.
--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair.
--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.
E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:
--Um momento! Eu volto já!
E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, fechando-a á chave pelo outro lado.
Fiquei só, passeando agitadamente.
A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem ao clarão do sol.
Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.
Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.
Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello louro, um cabello de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.
--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi, patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto, tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás dizer?
De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos labios,disse commigo:
--Ora! por um cabello! que loucura!
E não pude deixar de rir.
Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.
VII
Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da cama um cabello louro.
Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello perdido.
A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, _mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma ligação tenue, delicadamente organisada.
O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista.
Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus cabelos á abundante espessura natural.
Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.
Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?
Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio, verosimilhança de crime.
O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido... tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?
Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida.
O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e pela logica da verdade occulta.
Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.
--Vamos, disse elle.
Tomei calado o meu chapéu.
--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.
Dei a minha palavra.
--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.
E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.
Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho, levemente annelado.
A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.
--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente conducção para Lisboa.
E offereceu-me charutos.
Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.
--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.
E abriu por dentro a portinhola.
--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!
Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fóra um pequeno cartão:
--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.
Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente, olhei. O retrato estava tambem mascarado!
--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.
Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.
Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.
O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de sarcophago!
Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto áquelle por onde elle desapparecia.
--Onde fica o Cacem?
--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.
A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.
Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.
Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco. Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.
Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid._
Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.
Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser victima de uma emboscada.
São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.
Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado por um mysterio, guardado por um segredo!