O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 2

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Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas, aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão porque elle nos acompanhava, prosseguiu:

--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico. Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.

--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha discrição.

--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.

F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.

As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.

É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.

Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:

--Lá vou!

Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:

--Vão com raparigas para Lisboa.

O trem prosseguiu.

Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?

Não posso dizel-o com certeza.

A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:

--Chegámos.

O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma commoção:

--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso!

F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente vendado pelo que estava em frente de mim.

Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que era disse:

--Levo o trem?

A voz do que nos guiara respondeu:

--Leva.

Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:

--Vamos!

Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.

Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.

Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma especie de sobresalto pueril.

Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.

--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.

Descobri os olhos. Era noite.

Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.

Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.

O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.

IV

Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado de irritação morbida que me aniquilla.

Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:

--Que quer isto dizer, meus senhores?

Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:

--Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com algum narcotico?

Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação, approximei-me do cadaver, e examinei-o.

Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido.

Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar.

--Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.

Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a narcotisação.

Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_ sobre uma cadeira de estofo.

--Não sei, disse elle, talvez aquillo.

O que havia no copo era evidentemente opio.

--Este homem está morto, disse eu.

--Morto! repetiu um d'elles, tremendo.

Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrivel.

Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:

--Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil; como testemunha posso ser perigoso.

Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:

--Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto?

--De certo.

--E qual pensa que fosse a causa da morte?

--O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra.

Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.

--Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto?

Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F... junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio.

Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras, tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro.

--Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações...

--Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta.

Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.

--Ah! os senhores escarnecem! gritou F...

E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair, offegante, tremulo de desespero.

Eu tinha ficado sentado e impassivel.

--Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela colera, eu protesto pelo tedio.

E accendi um charuto.

--Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara, tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem!

E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se, descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam baixo. Eu no emtanto examinava a sala.

Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de _marechala_.

O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.

Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle homem parecia inglez.

Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.

F..., tinha-se approximado de mim.

--Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.

--Não. Conheceste?

--Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.

Um dos mascarados approximou-se, perguntando:

--Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_?

Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, entrara, dizendo para os outros:

--Prompto!...

Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.

--Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para os jornaes.

Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não respondemos.

Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma corôa.

N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F...

--Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe os olhos.

F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os olhos, e sairam.

Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.

Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente, elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu.

Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha viajado e tinha lido.

De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes.

Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na fechadura.

Nós, immoveis, não respiravamos.

Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel, com os braços estendidos.

Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.

* * * * *

P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:

Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração offendido...

Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas populares.

V

Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o morto.

O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a janella!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

--Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o coração!

--Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?

Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia machinalmente:

--Está perdido tudo! Está tudo perdido!

--Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu fazer aqui? Que é isto? como soube?...

A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da mascara.

--Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o como um vime.

--Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me... Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações...

--Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.

Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava positivamente envolvido no crime...

--Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.

O homem calou-se.

--Quem lhe fallou n'isto?

Calou-se.

--Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa?

Calou-se.

--Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?...

E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do expediente que ia tomar, accrescentou:

-- ... nós e o senhor comissário.

O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.

--Para que era isto?

--Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um caixote...

O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a livida face do cadaver.

--Conhece este homem?

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e attento.

Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:

--Porque o matou?

--Eu? gritou elle. Está doido!

Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.

--Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim.

--Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido.

Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem dicta:

--A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, n.º tantos...

Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde estava!

Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

--Se diz onde estamos, mato-o.

O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia. Esteve um momento calado e accrescentou:

--Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

--Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.

--Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores? Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça!

--Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia. Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

--Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.

--Qual?

--É que não tivesse deixado signaes o arsenico...

--Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.

Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.

--Sabe tudo, disse eu ao mascarado.

--Foi elle, confirmou o mascarado convencido.

Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:

--A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão, dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que vêr n'este negócio.

--De certo que não. Este homem é o assassino.

E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da mascara:

--E porque o matou?

--Matei-o... respondeu o homem.

--Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de prata, que eram as iniciais do seu nome.

--Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei!

--Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado.

A.M.C. objectou lentamente:

--O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico amigo que elle conhecia em Lisboa?

--Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. Falle,diga.

--Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha poucas semanas, vinha a esta casa...

--É verdade, atalhou o mascarado.

--Que se encontrava aqui com alguem...

--É verdade, disse o mascarado.

Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.