O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 16

Chapter 16 3,840 words Public domain Markdown

Quiz ir ao Aterro. A tarde caía. A agua tinha uma immobilidade luminosa. Do outro lado os montes estavam esbatidos n'um vapor azulado e suave. Sobre o mar havia nuvens inflammadas, d'uma côr fulva, como no fundo d'uma gloria. Algumas velas passavam rosadas, tocadas da luz.

Sentia-me vagamente melancolica. O rio, aquellas casas triviaes, todos aquelles aspectos que eu conhecia, que eram para mim até ahi quasi inexpressivos, appareciam-me pela ultima vez que os via, com uma feição sympathica. Tive uma saudade piegas daquelles logares: quiz sorrir, escarnecer; mas a verdade era que aquella paisagem, o pesado hotel Central, o terraço de Braganza-hotel, a grosseira e escura rua do Arsenal, todas essas cousas alheias a mim, me despertavam inesperadamente o desejo instinctivo de tranquillidade, de familia, de situações pacificas, fazendo destacar no fundo da minha vida, n'um relevo negro, a aventura que eu ia intentar; e apparecendo-me como um ajuntamento de velhos rostos amigos que se despedem, faziam-me pensar nas cousas irreparaveis, no exilio e na morte!

A minha carruagem subia a passo a rua do Alecrim. As luzes accendiam-se. O ceu estava ainda pallido.

Uma senhora passou, só, a pé, levando uma creança pela mão: era uma mulher nova e distincta; parecia feliz. O pequenino, loiro, gordo, ria, palrava n'aquella linguagem mysteriosa e doce, que é o que ficou ainda na voz humana do _a b c_ do ceu.

Como seria bom ser assim uma mulher pacifica, com um equilíbrio suave no coração, uma _toilette_ fresca, o amor das cousas justas, e um filho pela mão! Se eu fosse assim seria alegre, amavel, passearia, daria _bonbons_ ao meu pequerrucho, tral-o-hia vestido de côres leves, com uma flôr no cinto; conversaria com elle, e á volta, depois do cansaço do meu passeio, amaria a tranquillidade da minha vida. Elle adormeceria sobre o sofá. A janella estaria aberta. Grandes borboletas brancas voariam em volta do candeeiro; eu, ajoelhada, procuraria despil-o, sem o acordar, cantando, baixo, em segredo, uma melodia dormente de Mozart, e no entretanto a penna do pae rangeria, a um canto, sobre o papel. Ó perfumados paraizos da vida! como eu me affasto de vós!

Assim pensava, quando cheguei a casa. No meio do meu quarto estavam fechadas, affiveladas, sobrepostas as minhas malas. Ao pé uma grande pelle, apertada na sua correia. Tudo estava prompto, deviamos partir na manhã seguinte. As minhas idéas simples debandaram.

Senti um extremo desejo de liberdade, de mares abertos, de paizes extensos e distantes, que se atravessam ao galope da _posta_ ou na velocidade d'um _wagon_. Era noite. Não pedi luz. O luar entrava no quarto atravez das arvores do jardim. Sentei-me á janella.

A minha situação appareceu-me então com o prestigio de um bello romance. Mil imaginações e phantasias cantavam no meu cerebro. Sentia-me á entrada de uma vida de perigos, de extasis, de glorias. Via-me na tolda de um paquete entre os perigos de um naufragio: ou n'uma serra espessa, por um grande luar, n'uma companhia de contrabandistas que cantam á Virgem; ou no silencio de uma caravana escoltada de _beduinos_, acampando no monte das Oliveiras, defronte de Jerusalem. Percorreria a Italia; entraria nas cidades ao galope dos cavallos, ao accender o gaz, quando a multidão enche os _corsos_ entre fileiras de altivos palacios da Renascença. Via-me em Napoles, na bahia, por um luar calmo: dormindo sob as vinhas em Ischia; ou na frescura das grutas do Pausilippo, onde ainda choram as nayades... A porta abriu-se de repente, um criado entrou com uma carta. Não vi a letra do _enveloppe_, não olhei sequer, mas sentia-a! Veiu luz. Era verdade, era de Rytmel! Tive-a longo tempo na mão, incerta, trémula. Pul-a em cima da pedra d'uma _console_, fui olhar-me ao espelho, vi-me pallida. No emtanto a carta attrahia-me, parecia-me que luzia sobre o marmore branco. Tomei-a, pesei-a, senti-lhe o aroma, e de vagar, cançada, suspirando, com os braços vergados ao peso d'ella, fui-a lentamente abrindo.

VIII

Transcrevo textualmente essa carta terrivel:

«Querida:--Tenho aqui no meu quarto, diante de mim, as minhas malas fechadas e afiveladas: Tenho o meu passaporte... É verdade! não te esqueças de tirar o teu. Escrevi a minha mãe. Escrevi a um amigo querido, que vive na intimidade da minha vida. Por isso bem vês que te escrevo, na austera firmeza da tua resolução. Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um passaro, ou como uma luva: posso pousal-o sobre a tolda d'um paquete, pol-o n'uma mesa de jogo em cima d'uma carta, collocal-o na ponta d'uma espada, ou fechar-t'o na mão e dar-t'o. Mas tu pelas condições da tua vida tens um logar definido no mundo, limitado e circumscripto. Estás presa, por um annel de casamento, a uma ordem de cousas, a um certo numero de leis, e és na vida como um navio ancorado no mar. Por isso é justo que antes de te separares violentamente do teu centro legitimo, eu, que tenho a experiencia das desgraças, das viagens, e do espectaculo do mundo, te diga algumas palavras, que, se não me tornarem mais amado ao teu coração, tornar-me-hão mais estimado ao teu caracter. Fias-te de mais no amor, minha doce amiga! Abstrae n'este momento de mim, da minha honra e da minha fidelidade. Fallo do amor, lei ou mysterio ou symbolo, força natural ou invenção litteraria. Fias-te de mais no amor! Aquelle amparo superior, aquelle apoio solido e protector, que todo o espirito procura no mundo, e que uns acham na familia, outros na sciencia, outros na arte, tu parece quereres encontral-o sómente na paixão, e não sei se isso é justo, se isso é realisavel!

Creio que te fias de mais no amor! Elle não construe nada, não resolve nada, compromette tudo e não responde por cousa alguma. É um desequilibrio das faculdades; é o predominio momentaneo e ephemero da sensação; isto basta para que não possa repousar sobre elle nenhum destino humano. É uma limitação da liberdade, é uma diminuição do caracter; especialisa, circumscreve o individuo é uma tyrannia natural, é o inimigo astuto do criterio e do arbitrio. E queres que tenha esta base a tua situação na vida? E crês na estabilidade do amor, tu?... Sim, é possivel, emquanto elle viver do imprevisto, do romance e do obstaculo; emquanto necessitar do _coupé_ de _stores_ cerrados; mas logo que entre n'um estado regular, que se estabeleça definidamente para durar, que se organise, que se economise, extingue-se trivialmente; e quando quer conservar-se, tem a miseria de se assimilhar ás chammas pintadas d'um inferno de theatro. E então, desde o momento que o amor desapparecesse, que rasão de ser tinha a tua vida, e que justificação tinha que dar de si o teu incoherente destino? Ficavas sem uma situação definida: tudo te era vedado, ou pela força das leis sociaes, ou pela altivez da tua honra. Recuar para as cousas legitimas, arrepender-te, era impossivel: o arrependimento é um facto catholico, não é um facto social. Continuar e persistir em viver pelo amor era um equivoco hypocrita, e poderias um dia encontrar-te a viver na libertinagem.

Imaginas hoje que o amor é a unica tendencia, a unica preoccupação da tua vida... Não: é apenas idéa dominante na tua natureza. Ha outras exigencias, que hoje não sentes chamarem dentro de ti, porque teem sido plenamente satisfeitas no meio legitimo em que tens vivido; mas quando, mais tarde, estiveres retirada de tudo, fechada no amor como n'uma concha, sentirás então amargamente que te falta o _quer que seja_ que é a sociedade, a opinião, o centro d'amisades, o _rang_, as consolações incomparaveis que dá a estima dos que nos saudam. E o não encontrar então no mundo o teu logar, elegante, avelludado, agaloado, emplumado e coroado, dar-te-ha a sensação do abandono; e as consolações que então te quizer ministrar o amor pela sociedade que te falta, encontrarão aos teus olhos o mesmo tedio que encontrariam agora as consolações da sociedade pelo amor que te fugisse. Uma mulher que foge com o seu amante, só pode ter um logar no _Demi-Monde_; ou então um logar equivoco nas salas, quando é celebre por um talento ou por uma arte. Ora tu não quererás ir para a Italia frequentar, em Napoles, Madame de Salmé, nem quererás cantar n'um theatro, nem commetter a inconveniencia de escrever um livro. A viver modesta, tens de viver triste; a viver radiante, tens de viver humilhada. E pensas que pódes, por um anno sequer, viver na intimidade absoluta e no segredo?

O segredo, o refugio, um _ninho_ perfumado n'um quinto andar, são cousas extremamente doces, no meio da sociedade e das relações do mundo; a publicidade official da vida dá então um encanto extranho áqueles momentos de mysterio. Mas a perpetuidade do mysterio deve ser egual áquella legendaria tortura da beatitude eterna! Quando dois entes se encontram pelas fataes condições do seu procedimento, obrigados a viverem um do outro, um para o outro, um eternamente no segredo do outro, quando isto se não passa na ilha de Robinson, nem entre dois discipulos de Sedwinborg, nem entre dois desgraçados cheios de fome--mas n'uma cidade ruidosa e viva, entre duas pessoas positivas e educadas pelo segundo imperio, e que têem as complacencias do luxo, crê que deve ser amargo.

E depois, pensa! A nossa vida arrastar-se-ha tristemente, de paiz em paiz, sem um centro amado, sem uma familia, sem um fim. Não teremos, nem durante a existencia, nem no grave momento da morte, a serenidade de quem é justo. A nossa vida será como a das sombras romanticas de Paulo e Francesca de Rimini, levadas pelo vento contradictorio. Morreremos emfim como dois seres estereis, que nada crearam, e que não têem quem fique na terra com a herança do seu caracter; e quando todos pelos seus filhos ganham a unica justa immortalidade, nós sómente seremos mortaes, e para nós mais que para ninguem será terrivel a lembrança do fim! Perdôa que te escreva estas cousas. Mas fiz o meu dever. E agora posso livremente, insuspeitamente, dizer-te que me sinto feliz, e que o momento d'amanhã, quando virmos desapparecer a terra e nos acharmos sós, no infinito mar,--será para mim tão bello, que só por elle julgarei justificada a minha vida.»

Quando acabei de lêr esta carta, sentei-me machinalmente deante das malas, com os olhos fixos, como idiota. Abri uma gaveta, tirei não me recordo que pequeno objecto de renda, e tornei a fechar, com um movimento automatico, lugubre, e a ausencia absoluta da consciencia e da vida. Chamei Betty:

--Betty, que horas são?

--Onze, minha senhora.

--Dá-me agua, tenho sede. Dá-me agua com limão...

Quando ella sahiu fui encostar a cabeça á vidraça, a olhar o movimento ondeado e lento das ramagens escuras. A lua pareceu-me regelada. Betty entrou.

--Betty, disse-lhe eu n'uma voz sumida, sabes? Tenho medo de morrer doida...

Ella olhou-me, e viu no meu rosto uma tal expressão d'angustia, que me disse:

--Que tem, meu Deus, que tem? Chore, minha rica menina, chore...

--Não posso, não posso. Eu morro... Vem para o pé de mim, Betty!...

--Meu Deus, quer-se deitar? diga...

E erguendo os olhos e as mãos, n'uma imploração cheia de dôr, de desespero:

--Deus me leve para si! Ai! nada d'isto era se a mamã fosse viva, minha senhora!

Começou a chorar. Eu olhei-a com uma grande afflicção, senti os olhos humidos, os soluços suffocaram-me, e arremessando-me aos seus braços, chorei, chorei, chorei amargamente, chorei cruelmente, chorei pela saudade, chorei pela traição, chorei pelo meu passado legitimo, chorei pelo encanto dos meus peccados, chorei por me sentir chorar...

IX

Soceguei. Vencida, fiquei n'uma _chaise longue_, muda e como morta. Olhava machinalmente o tremer da luz.

--Betty, disse eu, deita-te. Eu estou bem. Vae...

Ella saiu, chorando. O quarto estava mal allumiado. Eu via, fóra, as ramagens do jardim, recortando-se n'um relevo negro sobre o pallido ceu, cheio da lua. Estive muito tempo assim, olhando, sem consciencia e sem vontade. Lentamente, creio, comecei pensando em cousas alheias aos interesses da minha dôr: lembrava-me a fórma d'um vestido que eu tinha desenhado para a Aline.

Por fim ergui-me, passeei muito tempo no quarto, o movimento chamou-me á consciencia e á verdade das minhas afflicções. Arranquei a folha d'uma carteira, e escrevi a lapis tumultuosamente: «Tem rasão, tem rasão. Espero-o ámanhã ás 10 horas da noite na casa... Até lá não lhe direi que o amo; só lá lhe direi o que soffro.»

Eu mesma saí ao corredor, e do alto da escadaria, silenciosa, allumiada por um grande globo fosco, chamei um criado, André, imbecil e indiscreto, e atirei-lhe o bilhete lacrado, dizendo-lhe:

--Leve esse bilhete já... Vá n'uma carruagem.

E indiquei-lhe a casa de meu primo. Rytmel estava hospedado lá.

Vim sentar-me á janella do meu quarto: vinha um aroma suave do jardim; o luar, as grandes sombras, tinham um repouso romantico e triste. Lentamente, a minha desgraça começou apparecendo-me inteira, nitida, em pormenores, n'uma grande synthese, como se fosse um mappa.

Eu era trahida! Aos vinte e tres annos, com todas as intelligencias da paixão, com todos os delicados prestigios do luxo, era trahida, era trahida! Senti então pela primeira vez a presença do ciume, esse personagem tão temido, tão cantado nas epopéas, tão arrastado pela rampa do theatro, tão conhecido da policia correccional, tão cruel, tão ridiculo, tão real! Vi-o! Conheci-o! Senti o seu contacto irritante e mordente como um corrosivo; a sua argumentação miuda, jesuitica, implacavel, sanguinaria: todo o seu processo d'acção, que torna de repente o coração mais puro tão immundo como a toca d'uma fera.

Senti o mais cruel dos ciumes todos; aquelle que se define, que diz um nome, que desenha um perfil, que nol-o mostra, o nosso inimigo, que nos enche as mãos d'armas, que nos obriga a avançar para elle. Eu sentia no meu ciume um ponto fixo--_ella_. Era _ella_, a _outra_! Lembrava-me confusamente: tinha cabellos louros, finos, espalhados, uma nuvem de ouro esfiado. Eu tinha-a visto em Paris vestida de roxo na revista de _Longchamps_. O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar n'elle o quer que fosse, que promettia um destino pacifico. Que secreto encanto se irradiaria da esbelta fraqueza do seu corpo? Era a simplicidade? Era a intelligencia? Era a sciencia das cousas do amor?... Como eu ardia por a conhecer! E não sabia nada d'ella senão que era irlandeza, e que se chamava Miss Shorn!

Ah sim, sabia outra cousa--que elle a amava!

Conhecel-a! conhecel-a! Mas como? Podia ser, pelas suas cartas! De certo! Ella devia pôr n'ellas toda a sua intima personalidade. Era loira, era ingleza, por isso raciocinadora: devia escrever pacificamente, sem sobresaltos, e sem inspirações da paixão; nas suas cartas provavelmente desfiava o seu coração. Eu conhecel-a-hia bem, se as lesse! Eu saberia o estado de espirito de Rytmel, a marcha da sua paixão, pelas cartas d'ella. Devia lel-as! Era necessario pedil-as, roubal-as, compral-as, eu sei! Mas era necessario lel-as!

Para pensar assim eu nenhuma _prova_ tinha de que elle recebia cartas d'ella, mas tinha a _certeza_ que ellas existiam e que o seu coração estava cheio d'ellas...

Quiz serenar, pacificar-me, dormir.

Deitei-me. O meu pobre cerebro estava n'uma vibração tempestuosa; era como n'uma tormenta em que veem á superficie da mesma vaga os destroços d'um naufragio e as flores da alga; no meu espirito revolto, surgiam no mesmo redemoinho, as cousas graves, e as recordações futeis, as minhas dôres e as minhas phantasias, os desastres do meu amor, e ditos de operas comicas! Sentia a chegada da febre. Chamei Betty.

--Betty! não posso dormir, não sei que tenho. Quero dormir por força. Quero ámanhã todas as minhas faculdades em equilibrio. Se não durmo estou perdida, endoideço... Dá-me alguma cousa.

--Mas o quê, minha senhora?

--Olha, dá-me aquella bebida que davam á mamã nas insomnias, a que tu tomas quando tens dôres... Tens?

--Quer opio?

--Não sei! agua opiada, vinho opiado, o quer que seja. Foi o doutor que me disse...

--Minha querida menina, eu tenho opio. Uma gota, n'um copo de agua. Eu sei? Talvez lhe faça mal!

--Dá-m'a, o doutor disse-m'o hontem. Dá, depressa.

Bebi. Era agua opiada, creio eu. Não sei. Parece-me que adormeci logo, e lembro-me que durante o somno sentia-me encaminhar incessantemente, n'um movimento perpetuo que affectava todas as fórmas; ora lento e pacifico, como um passeio sob uma alameda; ora rapido, volteado, e era a _walsa_ de _Gounod_ que eu dançava; ora solemne e melancholico, e era um enterro que eu acompanhava; ora cortante, escorregadio, veloz, e era em Paris, e era no inverno, e eu patinava sobre a neve.

Acordei de manhã, serena, e decidida. Mandei pôr um _coupé_. Saí. Fiz parar á porta de meu primo. Eram duas horas da tarde. Eu sabia, desde essa manhã, que Rytmel estava com elle em Bellas. Subi. Appareceu um criado portuguez, Luis, que eu conhecia, um imbecil, atrevido para o ganho, discreto pelo medo.

--Mr. Rytmel!

--Saiu, senhora condessa.

--Jacques?

--Foi com elle, senhora condessa.

Jacques era um criado antigo de Rytmel.

--Luis, leva-me ao quarto de mr. Rytmel.

Ao abrir a porta do quarto estremeci. Sentia-me humilhada. Fui rapidamente a uma secretária, revolvi as gavetas, as pequenas papeleiras. Nenhumas cartas, apenas cartas indifferentes. Irritada, abri as commodas, espalhei as roupas, procurei nos bahus, nas malas, nos bolsos, ergui o travesseiro. Tremia, arquejava. Era uma busca inquisitorial, frenetica, desesperada, infame!

--Luis, disse eu baixo, Luis, tens vinte libras. Tens cincoenta.

--Mas, minha senhora...

--Este senhor onde tem as suas cartas? Tens cem libras. Dou-te tudo, estupido... Onde tem elle as cartas, elle?

--Oh minha senhora! disse o creado, com uma voz lamentavel, eu não sei.

--Não tens visto? Não tem uma secretária, uma papeleira, uma carteira?...

--Tem. Tem uma carteira de marroquim. Tral-a comsigo. Anda cheia de cartas...Levou-a decerto. Nunca a deixa.

Sahi, desci a escada, correndo, fugindo d'aquelle desastre, d'aquella vergonha, d'aquellas confidencias. Atirei-me para o fundo da carruagem.

--A casa! gritei.

Tinha fechado os _stores_; soluçava, sem soluçar[2].

--Betty! Betty! clamei logo no corredor.

Ella appareceu, correndo.

--Betty, disse eu, vivamente, fechando a porta do quarto. Dize-me: aquella agua com opio não faz mal?

--Porque? sente-se doente?

--Não. Estou bem. Não faz mal?

--Nenhum.

--Juras?

--Juro. Mas...

--Jura sobre estes santos Evangelhos.

--Oh, senhora! Mas porque? Juro. Mas porque?

--Tens opio? Dá-m'o.

--Quer dormir?

--Não.

Ella então olhou-me, fez-se extremamente pallida:

--Mas, senhora condessa, que quer isto dizer?

--Dá-m'o. Dá-m'o, Betty. Pensas que me quero matar?

Ella calou-se.

--Oh, doida! disse eu, rindo. Se me quizesse matar não t'o pedia. Mas sou feliz... Passaram-se outras cousas, vês tu? Não t'as digo, mas sou feliz. Sabes o que é? É que me vou logo encontrar com elle.

E com a voz mais baixa, como envergonhada:

--É ás dez horas, e vês tu? Queria dormir para não esperar.

--Oh, minha senhora, não lhe vá fazer mal! De resto, eu lh'o dou. O frasco d'opio está aqui n'esta gaveta do lavatorio. Não lhe faça isto mal, meu Deus!

--Não, não, minha Betty! Ah! está na gaveta? Bem. São duas gotas, sim? Não me faz mal. Estou tão contente! Olha, até nem quero dormir. Fica aqui a conversar commigo. São cinco horas. Para as dez pouco falta. Não custa esperar. Está então n'aquella gaveta o frasco... Bom. Sabes, Betty? sou feliz. Não quero dormir. Conta-me uma historia.

A pobre creatura, vendo-me alegre, sorria. Eu, entretanto, tinha os olhos fitos na gaveta do lavatorio. Betty fallava, fallava! Eu ouvia as suas palavras sem comprehender, como se ouve um murmurio d'agua.

X

A tarde descia no emtanto, e eu sentia uma inquietação, uma angustia crescente.

Meu primo, não sei se poderei contar-lhe miudamente todos os transes d'aquella noite. Não o exigirá de certo. Nada seria mais terrivel do que ter de redigir e colorir o meu crime. Perdôe-me a confusão afflicta das minhas palavras e os arabescos tremulos da minha lettra.

Eram dez horas da noite: fui á casa n.^o... Rytmel estava lá. Achei-o pallido, e instinctivamente estremeci. Conversámos. Enquanto elle fallava, eu olhava-o ávidamente, examinava a sua casaca, espreitava o volume que devia fazer a carteira onde estavam as cartas. E revolvia com a mão humida o bolso do meu vestido: tinha n'elle o frasco d'opio. Era um frasco de crystal verde, facetado, com tampa de metal fixa. As palavras de Rytmel n'essa noite eram muito doces e muito amantes. Procuravam explicar-me a sua carta, e palpitavam ainda de paixão... Vinham realmente da verdade do seu coração? Era uma rhetorica artificial á flor dos labios, enganadora, como um panno de theatro? Não o sabia: só as cartas d'ella m'o poderiam revelar, e elle tinha-as ali no bolso! Eu via o volume que fazia a carteira no peito da casaca! Estava ali a sentença da minha vida, a minha infelicidade insondavel, ou a immensa pacificação do meu futuro! Podia porventura hesitar?--Elle fallava no emtanto. Eu tremia toda. Olhava fixamente para um copo que estava sobre a mesa ao pé d'uma garrafa de crystal da Bohemia. O reposteiro da alcova achava-se corrido; dentro estava escuro.

Betty tinha ido commigo, e ficára n'um quarto distante, que dava para uns terrenos vagos...

--E se houvesse um desastre! pensei eu de repente. Não ha pessoas que succumbiram completamente, cujo adormecimento foi acabar de arrefecer no tumulo?

Mas eu via sempre a saliencia da carteira, que me tentava como uma cousa resplandecente e viva. Podia approximar-me d'elle de repente, enfraquecel-o ao calor das minhas palavras, ir levemente, astuciosamente, arrebatar-lhe a carteira, saltar, correr, atirar-me para o fundo do meu _coupé_, e fugir. Mas se elle resistisse? Se perdesse a consciencia da sua dignidade e da humilde debilidade do meu ser? Se me sujeitasse violentamente, se me arrancasse outra vez as cartas?

Não podia ser. Era necessario que dormisse tranquillamente! Se as cartas fossem innocentes, simples, inexpressivas como eu ajoelharia depois, ao pé do seu corpo adormecido, como esperaria com uma ancia feliz que elle acordasse! que aurora sublime acharia elle nos meus olhos quando os seus se abrissem! Mas se houvesse nas cartas a culpa, a traição, o abandono?!

Levantei-me. Rytmel tinha ao pé de si um copo com agua. Bebia aos pequenos golos quando fumava. Eu deixava-o fumar. Mas eu não sabia como havia de achar um momento meu, bastante para deitar duas gotas de opio no copo.

Tive um expediente trivial, estupido.

--Rytmel, disse eu, como n'um theatro, como nas comedias de Scribe, com uma voz imbecilmente risonha,--vá dizer a Betty, que póde ir, se quizer. A pobre creatura dormiu pouco, está doente.

Elle saiu; ergui-me. Mas ao approximar-me da mesa, defronte do copo, fiquei hirta, suspensa. Estive assim um tempo infinito, segundos, com a mão convulsa apertando o frasco no bolso. Mas era necessario, eu tinha-o ouvido fallar, voltava, sentia-lhe os passos, ia entrar... Tirei o frasco, e louca, precipitada, mordendo os beiços para não gritar, esvasiei-o no copo.

Elle entrou. Eu deixei-me abater sobre uma cadeira, trémula em suor frio, e, não sei por quê, sentindo uma infinita ternura, disse-lhe sorrindo, e quasi chorando:

--Ah, como eu sou sua amiga! Sente-se ao pé de mim.

Elle sorriu. E--meu Deus!--approximou-se, creio que sorriu, e tomou o copo! E com o copo na mão:

--E sabe, disse elle, que ninguem o crê mais do que eu!... Se não fosse o teu amor como poderia eu viver?

E conservava o copo erguido. Eu estava como fascinada. Via o reflexo da agua, parecia-me vagamente esverdeada. Via as scintilações do crystal facetado.

Finalmente bebeu!