O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Part 15
Não! é necessario demolir pelo ridiculo, pela caricatura, pelo chicote e pela policia correccional, esse typo indigno que se chama o _conquistador_. O _conquistador_ não tem attracção, nem belleza, nem elevação, nem grandeza como typo,--e como homem não tem educação, nem honestidade, nem maneiras, nem espirito, nem _toilette_, nem habilidade, nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem orthographia...
Perdôe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionavel, vou como se costuma dizer--_atraz da phrase_. Esqueço ás vezes as minhas dôres modernas, para me lembrar das minhas velhas indignações.
E pensa que, por condemnar estes amores triviais, eu me absolvo a mim? Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excellente, cuja superioridade d'espirito o meu primo conhecia e amava, d'uma distincção tão perfeita e tão completa; posto que a nossa affeição tivesse vivido n'um meio tão elevado, tão nobre, tão altivo,--apezar de tudo, eu tenho-me por tão condemnavel como aquellas de quem fallei,--e julgando-me sem justiça e fóra da graça, faço penitencia diante do mundo.
IV
E quanto, quanto soffri então, na modestia da minha vida, no apartamento do meu segredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu filho pela mão!
Dentro do meu _coupé_, puxado a largo trote á saida do theatro, envolvida n'um cachemire, com uma pelle de martha nos pés, e um aroma doce na seda das almofadas, quantas vezes invejei as pequenas burguezas que saíam das torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agazalho, pisando a lama!
No dia em que recebia cartas d'elle, saía de Lisboa, fugia, ia para o campo! Levava-as, amarrotadas e beijadas, ia para a quinta de..., penetrava nas sombras espessas, ali ficava, longo tempo, envolta no calor tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, e pelo murmuroso correr da agua nas bacias de pedra!
Oh doce vida das arvores e das plantas! passividade da relva, irresponsabilidade da agua, pacifico somno dos musgos, suave pousar da sombra! quantas vezes me consolastes, e me ensinastes a soffrer calada! quantas vezes invejei a immobilidade do vosso ser!
Era ali, só, relendo essas cartas crueis, que eu sentia o amor d'aquelle homem fugir-me como a agua de um regato que se quer tomar entre os dedos.
Que me restaria então?
Voltar outra vez á serenidade legitima da vida? Não podia, ai de mim! estava para sempre expulsa do paraizo pacifico da familia, da casta sombra do dever. Lançar-me nas aventuras e na revolta? Meu Deus! isso repugnava tanto ao meu caracter como o contacto d'um animal viscoso á pelle do meu peito.
Ficava pois sem situação na vida. Não tinha n'ella um logar definido. Entrava n'essa legião dolorosa e tristemente miseravel--_das mulheres abandonadas_.
A minha unica honestidade agora devia ser conservar-me captiva d'aquelle sentimento. A minha unica absolvição estava na verdade da minha paixão. Quanto mais me separasse do mundo e me désse ao meu amor; mais me approximava da dignidade. Nas situações definidas e corajosas ha sempre um lado honesto; o que repugna ao instincto casto são as conciliações hypocritas. A posição que me restava, era ser de Rytmel, só d'elle e para sempre: e eu sentia que elle se ia lentamente affastando de mim como eu me affastava de meu marido.
Era a minha entrada na expiação.
N'estes amores, o castigo não vem só do mundo: elles mesmo conteem os elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma paixão. A punição da falta contra a honra vem mais tarde pelos juizos dos homens.
Eu estava então diante da maior miseria moral em que se póde encontrar uma mulher n'estas condições lamentaveis.
Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar.
Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquella existencia de homem, da linha natural, simples, humana, que leva ao casamento, á familia, ao dever?
Devia eu impedir que elle casasse? Mas não era isto impedir, abafar a legitima expansão da sua vida? Não era proscrevel-o das fecundas e serenas alegrias da familia, para o ter preso nos asperos, nos estereis sobresaltos de uma paixão romantica?
Tinha eu o direito de sequestrar aquelle homem para uso exclusivo do meu coração, encarceral-o dentro d'uma ligação illegitima e secreta, onde elle se esterilisaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se enferrujariam como armas inuteis, e toda a sua acção social se limitaria a seguir o _frou-frou_ dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um aspecto de egoismo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade: a virtude do sacrificio?
Poderia eu prival-o de ter um dia os filhos, que fossem a continuação do seu ser e a sua immortalidade? Podia eu prival-o em nome do meu ideal de ter na velhice aquella doce e branca companheira, sob cujo olhar pacifico, o homem justo espera, socegado, o nobre momento da morte?
E era só isto?... Póde um espirito sincero acreditar na duração d'estes amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martyrios, que não têem o dever por base, e têem a traição por origem? E por dois ou tres annos mais que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino da _outra, d'ella_, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida sobre o coração d'elle, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a presença da graça e a consciencia viva? Não: isto não podia ser.
Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por elle tudo, desde o pudor intimo até á honra social, fosse agora arremessada como uma luva velha?
Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada agora porque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por elle, do paraizo domestico? Por elle não renunciara as alegrias pacificas da vida, e a sublime esperança d'uma morte digna? Como eu tinha sacrificado por elle a honra d'um homem, não podia elle sacrificar por mim as esperanças romanescas d'uma creança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida, como n'um arminho, nas apparencias do amor, ter-me conduzido com os olhos vendados, attrahida, suspensa do rythmo dos seus passos, a um logar perigoso, a uma situação intoleravel, e chegando ahi dizer-me: «Adeus agora! eu vou para a felicidade. Tu fica; mas cuidado, que para traz não pódes voltar; e se deres um passo para diante, vaes abysmar-te na infamia!».
Não, isto não deve ser: o amor não é uma creação litteraria, é um facto da natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor não os abdico.
Pois quê! Por causa da _outra_! Hei de dar tamanha consideração ás lagrimas que choram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas leguas de distancia e não hei de apiedar-me das minhas lagrimas, que escorrem aqui na minha face, e que eu aparo na tremura das minhas mãos!
«És casada» dizem-me. O que! Porque perdi mais, devo ser attendida menos! Eu, que vivo quasi fóra do mundo, sem estar ligada a nenhuma d'estas cousas superiores que amparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve fio, por este amor unico, é por isso que devo ir com as minhas mãos quebrar esse fio, quebrar esse amor!
Ha algum direito humano que exija isto de mim? Ha alguma piedade que o veja friamente? Ha alguma consciencia que o justifique? Se ha, essa consciencia poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar!
Mas, meu primo, tudo isto é aqui, n'este papel em que lhe escrevo. Porque na realidade eu não podia luctar com _ella_! _Ella_ era a _miss_, a que havia de ser esposa e mãe,--vencia tudo! Elevava-se sobre as velhas affeições, sobre os velhos erros, como a imagem da virgem sobre o globo feito de barro e de lama, onde se enrosca a serpente.
Nem tentei luctar!
E foi por esse tempo que recebi uma carta em que elle me dizia: _Parto para Portugal._
Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas agonias? Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se captivo ao meu amor? Vinha. Nem elle mesmo sabia mais nada!
V
Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa.
O conde estava então em Bruxellas. Era noite e na minha sala de musica achavam-se reunidas algumas pessoas: a marqueza de... velha legitimista, que fôra a graça da córte toureira de D. Miguel; o visconde de... moço insignificante e vagamente loiro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que morrera, fôra a minha intima, a minha confidente de collegio.
Viera tambem a viscondessa de... pequenita creatura petulante e mediocre, que tinha a graça de ter vinte annos, junta com a desgraça de os não saber ter e cuja especialidade era o querer parecer profundamente perversa, quando era apenas perfeitamente incaracteristica. Mas ao pé de mim, sentado n'um sophá com um abandono asiatico, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido--Carlos Fradique Mendes. Passava por ser apenas um excentrico, mas era realmente um grande espirito. Eu estimava-o, pelo seu caracter impeccavel, e pela feição violenta, quasi cruel, do seu talento. Fôra amigo de Carlos Beaudelaire e tinha como elle o olhar frio, felino, magnetico, inquisitorial. Como Beaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma frescura e de uma graça singular, era como a do poeta seu amigo, quasi uma obra d'arte, ao mesmo tempo exotica e correcta. Havia em todo o seu exterior o que quer que fosse da feição romantica que tem o _Satan_ de Ary Sheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um _gentleman_. Tocava admiravelmente violoncello, era um terrivel jogador d'armas, tinha viajado no Oriente, estivera em Meca, e contava que fôra corsario grego. O seu espirito tinha um imprevisto profundo e que fazia scismar: fôra elle que dissera da pallida duquesa de Morny: _elle a la bêtise melancolique d'un ange._ O imperador citava muitas vezes este dito, como sendo conjunctamente a critica profunda de uma physionomia e de um caracter.
Carlos Fradique tinha por mim uma amisade elevada e sincera. Chamava-me _seu querido irmão_. Conhecia-me desde pequena, andara commigo ao colo. Em Paris tornou-se celebre; era o que se poderia chamar um _philosopho do boulevard_. Tinha sido _l'ami de coeur_ de Rigolboche, e quando ella rompeu por se ter apaixonado por _Capoul_, Carlos Fradique deixou-lhe no album uns versos quasi sublimes, de um desdem cruel, de um comico lugubre, uma especie de _Dies irae_ do dandysmo... Promettia á Rigolboche que quando ella morresse elle velaria para que ainda além do tumulo ella vivesse no _chic_, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrophes que elle traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e escola...
E eu qu'inda te amo, ó pallida canalha, Que sou gentil e bom, Far-te-hei enterrar n'uma mortalha Talhada á _Benoiton_! Irei á noite com Marie Larife, Venus do macadam, Fazer sentir ao pó do teu esquife Os gostos do cancan... E no tempo das _courses_, p'lo verão --Assim t'o juro eu-- Irei dar parte á tua podridão Se o _Gladiador_ venceu...
Eram dez horas. Carlos Fradique, com uma voz impassivel, quasi languida, contava as situações monstruosas de uma paixão mystica que tivera por uma negra antropophaga. A sua veia, n'aquelle dia, era toda grotesca.
--A pobre creatura, dizia elle, untava os cabellos com um oleo ascoroso. Eu seguia-a pelo cheiro. Um dia, exaltado d'amor, approximei-me d'ella, arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nú. Queria fazer-lhe aquelle mimo! Ella cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne, mastigou, lambeu os beiços e pediu mais. Eu tremia de amor, fascinado, feliz em soffrer por ella. Suffoquei a dôr, e estendi-lhe outra vez o braço...
--Oh! sr. Fradique! gritaram todos, escandalisados com a invenção monstruosa.
--Comeu mais, continuou elle gravemente, gostou e pediu outra vez.
Fallava com um sorriso fino, quasi beatifico. Nós iamos revoltar-nos contra a cruel excentricidade d'aquella historia.
N'este momento vi á porta da sala, trémula, com um grande espanto nos olhos, chamando-me baixo, a minha criada Betty. Fui: ella tomou-me pela mão, foi-me levando, e no corredor, olhando com receio, abrindo n'um grande pasmo os braços, disse-me ao ouvido:
--É elle!
Encostei-me desfallecidamente á parede, sentindo parar o coração.
Betty, com passos discretos foi abrir a porta do meu _toillette_. Entrei. De pé junto d'uma mesa, extremamente pallido, estava elle. Apertei as mãos sobre o peito, fiquei immovel, suspensa. Elle caminhou para mim com os braços abertos, para me envolver; eu deixei-me cahir aos seus pés, e calada beijei-lhe os dedos. Elle tinha ajoelhado commigo, e com as mãos enlaçadas, os olhos confundidos, choravamos ambos. Eu só dizia n'um murmurio de lagrimas:
--Ha tanto tempo!...
--Minha senhora, minha querida menina, dizia Betty da porta, e aquella gente, santo Deus, que ha de dizer?
Eu não a escutava. Foi elle que disse sorrindo:
--Tem razão, Betty, tem razão! É necessario voltar á sala.
E deu-me o braço. Entrámos: elle grave, eu meio desfallecida, abstracta, com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso vago nas feições.
Disse o nome de captain Rytmel, e a sua antiga amisade com o conde. Vi a marqueza sorrir levemente.
E voltando-me para Rytmel:
--O sr. Carlos Fradique, disse eu, antigo pirata.
Os dois homens apertaram a mão.
--A senhora condessa lisongeia-me extremamente. Eu fui apenas corsario, disse Carlos.
Sentei-me ao piano acordando, a fugir, o teclado. Assim via bem Rytmel. A luz envolvia-o. Estava mais pallido, o seu rosto apresentava linhas mais graves. A testa tinha perdido a sua pureza: havia uma ruga estreita e funda que a dominava.
Fradique continuava fallando. Agora fazia a critica das mulheres do Norte.
--A irlandeza, dizia elle, tem mais que nenhuma mulher, a graça... Sobre tudo a que vive junto dos lagos! A melhor religião, a melhor moral, a melhor sciencia para um espirito feminino--é um lago. Aquella agua immovel, azul, pallida, fria, pacifica, dá um extremo repouso á alma, uma necessidade de cousas justas, um habito de recolhimento e de pensamento, um amor da modestia e das cousas intimas, o segredo de ser infinito, sendo monotono, e a sciencia de perdoar... Exijo na mulher com quem casar, que tenha as unhas rosadas e polidas, e um anno de convivencia com um lago!
Eu vi Rytmel córar de leve e torcer nervosamente o bigode.
Pelo lucido instincto da paixão, comprehendi que entre aquella glorificação dos lagos, e os occultos pensamentos de Rytmel, havia uma affinidade. Lembrou-me a revista de Longchamps, os louros cabellos irlandezes de miss Shorn, e voltando-me para Carlos Fradique:
--Meu caro amigo, um pouco do seu violoncello, sim?
A sala abria sobre os jardins. A placida respiração do vento fazia arfar as cortinas. Carlos Fradique começou a tocar uma ballada das margens do mar do norte, de um encanto singularmente triste. Sentia-se o chorar das aguas, o feerico correr das ondas, o compassado bater dos remos de um pirata norvegio, a fria lua. Eu tinha ido com Rytmel para junto da varanda, e emquanto a pequena melodia soava nas cordas do violoncello, lembravam-me as antigas cousas do meu amor, o _Ceylão_, as noites silenciosas em que elle me jurava a verdade da sua paixão e a voz do mar parecia uma affirmação infinita; lembravam-me os terraços de Malta batidos da lua, as moitas de rosas de _Clarence-Hotel_, os prados suaves de Ville d'Avray; via-o ferido, pallido sobre as suas almofadas; via-o a bordo do _Romantic_, commandando as manobras da fuga, chorando os desastres do amor... E estas memorias emballavam-se no meu cerebro, confundidas com as melodias do violoncello.
VI
Ao outro dia eu devia encontrar-me com elle n'essa fatal casa n.^o... Fui, como sempre, toda vestida de preto, envolta n'um grande veu. Estava extremamente pallida, palpitava-me o coração de susto. Era aquelle um momento de transe. Eu decidira ter com Rytmel uma explicação clara, definitiva, sem equivocos... Uma palavra que elle dissesse, sêcca ou indifferente, um gesto impaciente, e eu considerar-me-hia como abandonada, exilada da vida; retirava-me para um _chalet_ da Suissa, ou para Jerusalem, ou para a melancolia d'um claustro no sul da França. Tinha determinado assim a solução do meu destino.
Quando cheguei á casa n.^o... elle não estava ainda. Fiquei alli muito tempo, immovel n'uma cadeira. Os ruidos da rua chegavam-me como no fundo d'um sonho. A sala tinha uma luz esbatida, atravez dos vidros foscos como os globos dos candieiros. Eu sentia aquella impressão indefinida, que nos vem quando estamos durante muito tempo n'um logar socegado e triste, olhando o silencioso caír da chuva.
De repente a porta gemeu docemente, elle entrou.
Vinha do campo. Tinha colhido para mim um pequenino ramo de flôres miudas das sebes. Veio apoiar-se nas costas da minha cadeira, e deixou-m'as cahir no regaço...
Depois, fallando-me baixo, junto da face:
--Andei todo o dia a pensar em si, _á travers champs_.
Não respondi, e com os olhos errantes nas côres do tapete, desfolhei cruelmente as pequeninas flôres dos prados. Tinha um contentamento amargo em torturar aquelles delicados seres, que vinham d'elle, e que me parecia terem d'elle aprendido a mentir.
--Pensei constantemente em si, e o passeio foi encantador, repetiu com uma voz docemente insistente.
Eu ergui os olhos para elle.
--Responda-me: sabe mentir?
--Mas, meu Deus, disse elle, affastando-se, parece que me quer hoje mal, minha querida filha!
Não respondi; mas o meu regaço estava coberto de flôres mutiladas.
Elle então ajoelhou ao meu lado, e tomando-me as mãos, espreitando os meus olhos impassiveis, ficou esperando, n'uma contemplação amante e paciente, que eu quebrasse aquella imobilidade. Eu sentia todo o meu ser pender para elle, n'uma attracção insensivel; mas dominava-me. Até que por fim elle ergueu-se lentamente, arremessou o corpo para um sofá, e ali ficou, como refugiado, folheando um volume de Musset, que estava sobre a mesa...
Levantei-me, tirei-lhe arrebatadamente o livro das mãos:
--Sabe o que é? Não o comprehendo, e é necessario que me diga, mas francamente, claramente, syllaba por syllaba, o que tem! Não me ama, é claro. Escusa de protestar. Vi-o logo pelo tom das primeiras cartas que me escreveu de Londres. E agora vejo-o pelo seu olhar, as suas menores palavras, o seu silencio, até. Ha uma cousa qualquer, não sei qual, mas ha. A verdade é que me abandona, que me não ama. É necessario que se explique. Isto não póde ser assim. Soffro. Se soubesse! chorei toda a noite...
E recomecei a chorar deante d'elle, com soluços que me quebravam. Elle tinha-me tomado as mãos e dizia-me baixo as cousas mais tocantes, em que havia as ternuras do amante e as consolações do amigo. Affastei-o de mim, e comprimindo o pranto:
--Não, não, é necessario que me diga claramente tudo. Eu não sei o que te quero perguntar ou não me atrevo talvez... Mas tu sabes o que me deves responder... Dize-me a verdade...
Elle, cruzando os braços, respondeu-me, com uma extrema placidez:
--Mas, minha querida amiga, a verdade é que as illusões do seu espirito são a nossa desgraça. Não é culpa sua, sei: é uma fatalidade do caracter feminino. É-lhes insupportavel a serenidade. Na vida pacifica procuram o romance, no romance procuram a dôr. É necessario que esses pequeninos e graciosos craneos tenham sempre a honra de cobrir uma tempestade. Que quer então que lhe diga? Não vim a Portugal espontaneamente? Não tem encontrado sempre ao seu lado o meu amor, fiel como um cão?--Que mais quer? Acha-me reservado, diz. E se eu tivesse as violencias d'Othelo, achava-me de certo ridiculo! De resto, sabe-o bem, amo-a! Digo-lh'o aqui, sentado n'um sofá, de sobrecasaca, em uma casa que tem numero para a rua, e vou d'aqui a pouco; n'um _coupé_, jantar, jogar talvez o xadrez, vestir--quem sabe?--uma _robe de chambre!_ É lamentavel tudo isto, bem sei. E é por isto que não tem confiança em mim? E diga-me francamente: se eu estivesse aqui nos paroxismos d'Antony, ou tivesse uma _toilette_ veneziana, ou se isto fosse uma abbadia feudal, ou se eu partisse d'aqui para conquistar Jerusalem, diga-me--tinha mais confiança?
--Tudo isso não quer dizer nada.
--Oh minha querida amiga...
--A sua querida amiga, interrompi, nada mais pede que um coração franco e recto. São tudo pois imaginações minhas? Não ha nada que nos separe? Pois bem, vou dizer-lhe uma cousa e juro-lhe que é irremissivel, juro que o digo em toda a frieza do meu juizo, sem exaltação e sem paixão, com o discernimento mais livre, o calculo mais positivo...
--Mas, meu Deus! Diga...
--E esta resolução, acceita-a?
--Uma resolução... E o que envolve ella?
--Envolve a unica cousa possivel, a unica que me fará crer em si, com a mesma fé com que creio em mim. Acceita-a?
--Mas como não hei de acceitar?...
--Pois bem, comecei eu.
E tomando-lhe as mãos, disse-lhe junto da face n'uma voz ardente como um beijo:
--Fujamos ámanhã.
Rytmel empallideceu levemente e retirando de vagar as suas mãos d'entre a pressão das minhas:
--E sabe que é uma cousa irreparavel?
--Sei.
Elle sentara-se, com os olhos sobre o tapete, e eu no emtanto, de pé junto d'elle, com a minha mão pousada sobre o seu hombro, dizia-lhe como no murmurio de um sonho:
--Pensava n'isto ha um mez. Vamos para Napoles. Vamos para onde quizer. Adoro-te... É como uma pessoa que se deixa adormecer. Adoro-te, e quero viver comtigo...
Pousei-lhe a mão sobre a testa, ergui-lhe a cabeça, para ver a resposta dos seus olhos; estavam cerrados de lagrimas.
--Meu Deus! Rytmel, tu choras...
--Não, não, minha querida! estava pensando em minha mãe, que não torno talvez mais a ver... Acabou-se... Amo-te, amo-te... e... Avante!
E tomou-me nos seus braços, ardentemente, como sellando um pacto eterno.
VII
Fui logo para casa, chamei precipitadamente Betty.
--Betty, disse eu fechando a porta do quarto, Betty, depressa, quero dizer-te uma coisa. Não me digas que não...
--Santo Deus! Socegue, descance, minha querida menina! Jesus, como vem pallida!
--Betty, é uma cousa irreparavel... devia ser. Foi pensada a sangue frio. Vês como estou tranquilla, sem exaltação, sem nervos. É uma resolução digna. Betty, não me digas que não!...
--Mas, minha rica senhora...
--Não se podia voltar atraz. Demais, sou feliz assim, tão feliz, tão feliz!
--Bem feliz, ao menos?
--Doidamente. E se não fosse assim, morria...
--Mas então...
--Fugimos ámanhã.
Ella estremeceu toda, deitou-me um grande olhar em que appareciam lagrimas, e suffocada, com as mãos juntas:
--E eu?
Atirei-me aos seus braços:
--Pois havias de ficar, Betty? Tu vens comnosco, Betty.
E correndo pelo quarto, abria os guarda-vestidos, tirando roupas, batendo as palmas, e gritando:
--Arranja, Betty, arranja tudo. Depressa! Arranja, arranja!
Mandei pôr a caleche. Eram quatro horas. Desci o Chiado. Ia alegre, triumphava: a minha vida apparecia-me, larga, cheia, explendida, coberta de luz. Entrei nas modistas, olhei, escolhi, comprei, com impaciencias de noiva, e recatos de conspirador. Apertei a mão a algumas amigas.
--Partes? perguntavam-me.
--Para França.
--Com a guerra?
--Não ha guerra. E havendo, não é interessante ver matar prussianos?
Á porta do _Sassetti_, encontrei Carlos Fradique.
--Sabe que parto ámanhã? disse-lhe eu.
--Sabe que parto hoje? respondeu-me. Ia lá, apertar-lhe a mão.
--Mas é inesperado isso! Vae para França? Para quê?
--Ver os campos de batalha ao luar, ou aos archotes. Deve haver attitudes de mortos muito curiosas.
--Mas vae debalde. Não ha guerra. É positivo. Por isso eu vou para Italia.
--Vae para Italia?... Mas, então... Ah! Vae para Italia? Minha pobre amiga, quem sabe se isso devia ser! Em todo o caso, em qualquer parte, ou feliz, ou triste, para a consolar, ou para fazer um _trio_ com o meu violoncello, sou seu, _adesso e sempre_.
Apertou-me a mão. Não sei porque, aquellas palavras deram-me uma sensação triste.