O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 14

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F..., encarcerado durante a noite em um quarto interior da casa, havia communicado com um allemão que habitava o predio contiguo, e passára-lhe de manhã por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais tarde no _Diario de Noticias_. Em seguida arrombou a porta do quarto que lhe servia de carcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a mascara ao primo da viscondessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu companheiro descoberto, tiraram egualmente as mascaras. Um d'elles era intimo amigo de F...

--Que é isto?... Como póde isto ser?... gritou F... exaltado.

E apontando em seguida para o cadaver, continuou:

--Aquelle homem está morto, e foi roubado. Depressa expliquem-se! como póde isto ser?

--Meus senhores,--exclamou o _mascarado alto_--o segredo que eu tenho tido em meu dever guardar dentro dos muros d'esta casa, e que espero fique para sempre sepultado n'ella, pertence a uma senhora. Uma parte d'este segredo, aquella que mais particularmente nos interessa, a que explica a presença d'aquelle cadaver diante de nós, conhece-a este senhor.

E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, accrescentou:

--Em nome da nossa dignidade, emprazo-o pela sua honra a que declare o que sabe.

--Jurei não o dizer--respondi eu--não o direi nunca. Ao entrar aqui, em presença de um perigo que julguei imminente sobre a cabeça das pessoas mais particularmente envolvidas n'este mysterio, perdi os sentidos, desmaiei mulheril e miseravelmente. Falta-me diante do perigo a energia physica, que é a feição visivel do valor. Não imaginem por isso que tambem careço de força moral precisa para guardar um segredo, á custa que seja da minha propria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia, era-me licito mentir, pôr tambem na resposta uma mascara. Diante de gente de bem, que me interroga invocando a sua honra, o meu dever é calar-me. Previno-os de que são absolutamente inuteis todas as tentativas que fizerem para me obrigarem a outra coisa.

--Não é difficil de cumprir o seu dever! observou com ironia o mascarado alto. O corpo d'aquelle desgraçado não póde ficar ali por mais tempo. É urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a responsabilidade que pesa sobre nós, de modo tal que fique para sempre tranquilla a consciencia que nos dictar o conselho que houvermos de seguir. Visto que este senhor se recusa a principiar, começarei eu.

E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando ao mesmo tempo que as escrevia:

«_Minha prima._

«Na rua de... n.^o... acham-se n'este momento reunidos diante de um cadaver os seguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal supremo constituido pelo acaso e que vae julgar em derradeira e unica instancia o crime sujeito pela fatalidade á nossa jurisdicção. Se em presença d'este tribunal a minha prima tiver que depôr, peço-lhe que o faça.»

--Perdão...--observei eu.--Peço licença para accrescentar uma linha:

«A. M. C. não devolve a chave.»

* * * * *

Elle escreveu o que dictei, assignou, dobrou o papel, e disse a um dos seus amigos:

--Vae já entregar este escripto á condessa de W...

Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou á porta do predio em que estavamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se achava o cadaver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a condessa entrou.

Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decorridas desde que eu a deixára até ao momento de partir para ali, tinha-as empregado em escrever com uma eloquencia apaixonada e febril a historia da sua desgraça. O caderno que lhe remetto encerra, senhor redactor, a copia da longa carta dirigida por ella a seu primo. Cedo o logar que estava occupando nas columnas do seu periodico á publicação d'este documento, que verdadeiramente se poderia chamar _O auto de autópsia de um adultério_.

Depois direi o destino que démos ao cadaver, e o fim que teve a condessa.

+A Confissão d'ella+

I

Parece-me ás vezes que tudo isto se passou n'uma vida distante como um romance escripto, que me causa saudades e dôr, ou uma velha confidencia de que a minha alma se lembra. Mas de repente a realidade cae arrebatadamente sobre mim, e creio que soffro mais então, por ter a consciencia de que não devia nunca ter deixado de soffrer. Foi bom que me determinasse a esta confissão. Contar uma dôr é consolal-a. Desde que me determinei a escrever estas confidencias, ha no meu peito um alivio e como um movimento de dôres crueis que desamparem os seus recantos.

O principio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. Lembra-me o dia, a hora, a côr da relva, a côr do meu vestido. Foi no fim do penultimo inverno, em maio. _Elle_ estava tambem em Paris. Viamo-nos sempre. Ás vezes saíamos da cidade, iamos passar o dia a Fontainebleu, Vincennes, Bougival, para o campo. A primavera era serena e tepida. Já estavam floridos os lilazes. Levavamos um cabazinho da India com fructa, n'um leito de folhas de alface. Riamos como noivos...

Havia tres mezes que estavamos em Paris: o conde--creio que o disse--estava na Escossia com lord Grenley caçando a raposa nas tapadas do principe de Beaufort.

Houve então um baile no _Hotel de Ville_, um d'esses bailes officiaes em que uma multidão de praça publica se acotovella sob os lustres, brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma walsa com um coronel austriaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veiu a mim, toda risonha:

--Conheces este nome: _miss Shorn?_

--Não. Uma americana?

--Uma irlandeza. Uma maravilha, O prefeito dançou com ella; a condessa Waleuska beijou-a na testa, Gustavo Doré prometteu-lhe um desenho. Vae ser apresentada nas Tulherias. No fim, queres que te diga? Acho-a insignificante. Bonitos cabellos, sim. Não se falla n'outra cousa! Mas tu deves conhecel-a...

--Porque?

--Tem dançado com Captain Rytmel, parecem intimos. Tu ris?

--Eu?

--Não... tu riste!

--Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!

--_Tiens, tiens!_--murmurou ella, olhando muito para mim.

E affastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Ás vezes, na nossa alma, toca-se de repente a rebate, e as desconfianças adormecidas, acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.

--Captain Rytmel approximara-se.

--Vem radiante, disse-lhe eu. Quem é miss Shorn?

Elle respondeu gravemente:

--É a amiga intima de minha irmã.

Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste.

Os movimentos da dança lembravam-me as cerimonias d'um culto. O meu ramo ficou espalhado pelo chão. N'esse instante, sem saber porquê, detestei Paris, o ruido, o imperio; desejei as sombras de Cintra, os retiros melancolicos de Bellas, cheios dos murmurios da agua.

Quiz sair. N'uma das ultimas salas uma mulher alta, loira, tomava das mãos d'um velho extremamente magro e distincto a sua _sortie de bal_.

Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto d'ella, e fallando baixo para mim:

--Miss Shorn! disse elle.

Era realmente linda. Grandes cabellos loiros, fortes, luminosos; os olhos largos, intelligentes, serios; um corpo perfeito.

N'essa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam accesos. Entrei, fui ao espelho precipitadamente. Deixei cair dos hombros o _burnous_. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem apparecia ao fundo do quadro n'um vapor luminoso. Achei-me feia. Olhei mais. Tinha os braços nús, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciencia de que eu estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser linda!

D'ali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. Captain Rytmel acompanhou-me. Eu tinha um logar na tribuna do _Jockey_. Havia uma enorme multidão. Estava a imperatriz, a córte, a diplomacia;--a tribuna resplandecia de fardas, de joias, de plumas, de reflexos de seda. As musicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos batalhões em marcha, o luzir das bayonetas, as vozes de commando, o galopar dos cavallos, o brilho dos capacetes, o ceu resplandecente, como um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava extranhos sentimentos de guerra e de gloria. E todo o corpo estremecia quando aquellas poderosas massas passavam gritando:

--Viva o imperador!

Sou uma pobre mulher, mas estremecia tambem!

A infanteria tinha passado. Rytmel fôra fallar com miss Shorn, que estava em companhia de lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prussia, ficara collocado junto d'ella.

Ia passar a artilheria e a cavallaria. O imperador, com o seu estado maior, tinha vindo collocar-se ao pé da tribuna do _Jockey_. Nós todos nos inclinavamos para ver os generaes que o cercavam: Montauban, o que tomára Pekim; Canrobert com os seus longos cabellos brancos; a espessa figura de Besaine; o altivo perfil trigueiro de Mac-Mahon, que viera da Algeria...

Miss Shorn era tambem muito olhada na tribuna do _Jockey_. Dizia-se que a imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a conhecer, um ramo de violetas do polo.

Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planicie, d'onde a cavallaria devia partir, e corria um arrepio d'enthusiasmo perante um tão grande poder militar. N'essa manhã fallava-se em certas reservas entre o gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se Sadowa, mil cousas que eu não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com o seu tumido sorriso prussiano.

No entanto, a cavallaria formara em linha. Os clarins tocavam, as bandeiras desdobravam-se: e de repente aquella enorme massa despediu á carga cerrada do fundo do campo, para a tribuna do _Jockey_.

Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob o compasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já os coroneis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar offegante dos cavallos. O imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de pé... De repente, por um movimento unico, toda aquella enorme columna estacou firme, vibrante, immovel, reluzente, agitando as espadas, e gritando:

--Hurrah! Viva o imperador!

A tribuna, de pé, respondeu:

--Hurrah!

Então, vendo uma tão admiravel cavallaria, uma tão grande força, tanto prestigio imperial, e tomados do indomavel orgulho das tradições ou possuidos da febre do sangue militar, muitos officiaes, que estavam nas outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas, gritaram:

--A Berlim! a Berlim!

Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:

--A Berlim! a Berlim!

E na tribuna algumas vozes clamavam tambem:

--Sim, sim, a Berlim!

O imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão aberta como impondo silencio, ou como dizendo: _Esperae!_

Áquele grito inesperado todo o estado maior se tinha apertado em torno do imperador, e eu que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal Mac-Mahon deter subitamente o cavallo, voltar meio corpo rapidamente, e com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava o embaixador da Prussia. Eu segui o olhar do marechal, olhei tambem, e vi... como hei de dizel-o? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, curvado, fallando-lhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ella olhava-o, extremamente séria, com um longo olhar demorado e convencido, em que eu vi todo o fim da minha vida!

II

D'hai a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu trahi as minhas duvidas, nem elle mostrou preoccupações alheias aos interesses do nosso amor.

Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas d'elle. Estudava-as, decompunha as phrases palavra por palavra para encontrar a occulta verdade do sentimento que as creára. E terminava sempre--meu Deus!--por descobrir uma serenidade gradual no seu modo de sentir. Rytmel escrevia-me com muito espirito e com muita logica para poder pôr o coração no que escrevia. Evidentemente o seu amor passava da paixão para o raciocinio. Criticava-o: prova de que não estava dominado por elle. Tinha até já palavras engenhosas e litterarias. Valia-se da rethorica! Ao mesmo tempo a sua lettra tornava-se mais firme; já não eram aquellas linhas tortas, convulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um infame cursivo inglez, pausado e correcto. Já me não escrevia como d'antes em papel d'acaso, em folhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que denotavam as inspirações do amor, os sobresaltos repentinos da paixão: escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido, o que o seu coração tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em _marechala!_

E eu? É talvez occasião de fallar aqui do meu sentimento. Duvidei fazel-o. Não queria collocar o meu coração sobre esta pagina como n'uma banca de anatomia. Mas pensei melhor. Eu já não sou _alguem_. Não existo, não tenho individualidade. Não sou uma mulher viva, com nervos, com defeitos, com pudor. Sou um _caso_, um _acontecimento_, uma especie de _exemplo_. Não vivo da minha respiração, nem da circulação do meu sangue: vivo abstractamente, da publicidade, dos commentarios de quem lê este jornal, das discussões que as minhas maguas provocam. Não sou uma mulher, sou um _romance_.

III

Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a anniquilação da minha individualidade.

Por isso não tenho escrupulos. As almas extremamente desgraçadas são como as creancinhas: devem mostrar-se nuas.

Além de tudo supponho que estas paginas podem ser uma revelação proveitosa para aquellas que estejam nas illusões da paixão. Que me escutem pois!

São 11 horas da noite. N'este momento quantas sei eu que soffrem, que esperam, que mentem, possuidas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do que a felicidade de serem desgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de discretos martyrios, a quem tantas vezes vi os olhos pisados das lagrimas! tu pobre Th..., que tens passado a tua vida a tremer, a receiar, a humilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estaes envolvidas pelo elemento cruel da paixão, quasi fóra da vida, e em lucta com a verdade humana, vós todas escutae-me!

Desde que amei, a minha vida foi um desequilibrio perpetuo. Não era voluntariamente que eu cedia á attracção, era com uma repugnancia altiva. Mil cousas choravam dentro em mim, soffria sobretudo o orgulho. Era impossivel fazer com elle uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofetea-me o coração.

O que eu soffri! o que eu córei! Córei diante da minha pobre Joanna, da minha velha ama, um anjo cheio de rugas, que sabe sobretudo amar quando tem de perdoar! Córava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando ellas me sorriam, tremia quando lhes via o aspecto serio. Dava-lhes vestidos, ensinava-lhes penteados. Saíam ás vezes de tarde, recolhiam alta noite; eu córava profundamente no meu coração, e sorria-lhes.

O olhar dos homens era-me insupportavel: parecia-me envolver uma affronta. Imaginava que era publica a aventura do meu coração, que era julgada como uma creatura de paixões faceis, o que dava a todos o direito de me fazerem córar. Quantas vezes sahi do theatro afogada em lagrimas! Analysava os gestos, os olhares, os movimentos dos labios. «Fulana olhou-me com desdem! Aquelle riu-se insolentemente, quando eu passei! Aquell'outra affectou não me ver.» Se n'uma modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta côr é alegre, é bonita!» eu pensava commigo: «Bem sei, aconselham-me as côres vivas, ruidosas, as côres do escandalo, o género _artiste!_» E saía, fechava os _stores_ do meu _coupé_, chorava desafogadamente.

Não me atrevia a beijar uma creança; olhava-a com uma ternura ineffavel, ia a tomal-a nos braços, mas dizia commigo: «Deixa esse pobre anjinho, não és bastante pura para lhe tocar!»

Devo dizer tudo. Córava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audacia, uma palavra accusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e elle se erguia respeitosamente, eu ficava tão satisfeita d'aquella prova de attenção, que tinha vontade de o abraçar...

Acha odioso, não?

Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrivel: quando meu marido me apertava expansivamente a mão, eu soffria tanto como se o outro me atraiçoasse!

Ai de mim! Quantas vezes quiz eu consolar o meu orgulho, pensando nas glorias dramaticas do soffrimento e do martyrio! Quantas vezes me comparei ás figuras lyricas da paixão, que contam as legendas da sua dôr ao ruido das orchestras, á luz das rampas, e que são _Traviata, Lucia, Elvira, Amelia, Margarida, Julietta, Desdemona!_ Ai de mim! mas onde estavam os meus castellos, os meus pagens, e o ruido das minhas cavalgadas? Uma pobre creatura que vive da existencia do Chiado, que veste na _Aline_, que glorificações pode dar á sua paixão?

E depois é cruel, e é forçoso dizel-o: ha sempre um momento em que uma mulher pergunta a si mesma se realmente são as grandes qualidades moraes do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E ha uma profunda humilhação em nossa consciencia quando nos chegamos a convencer de que, se amamos um homem, não foi só a nobreza das suas idéas e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um _não sei quê_, em que entra talvez a côr do seu cabello e o nó da sua gravata. Sejamos francas; para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos de colorir de ideal a origem vulgar das nossas preferencias? Não quero dizer que as elevações moraes não sejam um auxiliar poderoso á sympathia instinctiva; mas o que na realidade nos domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidencias dolorosas se consultem no silencio do seu coração e digam o que determinou n'ellas a sensação: se foi o caracter ou se foi a physionomia. E as que forem francas dirão que na sua vida influiu talvez mais a côr de um _frack_, do que a elevação de um espirito.

Sim, digo-o, francamente, d'aqui d'este canto do mundo, em que o ruido das cousas tem o som ôco da tampa de um esquife: os desvarios do coração em nós outras, nada os absolve, quasi nada os explica.

Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tedio assaltadas de chimeras; tive os meus romances intimos, que nasciam, soffriam, morriam entre duas flores do meu bordado. Creei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramaticas, aconchegadamente encolhida na minha poltrona, ao canto do fogão.

Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a historia de muitas sensibilidades. Experimentei eu tambem os sobresaltos da paixão--e nunca vi, nunca soube que estas imaginações, que estas _attracções_ nascessem de uma verdade da natureza, da logica das circumstancias, da irreparavel acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo ephemero, romantico, litterario, ficticio, que habita no cerebro de todas as mulheres.

Vejo-o d'aqui a sorrir... Não se admire de me ver fallar assim. Lembra-se d'aquellas conversações tão intimas e tão sérias na rua de...? Lembra-se do terraço de _Clarence-Hotel_, em Malta, quando a lua silenciosa cobria o mar? Não se recorda das minhas idéas então e d'aquellas imaginações que eu denominava gloriosamente os meus _systemas_? Não se lembra que me chammava então _philosopho loiro_? O _philosopho_ sentiu, chorou, soffreu, teve por isso o melhor estudo. Que maior ensino que as lagrimas? A dôr é uma verdade eterna, que fica, emquanto as theorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas idéas rectas e precisas saem das incoherencias do pranto!

Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mulheres pretendem esquivar-se á responsabilidade. Não creio no que se chama theatralmente _as fatalidades da paixão_. A vontade é tudo; é um tão grande principio vital como o sol. Contra ella _as fatalidades_, as febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.

Respondem-me chorando: _a fatalidade!_ Mas, meu Deus! tomemos um exemplo,--a aventura trivial, a commum, o que se poderia chammar a _aventura typo_, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro numero par ou impar... a aventura que nós acotovellamos no passeio, que toma comnosco neve na confeitaria Italiana, e que se enterra ao pé de nós no Alto de S. João.

A scena é simples, de tres personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu marido é um homem honesto e trabalhador. Cança-se, lucta, prodigaliza-se: logo de manhã sae para o seu escriptorio, ou para o seu jornal, ou para o seu officio, ou para o seu ministerio; cercea o seu somno, almoça á pressa, quebra o seu descanço. Todo elle é attenção, vigilia, trabalho, sacrificio. Para quê?

Para que os nossos filhos tenham uns _bibes_ brancos, e uma ama aceada; para que as minhas cadeiras sejam de estofo e não de páu; para que os meus vestidos sejam de seda e talhados na _Marie_, e não de chita e cosidos pelas minhas mãos, de noite, a um candieiro amortecido.

Meu marido é um homem honesto, sympathico, serio, affavel. Não usa pós de arroz, nem _brilhantine_, não tem gravatas de apparato, não tem a extrema elegancia de ser moço de forcado, não escreve folhetins; trabalha, trabalha, trabalha! Ganha com o seu cançasso, com os seus tedios, em horas pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuario de todas as estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu ideal e o seu absoluto sou eu! Não faz poemas romanticos, porque eu sou o seu poema intimo, a musa dos seus sacrificios; não tem aventuras porque eu sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestigio das distancias, porque o seu mundo não é maior do que o espaço que enche o som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadowa mas ganha todos os dias a terrivel e obscura batalha do pão dos seus filhos...

É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cançasso é legitimo e puro; gosta da sua _robe de chambre_ porque trabalhou todo o dia. Julga-se dispensado de trazer uma flôr na _boutonniére_ porque traz sempre no coração a presença da minha imagem.

Pois bem! que faço eu?

Aborreço-me.

Logo que elle sae, bocejo, abro um romance, ralho com as criadas, penteio os filhos, torno a bocejar, abro a janella, olho.

Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou mediocre. Olhamo-nos. Traz um cravo ao peito, uma gravata complicada. Temo o cabello mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito, usa botas inglezas, pateia as dançarinas!

Estou encantada! sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espirito e sem grammatica. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida.

Manda-me uns versos--uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido, os seus sacrificios, a sua bondade, o seu trabalho, a sua doçura; não me importam as lagrimas nem as desesperações do futuro; abandono probidade, pudor, dever, familia, conceitos sociaes, relações e os filhos, os meus filhos! tudo--vencida, arrastada, fascinada por um soneto errado, copiado da _Grinalda_!

Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamaes--_fatalidade da paixão!_

E no emtanto como corresponde elle a este sacrificio terrivel?

Como tem uma aventura, não póde occultar a sua alegria, toma ares mysteriosos, provoca as perguntas; compromette-me; deixa-me para ir esperar os touros em intimidades ignobeis; mostra as minhas cartas em cima da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de cognac; jura aos seus amigos que me não _ama_, e que é--_para se entreter_; e se meu marido o chicotear no meio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se á Boa Hora!

_Et voilá D. Juan!..._