O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 13

Chapter 13 3,861 words Public domain Markdown

--Não. Não estou louca, tornou ella grave e serenamente. Não enlouqueci ainda. E admiro isto. Como têem decorrido estas horas, minuto por minuto, segundo por segundo, sem que a minha razão succumbisse n'esta desgraça infinita, sem remedio, sem termo, sem remissão! Matei um homem... Involuntariamente, sim, mas matei-o. Quero entregar-me aos tribunaes, estou prompta, estou deliberada. Estendendo os olhos ao meu futuro, não vejo senão uma esperança, senão um lenitivo unico no prazer de morrer em tormentos, que eu abençoarei como os maiores beneficios do ceu, de morrer de fome, de desprezo, de miseria, prostrada no fundo de uma enxovia, no porão de um navio, ou abandonada em uma praia da Africa, abrazada pelo sol, sobre as areias ardentes, roida pelo cancro, devorada pela sede e pela febre. Por mim uma só cousa temo: a loucura que um momento em minha vida me consinta a alegria horrivel de cuidar que ainda sou amada e feliz; ou a morte repentina que me arrebate a consolação unica que Deus concede aos grandes culpados: a liberdade de soffrer. Mas elle... O seu nome descoberto! o seu cadaver profanado! o seu segredo trahido!...

E fallando, como n'um sonho, abstractamente:

--Desventurado homem! que fatal destino o encaminhou para mim arremessando-o, de encontro ao meu coração, em que estava a sua morte? Porque não amou outras mulheres que o mereciam mais do que eu? Porque não se deixou amar por Carmen Puebla, que o adorava e que morreu por elle? Que cego, que imprudente, que desgraçado que foi!...

E escondendo a face nas mãos, desatou a chorar n'um pranto convulso e desfeito, em que a vida parecia despedaçar-lhe o seio e jorrar para fóra em borbotões de lagrimas e de soluços.

--Vamos,--disse-lhe eu quando esta crise abrandou,--serenemos um momento, e pensemos no que importa fazer. É então positivo que o conde está morto?

--O conde?... interrogou ella, erguendo-se de subito e enxugando os olhos. Sim, tem rasão, eu ainda lhe não disse tudo... O homem que eu matei não é meu marido.

E, postando-se defronte de mim, fitou-me com um olhar hallucinado, e accrescentou com voz demudada e profunda:

--É o meu amante.

Em seguida ficou immovel, esperando as minhas palavras na postura de um reu que vae escutar a sentença da bôca de um juiz.

A sensação que experimentei ao ouvir essa confissão breve, sêcca, inesperada, foi a da surpreza primeiro, de uma instinctiva repulsão depois. Ergui-me machinalmente e dei alguns passos na casa. A condessa permanecia na mesma posição, n'uma insensibilidade que tanto podia ser a prostração do arrependimento como o cynismo da culpa. Eu estava surprehendido e revoltado. Aquella mimosa e pura estatua, á qual eu levantára quasi um altar no meu coração, assim repentinamente baqueada n'um lamaçal, causava-me horror. Poderia supportal-a criminosa; não podia consideral-a prostituida. Medi-a com um olhar em que senti dardejar o despreso que ella n'esse momento me inspirava, e depois de um silencio repassado de magoa:

--É horrivel isso!

Ella estremeceu, cerrou desfallecidamente os olhos e amparou-se vacillante ao espaldar de uma cadeira.

--Extranha talvez a lastima e o horror que me causa? insisti eu. É natural. Tendo ouvido que em Lisboa, a sociedade vê benevolamente essas quedas como incidentes triviaes da existencia domestica. Eu porém que sou um selvagem, eu que me criei no principio de que a fidelidade é no caracter de uma mulher um dever tão sagrado como a honra no caracter de um homem, eu protesto, em nome das unicas mulheres que a minha inexperiencia me tem permittido conhecer no mundo--em nome d'aquella que me gerou e em nome d'aquella que eu amo--contra similhante interpretação da liberdade de amar. Não comprehendo que cáia em tal erro uma pessoa limpa. O adulterio é uma indecencia e uma porcaria. Matar um homem em taes circumstancias, é mais do que faltar ferozmente ao respeito devido á inviolabilidade da vida humana; é faltar egualmente ao respeito da morte... É atirar um cadaver a um cano de esgoto... É tragico--e coisa ainda mais horrivel--é sujo...

Ella escutava-me em silencio, extatica, como hypnotisada pela minha instinctiva mas cruel grosseria.

De repente, sem uma exclamação, sem um grito, sem um gesto, caiu desamparadamente no chão, fulminada, inerte, como se estivesse morta.

Quiz chamar alguem, ia a tocar no botão de uma campainha quando me occorreu a inopportunidade de qualquer intervenção n'esta scena. Fui para ella, que ficára estirada de costas sobre o tapete. Levantei-lhe a cabeça. Não lhe senti o pulso. Ergui-a em peso, tomei-a nos meus braços. A fronte d'ella pendeu sobre o meu hombro, ficando perto dos meus labios a sua face desmaiada.

Approximei-me de um sophá. Depois, por um sentimento supersticioso de respeito, colloquei-a n'uma cadeira de braços, e corri aos aposentos contiguos áquelle em que estavamos. O quarto proximo era um gabinete de vestir. Trouxe um frasco de agua de Colonia que estava n'um lavatorio. Humedeci-lhe as fontes e os pulsos, fiz-lhe respirar o alcool. Auscultei-a. O coração começava a bater. O pulso reapparecia.

Eu tinha-me ajoelhado junto da poltrona em que ella jazia e contemplava melancholicamente a sua figura exanime.

Os olhos cerrados, a bocca entre-aberta deixando vêr os dentes miudos e côr de perola, a cabeça reclinada ao espaldar, davam ao seu rosto, assim em escorso, a expressão de uma figura d'anjo, ascendendo de um tumulo. Os pés estreitos e finos, calçados em meias de seda e sapatos de setim preto sobresaíam da orla do vestido n'uma immobilidade sepulchral. Uma das mãos, atravez de cuja lividez se via a rede tenue e azul das veias, tendo no dedo annular um circulo de grossos brilhantes entremeiados de rubis, repousava-lhe no regaço, e do seu roupão de rendas pretas exhalava-se o mesmo perfume, o perfume d'ella, que ficára na minha mão a primeira vez que a vi.

Lembrei-me então da sua figura entrevista de noite, ao gaz de um candeeiro da rua, tornada a vêr depois, á luz do dia, no Rocio, passando em carruagem descoberta. E estas coisas, tão vivas na minha lembrança, faziam-me todavia, a impressão de haverem passado ha muitos annos.

Ella estava velha!

Muitos dos seus cabellos, seccos, baços, como mortos, tinham embranquecido nas fontes e no alto da cabeça.

A contracção violenta de todos os musculos da dôr transformara n'uma só noite as suas feições e desfigurára a sua physionomia. Os cantos da bocca tinham descaído ao peso das lagrimas como ao peso dos annos, e dois vincos profundos sulcavam-lhe as faces flaccidas na mesma direcção obliqua que tinham tomado os sobr'olhos, riscando-lhe a testa em rugas curvilineas e transversaes.

Que medonha, que tenebrosa, que incomparavel angustia devia ter passado em algumas horas por este desgraçado corpo para o devastar assim!

Na rua, a pequena distancia, um realejo tocava um _pot-pourri_ de varias operas, e, ao som d'esse corrido martellar idiota da musica mecanica, pareceu-me ver desfilar em louca debandada no ar, entre mim e a pobre senhora, como n'uma especie de evocação ao mesmo tempo tragica e grotesca, todos os grandes symbolos das educações sentimentaes, ladainha viva das paixões elegantes, girando sob a manivella do seu realejo, n'um redemoinho funebre, de dança dos mortos, em torno d'esse corpo desfallecido, como as visões da vida passada, figuradas nos velhos retabulos, em torno do leito das monjas moribundas.

Era como se, no decorrer d'essa musica, automatica como um andar de somnambulo, eu visse perpassar no espaço a grande ronda das tentações que na vida levaram comsigo o destino d'esta creatura: os pallidos Manriques e os febris Manfredos, trazendo sob a capa das poeticas aventuras a bravura cavalleirosa de campeador Ruy de Bivar ou do paladino Rolando, a melancolia de Hamlet, a exaltação sentimental de Werther, a revolta do Fausto, a sociedade de D. Juan, o tedio de Childe Harold; e toda a legião dramatica das bellas mulheres amadas: Francesca, Margarida, Julietta, Ophelia, Virginia e Manon.

E, em grinalda de beijos seccos, de beijos de pau, matraqueados no instrumento da rua, todas essas figuras d'amorosas legendas bailavam mysteriosamente ao som da _Traviata_, da _Lucia_, do _Balle in maschera_.

--_Amor! amor! amor!_--tal foi de certo a letra da grande aria que constantemente lhe cantaram atravez de toda a sua existencia de mulher bella, instruida e rica.

Foi n'esse mundo moral que a sua imaginação habitou e que se fez o seu pobre espirito de linda creatura ociosa e desejada.

Como poderia ella adivinhar a honesta serenidade dos destinos simples no meio de uma existencia tão complicadamente artificial como a sua?

Fóra dos interesses da elegancia, da moda, talvez da arte, que conhecia ella de serio e de grave na vida senão a religião e o amor? Tinha um missal e um marido. É pouco para o equilibrio de uma alma, principalmente desde que o missal cessa de convencer e o marido cessa d'amar.

As que tem um salão, uma carroagem, um camarote na opera, um cofre cheio de joias, um quarto cheio de vestidos, não pódem ser as singelas mulheres que passam a vida a dar de mamar aos filhos e a vender cerveja, como diz o Iago, de Shakespeare; nem podem resumir o seu destino facil em ter filhos, chorar e fiar na roca, como diz Sancho Pansa. Esta não vendia cerveja, não a ensinaram a fiar... Chorou apenas.

Quem sabe se na sua dourada existencia a amargura das lagrimas a não compensou hoje de tudo quanto ignora da amargura da vida!

E tive uma paixão sincera com um remorso profundo das palavras crueis que lhe dissera.

Que poderia eu fazer para a salvar? Não o sabia. Achava-me porém resolvido a tudo, a sacrificar-me inteiramente, para lhe valer.

Devo dizer tambem que, vendo-a, ouvindo-a, eu não suppuz nem por um momento que no homicidio de que ella se accusava podesse haver o que se chama verdadeiramente um crime, isto é, uma intenção infame ou perversa. Um criminoso, um cobarde, um assassino, nem chora assim, nem falla assim, nem se denuncia, nem se inculpa, nem se entrega por esta fórma a uma pessoa quasi extranha, quasi desconhecida. Ella tinha-m'o dito com a mesma simplicidade com que o gritaria da janella para a rua, sem a minima preoccupação de se salvar. Cheguei a pensar por um momento que não tinha deante de mim senão uma extranha nevrose, um caso de hallucinação, de delirio raciocinado. Mas o delirio não faz padecer tanto. Tenho visto muitos loucos no hospital. A expressão d'elles, ainda a mais dolorida, não apresenta nunca a profundidade d'esta. É preciso ter toda a integridade da sensibilidade e da rasão para soffrer assim. No padeccimento dos loucos ha um não sei quê, sem nome talvez na symptomatologia do soffrimento, mas a que poderiamos chammar--a isolação da alma.

Ao voltar a si, a condessa parecia um pouco mais calma. Para evitar um recrudescimento de excitação proveniente de uma longa narrativa de episodios que me pareceu discreto evitar, um pouco como estudante de medicina, principalmente como homem honrado, disse-lhe:

--Sabe mais alguem d'este caso? --Sabe-o a minha creada de quarto, a que me acompanhava hontem quando nos viu, e sabel-o-ha dentro em pouco meu primo H... a quem hoje escrevi. Meu primo porém está em Cascaes. O morto é um extrangeiro. Ninguem, a não ser meu primo, o conhece em Lisboa. Ignorava-se mesmo que elle existisse aqui. Entregal-o aos tramites policiaes, ter de revelar o seu nome, descobrir a sua naturalidade, a sua familia, eis o que principalmente eu queria evitar. Conseguido isto, entrego-me aos tribunaes, mato-me, fujo, enterro-me viva... como quiserem!

--E sabe seu primo como elle morreu?

--Não. Vai saber apenas que está morto...

--Póde contar com o silencio da sua creada, por alguns dias ao menos?

--Posso. Por toda a vida.

--Evite, se póde, que seu primo receba hoje a sua carta. E... _elle_, onde está?

--Na mesma rua em que nos encontrámos hontem, no predio n.^o...

--Para entrar na casa...

--Ha uma chave--respondeu ella.

E tendo meditado um momento:

--Hontem--prosseguiu--quando lhe disse que viesse hoje a minha casa, estava louca de desesperação e de horror. Parecia-me que tudo quanto se approximava de mim me trazia a punição, o castigo, e que tudo quanto se affastava fugia para longe com o meu ultimo amparo, com o derradeiro soccorro que eu ainda poderia ter n'este mundo!... Foi n'este delirio que lhe pedi a V..., um extranho, um desconhecido, que viesse vêr-me... Para quê?.. nem eu sabia para quê... Para contar isto a alguem, para me decidir, para ter uma solução, para apressar um desenlace qualquer, para fugir de mim mesma... Ir á policia era entregar esse infeliz á mais horrorosa das profanações. Dirigir-me a alguma das senhoras que conheço, ir bater á porta de uma familia tranquilla, que me receberia na casa de jantar ao levantar da mesa, que me apertaria as mãos, que me traria os seus filhos para eu beijar, e depois dizer-lhes de repente: Eu, que aqui estou, tinha um amante, e matei-o; venho convidal-os para esta festa de vergonha e de ignominia!... Não. Era melhor fugir para o desconhecido, entregar-me ao acaso... Em tudo isto pensei confusamente, não sei como, sem continuidade, sem nexo, aos pedaços, depois que o vi, durante esta noite medonha. Não tenho hoje mais lucidez de espirito do que tinha hontem... Não sei o que hei de fazer... Sinto apenas que estou perdida, que é preciso que alguem venha, que é preciso que me levem... O senhor parece-me um homem generoso, leal, compadecido e bom... Sabe já o que me succedeu, sabe onde _elle_ está. Disse-lhe qual era a casa, disse-lhe o numero da porta. Aqui tem a chave.

E tirando do seio uma corrente de ferro, de elos angulosos como de um cilicio, que trazia suspensa do pescoço por dentro do roupão, abriu uma argola que lhe servia de remate, soltou uma pequena chave, e entregou-m'a.

Deixou-se cahir n'um _fauteuil_, inclinou a cabeça para traz e ficou prostrada, silenciosa, no abatimento, no abandono, no entorpecimento profundo que d'ordinario se succede ás grandes crises nevralgicas.

Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me occorreria mais tarde como desfecho possivel para esta situação tão imprevista, tão extraordinaria, guardei a chave. Senti que me era preciso, primeiro que tudo, sahir d'alli, retomar o ar livre, achar-me a sós commigo mesmo, reflectir, raciocinar.

--Minha senhora--disse-lhe então--se amanhã, até ao meio dia, eu lhe não tiver reenviado esta chave, será signal que me prenderam, que está tudo perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não fôr restituida esta chave, fuja, esconda-se, faça como quizer. Interrogada, negue tudo. Eu preferirei mil vezes acceitar a responsabilidade d'esta morte a imputar-lh'a, e, por caso algum do mundo, será jámais o seu nome proferido por mim. D'aqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a sua razão, para não enlouquecer, se quer um conselho de physiologista, violente-se um pouco, abra uma janella, sente-se deante de um caderno de papel e escreva o que se passou. Depois queime o que escrever. O unico meio de dominar uma situação como a sua, o unico meio de verdadeiramente a comprehender, é analysal-a. Houve um philosofo que deixou aos infelizes esta maxima: «Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema.» Vá escrever. Faça as suas memorias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.

Ella conservava sempre a attitude extatica em que cahira na cadeira de braços. Tinha a bocca entre-aberta, o labio inferior tremia-lhe, com esse tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e grossas lagrimas silenciosas, corriam-lhe em fio pelas faces e gotejavam lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer, procurando articular uma palavra d'agradecimento. Profundamente enternecido, dei um passo para traz, inclinei-me com respeito, e sahi.

V

Tendo fechado a porta do aposento em que ella ficára, ao passar na sala em que primeiro estivera, occorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das mezas achavam-se dois grandes albuns. Folheei-os rapidamente. Um d'elles encerrava apenas uma serie de apontamentos de viagem tomados por uma só pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lapis e em portuguez. Entre os apontamentos escriptos estavam collados ou pregados nas paginas alguns especimens de plantas e de flôres, e viam-se delineados varios esboços de construcções e de fragmentos architectonicos. Era um album de estudos. O outro continha uma collecção de pensamentos, de maximas, de versos, de desenhos, de aquarellas, firmados por muitos nomes diversos. Eu devorava com os olhos o conteúdo de cada lauda.

Não ousára perguntar á condessa o nome do seu amante. Comprehendia que a bocca d'ella nunca mais poderia pronuncial-o, e não obstante, eu precisava de sabel-o, de ver letra d'elle. Estava certo de que esse nome desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que eu estava lendo, que a letra desejada se encontraria no meio dos escriptos que me estavam passando pelos olhos. Como poderia porém adivinhal-o, sem tempo, sem vagar, sem o socego de espirito necessario para meditar a intenção de cada uma das phrases que ia lendo?... Era-me forçoso abandonar este recurso, e o album que tinha nas mãos era todavia, talvez, o unico meio que me restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei um momento, e sahi por fim, levando o livro comigo.

Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa, acantoei-me na carroagem e puz-me a ler successivamente cada um dos trechos em verso e em prosa, de que se compunha a collecção.

Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta informação era insufficiente para que eu o distinguisse n'aquella torre de Babel. De pagina para pagina ia-me surprehendendo uma nova lingua. Havia francez, italiano, allemão, inglez, hispanhol... O nome de Ernesto Renan apparecia sobposto a duas palavras chaldaicas; Garcin de Tassy, orientalista na Sorbonne, firmava um periodo em lingua hindustanica; Abd-el-Kader tinha deixado simplesmente o seu nome arabe; a princesa Dora Distria assignava de Turim um pequeno texto albanez. Nomes portuguezes, apenas dois.

A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da variedade dos nomes e da differença de linguas.

Ao chegar a casa, vi que o numero que a condessa me indicara era o de um predio de um só andar, pobre de apparencia, quasi fronteiro á casa que eu habitava, perto de uma esquina, collocado ao lado de um predio mais saliente, e tendo a porta n'um angulo reintrante que a escondia da parte principal da rua. Para o lado opposto até á esquina proxima havia uns armazens deshabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual sobresaiam as ramas seccas de um canavial. A situação topographica da casa onde estava o morto permittia-me pois entrar e sair d'ella sem ser visto.

Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse o nome que desejava conhecer.

Dei a volta á chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta cerrada, estava caida uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha pequena, lisa, em branco. O outro era um pedaço de _enveloppe_; tinha no alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um canto havia inutilizada uma estampilha franceza; no subscripto lia-se: _Mr. W. Rytmel_.

Este nome achava-se no album da condessa por baixo de dois versos inglezes.

A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pellica branca com cordões pretos. Por dentro tinha em letras azues a marca de um luveiro de Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome do morto.

Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estremeci de horror. Estendido n'um sophá estava o cadaver. A expressão do seu rosto inculcava um socego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como marmore. Collocado perto d'elle estava um copo com um pouco de liquido. Era opio.

Percorri o aposento com um relance d'olhos. No forro de setim preto do chapeu, que estava caído no chão, vi bordadas em vermelho uma corôa de barão e duas grandes lettras--um W. e um R.

Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente á minha banca e abri o album defronte de mim na pagina em que estavam os versos assignados por W. Rytmel.

É de saber que tenho aquella especie de habilidade que Alexandre Dumas considera aviltante e vilipendiosa para a intelligencia: sou, como terá visto pela letra d'estas cartas, um excellente calligrapho. Copiei escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a construir, com letras da mesma fórma das que tinha copiado, outras palavras differentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que se dera a catastrophe, e fiz em inglez com escripta que ninguem no mundo duvidaria ser a da pessoa que escreveu no album os versos assignados pelo nome de Rytmel, uma declaração pessoal do suicidio por meio do opio. D'este modo, quer mais tarde me occorresse, quer não, o meio mais conveniente de sepultar o cadaver, as suspeitas de homicidio desappareciam.

A condessa estava salva desde que, antes de mais ninguem, eu entrasse na casa e collocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.

Mas eu ficava sendo um _falsario_. Repeti a mim mesmo esta palavra sinistra e estremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu procurava debalde. E no entanto o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me que o primo da condessa poderia vir de Cascaes prevenido por ella, e cheguei a sahir de casa com pregos e um martello para encravar a fechadura da porta e retardar a entrada no predio onde se achava o morto. Occorreram-me mil idéas phantasticas, cada qual mais absurda. Passeei por muito longe, a pé, meditando, inquieto, nervoso, congestionado, estafado, devorado de febre, palpando no fundo do bolso o bilhete terrivel com que poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando todavia para mim uma parte egual no seu remorso.

Finalmente, por volta da meia noite, sem bem saber porquê, nem para quê, levado por uma attracção terrivel, atraz de uma suprema inspiração, cingi-me com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei inesperadamente com o doutor e com a pessoa conhecida no decurso d'esta historia pelo nome de _mascarado alto_.

O primo da condessa, tendo chegado de Cascaes ao meio dia, acompanhado de dois amigos intimos, inquieto pelo desapparecimento de Rytmel, que era seu hospede e vivia como homiziado em casa d'elle em Lisboa, foi ao predio mysterioso de que possuia uma chave e que sabia ser frequentado regularmente pelo inglez, e encontrou ahi o cadaver. Conhecendo as relações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na necessidade de manter o maior sigillo em volta d'aquella catastrophe, e julgando por outro lado indispensavel que o testemunho de um medico constatasse a morte, que poderia ser apenas apparente, planeou e realisou a emboscada em que surprehendeu o doutor ***, que elle sabia casualmente que passaria n'essa tarde pela estrada de Cintra.

Sabem o que se passou n'essa noite.

VI

No dia seguinte ás onze horas da manhã, todos nós, os que haviamos ficado n'essa casa fatal, nos achavamos reunidos, de rosto descoberto, em torno do cadaver.

O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Cintra, em que fôra tomado na vespera.