O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 12

Chapter 12 3,843 words Public domain Markdown

Eu, atarantado, confuso, tirei machinalmente o chapeu, e titubiei algumas palavras vagas, não sabendo como despedir-me da pessoa que tinha ao meu lado.

Era a primeira vez que me achava perto de uma d'essas formosas senhoras da sociedade, tenra, fina, delicada, como nunca vi ninguem! Tinha uma carnação lactea e aveludada, como a petala de uma camelia,--prodigio de mimo só comparavel ao de uma outra mulher que não conheço, e que uma noite passou por mim no salão de S. Carlos, encostada no braço de um homem e envolta em uma grande capa branca de listas côr de rosa.

Aquelles que as conhecem, que as vêem e lhes fallam todos os dias, é possivel que se não impressionem com o aspecto d'estas creaturas transcendentes. Para quem as encontra de perto pela primeira vez em sua vida não ha cousa no mundo que mais perturbe. Homens habituados a arrostar com as mais violentas commoções, a olharem denodadamente para o perigo, para a desgraça ou para a gloria, tremem diante d'esta simples coisa: o primeiro contacto de uma mulher elegante! D'ahi vem o velho prestigio magnetico das rainhas sobre os pagens, das castellãs sobre os menestreis. É uma sensação unica. O ser humano bestificado converte-se por momentos n'um vegetal que vê.

Eu ficara immovel e mudo.

Ella correu-me de cima a baixo com um olhar rapido, e dizendo-me _obrigada_ com uma commoção tremula, estendeu-me d'entre a nuvem negra das suas rendas a mão de que tinha descalçado a luva.

Entreguei a minha grossa mão a essa mão delicada, magnetica, convulsa e fria, e senti percorrer-me todos os nervos um estremecimento electrico despedido do _shake-hands_ que ella me deu de um só movimento sacudido, fazendo tinir os elos de uma grossa cadeia que lhe servia de bracelete.

Obrigado a dizer alguma coisa, soltei instinctivamente as palavras monstruosas de uma formula que se usa em Vizeu, mas que estou bem certo nunca até esse dia haviam sido ouvidas por tal creatura, e que certamente lhe produziram o effeito do grito stridulo de um animal selvagem, escutado pela primeira vez entre mattos desconhecidos.

Vergonha eterna para mim! essas palavras, que eu desgraçadamente conservara no meu ouvido de provinciano e que a minha bocca deixou bestialmente cair, foram estas:

--Para o que eu prestar estou sempre ás ordens.

E dizendo isto, tendo-o ouvido com horror a mim mesmo, voltei rapidamente costas, e affastei-me a passos largos. Ia vexado, envergonhado, corrido, como se houvesse proferido uma obscenidade sacrilega. Dava-me vontade de me metter pelas paredes ou de me sumir pela terra dentro! Não me atrevia a olhar para traz, mas parecia-me que ia envolto em gargalhadas phantasticas, que não ouvia. Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas, os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das tendas.

Entrei precipitadamente em casa, subi as escadas, fechei-me por dentro e puz-me a passear ás escuras no meu quarto.

Nas trevas appareciam-me illuminadas por um clarão satanico essas duas mãos que pela primeira vez acabavam de se apertar na rua--a minha e a d'ella--uma trigueira, aspera e quente, a outra branca, nervosa e gelada. Depois entravam a reconstruir-se á minha vista os vultos completos das pessoas.

Ella, de uma pallidez eburnea, com o perfil melancolico de uma madona a que tivessem levado dos braços o seu bambino, movendo-se mollemente entre rendas e setim com uma ondulação de sereia.

Eu, inteiriçado e embasbacado diante d'ella, não sabendo como segurar o chapeu e a bengala, na mais flagrante e minuciosa ostentação dos meus defeitos e da minha pobreza incaracterisada e burgueza. Ao lado de quanto n'ella havia ideal, transcendente, ethereo, ia eu vendo, enormemente avultado e saliente, quanto o meu aspecto offerecia mais baixo e mais vil: o casaco comprado ao barato n'um algibebe; as botas de duas solas torpemente desformadas e orladas de lama; as calças com umas joelheiras que me dão ás pernas na posição vertical o desenho das de um homem que se está sentando; os punhos da camisa amarrotados; e a ponta do dedo maximo da mão direita sujo de tinta de escrever!

Eramos verdadeiramente os antipodas um do outro, postos na mesma latitude pela estupidez do acaso, e separados logo para sempre por aquellas palavras terriveis que me zuniam nos ouvidos como os prenuncios de uma congestão:

«Para o que eu prestar estou sempre ás ordens!»

Não sei que extranha attracção amarrava o meu espirito á lembrança da mulher que eu acabava de ver! Não era indefinida sympathia, não era occulto desejo, não era um vago amor. Interrogava-me detidamente, e o unico movimento que encontrava no meu coração--sinceramente o confesso--era o do odio. Odio áquella mulher, odio inexplicavel, monstruoso, como aquelle que imagino ser o de um engeitado á sociedade em que nasceu!

A distincção aristocratica, a elegancia da raça d'aquella gentil creatura aviltava-me, enfurecia-me, revolvia no meu interior esse fermento de rebellião demagogica que todo o plebeu traz sempre escondido, como uma arma prohibida, no fundo da sua alma.

Aquella mulher tinha certamente, um espirito menos culto do que o meu, uma rasão menos firme, uma vontade menos forte, um destino menos amplo. Para compensar estas depressões assistia-lhe uma superiodade repugnante, inadmissivel: a que procede da casta. Um berço de luxo, uma constituição delicada, um leito de pennas, a infancia resguardada na sombra, entre estofos, sobre tapetes, ao som de um piano,--isto basta, para que fique ridiculo, miseravel, desprezivel ao pé d'ella um homem que se creou ao clarão do dia, á luz do sol, tendo por tapetes a aspereza das montanhas, e por melodias o roncar das carvalheiras e o gemer dos pinhaes!

E entre mim e ella será isto perpetuamente uma barreira.

Ella ficará sempre bella, dominativa, seductora por natureza, instinctivamente captivante, querida, amimada, estremecida, dentro da sua zona de aromas, de veludos, de cristaes e de luzes!

Eu, entre a minha estante de pinho adornada com um boneco de gesso e a minha cama de ferro coberta de chita, ficarei sempre tenebroso e inutil,--desgraçado quando não quiser tornar-me tão ridiculo, e irrisorio quando tiver a vaidade de não querer ser desgraçado!...

Accendi as duas torcidas do meu candeeiro de latão e tentei estudar. Impossivel. As letras de um livro que tinha aberto diante de mim percorri-as com a vista pelo espaço de tres ou quatro paginas, machinalmente, sem comprehender o sentido de uma só palavra. Deixei o livro e fiquei por algum tempo inerte, estupido, neutro, com a vista fixa nas orbitas ôcas de uma caveira que tinha sobre a mesa, e que se ria para mim com o escancellado sarcasmo que trazem da cova os esqueletos desenterrados. Aborrecia-me a vida. Apaguei a luz, despi-me e deitei-me.

Tinham-me feito a cama n'esse dia com dois d'esses lençoes de folhos engommados, com que minha mãe enriquecera liberalmente o meu bahú de estudante. Estes lençoes tinham a aspereza do linho novo e o cheiro caracteristico do bragal da provincia.

--Pobre mãe, coitada! pensava eu, deitado e embebido n'essa longinqua exhalação olphactica da casa paterna. Coitada de ti, que na simplicidade dos teus juizos julgaste dotar-me com um luxo que faria commoção em Lisboa, orlando-me dois lençoes com esta enorme renda longamente trabalhada por ti mesma nos teus bilros infatigaveis! Se soubesses que este paciente lavor das tuas mãos em dois annos de applicação consecutiva, ninguem aqui o admirou, ninguem o viu, ninguem attentou n'elle, a não ser a criada, que esta manhã me perguntou, entre risadas sacrilegas, se os padres na minha terra se embrulhavam nos meus lençoes em dias de missa cantada! Que importa porém que o não apreciem os outros?... Toda esta gente é má, corrupta, perversa! Agradeço-t'o eu, minha obscura, minha velha amiga. Nos arabescos d'esta renda, que eu estou apalpando na mão e que tu me consagraste, figura-se-me sentir o correr caprichoso e ondeado das lagrimas que choraste emquanto o vento ramalhava nas arvores, a saraiva estrepitava nas janellas, e tu desvelavas as tuas noites de inverno, resignadamente ajoelhada junto do berço em que rabujava o teu pequeno. Quando sinto no rosto o aspero contacto dos teus eriçados folhos bordados, beijo-os piedosamente, beijo-os eu, como se fosse um anjo bom que me tocasse com a ponta das suas azas purificadoras e brancas!

Mas além do cheiro do bragal, que me envolvia como um afago mandado de longe, havia na minha cama outro perfume que contrastava singularmente com este. Era o que aromatisava a pelle d'aquella mulher desconhecida, e que me ficara na mão que ella apertou. Respirei-o com uma curiosidade irritante, que me pungia e me dilacerava. Ai de mim! collei os labios na mão aberta sobre o meu rosto, e principiei a sorver esse mysterioso respiro de um paraiso ignoto e longinquo.

É monstruoso, infernal, o turbilhão das idéas que esse aroma extranho, penetrante e cálido, me revolveu na cabeça.

Sentia os fogachos, as palpitações, a hallucinação da febre.

Quando pela manhã me levantei, sem haver dormido em toda a noite, tinha o travesseiro inundado em lagrimas...

Perdôa-me, Therezinha! minha Therezinha, perdôa-me...

Não foi pensando em ti, meu puro anjo, que eu chorei tanto n'essa noite!

II

Soube d'ahi a dias que a senhora com quem me encontrára era a condessa de W. A figura d'ella tinha-me ficado moldada na memoria como o rosto de um cadaver em uma mascara de gesso. Estava no Rocio quando me disseram o seu nome, ao vêl-a passar em carruagem descoberta.

Ia reclinada para o canto de uma victoria, quasi deitada, morbida, abstrahida, indifferente, como se uma aureola invisivel a segregasse dos aspectos e dos ruidos da rua, grosseiros de mais para lhe tocarem. Tinha uma seducção hallucinante, vestida de verão, com uma simplicidade cheia de mimo e de frescura, uma graça que se adivinhava mais do que se via e que menos appetecia ver do que respirar. Levava no seio uma rosa côr de palha, e uma pequena madeixa de cabellos finos, dourados, transparentes, soltos do penteado, cahia-lhe na testa.

Cravei os olhos n'ella e tirei o meu chapeu; ella viu o meu cumprimento, olhou-me, como se eu lhe apparecesse pela primeira vez, com a mesma indifferença com que olharia para uma vidraça vasia ou para uma taboleta sem distico, e proseguiu inalteravel e immovel como a imagem preguiçosa da formosura arrebatada do seu pedestal por um cocheiro agaloado e por dois cavallos a trote.

Continuei a passear com um amigo com quem estava e cobri tanto quanto[1] pude com algumas palavras rancorosas a respeito da politica a commoção que sentia.

Momentos depois, passou na mesma direcção que tinha tomado a carruagem da condessa, um _coupé_ escuro, sem letras nem armas, com todas as cortinas cerradas. Esta circumstancia, aliás naturalissima, encheu-me de indignação e de rancor. Imaginei possivel que aquelle trem seguisse o da condessa e, não sei por que processo do coração ou do espirito, nasceu-me o desejo de arrombar essa carruagem e calcar aos pés o homem que lá estivesse dentro.

--Estás a tremer! disse-me o amigo a quem eu dera o braço.

--Não é nada... um estremecimento nervoso.

--Impallideceste, tens os beiços brancos e as orelhas encarnadas...

--Foi uma vertigem. Dá-me isto ás vezes.

--Ahi tens! é o effeito das vigilias e do abuso do tabaco nas funcções do coração.

--E debilidade resultante da fome, exclamei eu sorrindo e mal podendo conservar-me de pé. Adeus que vou jantar!

E entrei na primeira carruagem de praça que passou por nós, emquanto o meu companheiro accrescentava:

--Agora estás afogueado e vermelho como lacre: toma ferro e bromureto.

Quando cheguei a casa tinha febre, e via por fóra do casaco o bater do coração.

Não tornei mais a encontral-a senão na noite da catastrophe.

O meu romance mysterioso e absurdo acabou então, cedendo o seu logar á tragedia em que entramos juntos.

III

Foi na noite de 20 de julho passado. Eu voltava de casa de Z... com quem tinha estado até ás duas horas; ía chegar quando senti atraz de mim os passos de duas mulheres. Parei. Ellas passaram por mim, descendo do passeio em que eu estava, e caminhando apressadamente. Entrevi-as á luz de um candieiro. Uma era alta, sêcca, direita, edosa; a outra--para que hei de descrevel-a?--era ella. Um relance de olhos, e conheci-a logo.

Ia inquieta, arquejante, abafada em pranto e em soluços. Commoveu-me tanto o aspecto passageiro d'essa grande angustia, d'essa dôr suprema n'aquella formosa mulher ha poucos dias ainda tão patentemente feliz, radiosa, intemerata, que eu daria n'esse momento a minha vida inteira, para a não vêr assim dobrada na lama de uma rua escura e deserta, pelo que ha mais violento, mais voluntario, mais hostil, mais implacavelmente humano: a desgraça... Ella, a viva imagem da delicadeza e do mimo, expressão suprema da belleza, do dominio, da omnipotencia terreal, via-a de repente succumbir envolvida pela serpente cuja cabeça eu imaginava segura pelo seu pé sobre um crescente de lua!

Fiquei por um momento perplexo. Por fim os meus passos apressaram-se para ella, sahi-lhe ao encontro e disse-lhe convulsivamente:

--Senhora condessa de W..., vejo que chora. É certamente um successo extraordinario e terrivel. V. Ex.^a parece-me só e desprotegida n'este bairro; sómente em tão excepcionaes circumstancias eu poderia permittir-me a liberdade de lhe fallar. Disponha de mim, minha senhora, como se dispõe de um amigo ou de um escravo para a vida e para a morte.

Ella parecia escutar sem me comprehender, n'uma grande inquietação. Á ultima palavra que proferi:

--Para a morte!--repetiu ella n'um grito de delirio. Quem lh'o disse? Como o soube?

E apoiando-se no braço da senhora que a acompanhava, segurou-se n'ella com um movimento convulso de pavor, ergueu o rosto para mim e fitou-me, trémula, supplicante, com os olhos hallucinados e lacrimosos.

--Que quer? Diga!--accrescentou ella. Vem prender-me? aqui me tem. Leve-me.

E tendo dito isto, voltou-se successivamente para todos os lados, olhando a rua com a mais exaltada expressão da confusão, da vergonha e do medo. Era a angustia personificada pela maneira mais viva e mais lancinante. Eu sentia o coração cheio de lastima e de piedade.

--Perdão,--disse-lhe,--socegue, por quem é! Eu nada sei. Não venho prendel-a, nem venho interrogal-a. Não sou um juiz, nem um espião, nem um carrasco. É esta a terceira vez que a vejo em minha vida. A primeira foi n'esta mesma rua ha cerca de um mez, no momento em que um cocheiro lhe pedia o aluguer de um trem. A segunda vez foi de passagem no Rocio ha quinze dias. Sou um amigo seu desconhecido, obscuro, anonymo. Suppunha-a no apogeu da fortuna e da felicidade. Tive-lhe inveja e odio. Encontro-a, ao que parece, á beira de um abysmo e não acho na minha alma doente e magoada senão enternecimento e dedicação! é, então, desgraçada como os outros... coitadinha! coitadinha!

E a minha dôr era profunda e sincera, a minha compaixão illimitada.

--Não sei, tornou ella, estou tão perturbada que não o comprehendo bem; estou tão afflicta que não o reconheço bem, entrelembro-me apenas... Mas parece-me generoso e compadecido... Ah! eu não posso ter-me em pé!

Dei-lhe o braço, que ella acceitou, e ficou um momento amparada em mim e na pessoa que a acompanhava, immovel, com a cabeça reclinada para traz e a bocca aberta, bebendo ar a longos sorvos.

--Vamos! disse ella depois de uma pausa. Não posso ficar, não posso morrer aqui; tenho que escrever, preciso de chegar a casa quanto antes.

E fazendo um grande esforço continuou a caminhar apoiada como estava, com passo vacilante e vagaroso, anciada, arquejante, parando a todo o momento para receber nos pulmões o ar que lhe faltava.

Eu ia absorvido pelo aspecto de tamanha dôr. Acudia-me de longe a longe uma palavra, que não me atrevia a pronunciar, receiando que ella podesse imaginar que eu tentava perscrutar a causa do seu infortunio com uma indiscrição grosseira.

A rua em que iamos andava-se concertando e estava coberta de uma camada de seixos britados e soltos, por cima de cujos angulos percucientes e cortantes eramos obrigados a caminhar. Chegavamos á esquina da rua quando ella, voltando-se para a pessoa que a acompanhava, e que então vi ser uma criada, lhe disse:

--Betty, calça-me o sapato. Saiu-me do pé.

A criada ajoelhou-se, e exclamou:

--O setim está espedaçado! O pé deita sangue!

A condessa pareceu não ouvir, e continuou a caminhar resolutamente.

Maravilhava-me e compungia-me o valor d'alma d'aquella debil natureza, e sentia-me arrebatado a levantar do chão e a transportar nos meus braços aquelle formoso corpo tão corajosamente subjugado. Felizmente, de uma travessa proxima desembocou pouco depois um trem de praça, vasio. A condessa, que tinha visivelmente a maior pressa de chegar, entrou, com a criada que a acompanhava, na carruagem que eu mandei approximar. Fechei a portinhola e disse á condessa baixo, quasi ao ouvido, dando-lhe o meu bilhete:

--Minha senhora, quaesquer que sejam as causas, quaesquer que sejam as consequencias da extranha aventura que acaba de approximar-se de v. Ex.^a, vá na firme certeza de que ninguem no mundo saberá do encontro que acabamos de ter. Se nunca precisar de mim, continuarei como até hoje sendo na sua existencia um homem inteiramente desconhecido, o qual de ora ávante considerará as suas relações com v. ex.^a exactamente no estado em que estavam antes de a ter visto pela primeira vez.

Ella respondeu-me enternecidamente:

--Bem haja por essas palavras de bondade, que são talvez as ultimas benevolas que eu tenho de ouvir n'este mundo. Quando souber--porque tem de se saber isto, meu Deus!--o que, desde esta horrorosa noite eu fico sendo perante a justiça e perante a sociedade, diga á sua mãe, á sua irmã, á sua amante, se tem amante, que me não odeiem ellas, ao menos! que eu sou menos criminosa do que lhes hei de parecer, que lhe confessei isto, ao despedir-me de si, entre a vida e a morte. Adeus!... Não lhe dou a mão... Sou indigna da amisade das pessoas de bem. O mais que eu posso pedir, eu, é piedade... Tenha piedade de mim... Adeus!

A carruagem tinha rodado a distancia de alguns passos quando parou outra vez a um gesto da condessa; ella mesma abriu a portinhola, desceu e dirigiu-se a mim. Fui ao seu encontro.

--Quero fallar-lhe ainda, disse ella.

E depois de uma pequena pausa, em que parecia coordenar idéas dispersas, accrescentou:

--Foi talvez providencial o nosso encontro aqui, a esta hora, n'esta rua... É talvez a unica pessoa que Deus quer permittir que me proteja, que seja por mim. Tenho um parente a quem vou escrever immediatamente entregando-lhe este segredo. Receio que elle se não ache em Lisboa. Sendo assim, não sei de quem me confie. Se tiver no seu coração tanta misericordia e tanta bondade que queira valer-me, procure-me em minha casa, ámanhã, ás 11 horas.

E dando-me a sua morada em Lisboa, entrou outra vez no trem que partiu.

Singular commoção a que produziu em mim essa mulher de quem acabava de saber que tinha commetido um crime; sentia-me inclinado a ajoelhar-me aos seus pés dilacerados e adoral-a!

IV

No dia seguinte á hora assignada apresentei-me em casa da condessa.

Era um predio de um só andar, simples, branco, todo fechado. Abriu-se-me a porta da rua, appareceu-me um criado vestido de casaca azul com botões brancos, collete encarnado, calção curto. Era um homem velho, de cabellos brancos, polido e nedio como um embaixador, serio como uma estatua, penteado como um gentleman. Fallou-me em francez e conduziu-me.

As escadas eram pintadas e envernizadas de branco, luzidias como o peito engommado de uma camisa. Ao meio dos degraus corria um tapete de veludo passado em varetas de cobre reluzente. No patamar projectava-se da parede uma concha de alabastro, cheia de plantas de longas folhas, em cima das quaes gotejava a agua de uma pequena fonte. No alto da escada a mobilia era branca, as paredes forradas de verde, cobertas de molduras doiradas encerrando quadros a oleo. A luz, suave e alta, vinha atravez de vidros baços. Havia o ar sereno e o perfumado silencio de uma tranquillidade elegante e feliz. Não me parecia o palacio de um fidalgo, nem o palacete de um burguez, mas sim o ninho domestico de um poeta ou de um artista.

Levantou-se um reposteiro e entrei em uma sala forrada de coiro, circumdada de sophás e de poltronas com estofos de marroquim cravejado de aço, grandes vasos de porcelana e alguns bronzes, um dos quaes representava o busto da condessa, assignado e datado de Milão. Um dos espessos reposteiros que cobriam as portas estava corrido e deixava ver, no meio da casa proxima, que era um salão antigo, um piano de ebano volumoso e longo em cujo flanco se lia em grandes caracteres de prata o nome de Erard. Junto do piano, inclinado sobre um _fauteuil_, achava-se um violoncello defronte de uma estante de marfim. Sobre as chaminés de marmore havia alguns livros e vasos com flores. Os moveis estavam dispostos de maneira que parecia conversarem baixinho em coisas delicadas e intimas. Sentia-se que estava ali, domiciliada n'um aconchego feliz, uma existencia espirituosa e contente: percebia-se no ar e no aspecto das coisas, o vago prestigio do perfume, da harmonia, do calor, que as pessoas que ahi tivessem estado haviam derramado em volta de si, conversando, lendo, fazendo musica. Eu tinha levantado os olhos de um livro sobre a mesa do centro da sala, quando vi defronte de mim, ao fundo de um grande espelho, uma figura immovel, tectrica, espectral. Voltei-me rapidamente, e não pude reprimir um grito de pasmo e de terror. Era a condessa.

Horrivel transformação por que ella passára! Durante as poucas horas que haviam mediado entre esse momento e a ultima vez que a vira, a condessa de W... tinha envelhecido dez annos. Os olhos profundamente encovados haviam tomado uma expressão apagada e immovel; a carne tinha uma côr terrea e opaca; os musculos faciaes, contrahidos na mais violenta oppressão, davam-lhe ao rosto, transversalmente vincado por dois sulcos escuros, o aspecto de uma magreza extrema; os cabellos apanhados todos para traz, alizados e seguros n'um rolo sobre a nuca, avultavam-lhe o nariz afilado e despegavam-lhe do craneo as orelhas lividas, de uma saliencia rija e cadaverica.

Fez-me signal que a acompanhasse. Segui-a com a sensação enregelada de quem entra nos dominios da morte. Atravessámos uma sala e entrámos em um dos quartos d'ella. Apontou para um sophá e sentou-se ao meu lado, olhando para mim, impassivel.

Ficou assim por um momento na mudez de uma dôr intraduzivel, pausa terrivel em que a alma emerge de um abysmo de lagrimas e se debate violentamente antes de apparecer na voz. Tinha os labios entre-abertos como os de quem vae soltar um grito, e o queixo tremulo oscillava-lhe como o das creanças subjugadas pelo terror no instante de lhes rebentar o pranto. Por fim disse-me lentamente, com palavras pesadas, firmes, entrecortadas, como se estivesse retalhando o coração e dando-m'o em bocados!

--Peço-lhe que não me condemne pelas primeiras palavras que vae ouvir.

E, em voz baixa, depois de um breve silencio, accrescentou:

--Eu matei um homem.

--Que diz?! gritei eu estupefacto. Está louca! enlouquceu!