O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Part 11
--Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d'esta pobre rapariga que para aqui morreu no mar... E digam: pobre Carmen! ahi está uma que sabia amar devéras!
E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.
O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.
Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra Carmen, estendeu a bandeira ingleza.
XIV
Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar. O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o Cabo, eu vi saltarem as lagrimas...
--Pobre creança! diziam elles.
Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de branco, pallidamente linda, era a _miss_, a virgem, a creança! Um arranjou-lhe uma corôa d'algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh'a sobre o peito. Era o ramo de flôres do mar.
Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu, durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas desgraças.
A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadaver, pendente d'uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n'uma immobilidade angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.
--Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante das aguas. Uma febre d'amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como _monitores_ armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d'um amor que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!
De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e photographado? Fizeste parte, durante a vida, d'aquellas insensiveis bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou como a penna d'um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a dispersão!
Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convez d'um navio, só, sempre no meio de homens, como na vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes marinheiros, que veem agora da sua ração d'aguardente. Nem um padre catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!
Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres em plena liberdade da natureza.
Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n'um quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos elementos!
Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!
Não te pregarão n'um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os teus cabellos; poderás toucar-te d'algas; os raios do sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife será o infinito azul.
Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.
Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo como n'uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado d'algum louro principe, outr'ora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!
Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancolico velho que visita os seus mortos.
Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome...
Um marinheiro bateu-me no hombro.
--São 11 horas, disse elle.
Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado formando no meu cerebro n'aquelle triste scismar, disse commigo:
--Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.
Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda. Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes.
Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o. Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As botinhas d'ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina.
O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E affastando-se, disse:
--_In eternum sit!_
Todos responderam:
--_Amen!_
O vento gemia. Lord Grenley adiantou-se e disse em voz alta:
--N'este dia, a bordo do _Romantic_, navio inglez, morreu Carmen Puebla, de nação hispanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo sepultada em territorio britannico, foi amortalhada na bandeira ingleza. _In pace_.
--_Amen!_ responderam os marinheiros.
--Em nome do Padre, disse o capellão, do Filho e do Espirito, santa seja a sepultura a que ella é deitada, e que fique como em terra sagrada n'estas aguas do mar!
--_Amen!_ murmuraram os marinheiros.
--Ao mar! disse lord Grenley com voz forte.
Os dois marinheiros suspenderam o cadaver sobre o mar; todos se approximaram, fazendo circulo com os archotes; o cadaver, arremessado, mergulhou com um som lugubre, desappareceu, e a espuma das vagas correu-lhe por cima.
Os archotes foram apagados n'um triste silencio. O navio affastava-se. Eu, encostado á amurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo desapparecera. Ella alli ficava morta. Encheu-me o peito uma longa saudade. Lembrava-me d'ella, dançando no convez do _Ceylão_, rindo á mesa de _Clarence-Hotel_. Tudo tinha acabado. Nunca mais! nunca mais! Alli ficava com uma bala aos pés!
O vento refrescou.
--Vento d'Eeste! disse o marinheiro de quarto.
--Vem de Malta... pensei eu.
E as minhas ultimas lagrimas cairam sobre o mar...
XV
Cheguei ao fim das minhas confidencias.
Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao fim d'esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: _batia-se o fado!_ No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em Londres, com Rytmel. Voltou d'essa viagem mais triste e mais pallida. Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim. Apartei-me, n'uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta.
Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões formara, affirmava-se agora n'uma communhão serena de sentimentos e de idéas. N'uma d'essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga irlandeza...
«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!» dizia-me elle.
No começo d'esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas palavras:
«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos; uma casa affastada e livre n'um bairro pobre; um _coupé_ escuro com bons _stores_; reserva e amisade.--_Frater, Rytmel_.»
Executei escrupulosamente as suas determinações.
Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton. Pareceu-me mais triste, mais concentrado.
Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo n'alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa, fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d'elle saiu uma confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no indefinido da conversação.
A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.
Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n'um _coupé_ cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.
De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço, em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo. Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a _Imitação_.
N'um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.
Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na _Trapa_, no socego immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.
Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N'esse tempo estava ella absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então escreviam pequeninos poemas no tablado do _Theâtre du Prince Royal_.
Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:
«Meu primo: Se um gelado tomado n'um terraço com uma velha amiga não sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão). Traga o seu amigo Rytmel.»
Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na estrada de... n'um _coupé_ com os _stores_ corridos.
A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta, apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d'outr'ora, cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.
Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler. A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se n'um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As cousas pareciam contemplar e sonhar.
Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado desenho, a pura perfeição d'aquella maravilhosa e pequena chavena, que a condessa chamava a _sua taça_.
--O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel, sorrindo.
--E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque, representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar ponho-a dentro d'essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!
Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da condessa,--encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande antiguidade á tradição do amor!
Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu no entanto olhava a condessa.
Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás figuras louras.
Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n'um estado de suave e vago romantismo...
De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do _Rei de Thule_.
Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que a condessa gostava de a dizer, em logar d'usar as palavras italianas com a sua banalidade de _libretto_.
Houve outr'ora um rei de Thule A quem, em doce legado, Deixou a amante ao morrer Um copo d'ouro lavrado.
Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada, enlevado no penetrante encanto d'aquella canção, olhava a agua do tanque, onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão.
Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz continuava, triste como a propria ballada:
Sempre o rei achava n'elle Um sabor da antiga magoa, E se por elle bebia Tinha os olhos rasos d'agua.
--Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se.
Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua mão tremia a pequena chavena dourada.
Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu, vibrando mais saudosa no silencio:
N'alta esplanada normanda Batida da fria onda Reune os seus irmãos d'armas A uma tavola-redonda...
Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado:
--Foi talvez como n'uma noite d'estas, disse ella. Estamos em plena legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d'elle, o presentimento da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar!
E cantou os derradeiros versos da ballada:
Foi-se com tremulos passos Na amurada debruçar... E com as suas mãos antigas Atirou a taça ao mar!
Junto ao seu corpo real Estão os pagens a velar E a taça vae viajando Por sobre as aguas do mar...
De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou irreprimivel impulso d'um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares.
A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel:
--O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse!
Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula, e penetrámos na sala.
D'ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a minha intenção foi sincera.
+AS REVELAÇÕES DE A. M. C.+
I
Senhor Redactor.--Dirigindo-lhe estas linhas, submetto-me á sentença de um tribunal de honra, constituido para julgar a questão levantada perante o publico pelas cartas do doutor *** estampadas n'essa folha. Obriguei-me a referir quanto se passou por mim como actor d'esse doloroso drama, e venho desempenhar-me d'este encargo. Possam estas confidencias, escriptas com o mais consciencioso escrupulo, conter a lição que existe sempre no fundo de uma verdade! A existencia intima de cada um de nós é uma parte integrante da grande historia do nosso tempo e da humanidade. Não ha coração que, desvendado nos seus actos, não offereça uma referenda ou uma contestação aos principios que regem o mundo moral. Quando o romance, que é hoje uma fórma scientifica apenas balbuciante, attingir o desenvolvimento que o espera como expressão da verdade, os Balzacs e os Dickens reconstituirão sobre uma só paixão um caracter completo e com elle toda a psychologia de uma época, assim como os Cuviers reconstituem ja hoje um animal desconhecido por meio d'um unico dos seus ossos.
* * * * *
Sabem que sou natural de Vizeu. Criei-me n'uma aldeia encravada entre dois montes da Beira; açoitado de quando em quando por meu pae, quando lhe esgalhava alguma arvore mimosa do quinteiro; abençoado por minha mãe como a esperança dos seus velhos annos; coberto de prophecias de gloria, como o pequeno Marcello da freguezia, pelo reitor, o qual algumas vezes depois de lhe ajudar á missa, aos dez annos de idade, me argumentava na sachristia as declinações latinas. Era escutado este prodigio por um auditorio composto do sachristão e do thesoureiro, que com os chapeus debaixo do braço, coçavam na cabeça e olhavam para mim arregalados e attonitos. A um recanto, minha mãe sorria, com os olhos banhados de ternura, do fundo da caverna formada em redor do seu rosto pela côca de uma ampla e poderosa mantilha de panno preto.
Fiz depois os estudos preparatorios no lyceu da cidade, e vim finalmente matricular-me em Lisboa na escola de medicina.
Vivo pobre, humilde e obscuramente, tenho a minha existencia adstricta a uma pequena mezada, á convivencia de alguns companheiros de estudo e ao trato de duas senhoras velhas e pobres, irmãs de um capitão reformado, antigo aboletado de meu pae, em cuja casa de hospedes eu tenho por modico preço a minha moradia na capital.
A unica luz que atravessava a sombra da minha vida de desterro, de desconsolo e de trabalho, era a lembrança de Therezinha...
Therezinha! a doce, a meiga, a querida companheira, á qual eu consagro principalmente estas paginas, que são o capitulo unico da minha vida que ella não conhece, a confissão sincera, a historia completa do unico erro de que posso accusar-me perante a sua innocencia, a sua bondade, e o seu amor!
Therezinha! adorada flôr escondida entre as estevas dos nossos montes, que ninguem conhece, que ninguem viu, de quem ninguem se occupa, e que no emtanto inundas ineffavelmente a minha mocidade e a minha vida com o sagrado perfume de um amor casto, puro, imperturbavel e calmo como a luz das estrellas.
Se tu as entenderás, minha innocente amiga, estas palavras!
Se me perdoarás, tu, a enfermidade passageira e mysteriosa, cuja historia eu ponho confiadamente nas tuas mãos, pedindo-te, não o balsamo da cura para uma chaga que está fechada para sempre, mas o sorriso da benevolencia e do perdão para a vaga e sobresaltada melancolia do convalescente ajoelhado aos teus pés!
Como quer que tenha de ser, minha noiva, eu entendo cumprir perante a minha consciencia um dever sagrado contando-te, sem omissões e sem reticencias, tudo, absolutamente tudo, quanto se passou por mim. A verdade é que te amo! que te amo, e que te amarei! Outra imagem, incoercivel, vaporosa, vaga, perpassou por mim, mas esvaiu-se como a sombra de um sonho doentio, varada sempre pelo teu olhar candido que atravez d'ella se fixava e se embebia constantemente no meu.
Uma noite, ha dois mezes, recolhendo-me por volta das nove horas a minha casa, que fica situada em um dos bairros excentricos de Lisboa, encontrei parada uma carruagem de praça, cujo cocheiro altercava grosseiramente com uma senhora, que estava em pé junto do trem, vestida de preto e coberta com um grande veu de renda. Esta senhora trocou algumas palavras com outra mais idosa que a acompanhava e disse ao cocheiro com uma voz singularmente fina, tremula, delicada, musical, como nenhuma até então ouvida por mim:
--Onde quer que lhe mande pagar?... Não trago mais dinheiro.
--Importa-me pouco isso, respondeu o cocheiro. Quem não tem dinheiro anda a pé. Já lhe disse á senhora quanto é que me deve pela tabella. Se não paga o resto, chamo um policia. Se não traz dinheiro, dê-me um penhor.
Ella então bateu impacientemente com o pé no chão, ergueu a parte do veu que lhe cobria o rosto, e principiou a descalçar convulsamente uma luva. Suppuz que iria tirar um annel. O cocheiro apressou-se a passar as guias pela grade da almofada e apeou. Tinha-me no emtanto approximado, e no momento em que elle dava o primeiro passo, impellido por uma forte commoção nervosa, estendi-lhe com as costas da mão uma bofetada que o fez cambalear e cair de encontro á parelha. E dando-lhe em seguida uma libra, que trazia no bolso:
--Ahi tem pela bofetada; contente-se com o que lhe deram pela corrida.
Diria que alguem por traz de mim suggerira estas palavras romanticas, a tal ponto ainda hoje pasmo de as ter eu mesmo inventado como solução d'effeito oratorio, para similhante contingencia!
O cocheiro levantou a moeda, examinou-a á luz da lanterna, subiu outra vez á almofada, e partiu dizendo-me:
--Boa noite, meu amo!