O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias

Part 10

Chapter 10 3,843 words Public domain Markdown

No emtanto, tinha a curiosidade excitada. _Alguem_ tinha entrado mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu tinhamos a chave d'aquella porta do jardim. Mas onde estava esse _alguem_? Teria entrado, e saído logo? N'esse caso não era uma entrevista d'amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora escura, o silencio, a chave falsa?

_Alguem_ teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.

Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no _office_. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha sido encontrado n'uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.

Tudo isto me causava uma singular curiosidade.

--Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por ahi haja alguma _agua tufana_. Sejamos prudentes.

Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se violentamente.

Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa.

--Que foi? bradei.

Ella tinha caido n'um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos.

Eu borrifava-a d'agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:

--Que foi, minha querida, que foi?

Via-lhe os vestidos cheios de sangue.

--Feriram-n'a?

Ella fez um gesto negativo.

--Então? então? disse eu.

A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia n'uma agonia.

De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.

--Fale, diga, insistia eu.

--Mataram-n'o, disse ella.

--Mataram quem?

--Rytmel.

--Como? Onde?

--No jardim... Vá!

XI

Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro.

Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel.

--Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle.

--Só ferido...

--Como? onde?

Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva.

Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavicula. Vi que não era mortal.

Eu estava n'uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem?

O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia, arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada n'um _burnous_, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de _Clarence-Hotel_.

Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me disse com uma voz expirante:

--Escondam-me em qualquer parte!

Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d'um só cavallo, que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas inclinadas de _La Valette_. O _vatturino_ era italiano. Fallei-lhe vagamente n'um duello, dei-lhe um punhado de _shellings_, ameacei-o com os _policemen_, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo.

Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho, commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu contei uma incoherente historia d'assalto ao florete, em que a minha arma subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era facil comprehender que havia por traz d'ella um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de _gentlemen_.

Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.

Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel.

--Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen.

Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de _cognac_ e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se um pouco no sophá. N'aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.

Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.

Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o espirito diante d'aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de amores pagãos.

Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:

--Que quer?

Eu fiquei calado.

--Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não? Estou prompta. É pôr um chale.

--Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.

--Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos n'isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a _futilidade_. Ah! sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os _policemen_.

Eu disse-lhe então, em voz baixa:

--Fui encontral-o banhado em sangue.

Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um delirio de soluços:

--Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o que eu sinto na cabeça!... Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n'o? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a _policia_!... Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu morro, eu morro, eu morro! D'aqui a pouco começam a tocar os sinos!..

Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro.

--Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu.

--Não morreu? gritou ella.

De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia:

--Dize-me: não morreu? Está salvo?

--Está, disse eu.

--Juras?

--Juro.

--Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale! Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... Positivamente não lh'o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora? Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu!

Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes cantando.

--Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle falou no meu nome?

Veio tomar-me o braço:

--Vamos.

--Onde?

--Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira...

Parou, e desprendendo-se do meu braço:

--E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate. Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé d'elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.

Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no chão immovel.

Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d'agua; e ella com uma voz expirante:

--Eu morro! eu morro... chame um padre. Não lhe tinha dito... Envenenei-me.

--Envenenou-se? gritei aterrado.

--N'aquelle frasco, alli!

XII

O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen tinha tomado o veneno n'um preparado fraco, e n'uma porção diminuta. Podia porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pelos _ais_ soluçados que se lhe desprendiam do peito.

Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n'um chale, sentada aos pés da cama, n'uma attitude absorta de dôr e de inercia que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de flôres.

Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.

--Então? disse ella quando me viu.

--Então! elle está curado, e bom n'um mez. A condessa deve partir dentro de quinze dias.

--Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não me póde impedir isto: não m'o impeça, não?

--De modo algum, prima. Eu mesmo lh'o facilito.

--E ella?

--Ella, minha prima? Entrei no quarto d'ella para a arrastar ao primeiro _policeman_ que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a amar.

--Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.

--É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou n'este mundo n'um aspecto divino foi n'aquella mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade:--a logica.

Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel _cavalliere serviente_. Vi-a convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a imaginação doente.

Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar n'um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:

--É triste! Aos vinte e oito annos!

Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela contemplação. N'aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre n'uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá serenamente.

Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.

--É como irmã da caridade que o quero vêr!

Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama d'elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava tambem.

Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n'esse momento na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do _Baile de mascaras_, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de festa e de morte, de amor e de claustro.

Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:

--Perdôe-me, perdôe-me!

Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos.

A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e pobre Rytmel! como elle teve n'aquelle momento a ternura ideal, e o divino encanto do perdão!

Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.

--Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.

E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto, parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n'um impeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços d'elle com o phrenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos, e n'um grande silencio e n'um grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.

Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus vestidos, rendas e _toilettes_. Deu as suas joias a um padre inglez para as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.

Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia. Deixava-lhe tudo.

Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido, forte, immenso, e d'uma poesia sensual.

Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.

Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já aquillo o começo do claustro.

Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n'um lenço, e, entregando-m'o, disse:

--Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz. Ámanhã... é possivel?

--Ámanhã não; mas dentro d'uma semana, juro-lh'o, teremos visto do mar as montanhas de Valencia.

Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n'um leve vapor azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o geito do cabello. Eu por traz d'ella sorria. Ella, no enlevo do espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!

XIII

D'ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as melancholias d'ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente libertino explicava pelo _nervoso_ e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem d'ouro, seda e beijos.

Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.

Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos offerecido, a Carmen e a mim, o seu _yacht_. Aceitei com alegria. Era um transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.

Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do ceu.

Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lagrimas minhas.

Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.

Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d'uncção, que tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.

Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel instincto do irreparavel.

A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.

--Adeus! disse-me ella, vou morrer.

Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.

--Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame lord Grenley.

Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.

--Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh'o a _ella_.

Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia terrivelmente.

--Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.

Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.

--Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha escura no horisonte.

--A Africa, respondeu lord Grenley.

Ella ficou olhando vagamente:

--Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo... Era em maio...

Calou-se. E voltando-se para mim:

--Faz agora mezes que passámos n'esta altura, lembra-se? E aquelle _punch_ a bordo do _Ceylão_? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!

E como fallando comsigo mesma:

--Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d'este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois... O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n'o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.

Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.

--Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me _és bonita, amo-te!_ E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E _elle_? lembrar-se-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!

E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.

--Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia...

--Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. «Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar para outro sitio!» É bem triste este mundo!

Lord Grenley, com os olhos rasos d'agua, mordia convulsamente o seu cachimbo.

--Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. Á tarde, nas _Delicias_, todo o mundo traz um ramo de flores.

De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d'uma cousa pavorosa; levou as mãos á face, gritou:

--Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no inferno, meu Deus!

--O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os castigos de Deus não são feitos com o fogo.

--Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?

Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava a assobiar.

--Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim... Um pouco estroina, talvez... Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguem no seu _yacht_!... Que é aquillo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?

Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força para as enchugar. Depois sorrindo: