Part 3
Os elementos corrompidos, que constituiam uma civilisação, já caduca, enferma e quasi moribunda, foram por ultimo triturados, dissolvidos pela acção candente do vulcão revolucionario, que tinha por principal reagente a liberdade.
A desaggregação molecular, se assim é licito dizel-o, do monstruoso cadaver do feudalismo, da theocracia e da realeza absoluta, operou-se d'um modo geral e completo no violento e vigoroso impulso, que a força soberana do povo havia desenvolvido.
Familia, patriotismo, cohesão e unidade nacional e politica, religião, amor de dignidade, nobreza de sentimentos elevação de ideias, aspirações de gloria e a propria liberdade... tudo havia desapparecido, abysmando-se em completa desordem e anarchia, na immensa cratera, que a espantosa erupção revolucionaria acabava de rasgar no seio da França.
O imperio, a concentração, o despotismo, a tyrannia das armas, os estragos apparentes da conquista, as invasões ambiciosas d'um homem e do seu numeroso exercito, despertaram e desenvolveram por toda a parte uma nova força de cohesão e affinidade, para reunir os fragmentos dispersos, e dar ao corpo dilacerado consistencia e unidade por meio de um novo arranjo politico, religioso, moral e economico, que lhe assegurasse a existencia e uma vida regenerada e pura.
Do embate de duas forças contrarias, mas tendentes e susceptiveis de formar um dia o _equilibrio_--da acção _descentralisadora_ da republica e da acção _concentradora_ do imperio, devia mais uma vez resultar a _harmonia_!
Com a bayoneta e com a espada levava o soldado do imperio o terror e o espanto ao seio das familias nas terras, que invadia e conquistava,--era o instrumento material e automatico do despotismo.
Com a palavra, junto do lar domestico e rodeado d'essa familia, que o recebia, como inimigo e como hospede, narrava os feitos gloriosos da revolução, expunha o seu plano, traçava as suas reformas, bemdizia os seus beneficios, exaltava as suas doutrinas, applaudia o seu triumpho--era o apostolo fervoroso da liberdade, o discipulo intelligente e livre da eschola de 89.
A Constituinte tinha-lhe dominado a intelligencia e o coração; Bonaparte recrutara-lhe apenas os braços e a força muscular.
Aquella apontou-lhe para o sol da liberdade e dava-lhe como premio a emancipação: este descobriu-lhe o horisonte luminoso da gloria e promettia-lhe a corôa do vencedor.
Estas duas forças, ambas poderosas, ambas intrepidas e inflexiveis na meta, quasi sempre terminam por transigir... Se uma convence e domina, a outra seduz e arrasta; e ás vezes a razão e a consciência humilham-se ante as ambições mesquinhas dos homens... E a historia prova de sobejo que se os filhos da França amam a liberdade, prezam sobre tudo a gloria militar, o que não admira se attentarmos á poderosa influencia que sobre este povo exerceram duas raças, duas civilisações differentes--a latina e a germanica, e á sua educação guerreira.
Foi por isso que ao vulto heroico do soldado imperial seguia por toda a parte a sombra, pelo menos, do revolucionario de 89.
[2] Hoje ainda nos invejam e disputam a liberdade, o nosso mais precioso thesouro... Hoje clamam pelo irmão portuguez para que lhe cure as chagas venenosas da tyrannia e lhe restitua a vida quasi exhausta pelo despotismo com o elixir animador da liberdade!...
A liberdade!...
A liberdade, que os desventurados filhos da moderna Hespanha, os que se appellidam legitimos descendentes de arabes e godos, parece não sentirem nem conhecerem, e que muitos traiçoeiramente fingem amar, para mais facilmente a destruirem!...
Querem a liberdade que para o portuguez é a vida, que o portuguez ama e respeita, de que o portuguez é apostolo e soldado inflexivel?...
Levantem-lhe um altar e adorem-na; façam-se missionarios e propaguem-na; e, se tanto for preciso, opponham aos despotas, que os opprimem, o despotismo das revoluções.
Não clamem pelo _auxilio_ d'aquelles que, não podendo dar-lhes essa liberdade, não querem, com uma união impossivel, perder a sua!...
Os livros sanctos fallam de um Caim e de um Abel.
Terá a historia contemporanea, um dia, de personificar nelles dous povos que se dizem tambem _irmãos_?!
Venha, e bem vinda seja,--a harmonia nas leis; a uniformidade nas instituições; o consorcio das litteraturas; a aproximação dos costumes; a intimidade de relações moraes e economicas: cáiam por terra essas odiosas barreiras que estorvam a liberdade de commercio entre os dois povos, e a troca de seus productos; acabe por uma vez o repugnante systema dos passaportes; entronquem-se as linhas ferreas; facilitem-se as communicações fluviaes; canalizem-se os rios communs; celebrem-se congressos scientificos e litterarios, exposições industriaes e artisticas, _peninsulares_; venham, numa palavra, a fraternisação dos homens e a alliança dos governos; mas, para fortalecer a _autonomia_ dos _dois_ povos e garantir a _liberdade de todos_,--e o _futuro_ resolverá o difficil problema, para o qual a _natureza_ e a _historia_ fornecem dados tão differentes e heterogeneos, que o tornam _hoje_ absolutamente insoluvel.
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Em 1866, em que pela primeira vez se traçaram estas linhas, bem se presentia já o que dous annos depois veio a succeder, e se está realisando na visinha Hespanha.
Commoções violentas denunciavam o aproximar--d'uma revolução profunda para preparar uma regeneração intima,--de um esforço gigante que devia partir os ferros a essa nação escrava da tyrannia e do fanatismo, agrilhoada (e o que é assombroso!) por alguns de seus degenerados filhos ao poste do mais affrontoso despotismo e da mais ignominiosa intolerancia politica e religiosa!
Fez-se o esforço, operou-se a revolução e com tanta maior gloria quanta maior abnegação e generosidade; caíram os tyrannos, libertaram-se os opprimidos, erigiram-se altares, levantaram-se monumentos á liberdade em muitas leis e instituições, novas ou regeneradas; mas a revolução profunda no sentimento, grandiosa na ideia, sublime nas inspirações, é, fatalmente, á hora em que escrevemos mais um desengano pungentissimo que uma illusão fagueira, antes um desalento que uma esperança.
A Hespanha parece retrogradar, em vez de progredir; olha desconfiada e como receosa para o futuro que a chama, e pesam-lhe saudades do passado, saudades de amarguras, saudades do seu longo martyrio!
Desventurada Hespanha! Para que te cortam o vôo de legitimas aspirações?
Para que sem dó arrancam no teu bello jardim de esperanças as mais formosas e promettedoras?
Para que te querem agrilhoar de novo ao poste onde te suppliciaram durante tantos seculos?
Mudança de _potro_, mudança de _cutello_, substituição de _algozes_... mas sempre o mesmo supplicio! sempre os mesmos instrumentos de tortura!
Mesquinha revolução, que tão pouco alcança!
Povo infeliz! quanto mais rega com lagrimas e sangue o sólo da patria, tanto mais elle se lhe desentranha em ferro para forjar grilhões; e só produz espinhos para tecer a corôa do seu prolongado martyrio!...
Povo infeliz! mal principiava a despontar a aurora da tua _redempção_ pela liberdade, e erguem-se tenebrosas as nuvens do passado, para toldar a face ao grande astro do teu dia de gloria, projectando sombras em vez de irradiar luz!
Quando, apostolo da grande ideia, te purificavas para tomar sobre os hombros a tunica alvissima do augusto sacerdocio, prestar culto á liberdade, e entoar o hymno do progresso, que em breve deveria talvez repercutir-se em todos os angulos da Europa,--arremessam-te a mortalha destinada ao _moribundo_, ainda tincta no sangue das hectombes, com que a tyrannia oppressora celebrava as suas criminosas e lugubres victorias, e condemnam-te a mais alguns annos, e quem sabe se a mais alguns seculos de tormentoso martyrio!
Revolução de 1848 em França, de 1868 na Hespanha: datas gloriosas, e que apenas separam vinte annos de luctas não interrompidas; sonhadas aspirações, gratas lembranças d'esse sonho de liberdade, que valor, que importancia será a vossa na historia das nações?!
A França acordando encontra--o _imperio_, e a liberdade mutilada.
A Hespanha--A _realeza_, e a liberdade... talvez perdida.
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Tremenda é a responsabilidade d'aquelles que preferem á liberdade de todos as pompas deslumbrantes, mas vãs, d'uma _côrte_ apparatosa!...
End of Project Gutenberg's O Marquez de Pombal, by Manuel Emídio Garcia