O Marquez de Pombal (folheto para poucos)

Part 2

Chapter 22,408 wordsPublic domain

Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado com um sujeito por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade. Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do ministro.

Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros».

José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de Mascarenhas leiam o _Perfil do Marquez de Pombal_ pelo snr. Camillo Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos menos importantes que digam respeito á crueldade de Pombal; por isso, lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento.

* * * * *

O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu porquissimo nariz--immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.

Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a celebração do santo sacrificio da missa».

O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe provarem o grau de intelligencia.

Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.

Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do sacrificio, que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era falsificado com misturas reles.

O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro _Le Marquis de Pombal_, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa.

* * * * *

Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, depois do terremoto de 1 de novembro de 1755.

Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem que o nome dos ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em 1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a narração.

Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua Augusta e rua da Prata?

O que pertence ao marquez--e traz o cunho indelevel d'esta individualidade--são os avisos mandados expedir depois do terremoto. Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando trabalhar nas obras da cidade bandos de operarios com fome, chicoteados e mal remunerados.

Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo com que ha sete annos lhe celebraram o centenario.

Porque--que isto se saiba!--quando este homem se retirou do poder deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria fome![5]

* * * * *

Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja.

Em Hespanha, _ministrava_ Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um intrigante que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da conversação. Monopolio facil:--monopolio do espirito dos outros:--de Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo!

Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo, mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, junto dos dois que com o seu cynismo mais concorreram para o descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje seriam--talvez!--dois citados escriptores illegiveis da _Revista dos Dois Mundos_! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições.

A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus inimigos--até Voltaire!--protestáram contra ella.

D'Alembert dizia:

«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.

«A todos estes meios de augmentar a sua consideração e credito juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.» Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve _Dominus ac Redemptor_, que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.

Firmava-o o pulso fraco,--mas parricida!--de Clemente XIV que em pleno peito apunhalava os seus mais zelosos filhos.

Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de supprimir a Ordem.[6]

* * * * *

Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu.

Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta disparando sobre elle um olhar carregado e colerico.

O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro desprezivel--e já desprezado!

A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos maiores desfeiteadores o cardeal Cunha--um antigo amigo do marquez. Bom homem!

D. José--o gordo--morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777. A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião de Carvalho. Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de escriptor.

D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as garras--porque já não podia arranhar.

Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos respeitos que não recebia, este velho--velho como a estupida maldade do seculo em que viveu--era o espantalho sinistro do seu passado terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era o espectro vivo d'um monstro amortalhado no sudario de infamias, parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca--e fôra perdoado!

É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos despojos da invasão franceza.

Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos.

* * * * *

Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez de Pombal morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus dias![7] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante.

FIM.

[1] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco _Perfil do Marquez de Pombal_. Porto, 1882.

[2] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez _l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello_, etc., etc. Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13.

Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.

[3] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença, deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos. O rei modificou-lhes esta tremenda morte.

[4] 23 de fevereiro de 1757.

[5] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o.

[6] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc.

[7] Foi tão medonho o supplicio do Pelle que os frades arrabidos desmaiaram no meio da execução, e o carrasco para acabar com a victima teve de estrangulal-a com o lenço.

PORTO--TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA.

_Cancella Velha, 70_

OBRAS PUBLICADAS

José de Sousa

Notas de pedagogia philosophica. 1 vol. ... 400

Caldas Cordeiro

O Marquez de Pombal. (Folheto para poucos) ... 100

Victor Hugo

O rei diverte-se. Drama em cinco actos, em verso. Traducção de ACACIO ANTUNES. 1 vol. ... 600

NO PRÉLO

Teixeira Bastos

Sciencia e Philosophia (Ensaios de critica positivista) ... 1 vol.

Sá Chaves

Episodios militares e casos contemporaneos (Etographias portuguezas) ... 1 vol.

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