O Marquez de Pombal á luz da Philosophia
Chapter 2
O Genio eternisava em breve a Pomponace, E o forte Rabelais batia face a face A escolastica, e a lei theocratica e politica, Bem como o abuso annexo á concepção juridica.
A Patria lusitana, a joia do Occidente Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente, Que açouta o clero hostil com látegos de risos, E nem sequer poupando os _santos paraisos_. Na praça era o judeu sujeito a atrocidades; Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.
Havia pois de um lado a força da rotina E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.
Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode, Roma chega raivosa, e vê que nada póde. Copernico affirmava a terrea rotação, Perdia o seu prestigio a _santa_ religião! Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa! O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa Se havia já mostrado o movimento á Terra; Porém a Curia segue em furibunda guerra, E condemnou-lhe a obra.
Mas eis um luctador que a força audaz redobra, E com coragem fria Procura no infinito as leis da astronomia. Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.
E o mundo olha assombrado o insigne Galileu, Que segue passo a passo O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.
Se ha nome que de Gloria esplenda no universo, É o d'esse velho nobre Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso, Mas que ao Genio descobre A esteira do futuro, a via dos heroes Que põem no Progresso os rubidos pharoes!
A quéda do Oriente, estremecer convulso Havia dado á Ideia um vigoroso impulso, Civilisando a mente e pondo em toda a parte O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte. Então o aureo paiz dos inclitos varões Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES, A synthese do Genio, um estro democrata Assombro dos Ideaes, talento que arrebata!
Que bella actividade! Um cyclo era uma escola De sublimado intento!... Porém vê-se descer o manto de Loyola Por cima d'esse advento, E logo a aurora cae nas garras do terror, E logo a humana gloria exprime no estertor Que a prostra um assassino!
Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino Feriram mortalmente O abuso, a tyrannia e o repugnante agente Das penas infernaes, Geradas no rancor das hyenas clericaes.
A lucta assim travada é turbulenta e audaz! De um lado impera altivo o monstro Satanaz. E do outro a aspiração das comprovadas cousas. A aurora veste lucto, a terra veste lousas, E o sangue corre a flux no precipicio escuro...
Mas elle fecundou os germens do Futuro! .......................................
Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho Da creação divina; os livros do infinito Já tinham revelado, em phrases de planetas Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas.
Descartes ampliára as lucidas conquistas E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas; E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal, Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal, Com satyra cortante e lucido criterio, Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio.
Desfibrava-se a pouco a lenda theologica, E punha-se a attenção na historia geologica, Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha No valle, e na montanha, Á esphera onde se agita o Genio e o desatino. Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino, E todos, sem sentir, Fizeram o passado esmorecer, ruir.
A antiga historia china oppunha-se á utopia Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia Os cerebros levava á nova experiencia, Que em breve provaria á forte intelligencia A historia da Materia No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea. ................................................ Brotava na Consciencia a aspiração politica; Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica, E em todos os sentidos Se pressentiam já os turbidos ruidos. Voltaire e Diderot entravam no futuro. Desmoronando o muro Que ainda protegia a treva e o fanatismo. Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo! Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião Vibrados pela firme e rija Evolução. Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo, Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo, Sem verem que aluida a base do edificio Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio, Desaba fatalmente em multiplas bastilhas.
Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas, E o genio dos heroes deixara esteiras certas Á bella exploração das ricas descobertas. No clima luxuriante, e terras do Equador Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor, E o Homem que estudava, o Homem já sabia Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia. .............................................. N'este mar revoltoso é que se eleva o homem Que uns coroam de luz, outros na campa somem!
VI
O marquez de Pombal, producto do seu meio, Trazia na Consciencia o salutar anceio Das santas cousas bellas. Mas um facto mental, o facto do attavismo, Acorrentava-o sempre ao velho despotismo Dos thronos e das cellas.
A corrente soprada além, da heroica França, Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança Das creações mais caras; Porém n'esse combate imigo do Direito, Cedia tristemente á voz do Preconceito, E ás perversões ignaras.
Demonstra-o fartamente o proceder confuso Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso De mortes e afflicção, Curando juntamente, e com visivel gloria, De lhe aplainar a rude e fria trajectoria, Por meio da instrucção.
Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho Do seculo passado, Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas, Expostos com vigor, e com profundas vistas De um espirito avançado.
Comprova-o a friesa usada com Fylinto Que longe do seu ninho, o doce riso extincto, Chorava, em lyra de ouro, As ruinas da ventura, o azul do patrio lar, As aguas do Mondego, e as vibrações do luar Entre os jasmins e o louro.
A ethopéa social dos seculos transactos, Reflecte-se e vigora em seus funestos actos. Fluctua sem cessar seu espirito viril, Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil. Mas n'elle transparece uma tendencia rude Que punge a leal Virtude!
A statica mental aperta-a pelos pulsos; E a dynamica então imprime-lhe os impulsos Da progressiva lida; E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.
Porém quando abordou á estancia derradeira Deixava atraz de si a sanguinosa esteira, Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança Reclamam com vigor criterio e segurança Ao tribunal da Historia, onde serão julgados Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados. .............................................. Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz, Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus O affecto que daria a irmão, se irmão tivera, Venero o positivo, e nunca a van chimera.
Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso, Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso, As heras infantis que enleio na Consciencia, A força que me impelle á lucta da inclemencia Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas Odeia a quem cultiva as rosas christalinas No coração do Bem, Progresso e Liberdade, Seguem a religião do Justo e da Verdade, É a sua crença ideal, Resume-se no amor do seu sentir filial.
Mas tendo a mente forte e despresando os idolos, E combatendo firme os monumentos frivolos, Politico-sociaes, Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes Da vida do marquez, E vejo com tristesa o nome portuguez Coberto pelo horror, Quando podia ser um foco de explendor.
A queda do jesuita é justa, é rasoavel; Expulsa essa barreira imiga insuperavel, Podia a sociedade erguer-se da ignorancia, Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia Ao Pensamento novo, a santa aspiração!
É digno de louvor quebrar á inquisição Os braços da vingança a ira da torpesa.
Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa, Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente, Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente, Rojado pelo chão, manchado pela lama! E pelas nações clama A Ideia humanitaria, amena, e justiceira, Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!
E embora fosse um padre, embora um jesuita, Embora fosse irmão da raça atroz, precita, A minha voz sentida Protesta contra a morte imposta a Malagrida! Protesto! E emquanto houver Um coração de luz em peito de mulher, Meu brado ha de correr nos angulos do mundo, E em todo o mar fecundo!
VII
Que se ha de então fazer aos grandes luctadores, Que lançam sobre a Historia as olorosas flores, E regam com seu sangue os fructos do porvir? Que fontes de esplendor iremos nós abrir Ao vidente Danton, a Lincoln, a Blanqui, O martyr que sorri Por entre a cerração da noute do tormento? Que havemos de offertar aos soes do Pensamento?
Nunca apoiei Thiers, nem o chacal da Russia! Detesto a immanidade, e a vingativa astucia... O sangue da Communa, as lagrimas de Jessa, Formaram no silencio a fulgida cabeça Da indomavel revolta!
O monstro que commanda, em meio de uma escolta As manobras crueis que geram a orphandade, É mais feroz que um tigre, e avilta a Humanidade, E deve ter na mente A infamia de Javheh, e os odios da serpente.
Como hei de eu incensar a monarchista treva? Como hei de então louvar um ser de fronte seva? Pombal beijou a patria, e espedaçou-lhe o seio; Fez guerra ao Preconceito, e prostergou o anceio Dos crentes do porvir! Levou seu nome á Gloria, e fel-o após cahir.
No sangue inda escorrega Quem segue a lusa historia. A sã Justiça nega Um preito, a quem desdenha a humanitaria via, E lança a Liberdade ás palhas da enxovia.
Fique acima de tudo o limpido criterio; Formar uma cidade onde era um cemiterio Seria expôr a vida aos morbidos prejuizos. Vasar em molde infiel historicos juizos Será viciar tambem o pensamento ao Povo.
Justiça! Ha de o vindouro escalpellar de novo A nossa actividade; e então... tremendo encargo! Ou ha de ter no peito um sentimento amargo Ou ha de achar mesquinha a obra dos avós!
Salvemos o Futuro, e que elle creia em nós!
FIM