# O Mandarim

## Part 4

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/o-mandarim-16384/index.md

De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em fórma d'ave.

Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á esmola... Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita: ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e negro...

* * * * *

--Ouf!--exclamei, fatigado e aturdido.--Sá-Tó, agora quero o repouso, o silencio, e um charuto caro...

Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a par podem percorrer durante leguas.

E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de _cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a vasta Pekin...

É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes, que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto heroico e fabuloso...

A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando...

Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação...

Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido, esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez... Mas esse mundo é inviolavel como um Santuario...

Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira; a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas... Então invadiu-me a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos...

Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se perdia nos ares pallidos...

Voltei para casa, pesado e pensativo.

Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com bonhomia as minhas impressões de Pekin.

--Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

Sôbolos rios que vão Por Babylonia me achei...

--Pekin é um monstro!--disse Camilloff oscillando reflectidamente a calva.--E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora... Estudam as nossas sciencias... Um calice de Medoc, Theodoro?... Teem uma marinha formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

--E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a China_...

A esta sandice--fez-se um silencio. E o general, depois de tossir formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

--Portugal é um bello paiz...

Eu exclamei com seccura e firmeza:

--É uma choldra, general.

A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango, e limpando o dedinho, disse:

--É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira...

O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

--Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á Italia, _Italia mater_... A Italia será o eterno amor da humanidade sensivel!

--Eu prefiro a França!--suspirou a esposa do primeiro secretario, uma bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

--Ah! a França!...--murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho ternissimo.

O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

--A França tem um mal, que é a Questão social...

--Oh! a Questão social!--rosnou sombriamente Camilloff.

--Ah! a Questão social!...--considerou ponderosamente o addido.

E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu braço, murmurou-me, junto á face:

--Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os laranjaes!...

--É lá que se ama, generala--segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a escuridão dos sycomoros...

V

Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde residira o defunto Ti-Chin-Fú!

Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado, teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando ao peso de maços de documentos vetustos...

Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta, satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé, ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados, ou de gomos de bambú em calda d'assucar...

* * * * *

Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia Ti-Chin-Fú,--eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta japonez) aos pés pequeninos da generala...

Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á maneira chineza, do _Repouso discreto_:--ao lado um arroio fresco ia cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos, em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_ para S. Petersburgo.

Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso discreto_:

--Mimi?

E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

--_All right_...

Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze, bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo fino, coberto de meia de seda amarella:--e apenas tres dedos da minha mão cabiam na sua chinelinha...

Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de Versalhes...

O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o seu culto por Dumas filho...

Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta, e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus bellos braços;--e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito, n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio corrente...

Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas nenhum de nós percebia o chinez... E no silencio os nossos beijos recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia de prata...--Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós? Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?...

* * * * *

Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante principe Tong.--Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia lá, em miseria, n'um casebre vil...

Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia imperial--mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros...

--Theodoro, ha-de ser o seu homem!--exclamou Camilloff.

E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

--Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

--O meu homem...--murmurei sombriamente.

Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas desoladas extremidades da China!... Depois, desde que chegára a Pekin, eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio. A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto, de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora. Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á sempiterna Immobilidade... Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do Templo do Céo?...

Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados de lagôas:

--Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó... D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha vivo... D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a grande muralha, famoso espectáculo!... Descança no forte de Ku-pi-hó. Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas... E com dois dias de caminhada está em Tien-Hó... Brilhante, hein?... Quando quer partir? Ámanhã?...

--Ámanhã--rosnei, tristonho.

Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala, fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;--ella sentou-se ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade, retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus olhos rebrilhantes e humidos:

L'oiseau s'envole, Lá bas, lá bas!... L'oiseau s'envole... Ne revient pas...

--A ave ha-de voltar ao ninho,--murmurei eu enternecido.

E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

--Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!...

* * * * *

Ao outro dia lá vou para Tien-Hó--com o respeitoso interprete Sá-tó, uma longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura tocante errava no ar...

Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar, avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do Nirvana...

E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á despedida, nos olhos verdes da generala!...

VI

Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal candente, quando chegámos a Tien-Hó.

As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um vasto edificio--que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar como nuvens.

Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro--os casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça abjecta... Recolhi ao albergue--onde arreeiros mongoes e crianças piolhosas me miravam com assombro.

--Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó--disse eu, franzindo a testa.

---Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente. Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos... Quer Vossa Honra o chá?...

--Traze, Sá-tó.

Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú, annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin: depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como n'uma gala publica...

--Que te parece, Sá-tó?

--Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio... Vai ser grande! Vai ser grande!

Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China; enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia...

Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que envolvia o barracão--como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do tecto fórmas, semelhanças chimericas...

Ergui-me, já nervoso--quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na facha luminosa do luar...

--Sou eu, Vossa Honra!--murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras roucas a sua afflicção:--emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas de thesouros... Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes... E ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara... Mas pouco a pouco a malta crescera... Agora vinha d'espreitar por um postigo: e era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando sinistramente... A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do gallo preto!... Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra negra recuar!... A noite sería de terrores!... E sua mulher, o osso do seu osso, que estava tão longe, em Pekin!...

--E agora, Sá-tó?--perguntei eu.

--Agora... Vossa Honra! Agora...

Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja sob o açoite.

Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura, rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento á luz algum ferro de lança inclinada...

--Que querem vossês, canalha?--bradei eu em portuguez.

A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote...

Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú nos joelhos.

O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão vociferar.

Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador, revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da hospitalidade!...

Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas d'oiro inflammára todos os appetites!... A prudencia ordenava, como um mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas de comestiveis...

--E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem mantimentos?...

--Mas com a rica vida, Vossa Honra!

Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa distribuição de sapeques,--se ella consentisse em recolher aos seus casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha...

Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de sapeques--que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador... Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes; depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma suspensão _de quem espera mais_...

--Mais!--murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de moedas de meio real enfiadas em cordeis... Já a maleta estava vazia. A turba rugia, insaciada.

--Mais, Vossa Honra!--supplicou Sá-tó.

--Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

--Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!--chamou Sá-tó, abatendo-se sobre os joelhos.

A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou...

