Part 3
Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho subtil--captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes, flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores--eu, por uma suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos lumes lembrava uma magnificencia sideral... Despezas vãs! O fino e erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,--foi o velho malandro com o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos Louvores!...
* * * * *
Então, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações--parti, viajei sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.
Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo. Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal interior ia crescendo.
Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel: assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio... Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de viagens, consultei sabios missionarios:--e artigos, homens, livros, tudo me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas, cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!...
E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella velha monarchia asiatica--e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario--e eu estava-a dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do Helder!...--Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um imperio!
Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia. Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios--e fui medonho. Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina, quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os _can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria, injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida--eu, tomado subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e zurrava formidavelmente de burro...
Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre arrotos:
_Allons, enfants de la patrie-e-e!... Le jour de gloire est arrivé..._
Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual--que me nasceu, de repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e formando columna--outras idéas se foram reunindo no meu espirito, alinhando-se, completando um plano formidavel... Partiria para Pekin; descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras, legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú--e poderia assim restituir legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a força do seu oiro.
Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido, nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca n'uma rajada.
Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!--Depois d'altos preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da Guarda, sobre o seu rochedo escuro--puz a prôa ao Oriente.
IV
O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.
D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente indifferente.
Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,--eu recusei, com um movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da corrente barrenta do rio.
Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos; topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!
Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle, havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.
Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome: «_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»
Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie--porque já a tarde declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes. Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um Pagode:--de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado...
Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara, d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um fundo de poente de purpura ensanguentada...
Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como suspensas no ar, as montanhas da Mongolia...
Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora, ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica, onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.
Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas, cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos dromedarios balançando a sua carga em cadencia...
D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente, esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores...
O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo, segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas brancas, n'um perfume forte de lilaz...
Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_ da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo e de chá.
Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da magreza de Sarah Bernardth...
Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio. Depois ella sentou-se ao piano--e a sua voz de contralto quebrou até tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.
* * * * *
Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim, contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso bigode cossaco...
--O meu prezado hospede sabe o chinez?--perguntou-me de repente, fixando em mim a pupilla sagaz.
--Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.
Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que lhe sulcava a calva:
--_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu bello paiz...
--Quando nós tinhamos navegadores...--murmurei, suspirando.
Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:
--...Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do seu verbo, do seu lindo verbo...
--Quando tinhamos verbos...--rosnei, no habito instinctivo de deprimir a patria.
Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho--e proseguiu paciente e grave:
--Do seu lindo verbo _mandar_ ... Resta-lhe por tanto _chá_. É um vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e socialmente, esse chorado defunto... Para tudo isto dispõe da palavra _chá_. É pouco.
Não pude negar--que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se diante do meu desejo--como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um Mandarim...
--Mas porque m'as recusaria?--exclamei.--Eu pertenço a uma boa familia da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica... Possuo milhões... Tenho a experiencia do estylo administrativo...
O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus attributos.
--Não é--disse elle emfim--que o Imperador realmente o recusasse: é que o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei chineza, n'este ponto, é explicita e secca.
Baixei a cabeça, acabrunhado.
--Mas, general--murmurei--eu quero livrar-me da presença odiosa do velho Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!... Se eu entregasse metade dos meus milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado...? Talvez Ti-Chin-Fú se calmasse...
O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:
--Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas: não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das estradas publicas... Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.
--E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á populaça faminta? É uma idéa...
--Funesta--disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.--A côrte imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia... O meu bom amigo seria decapitado... É grave...
--Maldição!--berrei.---Então para que vim eu á China?
O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:
--Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú... Eu indagarei do primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole interessante... Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões... Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial, com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de carpideiras ululando sinistramente, etc. etc... Se depois de tudo isto a sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir...
--Então?
--Córte as guelas.
--Obrigado, general.
* * * * *
Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o respeitoso Sá-Tó e a generala:--que, para frequentar a familia Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim...
A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a caracterisação:--e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de charão negro,--a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché, Filho do Céo!
Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras: e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados em Swaton.
E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:--o amor dos ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o gosto das coisas assucaradas...
Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á generala:--_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!
--É adorável, é precioso!--dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as maosinhas pallidas.
N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez. Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó. Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós...
Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne! E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março, colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de virgens!...
Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A China tem encantos d'um raro gosto...
Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú--eu, repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.
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A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de sycomoros.
Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol, com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros, a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto, vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita de beiço cahido...
A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as preciosidades--porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins, sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes, uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas perturba e entristece...
Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador. Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam cotovias domesticadas... Era um principe do Imperio.
Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico--que lhes fazia oscillar d'um modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves fabulosas--enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros transparentes e ondeantes...
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--Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes...
E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no tempo da grandeza dos Ming.
Dos dois lados são--ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios vestidos de pelle de carneiro...
Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas, vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade fabulosa e singular!