Part 2
Senti tremer o Globo sob os meus pés--e cerrei um momento os olhos. Mas comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha hieratica--abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o vasto seio da Madame Marques...
D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus--ou d'um Demonio: dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano & C.^a estas palavras:
--Está bem! O Mandarim... Esse Mandarim que disse portou-se com cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe ahi os papeis... Bons dias.
Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e fronte voltada ao chão.
Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada...
Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava, n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante certeza--que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno! Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis mil contos sobre as praças da Europa!...
Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera d'aquella humanidade subalterna--que se considerava livre e forte, em quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um _enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua escravidão!... Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo aos meus pés--bocejei como um leão farto.
De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a dia, a affirmação desoladora da villeza humana?... E assim, ao choque de tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira; e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.
D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas sêdas pretas.
--Está-se á sua espera para jantar, enguiço!...
Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:
--Não janto.
--Mais fica!
N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo, dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me deliciosamente:--era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com _Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a, berrei:
--Aos touros!
--São dez tostões, meu amo!
Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada--que fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e vinte!
O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:
--Mas tenho letras!... Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!...
--Não péga.
Setecentos e vinte!... E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.
Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote, apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.
Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito solitario,--em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o _Fado da Cotovia_.
* * * * *
Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.
Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação _das causas primarias, das origens essenciaes_--bem depressa me decidi a aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_...
Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:
--Oiro!
Um caixeiro suggeriu-me com doçura:
--Talvez lho fosse mais commodo em notas...
Repeti seccamente:
--Oiro!
Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado, icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes--como o movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.
Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme, deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna, empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça...
Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.
Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.
--Pára, animal!--berrei, ao cocheiro.
A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma coisa cara a comprar--joia de rainha ou consciencia de estadista: nada vi; precipitei-me então para um estanco.
--Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!
--Quantos?--perguntou servilmente o homem.
--Todos!--respondi, com brutalidade.
Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio, estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.
Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha...
Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de opulencia... Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!
Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista, com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de todas as communidades religiosas--como para matar uma sêde de trinta annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch...
Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão. Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto tambem, tinha um papagaio de papel!
Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;--o que estava agora sobre o leito era um velho paletot alvadio.
III
Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da Madame Marques--que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam, bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.
Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar--a amar com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto, como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda: chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres, n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e fragil--Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.
Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,--depois, ao guardal-as na gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.
Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso tapete syrio, até ao seu _boudoir_--ella estava escrevendo, muito enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida, escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava por _meu idolatrado_--e era para um alferes da visinhança...
Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa. Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e cynica.
* * * * *
Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza, servido em Sèvres, azul e oiro.
O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o ar, agitando leques de plumas.
De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria bocejos de fera saciada,---e a turba abjecta parava a contemplar, em extasis, o Nababo enfastiado!
Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.--Tenho a honra de participar a V. Exc.^a... Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!..._».
Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne. Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios, de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam, as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:--e enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel...
Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé--e lá ia ás Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda fresca e perfumada,--e eu abandonava-me a delirios abominaveis... Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.
* * * * *
Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:--elle adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos, tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.
Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o altar--uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello, alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher--era logo ao outro dia uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.
Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o _extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais coberta--ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei sempre, com nojo.
Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim, preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna _Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se alliviava com estampido--a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis--e fui caloteado por todas as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.
E eu, no entanto, vivia triste...
* * * * *
Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito d'oiro--lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella, com o seu papagaio nos braços... Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.
Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons ensaguentados aos damascos vermelhos:
--_Preciso matar este morto_!
E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo, accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia saber mal a vida.
O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito como um ferro inarrancavel--_que eu tinha assassinado um velho_!
Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das Monarchias teem recebido consagrações augustas--a punhal como D. João II, á clavina como Carlos IX...
Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo, phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu assassinára um velho_!
Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.
Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da Substancia, é pavoroso o pensamento--que se fez regelar um sangue quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar, sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido, n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:
--E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!...
Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do Mandarim, a sua gôta incuravel... Facunda em argumentos, gulosa de controversia, ella retorquia logo com furor:
--Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo: porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na abundancia das suas manifestações!
Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido: erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:
--Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!
E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um rumor humilde de murmurações ironicas:
--Bem, então come, dorme, banha-te e ama...
Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo morto.
Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que, despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos tradicionaes da miseria humana--os dias sem arroz, o corpo sem agasalho, a esmola recusada, a rua lamacenta por morada...
Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:--«Eu não me lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos terraços do Templo do Céo!»
Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro inverno asiatico.
O que eu soffria!--E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá deviam habitar!
Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma serpente irritada--decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser superior á Consciencia porque dispõe da Graça.
Infelizmente eu não acreditava n'Elle... Recorri pois á minha antiga divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia, Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos, pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal interior... Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.
Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas--e Lisboa assistiu a este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de _Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada... Eu pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar--é para lhe afastar a attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.
Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas, para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de Confucio... Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos palhaços, no theatro de Hong-Tung!