Chapter 3
A mulher intellectual haviam de encontral-a em _Sapho_, _Heloiza_, _Catharina_, _Semiramis_, _Staël_, _Sevigné_, _Coulanges_, _Lafayette_, _Bernier_, _Flaugergues_, e tantas outras, que têm regido o sceptro ou a penna com gloria mais que varonil: os preceitos do bello inspirava-os _Aspasia_ a _Socrates_ e _Pericles_, _Ninon de Lenclos_ a _Condé_ e _La Rochefoucault_:--sem a mulher os conhecimentos do homem seriam imperfeitos; elle descobriria o que na natureza ha de forte, de grande, de sublime; mas a graça, o mimo, a delicadeza só pela mulher podia ser descoberta. A litteratura carece de imaginação, e a mulher tem na imaginação a principal natureza da sua alma; aqui a vantagem é toda d'ella:--até se não for ella quem povôe o coração do homem das illusões do amor, aonde irá elle encontrar as galas da sua litteratura? Entregue ao positivismo da vida material, sem o fogo imaginativo, de que flores ha de encher os seus livros?
A litteratura e as artes têm sempre devido á mulher ou joias suas, que lhes façam o diadema, ou protecção e influencia, que as augmentem e desenvolvam: foi na côrte de _Catharina de Médicis_ que _Henrique o grande_, aprendendo a amar, aprendeu tambem aquellas maneiras nobres e cavalleirosas, que distinguiram o seu reinado, dando á sua lingua uma graça e polidez, que não tinha. O gosto e sentimento delicado para as lettras e artes, que _Maria_ e _Catharina de Médicis_ levaram da Italia para França foram a origem do desenvolvimento das artes e das lettras do seu tempo. E não seria á influencia que as mulheres tiveram na côrte de Luiz XIV, que se deveu então essa lista immensa de homens celebres, com que a França se honra, e que o mundo estuda e admira? E não será para agradar á mulher que o homem gera a industria, inventa o canto, a dança, a pintura, amenisa a linguagem com as flores da poesia, traja com esmero, e torna affaveis e doces suas maneiras e costumes? A mulher intellectual não existe só em si, existe nos outros tambem; não se contenta com as suas creações, instiga os outros a crear; e é considerando reunido o que a alma da mulher pode tirar de si propria, e o que a mulher concorre para as producções da alma do homem; é considerando reunido num só ponto o que a mulher é em si e no homem, que eu a vejo tão sublime, tão elevada, que, senão tivera o lado moral para a olhar, já por este lhe podia chamar anjo.
A mulher moral porem é que é a mulher, ou a mulher da mulher. Ou a nós vejamos na sua condição de amante, de irmã, de filha, de _mulher_ e de mãe; ou a consideremos no prazer ou na dor, na ventura ou na miseria; ou contemplemos o que pode pela mulher ser o homem, em quem é sempre ella que imprime a virtude ou o vicio no coração; ou a analysemos no seu throno, que é na vida de familia, ou na hasta publica da vida de sociedade; ou a vejamos na infancia ser a alegria da casa, na juventude ser as delicias do amor, na madureza ser a consolação da alma, e na velhice ser a mestra da virtude; ou seja que nos abrace ou que nos fuja, que nos afague ou que nos reprehenda, que nos ame ou que nos aborreça, a mulher moral é a parte mais augusta da creação.
--«A mulher moral é o infinito--» disse um illustre escriptor[19]; e na verdade só assim se pode definir o mysterio da mulher moral!
A mulher é o elemento mais poderoso da ventura social, mas a mulher moral é o elemento dos elementos. Indagae a origem dos ciumes e, com leves excepções, achal-a-heis na educação, isto é, na mulher; vêdes uma boa acção? Procurae-lhe a fonte, e encontrareis a mulher; talvez que não haja no mundo um só facto, cujo principio ou fim, se bem o averiguarmos, não seja a mulher:--«os homens serão sempre o que as mulheres quizerem que elles sejam--» disse _Rousseau_[20], e disse uma grande verdade; porque antes que o homem seja cidadão é filho primeiro. A mãe dos _Gracchos_ e dos _Corneilles_ tinha uma alma nobre, grande e severa; a mãe de _Voltaire_ era escarnecedora e de garridas maneiras; a de _Byron_, até nem os defeitos physicos do filho escapavam á sua maldade; _Kant_ dizia que fôra sua mãe quem lhe lançara na alma o germen do bem e quem primeiro lhe inspirara o amor do Creador, explicando-lhe o que sabia das maravilhas da natureza[21]; _Cuvier_ deveu a sua mãe os successos brilhantes da sua vida illustre[22]; _Barnave_ já com um pé sobre o cadafalso bemdiz sua mãe, que lhe deu na infancia o valor que alli o anima; _Lamartine_ aprendeu nas harmonias do coração materno as harmonias da sua harpa piedosa; em fim, Elysa, se após estes nomes tão respeitaveis e tão illustres é permittido citar o meu pobre e desconhecido nome, sirva elle de mais uma prova, porque o pouco, o muito pouco, de bom que em mim tenho é unicamente a minha mãe, é a ella só que eu o devo.
Que augusta não é pois a missão da mulher sobre a terra! Ah! que se philosophos e poetas meditassem bem no que é a mulher, e, sobre tudo, no que ella pode ser, não haveria um só que não visse nesse ente o oásis mimoso dos desertos da vida! Mas elles não curam de tal: arrancam desapiedados as pennas alvissimas ás azas do cherubim, e depois, vendo-a assim tão ao nivel das cousas da terra, descrêem d'aquillo mesmo em que não souberam crer; andastes errados: acreditae primeiro, sabei o que é a mulher, e depois julgae-a.
Em quanto não fizerdes isto, sereis sempre uns inimigos desleaes e traiçoeiros; tomareis a nuvem por Juno, e direis do phantasma da mulher o que pensais dizer da mulher como ella saiu das mãos de Deos, quando viu que não era bom que o homem vivesse só:--dizei embora o que quizerdes, mas da mulher como a concebo e como ella existe, por mais rios de tinta que derrameis, nunca podereis provar a maldade senão com aquellas razões com que o citado Marquez da peça de Molière provava a maldade de _L'École des Femmes_--» elle est détestable parce qu'elle est détestable--»[23].
Em toda a parte em que o teu sexo, Elysa, não occupa o logar que lhe a natureza marcou, ahi os povos são escravos, a ignorancia é profunda, e os costumes são barbaros. O adorador de Mafoma compra a mulher, _veda-lhe_ a entrada no céo, prohibe-lhe a leitura dos livros religiosos, afasta-a do tracto commum, e deixa-lhe só nos ferros do harem os erros da superstição e os absurdos da feiticeria: que se segue d'aqui?--que a tyrannia é no Oriente um principio, que a civilisação é nulla, e que a moral é uma palavra sem significação. Cuidou o Musulmano que, fazendo da mulher uma machina, tinha creado a felicidade para si; a felicidade só ella a ha de crear, mas é mister que livre e desassombrada, rainha e não escrava, possa, como a pomba da primavera, adejar sobre a cabeça do homem, ensinar-lhe as aguas mais puras onde deve matar a sêde, e a relva mais macia onde se deve assentar; só a mulher sabe, como a abelha, quaes são as flores que dão mel, mas não lhe hão de crestar as azas na chamma da impureza, que então, materialisado o amor, o homem e a mulher perderão a faisca da divindade que os extremava do resto da creação;--«ou os povos se hão de embrutecer em seus braços, ou civilisar a seus pés--»[24]. Não é com todos os pensamentos cravados na materia que a mulher pode dar ao homem a felicidade; o Oriente não comprehendeu a mulher.
Que terá a filha do propheta para dar á alma do homem quando os sentidos estiverem saciados?--a ignorancia, as paixões mesquinhas, as astucias, os vicios todos da ociosidade, e, na consciencia da sua inferioridade, a tristeza da escravidão, ou as traições d'um inimigo.
E o amor? Oh! esse nunca; esse não sabe morar num calabouço.
Ao cioso mahometano Que vale o fechado harem, Se amor de escrava a tyranno Do coração lhe não vem? Que importam centos de bellas, Se uma só de todas ellas Livre em seu gosto não ha? Que importa matar desejos, Que importam, louco! esses beijos, Se só vendidos t'os dá?
Com alma núa d'esp'ranças, Como ha de a escrava saber Que alem de jogos e danças Tem mais gozos a mulher? D'esses gozos não sabidos Como ha de trazer-te enchidos Os dias que vão e vêm? Se, dos paes perdida a trilha, Ella não sabe ser filha, Como ha de saber ser mãe?
Embora os astros lhe apontes, Embora mostres os céos, E uma a uma lhe contes As maravilhas de Deos, Ha de dizer-te--que importa? Se eu tenho fechada a porta Que leva ao reino da luz? Que importa, se em vida e morte Sou proscripta, e minha sorte Nunca propicia reluz?
Lá quando a dor te accommetta, Quando rir teu coração, As filhas do teu propheta Pranto e risos te darão. Ouvirá co'os teus ouvidos, Sentirá co'os teus sentidos, Viverá no teu viver? Oh que não!--solta-lhe os ferros, Despe-lhe a alma dos teus erros, E a escrava será mulher.
FIM
[1] É crença muito antiga que umas pedras vermelhas, que se encontram na _fonte dos amores_, devem a sua côr ao sangue de D. Ignez de Castro.
[2] Não quero dizer que descreio das leis da _Acustica_; sei que ella não só explica, mas até consegue fazer _echos_:--a palavra _segredo_ veiu aqui para symbolisar que neste, como em muitos outros phenomenos naturaes, em se o homem remontando um pouco, chega logo ás _forças centripetas e centrifugas_, ou áquelle celebre _opium facit dormire, quia habet virtutem dormitivam_.
[3] Garrett
[4] Camões.
[5] Martim de Freitas.
[6] Sá de Miranda.
[7] D. Francisco de Lemos, Bispo de Coimbra.
[8] Este echo do jardim botanico de Coimbra repete um verso heroico inteiro.
[9] A Rainha Sancta Isabel, mulher d'El-Rei D. Diniz.
[10] _Mulieres homines non esse_. Dissert. anonym. d'Acidalius,--Paris 1693, in 12.
[11] Gregor. Turonens. Hist. Franc.
[12] D'anciens philosophes et des médecins, tels qu'Hippocrate, Aristote, ont ausai regardé la femme comme un être imparfait, un demi-homme. _Virey_--_De la Femme_, chap. 1.^er, pag. 15.
[13] A. F. de Castilho--_Ciumes do Bardo_.
[14] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_.
[15] _La critiq. de l'Écol des Femm._ Sc. 7.
[16] Á Sr.^a Marqueza d'........ uma das mais instruidas e amaveis damas que tenho visto, ouvi eu que em materia de ciume era permittido a um homem levar a sua colera até alguma pequena acção violenta. O sexo, a madureza da edade, a penetração, e conhecimento do coração humano, que esta senhora possue, dão-lhe direito a ser muito respeitada a sua sentença.
[17] Até _Plinio_ se não pejou de lhe chamar animal.
[18] _La Critiq. de L'Écol. da Femm._--sc, 6.^e
[19] A. F. de Castilho--_Primavera, Notas á Festa de Maio_
[20] _Émile--Liv._ 5.º
[21] Schoen--_Biograph. de Kant._
[22] _Memoires sur Georges Cuvier_--Mistr. Lee.
[23] _La Critiq. de l'Écol. des Femm._ sc. 6.^e
[24] Aimé Martin--_Educat. des Mér. de Fam._.