Chapter 2
Crença nas palavras e nos sentimentos; sentimentos e palavras cheias de verdade e de força; amor e enthusiasmo por tudo o que é nobre e grande; confiança nas idéas e nos homens; communhão quasi primitiva de bens e de tudo; homogeneidade de tendencias; existir nos outros, pelos outros, e para os outros; toda a virtude de quem entra na vida com muita fé no futuro: eis-ahi o viver do mancebo com o mancebo debaixo d'este céo de Coimbra!
Elysa, eu amo muito esta formosa terra!
Depois de ti, da minha lyra... não, não quero que Coimbra seja o terceiro affecto do meu coração, mas quero querer-lhe bem, porque é um querer que ella merece.
Oh! se te eu vira um dia, Elysa, assentada comigo nas ruinas do mosteiro da _Rainha Sancta_[9], e d'alli, depois de haveres passado teu alvo braço á roda do meu pescoço, te esquecesses a contemplar Coimbra, como Coimbra se esquecera, tambem com seu braço lançado ao pescoço do monte, a pasmar na tua face d'anjo; se a viras tão linda a retratar-se no Mondego e a sorrir-se para o céo, oh! que tambem tu havias de amar muito Coimbra!
Elysa, eu bem comprehendo que tu antes quizeras que o teu amante ausente praguejasse a terra que lhe rouba a sua Elysa; crês que a delicadeza do sentimento pedia antes isso, seja assim: mas consente aos poetas mais uma liberdade, deixa-os dizer o que os outros calam por traiçoeiros; não vale mais esta franqueza? O coração foge para o _bello_ como a mariposa para a luz; que culpa tem elle? que póde elle, se ha de por força amar o _bello_:--é um amor fatal. Mas, se te queres vingar d'esta fatalidade, Elysa, vem, vem comigo assentar-te nas ruinas do velho mosteiro, que tu olharás para Coimbra, e eu olharei para ti.
II
O nascer e o morrer d'um dia formoso; a profecia do sol e o seu derradeiro adeos; o ensaiar dos canticos das aves, e o desfallecer d'esses canticos, que passam e morrem nas tranças da floresta; as aguas, que reflectem o raio que se alevanta; as aguas que reflectem o raio que se deita; os echos que despertam; os echos que adormecem; a treva que se adelgaça e a treva que se condensa; o crepusculo da manhã e o crepusculo da tarde, são duas horas gemeas nos encantos, na suavidade, na doçura, nas inspirações.
Elysa, será um erro, uma superstição talvez; mas eu creio que todo o pensamento nobre, grande, generoso, sublime, que tem brotado da cabeça do homem, numa d'estas duas horas é que foi concebido.
Quando o homem, á luz duvidosa da manhã ou da tarde, se assenta no viso d'um monte, na alcatifa d'um valle, na margem d'um rio, no limiar d'uma porta, e d'alli, pairando com a vista entre a terra e o céo, abrange todos os objectos sem se fixar em um só; ouve todos os sons sem escolher um só; sente todas as sensações sem definir uma só; quando o coração, enfeitiçado nestas horas pelo incerto da luz, dos objectos, dos sons, e das sensações, parece embalar-se no peito e adormecer, oh! então, Elysa, então é que o homem conversa com a Divindade, então os ouvidos da creatura ouvem as palavras do Creador!
É por uma donosa madrugada que eu agora escrevo no teu livro, Elysa: é ella que do seu throno de verdura me está dictando este capitulo;--que não possa transportar eu para estas paginas essa pagina tão bella do livro do Eterno! Ainda o sol não desengastou das ondas o seu rosto em braza; uma luz frouxa, crystallina, mimosa, perfumada, espraia-se, como um regato, por sobre toda a natureza, enrosca-se á volta de todos os seres alastrando de esmeraldas a terra e de saphiras o céo; aquelle murmurar monotono, pesado, o enfadonho do dia ainda se não escuta; e as brizas folheando na selva levam de cada folha um som, e lá nas alturas compoem um hymno para Deos!
Elysa, deixa que os ricos da fortuna e os poderosos da terra nasçam, vivam, e morram sem nunca terem visto a face da madrugada; fatigou-os a noite no bulicio dos saraus e das orgias, deitaram-se quando o dia se alevantava; deixa que elles ignorem, que elles não gozem o brilho suavissimo da mais rica perola do diadema do mundo, deixa-os, e vem tu comigo assistir em espirito á festa de todos os dias, ao desabrochar da madrugada:
Eil-a trajando verdores A linda mãe dos amores, Com seus volateis cantores Pelos campos a folgar; Eil-a folgando na mata, Que nas aguas se retrata, Nas aguas de lisa prata, Na prata do liso mar.
Salve, rainha formosa! Festeja-te o lirio, a rosa, Dos jardins a mariposa, Do trovador a canção; Festeja-te a pastorinha, Que nas côres te adivinha Um pensamento que tinha, Que tinha no coração.
D'aldêa o sino te chama, E o moço, que deixa a cama Porque vai ver a quem ama Ao pé da encosta d'alem; Suspiram-te sempre os montes, Abraçam-te os horisontes, Choram-te rios e fontes, Nas fontes d'amor, que têm.
Bemdiz-te o velho, e ensina Á neta, que é pequenina, Rezas sanctas da divina Crença, que tem no Senhor Bemdiz-te o armento balando, Do tomilho o cheiro brando, E o pegureiro cantando, Cantando magoas d'amor.
Vem, ó linda madrugada, Vem de violetas c'roada, Pelas brizas embalada, Vem nestes campos folgar; Folga nos céos e na mata, Que nas aguas se retrata, Nas aguas de lisa prata, Na prata do liso mar.
Todo o mundo parece corar de puro gozo, parece que sorri com o sorriso da felicidade quando o primeiro albor da manha lhe corre com mão de jaspe a cortina da noite; é a amante carinhosa, que vai despertar d'um sonho d'afflicção o amante adormecido com um beijo na fronte:--Elysa, se por cada um dos meus sonhos d'afflicção tivesses de me dar um beijo, quantos beijos me não devias! e crê que então não quizera eu sonhar outros sonhos.
Mas como são cheias de galas e de thesouros, para os olhos do corpo e para os olhos da alma, estas horas do alvorecer do dia! O ar que respiramos é mais puro e embalsamado; uma harmonia deliciosissima desferida nas harpas dos bosques, dos rochedos e das aguas, reproduz-se inteira nas cordas intimas do seio, e a poesia acode voluntaria aos labios; é uma poesia ensinada pelos anjos, porque só falla de Deos; é a verdadeira poesia.
De todos os argumentos mais gratos ao espirito, mais poderosos, mais energicos para demonstrar ao homem a existencia d'um Deos, o mais grato, o mais poderoso, o mais energico é a contemplação da natureza. De todas as horas do dia as melhores e as mais bellas para esta contemplação são as horas do crepusculo da manhã e da tarde:--não sei que delicioso anhelar, que doçura saudosa anda então no pensamento, que nas azas da meditação nos arrebata para o céo, e nos desata as cadêas mesquinhas da vida mesquinha da terra!
Os raciocinios da philosophia convencem quando demonstram a realidade da causa primaria, mas a natureza faz mais: depois de convencer gera o amor; o coração não póde deixar de amar a origem das maravilhas que admira. E não sabes, Elysa, qual é a obra das mãos de Deos, que mais me tem convencido da sua existencia? Vais talvez dizer-me que são esses mares a revolverem-se noite e dia á roda dos continentes, esses mares cujas gottas são lettras, cujas vagas são syllabas, cujos bramidos são palavras, que dizem--existe Deos! Vais talvez dizer-me que são as montanhas e os promontorios erguidos como braços da terra apontando para o firmamento! Vais talvez dizer-me que são esses milhões de mundos luminosos gravitando no espaço, e traçando no manto azul da esphera a historia da Omnipotencia! Enganas-te! olha para o teu espelho, Elysa, e lá verás a minha prova mais bella, a minha prova mais segura da existencia de Deos!
O Senhor quiz no teu rosto, Quiz o impio confundir, Quiz dos céos todo o composto N'um só ponto resumir; Nos olhos pôz-te as estrellas, Inda mais lindos do que ellas Os vejo d'amor fulgir; Poz-te nas faces a aurora Poz o sol no teu sorrir, E nas tranças côr d'amora Fez negra noite caír; Que o Senhor quiz no teu rosto, Quiz dos céos todo o composto N'um só ponto resumir.
Na verdade, Elysa, ver o teu rosto e descrer da Divindade seria o absurdo do atheu positivo; não, não cuides que o atheismo passe dos labios; ha lá dentro do atheu um sentimento, uma voz intima, uma quasi fatalidade, que, mau grado seu, o arrasta e o convence: mas que haja um só tão desgraçado, que o haja que, mercê da minha dama, lhe provarei que mente apontando-lhe para a tua face;--a minha Elysa não podia ser fructo de um acaso estupido, a minha Elysa é a victoria do Eterno!
E que mais formosa... mais não, a perfeição não tem gráus, que formosa não és tu quando nestas horas da manhã ou da tarde te embeveces a meditar com a fronte encostada á mão, os olhos na immensidade, e o peito arfando brandamente, como superficie de lago ao bafejo das auras! que formosa!
Nunca viste nos teus sonhos de innocencia o teu anjo da guarda a contemplar socegado o socego da tua alma, tão pura como elle? Imagina a tua lindeza pela do teu anjo, assim como pela tua lindeza tenho imaginado a de todos os anjos!
Que formosa não és tu nessas horas!
O pagão se te vira assim na alvorada d'um dia de primavera erguia-te um altar e chamava-te _Vesta!_ Cuidaria ver-te conduzindo pela mão as _Estações_ e o _Amor_; veria as choréas das _Nymphas_ á volta do teu carro tirado por soberbos leões; veria os _Ventos_ adormecidos ao teu lado, e _Ceres_, _Pomona_, e _Flora_ a cingirem-te a fronte com uma corôa de rainha!--o pagão erguia-te um altar e chamava-te _Vesta_.
Mas no teu templo, minha _Vesta_... minha Elysa,--enganei-me--no teu templo não seriam as donzellas romanas que conservariam o fogo immortal; ahi o sacerdocio seria todo meu, a chamma immortal estava no meu coração.
Se fosse á hora da tarde que o pagão te visse, que te visse naquelle estado que suspende a alma entre o prazer e a dor, naquelle estado que então te exorna como uma aureola mystica; que te visse como a violeta da varzea, recatada do mundo e rica e feliz na solidão onde reinas, se elle te vira, em vez de te chamar _Vesta_, chamava-te a _Melancolia_.
E o pagão chamava-te um bem doce nome! Fôras uma Deusa bem suave, bem mimosa ao coração: _Melancolia!_ que mais feiticeira ficção tem o paganismo para te offerecer? que mais puro, mais arroubado, mais ineffavel, mais divino sentimento ha ahi na terra?
Mais que o prazer, que a alegria, Mais que a risonha emoção, É mais doce ao coração A doce melancolia! Como é bello, quando o dia Se afoga no salso mar, Sobre ignota penedia Ir co'as vagas conversar! Ir sósinho suspirar Juncto a fontinha sonora, E nos prantos que ella chora Ir aprender a chorar! Como é bello então scismar N'uma scismada ventura, E aquelles sonhos sonhar Nunca fartos de ternura! Como a harmonia se apura Nas cordas da meiga dor Quando a rola da espessura Poisa n'harpa ao trovador! Quando uns gemidos d'amor, Gemidos que não sabia, Sáem da harpa, e ao redor O echo lh'os repetia! Como então mais que a alegria, Mais que a risonha emoção, É mais doce ao coração A doce melancolia!
Elysa, se o pagão te chamasse a _Melancolia_, o pagão chamava-te um bem doce nome!
E as horas da melancolia são as horas da tarde.
Aquelle tibio da luz; aquelle horisonte dourado e bordado de nuvensinhas diaphanas côr da espuma dos mares; aquelle hymno immenso da terra, que se vai perdendo, perdendo ao longe por seios de cavernas; aquelle vôo da ave, que nos passa por cima da cabeça ao ir aninhar-se na roupagem da montanha; aquelle canto da zagala, que vem do prado com os seus cordeirinhos tão alvos como ella; aquellas brizas perfumadas, que então andam a folgar nas aguas do rio, ou na relva das margens, e que nos vêm depois roçar as faces com a ponta da aza melindrosa; aquelle rugir da folha secca e caída debaixo dos pés do viandante cançado; aquellas vozes confusas que se escutam no casal, que augmentam, que diminuem, que recrescem, e finalmente morrem no silencio; aquelle agoireiro latir do lebreu repetido pelos echos do valle; aquelle fatigado carpir do carro lá ao longe ao subir das encostas; e o sino da aldêa, que no alto da serra está assentada, como pastorinha esquecida a meditar amores; e os céos azulados a vestirem pouco a pouco o manto das sombras; e as sombras a desdobrarem-se nos campanarios; e os campanarios a perderem-se da vista; e a vista a resumir-se no coração; e o coração a afogar-se inteiro no saudoso da tarde, e a tarde com todas as suas galas.... oh! como tudo isto falla á alma uma linguagem ignota, e a deixa naquelle estado scismador em que as lagrimas são mais doces do que os risos do prazer!
As horas da melancolia são as horas da tarde.
Elysa, a mythologia esqueceu-se de nos dizer em que hora do dia tinha nascido o _Amor_; eu só nesta hora mysteriosa da tarde quizera que elle tivesse nascido; não podia, não devia nascer noutra hora. Não vês tu como ao caír da noite vem sempre um suspiro pendurar-se nos labios em busca d'um irmão a quem se abrace? não vês como é então que a mulher desatina a cantar sem o cuidar, sem o sentir, sem o querer talvez, e como que respondendo a outra voz que a chama? não vês como a donzella, com todos os affectos ainda em botão virginal, começa de adivinhar um segredo, um segredo lindo, que lhe anda entre nuvens no pensamento?
Coração de mulher, qual Philomela, É todo amor e canto ao pé da noite: Do amante a voz então entra mais branda, Mais grata, mais feliz, dentro do peito; Toldam sombras o pejo, as faces podem Osculadas córar sem que o triumpho Lá veja o vencedor escripto em rosas; Melhor se escuta o frémito dos labios Suspirando d'amor, pedindo amores: Póde o _sim_ mais sumido então colher-se, Fingir que foi acaso a mão tocada: O rigor feminil, desdens, orgulhos, Da tarde a viração leva-os nas azas.
Elysa, se tu não fôras unica na terra, se não fôras o archanjo impeccavel que me Deos mandou dos céos para eu crer devéras na virtude, tremeria com a idéa--bastava a idéa--de te veres a sós com um mancebo por tal hora do dia:--é a hora dos amores.
Mas tambem é a hora da religião; não ha momento em que a alma de melhor vontade se eleve para Deos: a oração, Elysa, é tão consoladora, tão cheia de balsamos neste momento! Guarda as tuas preces para esta hora, e dize-me depois se não pensas que as sanctas do céo vieram com mais alegre semblante ajuntal-as no regaço, como flores de maio, e leval-as mais velozes aos pés do Senhor!
A oração é o resultado do amor; o amor é o resultado do conhecimento d'aquelle que se ama; que melhor ensejo queres tu para conhecer o Creador? Esse mesmo véo, que te vai envolvendo quanto enxergas, esse mesmo é uma das suas mais formosas maravilhas:--o silencio que se vai fazendo em toda a creação parece que é feito para que o homem falle; calou-se tudo para que fallasse o monarcha da terra ao monarcha da terra e do céo! Elysa, para te ouvirem as rezas os mesmos anjos se calariam; devem de ser um hymno tão melodioso, tão lindo como o que elles cantam, tão fervoroso como o d'elles, tão angelical como tu mesma!
Se vivessem hoje os Paladinos cortezes, se ainda esse mundo andassem os namorados cavalleiros da edade média, que á ponta de lança vingavam e desmentiam as injurias feitas á belleza, não haveria tanto escriptor, tanto philosopho e poeta, que desacatasse as mulheres.
A logica d'aquelles tempos era valente, tinha argumentos de _ferro_, que não havia resistir-lhes; se então saísse á luz um livro desleal e villão, logo o auctor sentiria bater-lhe no rosto um guante de campeador, e retinir-lhe nos ouvidos um _mentes!_ d'aquelles, que sempre deixavam uma bainha vazia, ou um nome infamado. Hoje não; hoje diz-se e escreve-se impunemente quanta loucura e descortezia lembra; tem-se dicto das mulheres o que esqueceu a Mafoma, com ser elle dos mais grosseiros _devotos_, que nunca jámais ellas tiveram. Que de cousas doidas, Elysa, não tenho tambem eu dicto e escripto para ahi a respeito das mulheres?! mas agora cuido que d'esse mal estou curado e desculpado--não tinha encontrado uma só Elysa: e a quem a não encontra que lhe digam que andam anjos na terra? não o acredita. E já que tu foste quem me fizeste renegado, já que a ti devo a minha nova crença, quero que seja o teu livro, Elysa, o campo onde levante pendão pelo teu sexo; mas antes d'isso consente que eu desculpe alguma cousa o meu erro;--não se póde assim deixar um velho defeito sem ter ao menos duas palavras para lhe diminuir o feio, para lhe minorar a imputação.
No dizer mal das mulheres não ha tanta maldade como parece, e d'isto me convencem duas cousas; não as ter nunca visto _devéras_ agastadas com os maldizentes, e serem elles sempre os seus maiores adoradores;--é que ellas bem comprehendem que nessas offensas vai mais amor que odio, é que elles só offendem porque amam. Parece um absurdo, mas que haja coração d'amante capaz de o não admittir, não ha.
Injurias de philosophos, essas não sei eu que se possam justificar ou sequer defender; é gente que tem todo o seu viver na cabeça, gente de gêlo, gente capaz de _constipar_, como disse um Italiano fallando das mulheres da Polonia, e por isso elles offendem porque não amam, offendem porque algum raciocinio bastardo pode nelles mais do que a natureza. Um philosopho ha de dizer-te, Elysa, em tom dogmatico que _as mulheres não pertencem ao genero humano_[10], ha de fallar com toda a seriedade a favor d'essa these brilhante no concilio de Mâcon[11], ha de escrever que ella é um ente imperfeito na sua organisação[12], e, contente com pertencer á humanidade só pelo lado paterno, cravará a fronte entre as duas mãos, e ficará diante d'um _in-folio_ abysmado na sua intellectualidade unilateral!
Injurias d'estas, Elysa, não têm perdão; abandono os philosophos á tua colera.... ao teu desprezo queria dizer.
Agora poetas, isso é outra casta de gente. Dir-te-hão, é certo, cousas terriveis, dir-te-hão:--
«Mulher pura e fiel não ha, nem houve! ...................................... Raça infame de viboras dolosas Podesse uma só nau contel-as todas, E o piloto fosse eu...................[13]
que havia de fazer? deixa lá dizer ao poeta o que quizer; mas crê que se elle fosse o piloto guiava de certo a náu a porto de salvamento. Não ha gente mais trovejadora em suas iras que são os poetas; com a penna na mão todas as vezes que se enfurecem temos _vesperas sicilianas_; mas, chegada a occasião, vem logo absolvição papal. Embora te diga que não ha mulher, nem houve, pura e fiel, não é cousa em que elle creia; o poeta é todo coração; coração de poeta, se não amasse, morria-lhe no peito, e amar sem crer na mulher é impossivel. Não sei se _Milton_ disse mal das mulheres, o que sei é que elle casou tres vezes.
Elysa, poetas são outra casta de gente que não são os philosophos.
Queres tu ver como elles fallam quando não é o ciume que os inspira? queres ver com que delicadeza se elles desculpam das faltas passadas? ouve:--«Um sôpro divino formou a alma do homem, a da mulher de um beijo delicioso deveu ser formada.... custa a crer como um ente, que é metade da nossa especie, que das duas é a mais amavel metade, a mais carinhosa, em tantas cousas nosso egual para nos attraír, mas com tantas differenças de nós para se nos unir ainda mais; que, se tem defeitos, de nós os recebe, e nos dá em troca sem o cuidar tantas das virtudes que possuimos, custa, digo, a crer como um tal ente, a quem sua propria fraqueza devêra tornar inviolavel, pôde ver-se em todos os tempos, e provavelmente continuará a ser até ao fim dos seculos, alvo e emprego das criticas mais desabridas, e mais grosseiras calumnias......... Qual póde ser a causa d'esta mais que montezinha ferocidade?....... é a causa o mesmo natural instincto, que faz que os soldados em tempo de guerra, seroando entre as armas á fogueira ociosa do seu rancho, encareçam as derrotas do inimigo, e lhe assaquem fraquezas que não tem, para a si proprios accrescentarem animos e determinação para as futuras pelejas--»[14].
Ora eis ahi a linguagem dos poetas quando _transfugas dos arraiaes dos levantados se recolhem ás trincheiras d'ellas_;--todos esses libellos, que lhes saem das mãos, não são d'elles; é o anjo negro, diabolico, sinistro do ciume que lhes espremeu fel no tinteiro, e escreveu em nome e por conta dos pobres poetas.
E quem não perdoará os furores do ciume?! não sei até se elles são necessarios. _Ovidio_, que passa por mestre em taes materias, aconselhou-os porque traziam comsigo a _redintegratio amoris_, a doçura da nova paz; e tão longe leva elle o conselho, que permitte chegar o amante enfurecido a despedaçar os vestidos da sua bella ingrata; tambem _Moliére_, que não foi sempre francez com as damas, tambem elle os desculpa e se desculpa dizendo:--«ne savez vous pas que les injures des amants n'offensent jamais; qu'il est des amours emportés aussi bien que des doucereux; et qu'en de pareilles occasions les paroles les plus étranges, _et quelque chose de pis encore_, se prennent bien souvent pour des marques d'affection, par celles même qui les reçoivent?--»[15].
Não sei se _Moliére_ quiz adoptar o principio de _Ovidio_ naquelle _quelque chose de pis encore_; mas o que um e outro quizeram foi cobrir o ciume com as azas do amor: se eu pretendesse para isso uma auctoridade mais competente do que aquelles dous poetas talvez a tivesse[16]. O que é certo porém, Elysa, e seja com isto que eu dê mate á minha defesa, o que é certo é que por isso mesmo que na mulher se pretende a perfeição, é mister não a lisongear sempre; e o achar todas egualmente sem defeito não sei se é maior prova de indifferença que de amor.
Está pois decidido que os poetas são muito melhores do que os philosophos, e que no seu dizer mal não ha injuria comparavel áquella injuria fria, tremenda, meditada, e infinitamente falsa de que as _mulheres não pertencem ao genero humano_:--quem os tivera feito nascer das hervas! Estes taes não quizera eu nem que as tetas das lobas os alimentassem.
Nunca taes homens souberam Ler na face da mulher, Em seus olhos aprender Nunca taes homens quizeram.
Não viram manar-lhe a flux Dos labios celeste riso? Não viram do paraiso Nos olhos accesa a luz?
Não é d'anjo a voz macia, Que, vencendo almo pudor, Te diz ternura e amor Com tão mimosa harmonia? Aquelle encanto só seu, Graças e mimos só d'ella, Aquella rosa tão bella Não vem do rosal do céo?
A quem á terra só veiu Por te servir, por te amar, D'irmã tua lhe chamar Parece que tens receio?[17] Se o teu orgulho não quer Chamar anjo á formosura, Deixando ingrata loucura, Chama-lhe ao menos mulher.
Não pertence á humanidade Dizes tu, impio! e não vês Do seio caír-lhe aos pés Humanada a Divindade?! Se em ti a crença inda tem Algum poder, pensa n'isto, Pensa tu que Jesus-Christo Foi homem por sua mãe.
O que é admiravel, Elysa, é que na mesma epocha em que se dizia em França que _a mulher não tinha alma_, appareceram _Isabel de Baviera_ e _Joanna d'Arc_: aquella entregou a França á Inglaterra para mostrar o poder d'uma mulher; esta deu de novo a patria aos philosophos para mostrar a generosidade feminina; foi Deos que se encarregou de as desafrontar.
Se philosophos e poetas tivessem estudado a mulher: a mulher physica, a mulher intellectual, a mulher moral, já nem syllogismos nem versos lhe seriam tão contrarios; mas que? são como o Marquez que Moliére nos pinta; nem se dão ao trabalho de examinar o que sentencêam, e depois--«je la trouve détestable, morbleu! détestable, du dernier détestable, ce qu'on appele détestable--»[18].
A mulher physica achal-a-hiam na physiologia moderna (na de _Hippocrates_ não), achal-a-hiam tão perfeita como o homem; e se algum d'estes entes deve ser preferido pela delicadeza e maravilhoso da organisação, essa preferencia cabe á mulher, sem contar todavia a belleza externa, nem a graça das fórmas.