Part 4
Bem sei que preparaes correctamente O aço e a seda, as laminas e o estofo; Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo, Tudo o que ha de mais rijo e resistente!
Mas isso tudo é falso, é machinal, Sem vida, como um circulo ou um quadrado, Com essa perfeição do fabricado, Sem o rythmo do vivo e do real!
E cá o santo sol, sobre isso tudo, Faz conceber as verdes ribanceiras; Lança as rosaceas bellas e fructeiras Nas searas de trigo palhagudo!
Uma aldeia d'aqui é mais feliz, Londres sombria, em que scintilla a corte!... Mesmo que tu, que vives a compor-te, Grande seio arquejante de Paris!...
Ah! Que de gloria, que de colorido, quando, por meu mandado e meu conselho, Cá se empapelam «as maçãs d'espelho» Que Herbert Spencer talvez tenha comido!
Para alguns são prosaicos, são banaes Estes versos de fibra succolenta; Como se a polpa que nos dessedenta Nem ao menos valesse uns madrigaes!
Pois o que a bocca trava com surprezas Senão as frutas tónicas e puras! Ah! N'um jantar de carnes e gorduras A graça vegetal das sobremesas!...
Jack, marujo inglez, tu tens razão Quando, ancorando em portos como os nossos, As laranjas com cascas e caróços Comes com bestial soffreguidão!...
* * * * *
A impressão d'outros tempos, sempre viva, Dá estremeções no meu passado morto, E inda viajo, muita vez, absorto, Pelas varzeas da minha retentiva.
Então recordo a paz familiar, Todo um painel pacifico d'enganos! E a distancia fatal d'uns poucos annos É uma lente convexa, d'augmentar.
Todos os typos mortos resuscito! Perpetuam-se assim alguns minutos! E eu exagéro os casos diminutos Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.
Pinto quadros por lettras, por signaes, Tão luminosos como os do Levante, Nas horas em que a calma é mais queimante, Na quadra em que o verão aperta mais.
Como destacam, vivas, certas cores, Na vida externa cheia d'alegrias! Horas, vozes, locaes, physionomias, As ferramentas, os trabalhadores!
Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar E a rama do pinheiro! Eu adivinho O resinoso, o tão agreste pinho Serrado nos pinhaes da beira mar.
Vinha cortada, aos feixes, a madeira, Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas; Depois armavam-se, n'um prompto as caixas Sob uma calma espessa e calaceira!
Feias e fortes! Punham-lhes papel, A forral-as. E em grossa serradura Acamava-se a uva prematura Que não deve servir para tonel!
Cingiam-n'as com arcos de castanho Nas ribeiras cortados, nos riachos; E eram d'assucar e calor os cachos, Criados pelo esterco e pelo amanho!
Ó pobre estrume, como tu compões Estes pampanos doces como afagos! «Dedos de dama»: transparentes bagos! «Tetas de cabra»: lacteas carnações!
E não eram caixitas bem dispostas Como as passas de Malaga e Alicante; Com sua fórma estavel, ignorante, Estas pesavam, brutalmente, ás costas!
Nos vinhatorios via fulgurar, Com tanta cal que torna as vistas cegas, Os parallelogramos das adegas, Que têm lá dentro as dornas e o lagar!
Que rudeza! Ao ar livre dos estios. Que grande azafama! Apressadamente Como soava um martellar frequente, Véspera da saida dos navios!
Ah! Ninguem entender que ao meu olhar Tudo tem certo espirito secreto! Com folhas de saudades um objecto Deita raizes duras de arrancar!
As navalhas de volta, por exemplo, Cujo bico de passaro se arqueia, Forjadas no casebre d'uma aldeia, São antigas amigas que eu contemplo!
Ellas, em seu labor, em seu lidar, Com sua ponta como a da podoas, Serviam próbas, uteis, dignas, boas, Nunca tintas de sangue e de matar.
E as enxós de martello, que d'um lado Cortavam mais do que as enxadas cavam, Por outro lado, rápidas, pregavam, D'uma pancada, o prego fasquiado!
O meu animo verga na abstracção, Com a espinha dorsal dobrada ao meio; Mas se de materiaes descubro um veio Ganho a musculatura d'um Sansão!
E assim--e mais no povo a vida é corna-- Amo os officios como o de ferreiro, Com seu folle arquejante, seu brazeiro, Seu malho retumbante na bigorna!
E sinto, se me ponho a recordar Tanto utensilio, tantas perspectivas, As tradições antigas, primitivas, E a formidavel alma popular!
Oh! Que brava alegria eu tenho quando Sou tal qual como os mais! E, sem talento, Faço um trabalho technico, violento, Cantando, praguejando, batalhando!
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Os fruteiros, tostados pelos soes, Tinham passado, muita vez, a raia, E, espertos, entre os mais da sua laia, --Pobres camponios--eram uns heroes.
E por isso, com phrases imprevistas, E colorido e estylo e valentia, As «haciendas» que ha na «Andalucia» Pintavam como novos paysagistas.
De como, ás calmas, n'essas excursões, Tinham aguas salobras por refrescos; E amarellos, enormes, gigantescos, Lá batiam o queixo com sesões!
Tinham corrido já na adusta Hespanha, Todo um fertil plató sem arvoredos, Onde armavam barracas nos vinhedos, Como tendas alegres de campanha.
Que pragas castelhanas, que alegrão, Quanto contavam scenas de pousadas! Adoravam as cintas encarnadas E as côres, como os pretos do sertáo!
E tinham, sem que a lei a tal obrigue, A educação vistosa das viagens! Uns por terra partiam e estalagens, Outros, aos montes, no convez d'um brigue!
Só um havia, triste e sem fallar Que arrastava a maior misantropia, E, roxo como um figado, bebia O vinho tinto que eu mandava dar!
Pobre da minha geração exangue De ricos! Antes, como os abrutados, Andar com uns sapatos encebados, E ter riqueza chimica no sangue!
* * * * *
Mas hoje a rustica lavoura, quer Seja o patrão, quer seja o jornaleiro, Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro E a filharada lidam, e a mulher!...
Desde o princípio ao fim é uma maçada De mil demonios! Torna-se preciso Ter-se muito vigor, muito juizo Para trazer a vida equilibrada!
Hoje eu sei quanto custam a criar As cepas, desde que eu as pódo e empo. Ah! O campo não é um passatempo Com bucolismos, rouxinoes, luar.
A nós tudo nos rouba e nos dizima: O rapazio, o imposto, as pardaladas, As osgas peçonhentas, achatadas, E as abelhas que engordam na vindima.
E o pulgão, a lagarta, os caracoes, E ha inda, alem do mais com que se ateima, As intemperies, o granizo, a queima, E a concorrencia com os hespanhoes.
Na vendas, os vinhateiros d'Almeria Competem contra os nossos fazendeiros. Dão frutas aos leilões dos estrangeiros, Por uma cotação que nos desvia!
Pois tantos contras, rudes como são, Forte e teimoso, o camponez destroe-os! Venham de lá pesados os comboyos E os «buques» estivados no porão!
Não, não é justo que eu a culpa lance Sobre estes nadas! Puras bagatellas! Nós não vivemos só de coisas bellas, Nem tudo corre como n'um romance!
Para a Terra parir hade ter dor, E é para obter as asperas verdades, Que os agronomos cursam nas cidades, E, á sua custa, aprende o lavrador.
Ah! Não eram insectos nem as aves Que nos dariam dias tão difficeis, Se vós, sabios, na gente descobrisseis Como se curam as doenças graves.
Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais! Difficultoso trato das cearas! Lutas constantes sobre as jornas caras! Compras de bois nas feiras annuaes!
O que a alegria em nós destroe e mata, Não é rede arrastante d'escalracho, Nem é «suão» queimante como um facho, Nem invasões bulhosas d'herva pata.
Podia ter seccado o poço em que eu Me debruçava e te pregava sustos, E mais as hervas, arvores e arbustos Que--tanta vez!--a tua mão colheu.
«Molestia negra» nem «charbon» não era, Como um archote incendiando as parras! Tão pouco as bastas e invisiveis garras, Da enorme legião do phylloxera!
Podiam mesmo, com o que contêm, Os muros ter caido às invernias! Somos fortes! As nossas energias Tudo vencem e domam muito bem!
Que os rios, sim, que como touros mugem, Transbordando atulhassem as regueiras! Chorassem de resina as larangeiras! Ennegrecessem outras com ferrugem!
As turvas cheias de novembro, em vez Do nateiro subtil que fertilisa, Fossem a inundação que tudo pisa, No rebanho afogassem muita rez!
Ah! N'esse caso pouco se perdera, Pois isso tudo era um pequeno damno, Á vista do cruel destino humano Que os dedos te fazia como cera!
Era essa tysica em terceiro grau, Que nos enchia a todos de cuidado, Te curvava e te dava um ar alado Como quem vae voar d'um mundo mau.
Era a desolação que inda nos mina (Porque o fastio é bem peior que a fome) Que a meu pai deu a curva que a consome, E a minha mãe cabellos de platina.
Era a chlorose, esse tremendo mal, Que desertou e que tornou funesta A nossa branca habitação em festa Reverberando a luz meridional.
Não desejemos,--nós os sem defeitos,-- Que os tysicos pereçam! Má theoria, Se pelos meus o apuro principia, Se a Morte nos procura em nossos leitos!
A mim mesmo, que tenho a pretensão De ter saude, a mim que adoro a pompa Das forças, pode ser que se me rompa Uma arteria, e me mine uma lesão.
Nós outros, teus irmãos, teus companheiros, Vamos abrindo um matagal de dores! E somos rijos como os serradores! E positivos como os engenheiros!
Porém, hostis, sobresaltados, sós, Os homens architectam mil projectos De victoria! E eu duvido que os meus netos Morram de velhos como os meus avós!
Porque, parece, ou fortes ou velhacos Serão apenas os sobreviventes; E ha pessoas sinceras e clementes, E troncos grossos com seus ramos fracos!
E que fazer se a geração decae! Se a seiva genealogica se gasta! Tudo empobrece! Extingue-se uma casta! Morre o filho primeiro do que o pai!
Mas seja como for, tudo se sente Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta, Ó flor cortada, susceptivel, alta, Que assim seccaste prematuramente!
Eu que de vezes tenho o desprazer De reflectir no tumulo! E medito No eterno Incognoscivel infinito, Que as idéas não podem abranger!
Como em paul em que nem cresça a junca Sei d'almas estagnadas! Nós absortos, Temos ainda o culto pelos Mortos, Esses ausentes que não voltam nunca!
Nós ignoramos, sem religião, Ao rasgarmos caminho, a fé perdida, Se te vemos ao fim d'esta avenida Ou essa horrivel aniquilação!...
E ó minha martyr, minha virgem, minha Infeliz e celeste creatura, Tu lembras-nos de longe a paz futura, No teu jazigo, como uma santinha!
E emquanto a mim, és tu que substitues Todo o mysterio, toda a santidade, Quando em busca do reino da verdade Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!
III
Tinhamos nós voltado á capital maldicta, Eu vinha de polir isto tranquillamente, Quando nos seccedeu uma cruel desdita, Pois um de nós caiu, de subito, doente.
Uma tuberculose abria-lhe cavernas! Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo! E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas, Com que se despediu de todos e do mundo!
Pobre rapaz robusto e cheio de futuro! Não sei d'um infortunio immenso como o seu! Vio o seu fim chegar como um medonho muro, E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!
De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo Como tanta crueldade e tantas injustiças, Se inda trabalho é como os presos no degredo, Com planos de vingança e idéas insubmissas.
E agora, de tal modo a minha vida é dura, Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos, Que sinto só desdem pela litteratura, E até desprézo e esqueço os meus amados versos!
PROVINCIANAS
I
Olá! Bons dias! Em março Que mocetona e que joven A terra! Que amor esparso Corre os trigos, que se movem Ás vagas d'um verde garço!
Como amanhece! Que meigas As horas antes de almoço! Fartam-se as vaccas nas veigas E um pasto orvalhado e moço Produz as novas manteigas.
Toda a paizagem se doura; Tibida ainda, que frecas! Bella mulher, sim senhora, N'esta manhã pittoresca, Primaveral, creadora!
Bom sol! As sebes d'encosto Dão madresilvas cheirosas Que entotecem como um mosto Floridas, ás espinhosas Subio-lhes o sangue ao rosto.
Cresce o relevo dos montes, Como seios offegantes; Murmuram como umas fontes Os rios que dias antes Bramiam galgando pontes.
E os campos, milhas e milhas, Com póvos d'espaço a espaço, Fazem-se ás mil maravilhas; Dir-se-ia o mar de sargaço Glauco, ondulante, com ilhas!
Pois bem. O inverno deixou-nos. É certo. E os grãos e as sementes Que ficam d'outros outonos Acordam hoje frementes Depois d'uns poucos de somnos.
Mas nem tudo são descantes Por esses longos caminhos Entre favaes palpitantes Há solos bravos, maninhos, Que expulsam seus habitantes!
E n'esta quadra d'amores Que emigram os jornaleiros Ganhões e trabalhadores! Passam clans de forasteiros Nas terras de lavradores.
Tal como existem mercados Ou feiras, semanalmente Para comprarmos os gados Assim ha praças de gente Pelos domingos calados!
Emquanto a ovelha arredonda, Vão tribus de sete filhos, Por varzeas que fazem onda, Para as derregas dos milhos E molhadellas da monda.
De roda pulam borregos; Enchem então as cardosas As moças d'esses labregos Com altas botas bartrosas De se atirarem aos regos!
Eil-as que vem ás manadas Com caras de soffrimento, Nas grandes marchas forçadas! Vem ao trabalho, ao sustento, Com fouces, sachos, enchadas!
Ai o palheiro das servas Se o feitor lhe tira as chaves! Ellas chegam ás catervas, Quando acasalam as aves E se fecundam as hervas!...
II
Ao meio dia na cama, Branca fidalga o que julga Das pequenas da su'ama?! Vivem minadas da pulga Negras do tempo e da lama.
Não é caso que a commova Ver suas irmans de leite, Quer faça frio, quer chova, Sem uma mamã que as deite Na tepidez d'um alcova?!
Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.
NOTAS
Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa, freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos Santos Verde.
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A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga. Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem. Realmente o eram--pela hesitação do neophyto.
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Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de menos folego.
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No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna, da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas. Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade; --ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.
Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos insultos.
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Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes, pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.
1887.
S. P.
INDICE
Dedicatoria Prefacio
VERSOS
CRISE ROMANESCA
Deslumbramentos Septentrional Meridional Ironias do Desgosto Humilhações Responso
NATURAES
Contrariedades A debil N'um bairro moderno Crystalisações Noites gelidas Sardenta Flores velhas Noite fechada Manhans brumosas Frigida De verão O sentimento d'um occidental De tarde Em petiz Nós Provincianas
Notas
End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde