Part 3
E perguntavas sobre os ultimos inventos Agrícolas. Que aldeias tão lavadas! Bons ares! Boa luz! Bons alimentos! Olha: Os saloios vivos, corpulentos, Como nos fazem grandes barretadas!
V
Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens Dos olivaes escuros. Onde irás? Regressam os rebanhos das pastagens; Ondeiam milhos, nuvens e miragens, E, silencioso, eu fico para traz.
VI
N'uma collina azul brilha um logar caiado. Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha, Com teu chapéo de palha, desabado, Tu continúas na azinhaga; ao lado Verdeja, vicejante, a nossa vinha.
VII
N'isto, parando, como alguem que se analysa, Sem desprender do chão teus olhos castos, Tu começaste, harmonica, indecisa, A arregaçar a chita, alegre e lisa Da tua cauda um poucochinho a rastos.
VIII
Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros; O sol abrasa as terras já ceifadas, E alvejam-te, na sombra dos pinheiros, Sobre os teus pés decentes, verdadeiros, As saias curtas, frescas, engommadas.
IX
E, como quem saltasse, extravagantemente, Um rego d'agua sem se enxovalhar, Tu, a austera, a gentil, a intelligente, Depois de bem composta, déste á frente Uma pernada comica, vulgar!
X
Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo! No atalho enxuto, e branco das espigas Caidas das carradas no salmejo, Esguio e a negrejar em um cortejo, Destaca-se um carreiro de formigas.
XI
Ellas, em sociedade, espertas, diligentes, Na natureza trémula de sede, Arrastam bichos, uvas e sementes; E atulha, por instincto, previdentes, Seus antros quasi occultos na parede.
XII
E eu desatei a rir como qualquer macaco! «Tu não as esmagares contra o solo!» E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco, Eu de jasmim na casa do casaco E d'oculo deitado a tiracolo!
XIII
«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora Um sublimado corrosivo, uns pós De solimão, eu, sem maior demora, Envenenal-as-hia! Tu, por ora, Preferes o romantico ao feroz.
XIV
Que compaixão! Julgava até que matarias Esses insectos importunos! Basta. Merecem-te espantosas sympathias? Eu felicito suas senhorias, Que honraste com um pulo de gymnasta!»
XV
E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros Luziam, com doçura, honestamente; De longe o trigo em monte, e os calcadoiros, Lembravam-me fusões d'immensos oiros, E o mar um prado verde e florescente.
XVI
Vibravam, na campina, as chocas da manada; Vinham uns carros a gemer no outeiro, E finalmente, energica, zangada, Tu inda assim bastante envergonhada, Volveste-me, apontando o formigueiro:
XVII
«Não me incommode, não, com ditos detestaveis! Não seja simplesmente um zombador! Estas mineiras negras, incançaveis, São mais economistas, mais notaveis, E mais trabalhoras que o senhor.»
O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL
A Guerra Junqueiro
I
AVE MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer, Ha tal soturnidade, ha tal melancholia, Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.
O ceu parece baixo e de neblina, O gaz extravasado enjôa-me, perturba; E os edificios, com as chaminés, e a turba Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando á via ferrea os que se vão. Felizes! Occorrem-me em revista exposições, paizes: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações sómente emmadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos; Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos, Ou érro pelos caes a que se atracam botes.
E evoco, então, as chronicas navaes: Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado! Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
E o fim da tarde inspira-me; e incommoda! De um couraçado inglez vogam os escaleres; E em terra n'um tinir de louças e talheres Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.
N'um trem de praça arengam dois dentistas; Um tropego arlequim braceja n'umas andas; Os cherubins do lar fluctuam nas varandas; Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!
Vasam-se os arsenaes e as officinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vem sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, á cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas,
Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas; E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, E o peixe pôdre géra os focos de infecção!
II
NOITE FECHADA
Toca-se as grades, nas cadeias. Som Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!
E eu desconfio, até, de um aneurisma Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, Chora-me o coração que se enche e que se abysma.
A espaços, illuminam-se os andares, E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas egrejas, n'um saudoso largo, Lançam a nodoa negra e funebre do clero: N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto, Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas; Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, E os sinos d'um tanger monastico e devoto.
Mas, n'um recinto publico e vulgar, Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras, Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras, Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!
E eu sonho o Colera, imagina a Febre, N'esta accumulação de corpos enfezados; Sombrios e espectraes recolhem os soldados; Inflamma-se um palacio em face de um casebre.
Partem patrulhas de cavallaria Dos arcos dos quarteis que foram já conventos; Edade-média! A pé, outras, a passos lentos, Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Triste cidade! Eu temo que me avives Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes, Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes, Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.
E mais: as costureiras, as floristas Descem dos magasins, causam-me sobresaltos; Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente só, Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados: Entro na brasserie; ás mesas de emigrados, Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.
III
AO GAZ
E saio. A noite peza, esmaga. Nos Passeios de lagedo arrastam-se as impuras. Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras Um sopro que arripia os hombros quasi nús.
Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso Ver cirios lateraes, ver filas de capellas, Com santos e fieis, andores, ramos, velas, Em uma cathedral de um comprimento immenso.
As burguezinhas do Catholocismo Resvalam pelo chão minado pelos canos; E lembram-me, ao chorar doente dos pianos, As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.
N'um cutileiro, de avental, ao torno, Um forjador maneja um malho, rubramente; E de uma padaria exhala-se, inda quente, Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
E eu que medito um livro que exarcebe, Quizera que o real e a analyse m'o dessem; Casas de confecções e modas resplandecem; Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.
Longas descidas! Não poder pintar Com versos magistraes, salubres e sinceros, A esguia diffusão dos vossos reverberos, E a vossa pallidez romantica e lunar!
Que grande cobra, a lubrica pessoa, Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquella velha, de bandós! Por vezes, A sua traîne imita um leque antigo, aberto, Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.
Desdobram-se tecidos estrangeiros; Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,
Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco; Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.
«Dó da miseria!... Compaixão de mim!...» E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim!
IV
HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxygenio, d'ar, Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras; Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cáe nas lages, ás escuras: Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta A dupla correnteza augusta das fachadas; Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longiqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castissimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis, Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas! Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, N'umas habitações translucidas e frageis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir, E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastidões aquaticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados, Sem arvores, no valle escuro das muralhas!... Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.
E n'estes nebulosos corredores Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas; Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos; Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes; E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes, Amarelladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas, Caminham de lanterna e servem de chaveiros; Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros, Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, n'esta massa irregular De predios sepulchraes, com dimensões de montes, A Dôr humana busca os amplos horisontes, E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
DE TARDE
N'aquelle «pic-nic» de burguezas, Houve uma cousa simplesmente bella, E que, sem ter historia nem grandezas, Em todo o caso dava uma aguarella.
Foi quando tu, descendo do burrico, Foste colher, sem imposturas tolas, A um granzoal azul de grão de bico Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima d'uns penhascos, Nós acampámos, inda o sol se via; E houve talhadas de melão, damascos, E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo purpuro a sahir da renda Dos teus dois seios como duas rolas, Era o supremo encanto da merenda O ramalhete rubro das papoulas!
EM PETIZ
I
DE TARDE
Mais morta do que viva, a minha companheira Nem força teve em si para soltar um grito; E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito, Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!
Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas, Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas; E, têtas a abanar, as mães de largas ancas, Desciam mais atraz, malhadas e turinas.
Do seio do logar--casitas com postigos-- Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!
Nós davamos, os dois, um giro pelo valle: Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos! E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, Roçavam pelo teu «costume de percale».
Já não receias tu essa vaquita preta, Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro Que estavas a tremer, cosida com o muro, Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
II
OS IRMÃOSINHOS
Pois eu, que no deserto dos caminhos, Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobresinhos!
Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço! Os velhos, que nos rezam padre-nossos; Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apoiam sobre o moço.
Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros, Ou que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra, Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres mettem medo! Os de marmita, Para forrar, por anno, alguns patacos, Entrapam-se nas mantas com buracos, Choramingando, a voz rachada, afflicta.
Outros pedincham pelas cinco chagas; E no poial, tirando as ligaduras, Mostram as pernas putridas, maduras, Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos; Correm as villas; sobem os outeiros; E ás horas de calor, nos esterqueiros, De roda d'elles zumbem os moscardos.
Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados; E um aleijado com os pés quadrados, Pedia-nos de cima de um jumento.
O resmungão! Que barbas! Que saccolas! Cheirava a migas, a bafio, a arrotos; Dormia as noutes por telheiros rotos, E sustentava o burro a pão d'esmolas.
* * * * *
Ó minha loura e doce como um bolo! Affavel hospeda na nossa casa, Logo que a torrida cidade abraza, Como um enorme fôrno de tijolo!
Tu visitavas, esmoler, garrida, Umas creanças n'um casal queimado; E eu, pela estrada, espicaçava o gado, N'uma attitude esperta e decidida.
Por lobishomens, por papões, por bruxas, Nunca soffremos o menor receio. Temieis vós, porém, o meu aceio, Mendigasitas sordidas, gorduchas!
Vicios, sezões, epidemias, furtos, De certo, fermentavam entre lixos; Que podridão cobria aquelles bichos! E que luar nos teus fatinhos curtos!
* * * * *
Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, Ruça, descalça, a trote nos atalhos, E que lavava o corpo e os seus retalhos No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.
E a douda a quem chamavam a «Ratada» E que fallava só! Que antipathia! E se com ella a malta contendia, Quanta indecencia! Quanta palavrada!
Uns operarios, n'estes descampados, Tambem surdiam, de chapeu de côco, Dizendo-se, de olhar rebelde e louco, Artistas despedidos, desgraçados.
Muitos! E um bebedo--o Camões--que fôra Rico, e morreu a mendigar, zarolho, Com uma pala verde sobre um olho! Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.
E o resto? Bandos de selvagensinhos: Um nú que se gabava de maroto; Um, que cortada a mão, coçava o coto, E os bons que nos tratavam por padrinhos.
Pediam fatos, botas, cobertores! Outro jogava bem o pau, e vinha Chorar, humilde, junto da coxinha! «Cinco réisinhos!... Nobres bemfeitores!...
E quando alguns ficavam nos palheiros, E de manhã catavam os piolhos: Emquanto o sol batia nos restolhos E os nossos cães ladravam, resingueiros!
Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos, Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. Sulcavam as calçadas, de muletas; Cantavam, no pomar, os pintarroxos!
III
HISTORIAS
Scismatico, doente, azedo, apoquentado, Eu agourava o crime, as facas, a enxovia, Assim que um besuntão dos taes se apercebia Da minha blusa azul e branca, de riscado.
Minaveis, ao serão, a cabecita loira, Com contos de provincia, ingenuas creaditas: Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas, E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!
Na noite velha, a mim, como tições ardendo, Fitavam-me os olhões pesados das ciganas; Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas; Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.
E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos, Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto; Sonhava que os ladrões--homens de quem m'espanto Roubavam para azeite a carne dos meninos!
E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando, Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas, Gritos de maioraes, mugidos de boiadas, Branca de susto, meiga e miope, estacando!
NÓS
A A. de S. V.
I
Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre E o Cholera tambem andaram na cidade, Que esta população, com um terror de lebre, Fugiu da capital como da tempestade.
Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas, (Até então nós só tiveramos sarampo), Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga: O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos; Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
Na parte mercantil, foco da epidemia, Um panico! Nem um navio entrava a barra, A alfandega parou, nenhuma loja abria, E os turbolentos caes cessaram a algazarra.
Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados, Rodavam sem cessar as seges dos enterros. Que triste a sucessão dos armazens fechados! Como um domingo inglez na «city», que desterro!
Sem canalisação, em muitos burgos ermos, Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros. E os medicos, ao pé dos padres e coveiros, Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!
Uma illuminação a azeite de purgueira, De noite amarellava os predios macillentos. Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.
Porém, lá fora, á solta, exageradamente Emquanto acontecia essa calamidade, Toda a vegetação, plethorica, potente, Ganhava immenso com a enorme mortandade!
N'um impeto de seiva os arvoredos fartos, N'uma opulenta furia as novidades todas, Como uma universal celebração de bodas, Amaram-se! E depois houve soberbos partos.
Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa, Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas, E em permanencia olhando o horizonte em brasa, Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.
Elle d'um lado, via os filhos achacados, Um livido flagello e uma molestia horrenda! E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados, E um salutar refugio e um lucro na vivenda!
E o campo, desde então, segundo o que me lembro, É todo o meu amor de todos estes annos! Nós vamos para lá; somos provincianos, Desde o calor de maio aos frios de novembro!
II
Que de fructa! E que fresca e temporã, Nas duas boas quintas bem muradas, Em que o sol, nos talhões e nas latadas, Bate de chapa, logo de manhã!
O laranjal de folhas negrejantes, (Porque os terrenos são resvaladiços) Desce em socalcos todos os macissos, Como uma escadaria de gigantes.
Das courellas, que criam cereaes, De que os donos--ainda!--pagam foros. Dividem-n'o fechados pitosporos, Abrigos de raizes verticaes.
Ao meio, a casaria branca assenta Á beira da calçada, que divide Os escuros pomares de pevide, Da vinha, n'uma encosta soalhenta!
Entretanto, nao ha maior prazer Do que, na placidez das duas horas, Ouvir e ver, entre o chiar das noras, No largo tanque as bicas a correr!
Muito ao fundo, entre olmeiros seculares, Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem, O seu leito é um atalho de passagem, Pedregosissimo, entre dois logares.
Como lhe luzem seixos e burgaus Roliçõs! Marinham nas ladeiras Os renques africanos das piteiras, Que como áloes espigam altos paus!
Montanhas inda mais longiquamente, Com restevas, e combros como boças, Lembram cabeças estupendas, grossas, De cabello grisalho, muito rente.
E, a contrastar, nos valles, em geral, Como em vidraça d'uma enorme estufa, Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa, D'uma vitalidade equatorial!
Que de frugalidades nós criamos! Que torrão espontaneo que nós somos! Pela outomnal maturação dos pomos, Com a carga, no chão pousam os ramos.
E assim postas, nos barros e areiaes, As maceiras vergadas fortemente, Parecem, d'uma fauna surprehendente, Os polypos enormes, diluviaes.
Comtudo, nós não temos na fazenda Nem uma planta só de mero ornato! Cada pé mostra-se util, é sensato, Por mais finos aromas que rescenda!
Finalmente, na fertil depressão, Nada se vê que a nossa mão não regre: A florescencias d'um matiz alegre Mostra um sinal--a fructificação!
* * * * *
Ora, ha dez annos, n'este chão de lava E argila e areia e alluviões dispersas, Entre especies botanicas diversas, Forte, a nossa familia radiava!
Unicamente, a minha doce irmã, Como uma tenue e immaculada rosa, Dava a nota galante e melindrosa Na trabalheira rustica, aldeã.
E foi n'um anno prodigo, excellente, Cuja amargura nada sei que adoce, Que nós perdemos essa flor precoce, Que cresceu e morreu rapidamente!
Ai d'aquelles que nascem n'este cahos, E, sendo fracos, sejam generosos! As doenças assaltam os bondosos E--custa a crer--deixam viver os maus!
* * * * *
Fecho os olhos cançados, e descrevo Das telas da memoria retocadas, Biscates, hortas, batataes, latadas, No paiz montanhoso, com relevo!
Ah! Que aspectos benignos e ruraes N'esta localidade tudo tinha, Ao ires, com o banco de palhinha, Para a sombra que faz nos parreiraes!
Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente Que uma folha se mova ou se desmanche, Tu, refeita e feliz com o teu «lunch», Nos ajudavas, voluntariamente!...
Era admiravel--n'este grau do Sul!-- Entre a rama avistar o teu rosto alvo, Ver-te escolhendo a uva diagalvo, Que eu embarcava para Liverpool.
A exportação de frutas era um jogo: Dependiam da sorte do mercado O boal, que é de perolas formado, E o ferral, que é ardente e côr de fogo!
Em agosto, ao calor canicular, Os passaros e enxames tudo infestam; Tu cortavas os bagos que não prestam Com a tua thesoura de bordar.
Douradas, pequeninas, as abelhas, E negros, volumosos, os besoiros, Circumdavam, com impetos de toiros, As tuas candidissimas orelhas.
Se uma vespa lançava o seu ferrão Na tua cutis--petala de leite!-- Nós collocavamos dez réis e azeite Sobre a galante, a rosea inflammação!
E se um de nós, já farto, arrenegado, Com o chapeo caçava a bicharia, Cada zangão voando, á luz do dia, Lembrava o teu dedal arremessado.
* * * * *
Que d'encantos! Na força do calor Desabrochavas no padrão da bata, E, surgindo da gola e da gravata, Teu pescoço era o caule d'uma flor!
Mas que cegueira a minha! Do teu porte A fina curva, a indefinida linha, Com bondades d'herbivora mansinha, Eram prenuncios de fraqueza e morte!
Á procura da libra e do «schilling», Eu andava abstracto e sem que visse Que o teu alvor romantico de «miss» Te obrigava a morrer antes de mim!
E antes tu, ser lindissimo, nas faces Tivesses «panno» como as camponezas; E sem brancuras, sem delicadezas, Vigorosa e plebeia, inda durasses!
Uns modos de carnivora feroz Podias ter em vez de inoffensivos; Tinhas caninos, tinhas incisivos, E podias ser rude como nós!
Pois n'este sítio, que era de sequeiro, Todo o genero ardente resistia, E, á larguissima luz do Meio-dia, Tomava um tom opalico e trigueiro!
* * * * *
Sim! Europa do Norte, o que suppões Dos vergeis que abastecem teus banquetes, Quando ás dockas, com fructas, os paquetes Chegam antes das tuas estações?!
Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra E as tuas frutas acidas, tardias, No azedo amoniacal das queijarias Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!
Ó cidades fabris, industriaes, De nevoeiros, poeiradas de hulha, Que pensaes do paiz que vos atulha Com a fructa que sae dos seus quintaes?
Todos os annos, que frescor se exhala! Abundancias felizes que eu recordo! Carradas brutas que iam para bórdo! Vapores por aqui fazendo escala!
Uma alta parreira muscatel Por doce não servia para embarque: Palacios que rodeiam Hyde-Park, Não conheceis esse divino mel!
Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado, Não as têm nas florestas em que ha corças, Nem em vós que dobraes as vossas forças, Pradarias d'um verde illimitado!
Anglos-Saxonios, tendes que invejar! Ricos suicidas, comparae comvosco! Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco, Facilimo, evidente, salutar!
Opponde ás regiões que dão os vinhos Vossos montes d'escorias inda quentes! E as febris officinas estridentes Ás nossas tecelagens e moinhos!
E ó condados mineiros! Extensões Carboniferas! Fundas galerias! Fabricas a vapor! Cutelarias! E mechanicas, tristes fiações!