O Livro de Cesario Verde

Part 1

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O LIVRO DE CESARIO VERDE

Prefácio

A JORGE VERDE

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido Jorge--deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;--morri para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces! O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada: peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de nós, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmão soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento: --Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

Adeus, meu querido Jorge!

S.P.

20 de julho de 1886.

Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás Lettras, como se as Lettras lá estivessem--no Curso. Eu matriculara-me, com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos--para a vida e para a morte.

Para a vida e para a morte.

Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle não teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas palavras suas de ha poucos dias:--«E como se dê o caso de tu seres o mais dedicado dos meus amigos...» Tenho aqui essas palavras: ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas, alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua primeira noite redimida...

Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um dia, trocámos estas palavras:--«Como tu tens tempo, meu amigo, para soffrer tanto!»--«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar no soffrimento!».

É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida, imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor da discussão--a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e largo sorriso de convencido; e então--meu querido amigo! meu santo poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido; e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente. A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes e as rosas! A bondade summa está no poeta,--mais visivel, pelo menos, do que em Deus.

Artista--e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade, não me dispensarei d'esta indicripção:

Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo, o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio. Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus escrupulos: sim?...»

E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me --e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava irremediavelmente perdido!

Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior, quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado, meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu pallido agonisante illudido!

A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

* * * * *

E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

Foi ás cinco da tarde--ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,--nós os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase indifferente--e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão--como as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas. Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos que que me désse força, que me désse força nova,--pois que se prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos, ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo--do mesmo modo que o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se --sem saber porque...

20 de Agosto

* * * * *

A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com um respiradouro em cruz;--rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á porta está um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da minha raça--funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:--Está bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a gravidade do cypreste:--Bem; não houve novidade em toda a noite...

É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos--o Cesario e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos, horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que se lhe não consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado desprezo da vida. O meu santo está alli,--está resignado: é tudo. Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado--o nosso querido morto impassivel!

E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz d'elle?--pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:--«Sê natural, meu amigo; sê natural!»

Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei n'uma angustia:--«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando, um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte!

Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora. Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento --do soffrimento amparado e protegido...

Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás minhas amarguras,--que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que a minha angustia encontrou na sua.

Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte! Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre, sempre bom--e todavia sempre justo!

A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias: conseguintemente, com a suppressão do trabalho,--do pão,--com a calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera, com todas as ciladas á minha fé... Ah, perdidos em paiz de Cafres! Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova, esperando... Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da Justiça absoluta--da Justiça illuminada e serena;--espera que eu vá dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado, a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte, o seu amor!

Está alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, não saberei dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visões do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada do seu tumulo pelo Nordéste--menos frio do que a minha alma succumbida!

* * * * *

Silva Pinto.

Os versos

I

CRISE ROMANESCA

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplal-a, Quando passa aromatica e normal, Com seu typo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solemnidade, Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me attrae como um thesoiro: O seu ar pensativo e senhoril, A sua voz que tem um timbre de oiro E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estontêa e me fascina... E é, na graça distincta do seu porte, Como a Moda superflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte!...

Eu hontem encontrei-a, quando vinha, Britannica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sósinha, E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente, Um archanjo e um demonio a illuminal-o; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomatico e orgulhoso Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

E emfim prosiga altiva como a Fama, Sem sorrisos, dramatica, cortante; Que eu procuro fundir na minha chamma Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite, Que hão-de acabar os barabaros reaes; E os povos humilhados, pela noite, Para a vingança aguçam os punhaes.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, Sob o setim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, allucinadas, E arrastando farrapos--as rainhas!

SEPTENTRIONAL

Talvez já te esquecesses, ó bonina, Que viveste no campo só commigo, Que te osculei a bocca purpurina, E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel, Mulher como não ha nem na Circassia, Que bebemos, nós dois, do mesmo fel, E regámos com prantos uma acacia.

Talvez já te não lembres com desgosto D'aquellas brancas noites de mysterio, Em que a lua sorria no teu rosto E nas lages que estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça, como um manto, Os teus cabellos d'ambar desmanchados, Se prendiam nas folhas d'um acantho, Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem Que a cauda solevasse aos teus vestidos; E ouvia murmurar á doce aragem Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, Pousarem borbeletas doudejantes Nas tuas formosissimas madeixas, D'aquellas côr das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, hombro com hombro, Caminhavamos sós e de mãos dadas, Beijando os nossos rostos sem assombro, E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos N'um amor grande como um mar sem praias, Ouviamos os meigos dithyrambos, Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes, Eu comtigo, abraçado como as heras, Escondidos nas ondas dos trigaes, Devolvia-te os beijos que me déras;

Quando, se havia lama no caminho, Eu te levava ao collo sobre a greda, E o teu corpo nevado como o arminho Pesava menos que um papel de sêda...

E foste sepultar-te, ó seraphim, No claustro das Fieis emparedadas, Escondeste o teu rosto de marfim No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte, N'esta velha cidade tão sombria, Chorando afflictamente a minha sorte E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade, Se podéra na terra achar supplicios, Eu tambem me faria gordo frade E cobriria a carne de cilicios.

MERIDIONAL

Cabellos

Ó vagas de cabello esparsas longamente, Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, E tendes o crystal d'um lago refulgente E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva, Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús No barathro febril da vossa grande treva, Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

Deixae-me navegar, morosamente, a remos, Quando elle estiver brando e livre de tufões, E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom Como um licor rhenano a fermentar nos copos, Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

E ó magica mulher, ó minha Inegualavel, Que tens o immenso bem de ter cabellos taes, E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel, Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

Consente que eu aspire esse perfume raro, Que exhalas da cabeça erguida com fulgor, Perfume que estontêa um millionario avaro E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possues balsamicos desejos, E vaes na direcção constante do querer, Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos, Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabelleira, errante pelas costas, Supponho que te serve, em noites de verão, De flaccido espaldar aonde te recostas Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor Que antigamente deu, nos circos dos romanos, Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

* * * * *

Ó mantos de veludo esplendido e sombrio, Na vossa vastidão posso talvez morrer! Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

IRONIAS DO DESGOSTO

«Onde é que te nasceu»--dizia-me ella ás vezes-- «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes? «Porque é que não possues a verve dos Francezes «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente, «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções, «E abrigas tanto fel no peito, que não sente «O abalo feminil das minhas expansões?

«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso; «Mas quando tentas rir parece então, meu bem, «Que estão edificando um negro cadafalso «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

«Eu vim--não sabes tu?--para gosar em maio, «No campo, a quietação banhada de prazer! «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio, «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

«Não vês como a campina é toda embalsamada «E como nos alegra em cada nova flor? «E então porque é que tens na fronte consternada «Um não sei quê tocante e enternecedor?

E eu só lhe respondia:--«Escuta-me. Conforme «Tu vibras os crystaes da bocca musical, «Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha, «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas, «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

«E eu que daria um rei por cada teu suspiro, «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans, «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

HUMILHAÇÕES (De todo o coração--a Silva Pinto)

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job, Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os; E espero-a nos salões dos principaes theatros, Todas as noites, ignorado e só.

Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz; As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos, E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos, Eu analyso as peças no cartaz.

Na representação d'um drama de Feuillet, Eu aguradava, junto à porta, na penumbra, Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador. Roçavam no veludo as guarnições das rendas; E, muito embora tu, burguez, me não entendas, Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por não podia abandonal-a em paz! Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa De vel-a aproximar, sentado na platéa, De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botões; Cada contratador dizia em voz rouquenha: --Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha? E ouviam-se cá fóra as ovações.

Que desvanecimento! A perola do Tom! As outras ao pé d'ella imitam as bonecas; Tem menos melodia as harpas e as rabecas, Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger; Vi-a subir, direita, a larga escadaria E entrar no camarote. Antes estimaria Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropellar. Era um municipal sobre um cavallo. A guarda Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda, Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, má, Pôz-se na minha frente uma velhinha suja, E disse-me, piscando os olhos de coruja: --Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...

RESPONSO

I

N'um castello deserto e solitario, Toda de preto, ás horas silenciosas, Envolve-se nas pregas d'um sudario E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o lenço de Bruxellas Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas, D'uma belleza ideal, quasi indecisa; Circumda-se de luto e de tristezas E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados Deslisam um olhar macio e vago Nos seus olhos de pranto marejados E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna, E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros De roda das ameias e dos pégos, E nas salas resoam uns suspiros Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas, Triste como as rainhas desthronadas, A contemplar as gondolas airosas, Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro E alli é que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas, Murmurando palavras afflictivas, Vagueia nas umbrosas alamedas E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento Da capella onde outr'ora se ouviu missa, A musica dulcissima do vento E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

VIII

E ás horas do crepusculo saudosas, Nos parques com tapetes cultivados, Quando ella passa curvam-se amorosas As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida Era vêl-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge, Erram as velhas almas dos precítos, E nas noites de inverno ouvem-se ao longe Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella E as lentas agonias ao pé d'ella!

X

E ás lages, no silencio dos mosteiros, Ella conta o seu drama negregado, E o vasto carmesim dos resposteiros Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapeçarias Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI