Chapter 7
Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes, sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não são rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas. D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia, o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão alentados pela esperança e não pelo medo.
V
O grupo dos santos
Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeição, as irmãs da caridade, os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos, ignorantes; quantos sacrificam, não esterilmente, mas ás nossas precisões, seus teres, belleza, juventude, affeições domesticas, vigor, saude, esperanças e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos esses crêem no inferno; mas não são regidos por tal crença; nada tem que vêr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, não por que Deus é vingativo, mas antes por que Deus perdôa; e esta crença verdadeiramente salutar é uma das mais affectivas maneiras de amar.
Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se fecha á chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as portas. Quem envia ao martyrio os missionarios é o amor; quem dá mãe a orphãos, filhas aos anciãos, irmãs aos soldados feridos, mestres aos aldeãos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos transviados, é o amor. Todo bem feito n'este mundo é o amor que o faz; e este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua fecundidade e bemfazeja energia.
Permittam-me uma hypothese.
Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?
Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que! n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque; anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos! desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam; queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o inferno ha de acabar.
Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido o dogma salutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.
Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás luzes e costumes do peccador,--como é que este dogma tão racional, certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o amor tem mais dominio que o medo?
Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:
_Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum._
FIM DA PRIMEIRA PARTE.
SEGUNDA PARTE
O INFERNO CONSIDERADO ÁLÉM-TUMULO, OS CONDEMNADOS NA PRESENÇA DE DEUS, NA PRESENÇA DOS SANTOS, E NA PRESENÇA DOS HOMENS.
CAPITULO PRIMEIRO
O INFERNO DE PLATÃO
Até agora consideramos o inferno sómente em relação aos resultados moraes que a crença de sua existencia tem produzido, produz e produzirá sempre n'este mundo. Já demonstramos que esta crença, fatal a quantos se compenetram d'ella, é inerte para os demais: é inutil aos verdadeiros virtuosos, por que não tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao mal que não fazem; é inutil aos devotos e indifferentes, por que não os estorva de commetter basta dóse de peccados mortaes; e pelo que toca aos peccados que não commettem, tal abstenção explica-se em louvor d'elles, por motivos totalmente independentes das penas infernaes; é inutil para os philosophos, visto que estes a não acceitam; é, emfim, inutil aos scelerados, por que os não impede de ser scelerados; e, de mais a mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a empedernil-os na perversidade.
Falta agora considerar o inferno, não em referencia á terra, mas pelo que elle é em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto é, nas suas relações com Deus, com os predestinados e com os reprobos. Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opiniões de Platão ácerca da justiça divina e do inferno. Será isto, a um tempo, entrar no assumpto, e responder aos theologos que, á mingua de razões, invocam de vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as idêas do antigo paganismo e nada mais.
A opinião de Platão, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho, ostenta-se mais respeitavel e seductora.
É mister, no dizer de Platão, que um castigo seja razoavel para ser justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas é precisa: ou que o castigo aproveite ao castigado, ou ás testemunhas d'elle.
Partindo d'este principio, Platão não prodigalisa, á feição dos nossos theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a grande virtude das penas temporarias. São estas, em verdade, dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigem o culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras não corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem: logo são menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da sua justiça; digamol-o em pouco: são menos divinas.
Eis-ahi porque Platão é aváro das penas eternas e perdoa ao maximo numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e purificando-os em suas proprias lagrimas, á excepção dos oppressores dos povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da lei commum. Para estes é elle durissimo; eternisa-lhes as dores; todavia, os deuses não podem ser accusados por isso de inutilmente rigorosos.
De feito, se a tyrannia é o maior dos crimes, e o unico expiavel, é porque a liberdade, que ella anniquila, é o maior bem que os deuses nos doaram, unico impossivel de substituir; é porque, na sociedade escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria e virtudes.
Tal é o senso intimo do castigo excepcional que Platão applica aos tyrannos. Bastantemente está explicado a superioridade do terrivel castigo; mas o que não se explica é a razão da sua perpetuidade. Platão suppunha-o eterno porque não sabia, como nós, que a humanidade tem que percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de acabar. Eternisava elle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por suppôr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. Não ha outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema.
Foi, porém, esta justificação do inferno destruida por Christo, o qual nos annunciou que todo o genero humano é, como cada homem, um passageiro na terra, e que um dia virá em que esta esphera que habitamos, e estes astros que nos alumiam, se sumirão no espaço como a poeira que o vento da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados, quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos impeccaveis?
O inferno dos theologos não é, pois, identico ao inferno de Platão: o de Platão devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia, ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade já lh'a nós presentimos. Indagamos a razão d'uns padecimentos improficuos á victima, ao juiz, a todos. O coração protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito. Córa a gente só de o crêr. Como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que ás vezes, ao menos, adormece sobre a preza. Só pensar n'isto gera o atheismo na alma.
Erradamente, pois, se invoca, em pró de similhantes castigos, o testemunho de Platão, que se horrorisaria d'elles. Platão não condemnava o pobre pegureiro por algum roubo desconhecido ou tentativa malograda; mas bem póde ser que elle condemnasse inflexivelmente S. Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Além de que, elle tinha, para admittir um inferno sem fim, razões que não temos; e nós, para o rejeitarmos, temos razões que elle ignorava.
CAPITULO SEGUNDO
Opinião dos pagãos sobre a situação e vista interior do inferno
Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.
Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis, o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi, que, segundo consta, quer dizer _paiz da noite_, estão o cão de sete cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as figurações do mundo devastado.
Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana, outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos. Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões ferventes. Uns vão fugindo, com os braços estendidos, e a cabeça quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.
Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel.
Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e clima.
Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.
Nas esplanadas da India, onde não ha inverno, e onde as populações, languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que certos sitios do Naraka estão cheios de mosquitos, de serpentes venenosas, de escorpiões horriveis, de tigres, de abutres e de todos os flagellos proprios d'aquellas regiões ardentes; e que os outros circulos são o theatro das mais requintadas torturas que ainda póde conceber a malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotões são condemnados a comer calháos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos são apertados nos braços de estatuas de ferro em braza.
Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela tradição em que ponto da sua terra está situado o Naraka e a que profundeza se encontra. Mas não podem os mortos encerrados ahi achar os limites e as portas d'aquelle inferno.
No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, não ha fogo. Essas antigas nações do norte gostam tanto de calor, que não poderam consideral-o um supplicio; pelo que o seu inferno é de neve, onde ha o tiritar, a fome, a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos condemnados que ahi vão.
Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexões moraes que ella suscita vão breve ser applicadas na descripção do nosso proprio inferno, que na essencia não se distingue dos infernos pagãos. Porém, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante d'este.
CAPITULO TERCEIRO
Opinião dos judeus ácerca da vista interior do inferno.
Sabido é que o Antigo Testamento é muito sobrio de revelações do inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos tendentes a estabelecer aquella crença entre os hebreus, antes da destruição do primeiro templo. Os saduceos, que juravam sómente pela Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da bôcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica. Todavia, Abrahão era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo estanciado no Egypto;--isto dá a crer que os seus descendentes deviam possuir, antes de exilados em Babylonia, parte dos conhecimentos que os escripturistas registavam. Não exerciam os prophetas um ensino mystico, e não conservava o povo tantas tradições grosseiras contemporaneas de Moysés e talvez anteriores? As passagens respigadas na escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam inexplicaveis, se não se lhe referissem; mas seriam egualmente inexplicaveis se o povo não tivesse, para intendel-as, mais luz da que lhe dão essas passagens. Estes trechos não encerram doutrina secreta dos prophetas, respeito á vida futura; contém mais referencias que revelações á crença vulgar e formalissima do inferno.
O nome «Géhenna» que lá dão á paragem das expiações futuras, não era estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe no fogo victimas humanas, e, ás vezes, seus proprios filhos. N'este sitio, tambem denominado _Trophet_, ou «logar horrendo», eram lançados os cadaveres dos justiçados e os despojos dos animaes. Este valle maldito, sagrado pela superstição aos deuses sanguinarios, juncado de carnes putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa, não já em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na mesma fogueira; os máos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram immorredouros como as suas prêas:--idêas positivamente exprimidas por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.
É egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, tão pouco iniciados até então andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam, davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porém, depois que os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noções eram mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas escólas do Carmelo e de Galgala.
Vamos vêr quaes são as noções não contidas no Antigo Testamento, mas traçadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias, S. João e outros apostolos escreviam, já se haviam derramado na Judea, quinhentos ou mais annos antes.
Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regiões, que comprehendiam o paraiso e a géhenna. A géhenna, objecto d'este estudo, era contada no numero das sete creações anteriores ao nosso universo. Á similhança do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de diversos circulos, mas só tinha sete, correspondendo aos sete dias do Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia géhenna superior e géhenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte, os peccadores dignos de perdão: uns ficavam no sexto, outros no quinto, outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou leveza dos seus peccados. Trezentos e sessenta e cinco degráos, correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porém, os grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam, sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na géhenna inferior, d'onde não ha mais sahir. Á frente de suas legiões ahi os recebia Samael, e então lhes começava o perpetuo supplicio, o insulto dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da sêde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos agonisantes no deserto[5].
Taes eram, em resumo, as opiniões da synagoga ácerca do inferno. Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum para espiritualmente se reproduzir, professavam outra. O inferno d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estações em climas deseguaes.
Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.
[5] O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha. Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto. D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos doutores.
CAPITULO QUARTO
O INFERNO DOS THEOLOGOS
POR DUAS FACES VAMOS VER O NOSSO INFERNO; PRIMEIRA A MATERIAL, DEPOIS A MORAL
I
O inferno material
São puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem considerar-se os condemnados no inferno, por quanto só a alma d'elles lá desceu, e os ossos restituidos á terra se transformam continuamente em hervaçaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas continuadas methamorphoses da materia.
Tanto, porém, os condemnados como os santos hão-de resuscitar no dia final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo corpo com o qual passaram entre os vivos.
A distincção d'uns a outros é que os eleitos hão de resurgir em corpos purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados pela culpa. E de então ao diante não haverá sómente puros espiritos no inferno; mas sim homens como nós. É por consequencia o inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que hão de povoal-o creaturas terrestres, dotadas de pés, mãos, bôcca, lingua, dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos sensiveis á dor.
Onde está situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas da terra; outros em certo planeta que eu não sei; mas a questão nenhum concilio ainda a resolveu. A este respeito é tudo conjecturas; o mais que se affirma é que o inferno, seja onde fôr, é um mundo composto de elementos materiaes, mas não tem sol, nem lua, nem estrellas, e é mais triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.