O Inferno

Chapter 6

Chapter 63,884 wordsPublic domain

É facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de céo e inferno que das precisões, interesses, prazeres e dôres da terra. A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio senão ser assim? Pois acaso póde toda a gente retirar-se ao deserto? Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram abolidos?

Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas, todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de viver, não viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperança do ceo não bastaria a contrabalançar os effeitos de tal susto, mormente quando nos affiançam que a porta do ceo é estreita, e que o inferno tem milhares de portas sempre abertas. Á medida que esta crença se incutir nas turbas, assim ellas hão de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio, sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e angelica fôr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a hão de considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-hão os ouvidos ao vosso apostolado, e ninguem quererá sequer aproximar-se d'aquella perfeição immaculada, que sómente florece em estufas claustraes, que se desbota ao leve bafejo do homem, e só está ao alcance de ociosos.

Se no inferno tão sómente fossem castigados certos crimes monstruosos e excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justiça de tão exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era applicada a pena. Porém, se vão ás chammas eternas o aváro, o glotão, o preguiçoso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar, pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde começa a avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde começa a lisonja? e a usura? e os limites da temperança quem os abalisou? Occasiões, tentações e perigos em tudo!

A questão não é saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem nega que os haja;--o que se tracta é de saber se é racional e discreto, e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou quê de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeições, menos desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos revezes e resignado nas desgraças? Quem se crê assaz justo, caritativo e perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpção seria peccado capital, até nos conventos, até para os anachoretas envelhecidos em abstinencias e orações. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que um acto licito descahe no illicito; que dóse de alimento quadra á sua saude, e onde no rico principia o superfluo, que é o necessario do pobre. Para que vem seis pratos á meza? Se um basta, para que são dois? A regra onde está?

Cautela! esse copo que chegaes aos beiços risonhos, em vez de vos apagar a sêde, vae abrazar-vos em sêde eterna. Cautela! Theologo nenhum poderá dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos cumpre não dar; e o caso é que, se vos enganaes com tal incerteza, folga o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, não disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer não conhecemos?

Estas e outras mais terriveis cousas podeis lêr no _Quotidiano do Christão_, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda em mãos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha só duas cousas: a condemnação, se nos enganamos, e a abstenção para nos não enganarmos.

Mas a abstenção não é viver. Viver é a actividade inteira, incessante, e arriscada a peccar. É lei do genero humano viver e perpetuar-se. Não nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada passo lhe apontam aberto um alçapão do inferno. Vivem os homens n'uma especie de indifferença religiosa que os avilta, movidos unicamente por suas paixões, e apenas enfreados pela justiça temporal. Fóra com isso do futuro! fóra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clarões, e os ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa inteira vida, todos os desejos e pensamentos.

É effeito imprevisto, porém real, d'esta medonha crença induzir ao materialismo, não theorico, mas pratico, a maior parte dos que não leva ao ascetismo: attasca na lama os que não transvia nas nuvens; faz que se rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, estão innocentissimos: não ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio é coisa que ahi não vislumbra. O instincto é que desde tempos esquecidos, e não de ha pouco, nos propendeu áquelle cego materialismo: é a necessidade de arrostarmos com uma crença mortifera; é a vida que resalta d'entre as mãos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este desbordar de toda a fórma surdem os excessos.

Já não lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece são os fracos; os fortes vão mais além: escarnecem-no. Anda já por ahi o diabo cantado, e do mesmo feitio o inferno, e o céo com os seus moradores. E de taes canções vendem-se tantos exemplares como dos _Canticos de S. Sulpicio_: antiquissima impiedade, de que ha vestigios, não só na Grecia pagã, mas tambem nas fabulas da edade média, e até nas paredes das vetustas cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de seiscentos annos, o _Inferno_ de Béranger. A ironia mascarava-se então com tregeitos beatificos; o impudor, porém, não se disfarçava nem se constrangia.

Os lamuriantes da edade média talvez digam que, apezar das galhofas audazmente esculpidas nos portaes e córos das egrejas, esses antigos imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, não foliavam, tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellãos e castellãs, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, é verdade. Mas circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou. A mesma educação religiosa não produz continuamente identicos phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os usurarios, os prodigos e os ladrões, os famintos e os repletos, os invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo da alma guardam elles as superstições das amas: que farte o denotam na vida, e principalmente na morte. Em quanto são moços, ageis, febris de saude e esperança, repulsam uma crença que lhes tornaria maldita a mocidade, a saude, a força, a razão de todas as dadivas do céo. Quando caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que já não tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram facilimas. É chegada então a hora e situação conveniente para intender a moral do inferno, que é a privação em tudo e por tudo,--a morte na vida.

Singular crença que não infrêa o maior numero de homens, quando o freio lhes é mais preciso; e quando o retêl-os é já inutil, e mais necessaria lhes seria a esperança, então, á entrada da sepultura, lhes sahe espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros males, a crença no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece. Melhor é esquecel-o á maneira das turbas, que pensar demasiado n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabeça á roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos, defendido ou não, que faz? Lá no inferno não estaremos melhor nem peormente; a eternidade não terá hora menos ou hora mais. Constrangermo-nos para quê? Não ha termo medio entre o bem e o mal absolutos. Tudo que é humano é mau: é forçoso ser anjo ou demonio: seja-se diabo, que é mais comezinho. Vêde-me uns frades, padres, devotos, freiras, que a desanimação avassalou: não ha peores peccadores; rolam cada vez mais ao fundo, e vão-se consolando com as delicias que topam na sua queda. Um peccado de menos, que é na conta que hão de dar? Chegados a tal extremidade, qualquer boa acção lhes será vã. Como não podessem abster-se de tudo, os desgraçados já agora não se abstem de nada. Esta desesperada crença precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem surdido mais libertinos que ermitões, mais blasphemos que santos, mais loucos que ajuizados; e, em verdade, é mister que o christianismo entranhe vivacissimos embriões, esplendorosissimas luzes, e poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, á influencia de taes doutrinas.

Tirae-nos, por favor, esse inferno tão fatal aos que o recordam como aos que o esquecem. É verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas teremos mais christãos. No purgatorio será util pensar, comprehender-lhe a justiça, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se é facil sacudir o jugo de uma revelação sobrenatural e inintelligivel, por mais beneficente que ser possa, não é facil desprendermo-nos de idêas excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.

CAPITULO QUINTO

OS CINCO GRUPOS

Divisão da sociedade em cinco grupos

Examinemos as coisas mais á beira. A sociedade não é toda formada de uma peça. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada, podêmos dividil-a em cinco grupos.

1.º O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se chamam--sugeitos que systematicamente regeitam a revelação, e por consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos, graves e tractaveis com honra e confiança.

2.º Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os philosophos, está o grupo dos biltres professos, individuos relaxados, bandidos convictos, corruptos, desesperados.

3.º Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas, mas entre si equidistantes, está o grupo immenso e indecomponivel dos indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos pachorrentos--turba sem piedade nem philosophia, sem prática de casta alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou menos descançados--guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros de districto, e o mais. Estes são uns christãos que só vão á egreja quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias de _Te Deum_, quando a posição official os obriga.

4.º Ao lado e um tanto superior a este, está o grupo menos numeroso dos devotos; não dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes, mas dos esforçados em praticar e que praticam, assim, mas com desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vão á missa nos domingos, confessam-se ás vezes, e dão do seu gremio as irmandades e as confrarias.

5.º Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christãos, dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus.

Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita ás pessoas que formam aquelles differentes grupos.

I

O grupo dos philosophos

Os philosophos crêem em Deus, crêem na liberdade e immortalidade da alma, na justiça, em todas as noções moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades. Em revelações sobrehumanas é que não acreditam.

Ora, ameaças de inferno converterão tal gente? De quantos mysterios regeitam, o inferno é o mais incrivel; e tanto que irrita a propria fé, que, só abdicando o uso da razão, se submette. Dos philosophos não ha que esperar similhante sacrificio.

Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vós.

II

O grupo dos corruptos

Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno.

Vá lá!--dizem elles--venha o inferno que não nos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós. Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e melhor ainda--viva a patuscada!--com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.

Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida.

III

O grupo dos indifferentes, etc.

Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem; ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor do rancho será condemnado.

Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor--amor no peccado, meu Deus!--é de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.

Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados com creaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento.

Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é movel nem empêço: é uma coisa esquecida.

IV

O grupo dos devotos

Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de per si sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a condemnação?

Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo, olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por uma _mêa culpâ_. Desgraçadamente é certo que a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christãos em uma serra por noite de luar.

A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-se _ao menos uma vez cada anno_. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos! Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento prestam á força, e até, com medo de se enganarem, ás apparencias da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que exemplarissimas ingratidões!

Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o commum dos indifferentes do commum dos devotos.

Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella regente de França que empregava as suas damas a seduzir, quero dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os _Contos de La Fontaine_, e ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle, enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.elle de La Vallière; mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa; encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade, espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.

O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer; sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.