O Infante D. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes
Chapter 4
[13] Em seguida copiamos o titulo completo e o fecho da obra fundamental do doutor Pedro Nunes sobre navegação, bem como o Regimento da altura.
_Frontispicio_
«Tratado da Sphera com a theorica do Sol e da Lua. E ho primeiro livro da Geographia de Claudio Ptolomeu Alexandrino. Tirados nouamente de latim em lingoagem pello Doutor Pedro Nunes cosmographo del Rey dom João ho terceyro deste nome nosso Senhor. E acrecentados de muytas annotações e figuras por que mays facilmente se podem entender.
Item dous tratados que o mesmo Doutor fez sobre a carta de marear. En os quaes se decrarão todas as principaes duvidas da navegação. Com as tavoas do mouimento do sol e sua declinação. E o Regimento da altura assi ao meyo dia como nos outros tempos.
Com previlegio real.»
_Fecho_
«Acabouse de emprimir a presente obra na muyto nobre e leal cidade de Lixboa por Germão Galharde empremidor. Ao primeiro dia do mez de Dezembro de 1537 annos.»
«Regimento da altura do polo ao meo dia.»
«§ Se o sol tem declinação pera o norte e as sombras vão pera o norte; saberemos pello estrelabio ao meo dia que he na mayor altura quantos graos ha de nós ao sol: e acrecentaremos a declinação d'aquelle dia: e o que somar será o que estamos apartados da linha equinocial para o norte.
«§ Mas se o sol tem declinação pera o norte e as sombras vão pera o sul: saberemos pello estrelabio quanto ha de nós ao sol: e pelo regimento a declinação: e se forem iguais estaremos na equinocial. E se forem desiguais: tiraremos o menor numero do mayor, porque o que ficar, isso estaremos apartados da equinocial: e será pera o norte se a declinação era mayor: e será pera o sul se a declinação era menor.
«§ A mesma regra nos serve tendo ho sol declinação pera o sul, porque se as sombras vão para o sul ajuntaremos o que ha de nós ao sol com a declinação: e o que somar isso estaremos apartado da equinocial pera o sul.
«§ Mas se o sol tem declinação pera o sul e as sombras vão ao norte: se o que ha de nós ao sol for igual á declinação, estaremos na equinocial. E se forem desiguais tiraremos o menor numero do mayor: e o que ficar será o que ao tal tempo estaremos apartados da equinocial: e será pera o sul se a declinação for mayor e será pera o norte se a declinação for menor.
«§ E quando não houver declinação: ho que ouver de nós ao sol, isso estaremos apartados da equinocial; e será pera onde forem as sombras.
«§ E em todo tempo que o sol pello estrelabio estiver em noventa graos: o que elle tiver de declinação, isso mesmo estaremos apartados da equinocial e pera a mesma parte.»
[14] D. João de Castro, _Roteiro de Lisboa a Goa_, pag. 308.
[15] Quando escolhi para assumpto d'esta conferencia «A arte de navegar dos Portuguezes», não foi minha intenção embrenhar-me em explanações scientificas ou controversias criticas, mas apenas fazer uma rapida exposição historica; nem outra cousa consentiam tanto a indole de taes palestras como a orientação dos meus estudos habituaes.
Succedeu, porém, quatro dias antes da conferencia, que, indo eu á Bibliotheca Nacional para rever alguns livros, pelo sr. Gabriel Pereira, sabio director d'aquelle estabelecimento, me foram mostrados os volumes recentemente chegados da magnifica publicação feita a expensas do governo italiano, por occasião do centenario de Colombo, intitulada _Raccolta di documenti e studi publicati dalla R. Commissione Colombiana pel quarto centenario della scoperta dell'America_.
O volume I da parte IV d'essa collecção consta de um estudo do sr. Enrico Alberto d'Albertis, com o titulo _Le costruzione navali e l'arte della navigazione al tempo de Cristoforo Colombo_; e no volume II vem um trabalho do sr. Timoteo Bertelli denominado _La declinazione magnetica e la sua variazione nello spazio scoperte da Cristoforo Colombo_.
Percorrendo este ultimo trabalho rapidamente, pois para mais não tive tempo, vi que elle se propunha effectivamente demonstrar ter sido Christovam Colombo o _primeiro que descobriu o phenomeno da variação da agulha_, como aliás é lição quasi geral. Ora, entre a grande copia de argumentos do sr. Bertelli, apparece o de que muitos auctores contemporaneos e posteriores a Colombo ignoravam o phenomeno, e no numero d'esses cita-se o nome do portuguez Pedro Nunes!!
Ao ler isto, ao ver citada a obra do nosso grande mathematico d'onde o auctor tirava tal conclusão, confesso que pasmei. E o pasmo redobrou, quando adiante, pag. 50, no cap. X, intitulado _Prospetto degli autori i quali dal medio evo sino a tutto il secolo XVI suppozero l'ago diretto al polo, cioé senza declinazione_, vi novamente incluido Pedro Nunes (_o Nonnio_), citando-se d'elle _Opera omniae, Basilea, 1566_, com a aggravante de se dizer em nota que a primeira edição portugueza é de _1536_ (_sic_).
Pois não conhecia a declinação da agulha o Pedro Nunes que até inventou um instrumento especial para a sua determinação, o qual elle descreve no conhecido trecho que começa: «Acerca do nordestear e noroestear da agulha _tenho por certo que ellas não demandam_ o polo, porque não vi agulha que n'esta terra não nordesteasse»?
É extraordinario isto!
Mas afinal não deve talvez causar admiração, se nos lembrarmos que o auctor da memoria não viu ou não entendeu a obra, que cita, de Pedro Nunes. E não admiraremos tambem que a não visse, sendo ella rara, se não viu nem ouviu fallar da maior parte dos numerosos trabalhos dos Portuguezes sobre a arte de navegar. Basta dizer-se que lhe são desconhecidos os _Roteiros_ de D. João de Castro, incluindo o ultimo publicado, em 1882, com as annotações de Andrade Corvo, no qual tantas vezes se trata da questão das agulhas, e se inclue em appendice um excellente trabalho sobre as _Linhas isogonicas no seculo XVI_. Pois o nome de D. João do Castro não é ignorado na Italia, pelo menos do estado maior do seu exercito, que estudou o _Roteiro do Mar Roxo_, como outras obras portuguezas, algumas das quaes traduziu, por causa da occupação de territorios em Massuá e Dalaque.
Ora, sem entrar em polemica, direi apenas, ampliando as palavras que proferi na conferencia:
1.^o Que antes de Colombo partir para a sua primeira viagem, já os Portuguezes navegavam havia muitos annos entre a metropole e os Açores, isto é, n'uma distancia de cerca de vinte gráos em longitude, e por isso teriam tido occasião de observar a differença em variação;
2.^o Que as palavras _nordestear_ e _noroestear_ são de feição essencialmente portugueza, e ainda usadas pelos nossos pilotos no seculo actual, pelo menos até ha trinta annos;
3.^o Que Christovam Colombo, empregando-as no seu diario, não lhes explica o sentido, o que seria natural que fizesse, se ellas, como o phenomeno que significavam, fossem pela primeira vez communicadas;
4.^o Que nas famosas expressões de Colombo, relativas ao dia 13 de setembro de 1492, não se encontra mostra alguma de espanto pelo facto da variação da agulha, mas sim por ella mudar de signal;
5.^o Que, por conseguinte, o que Colombo viu, foi apenas que a variação ou declinação, a qual até um certo meridiano era n'um quadrante, d'esse meridiano em diante passava a ser n'outro.
E não era preciso saír da _Raccolta_ para chegar a este mesmo resultado, porquanto o sr. Alberto de Albertis, no cap. V da outra memoria acima citada, põe em rubrica: «Prima osservazione _del passagio della declinazione_ dell'ago magnetico _da greco a maestro_», deitando assim por terra, com estas palavras, todo o magestoso edificio do sr. Bertelli.
E ainda depois de ter escripto a conferencia, chegou ás minhas mãos o numero de fevereiro do corrente anno da excellente _Rivista marittima_ italiana, e n'ella encontrei um magnifico estudo do sr. Eugenio Gelcich, intitulado _La scienza nautica da Nonnio alla fine dei secolo decimo settimo_, no qual (pag. 187) se censura um escriptor inglez porque «imputava a Nonnio la ignoranza della existenza della declinazione magnetica», e aponta-se em seguida um capitulo de Pedro Nunes em que se trata do assumpto.
Vê-se que o que escrevem o sr. Bertelli e outros, é resultado de uma errada orientação, que mal se justifica pelo patriotismo. A Italia teve excellentes mareantes nos seus Amalfitanos, Pisanos, Genovezes e Venezianos, que verdadeiramente ensinaram as outras nações em muitas partes da marinharia; a Hespanha não os teve menos excellentes nos seus Catalães e Malhorquinos. Mas nem um nem outro d'esses povos se abalançaram a devassar os segredos do Atlantico antes dos Portuguezes. Vem depois Colombo que aprendeu em Portugal; e a Italia, envaidecida de lhe ter dado o berço, e a Hespanha gloriosa de lhe ter aproveitado os trabalhos, cada qual disputa a quem melhor lho exaltará os meritos, louvando-o pelo que fez e pelo que não fez, e pondo no escuro a obra dos navegadores portuguezes.
É isto que a critica scientifica não consente.
[16] Veja-se _Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa_, 9.^a serie, pag. 315 e seguintes: _Trabalhos nauticos dos Portuguezes nos seculos XVI e XVII_, pelo sr. Sousa Viterbo.
[17] Era o magnifico _fac-simile_ pertencente á Sociedade de Geographia de Lisboa.
[18] Tambem não deveriam esquecer os nomes e as obras dos fabricantes de cartas, globos e instrumentos nauticos, que os houve habilissimos nos seculos XVI e XVII em Portugal. D'este assumpto se occupa o erudito investigador, o sr. Sousa Viterbo, em um estudo que deve ser publicado no numero do _Instituto_, de Coimbra, destinado a commemorar o Centenario do Infante.
[19] Diogo de Couto, _Dialogo do soldado pratico portuguez_, pag. 9.
[20] Como exemplo do modo por que se redigiam entre nós os _diarios nauticos_ nos seculos anteriores, copiaremos dois dias de navegação, em que não houve _novidades_ extraordinarias, com o intervallo de dois seculos.
«Caminho»
«Quinta feira 25 dabril (de 1538) todo o dia foi o vento norte; gouernamos ao sul: ao meio dia tomei o sol, e na maior altura se aleuantaua sobre o orizonte 84 graos; a declinação deste dia era 16 graos, 20 minutos, do que se segue estarmos em dez graos e 1/6; esta mesma altura tomou o Piloto, mas o mestre tomou maes 1/3 de grao do sol ao orizonte.
«De noite toda foi o vento norte bonança; o quarto da prima e modorra gouernamos ao sul, e o dalua á mea partida do susueste.»
(D. João de Castro, _Roteiro de Lisboa a Goa_, pag. 115.)
«_Em 24 do dito_ (agosto de 1736)»
«Sexta feira; quatro dias de viagem; se apartou (a nao) adiante e foi seguindo sua viagem. Ao meio dia se observou o sol, e achamo-nos em Latitude de 38 gr. e 43 m., e de Longitude 6 gr. e 16 m.; fez a nao curso pelo angulo 63 g., andou para o Norte 23 m. e para Oeste 37 m., com vento nordeste rijo. Deus nos dê boa viagem.»
(_Derrota de uma esquadra portugueza em 1736_, MS. da Bibliotheca Nacional. Collecção Pombalina, n.^o 149.)
[21] Stockler, _Ensaio historico sobre a origem e progresso das mathematicas em Portugal_, pag. 69.
[22] O primeiro nome notavel da nova sciencia de navegação é o de José Militão da Marta, piloto da armada e professor de pilotagem, o qual publicou diversas obras importantes, sendo a primeira logo em 1780, a qual se intitula _Compendio das correcções que se devem fazer ás alturas dos astros_, e a segunda, em 1781, intitulada _O destro observador ou methodo facil de saber a latitude no mar_.
[23] _Commentarios_, edição de 1784, parte IV, pag. 122.