O Infante D. Henrique e a arte de navegar dos portuguezes
Chapter 2
Para provar que o astrolabio bem depressa se aperfeiçoou entre nós, basta lembrar uma differença que no seculo XVI já era corrente entre os astrolabios portuguezes e os estrangeiros; pois, ao passo que estes eram graduados tendo 0° no horizonte e 90° no zenith, os nossos tinham a graduação invertida, o que, como se vê, dava logo a distancia zenithal, facilitando assim a _conta_, como então se dizia[7].
Alem do astrolabio, e como simplificação d'elle, havia tambem o _quadrante nautico_, que parece ter sido invenção portugueza ou pelo menos adaptada pelos Portuguezes ás observações no mar, visto que escriptores estrangeiros lhe dão o qualificativo de _lusitano_. Consistia o instrumento, como o seu nome indica, em um quarto de circulo graduado no limbo em 90°, e tendo nas duas extremidades de um dos lados do angulo recto duas pinnulas (_furos_), por onde se enfiava o astro; do vertice do mesmo angulo saía um fio de prumo, o qual ía determinar na graduação do limbo um arco igual á altura do astro. Como se vê, o quadrante nautico fundava-se n'um theorema conhecido ácerca da igualdade dos angulos; o seu uso era recommendado sobretudo para a observação da lua e das estrellas, cuja luz, menos intensa que a do sol, permittia ser affrontada directamente pela vista do observador.
Quanto á declinação do sol, era dada por tábuas, _taboadas_, como então se dizia, das quaes as primeiras publicadas em Portugal parece terem sido as de Abraham Zacuto, que foi chronista e astronomo, ou melhor cosmographo, de D. Manuel, em um livro, hoje rarissimo, intitulado _Almanach perpetuus celestius motûs_, impresso pela primeira vez em Leiria em 1497, e do qual houve mais edições; no texto explicativo das tábuas mostra-se o seu uso por modo mais simples do que anteriormente. Este Zacuto era judeu portuguez, e parece que tambem tinha feito parte da junta de mathematicos de D. João II; sendo assim, poderá dizer-se que o seu _Almanach_ representava a sciencia astronomica da junta. Pouco tempo depois, ao que se cuida, apparecia, já impressa em portuguez, outra obra em que se tratava da determinação da latitude. É a traducção do _Tratado da Spera do Mundo_ do celebre mathematico João de Holywood em Inglaterra, de onde tomára o nome de Sacrobosco, e publicada, segundo affirma um nosso investigador, por Alvaro da Torre, que ao mesmo tempo publicou _O Regimento da declinação do sol_, traduzido de Zacuto por Gaspar Nicolas, ao que parece, e o _Regimento da estrella polar_. A edição d'esta obra attribue-se ao anno de 1519[8].
Sacrobosco e João Muller Regiomontano (outro nome alatinado, derivado de Königsberg, patria de Muller) foram por assim dizer os Dubois e os Norie[9] do seculo XV, se bem que com maior merecimento, se attendermos á epocha em que viveram. Um escreveu sobre o que hoje se chama a astronomia applicada á navegação; o outro foi o auctor dos primeiros almanachs ou ephemerides astronomicas, de que n'esta occasião tendes presente um exemplar de uma edição do começo do seculo XVII[10]. Ora, assim como Gaspar Nicolas seria o primeiro traductor da obra de Sacrobosco em portuguez, assim Abraham Zacuto, provavelmente instruido por Martim de Behaim, seria o primeiro introductor em Portugal das tábuas de Regiomontano.
Mas ambos aquelles estrangeiros escreviam mais para a theoria da astronomia do que para a pratica da navegação, a qual nos seus respectivos paizes era ainda pouca e rude. Foi, pois, em Portugal que aquelles elementos indispensaveis da navegação astronomica começaram a tornar-se praticos, despindo-se das concepções superiores que não estavam ao alcance da singeleza dos pilotos da epocha.
Convem aqui dizer o que eram os _Reportorios dos tempos_, que tanto emprego tiveram entre os mareantes do seculo XVI. Os _Reportorios_ eram livros em que se compilavam as regras praticas da arte de navegar e se davam as tábuas de declinação e outros elementos necessarios para a navegação, referidos, em geral, a alguns annos a seguir ao da publicação do livro; juntamente traziam outras indicações proprias dos actuaes almanachs ou reportorios, e muitas que os preconceitos da astrologia, cada vez mais desacreditada, ainda tornavam interessantes. Póde, pois, dizer-se que, em relação á navegação, os _Reportorios dos tempos_ faziam o serviço das actuaes _Ephemerides_ e _Almanachs nauticos_.
Uma das provas mais cabaes do muito que entre nós se trabalhou em assumptos de navegação, é o grande numero de _Reportorios_ que se publicaram. Disputam os bibliographos qual fosse o primeiro. Segundo as mais recentes investigações parece que seria um, editado talvez em 1521 por Valentim Fernandes, e do qual houve diversas edições; cita-se, porém, a lembrança de outro publicado em 1519. Estas compilações, ao principio traduzidas do estrangeiro, foram depois ampliadas, vindo a ter o caracter essencialmente portuguez; pela rapidez relativa com que se succediam as edições, conclue-se o consumo que o livro tinha. D'elle tendes presente um exemplar, de Manuel do Figueiredo, impresso em 1603[11].
Achado o meio de determinar a latitude pela altura dos astros, foi este o modo quasi exclusivo de navegar durante o periodo das nossas gloriosas viagens no seculo XVI. A _estima_, no sentido que hoje tem esta expressão, não se fazia, não só por não ter chegado ainda ao campo da pratica a resolução dos triangulos, pois que a algebra e a trigonometria estavam na infancia, mas ainda por outra razão, qual era a falta de um instrumento que désse com approximação a velocidade do navio. A _barquinha_, que hoje nos parece o mais rudimentar instrumento da navegação pratica, não estava ainda inventada, e só o foi, segundo Jal, no começo ou talvez meado do seculo XVII, apesar de que, se me não engano, nenhum dos nossos escriptores d'este seculo falla n'ella. Certo é que Humboldt, citando um trecho do Pigafetta, attribue ao nosso Fernão de Magalhães o invento de um instrumento, fundado no mesmo principio da actual _barca patente_, para determinar o andamento do navio; mas, se porventura o circumnavegador o empregou, o seu uso não foi generalisado. Avaliava-se então o caminho andado só pela pratica, pelo ruido da agua deslisando ao longo do costado do navio; e comtudo, conforme recentemente se escreveu a respeito de Colombo, alguns mareantes tinham tão bom habito d'essa observação, que em pouco se enganavam. Nas longas singraduras, porém, e sobretudo se sobrevinham temporaes, os enganos eram grandes; e das _differenças_ de estimativa entre diversos pilotos da mesma armada estão cheias as narrativas das primeiras viagens.
Vêde, senhores, com que difficuldades luctavam então esses homens destemidos que se chamavam Diogo Cam, Bartholomeu Dias, Vasco da Gama, Alvares Cabral e os Corte-Reaes! As cartas faziam-n'as elles; a estima era o que acabo de dizer; a approximação do _ponto_ determinado pelo astrolabio podeis imaginar o que seria.
E assim se percorreu o Atlantico e se chegou ao Oriente!
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Foi com Pedro Nunes que a arte de navegar assumiu entre nós uma feição verdadeiramente nacional. Até então os fundamentos scientificos das praticas dos nossos mareantes podem dizer-se derivados de fontes estrangeiras, se bem que já muito aperfeiçoados por Portuguezes, sobretudo no que dizia respeito à observação dos phenomenos physicos do Oceano, como manifestamente devia acontecer, visto que eram Portuguezes quem mais longe n'elle navegavam. Mas com Pedro Nunes ha positiva originalidade, e por isso o seu nome é por tal fórma notavel e preeminente na nossa historia scientifica, que bem merece que n'elle nos detenhamos um momento.
Nasceu o grande mathematico em Alcacer do Sal em data não averiguada ao certo[12], sabendo-se apenas que tomou o grau de doutor em medicina na Universidade, que então era em Lisboa, e n'ella era em 1530 lente de _Artes_. Foi depois, em 1554, lente da nova cadeira de mathematica da Universidade já estabelecida em Coimbra, e n'ella veiu a jubilar-se em 1562. Em 1547 fôra nomeado cosmographo-mór, sendo já anteriormente cosmographo de D. João III. No exercicio d'essas funcções frequentou a côrte, e assim teve occasião, como professor ou em conversas, de tratar das questões de navegação com pessoas taes como o famoso infante D. Luiz, irmão de D. João III, o infante D. Henrique, depois rei, o principe D. Sebastião, o grande D. João de Castro, Martim Affonso de Sousa e muitos outros que d'esse convivio com o mestre receberam ensino ou augmento de conhecimentos.
A obra fundamental de Pedro Nunes em relação á arte de navegar consta de um conjuncto de escriptos publicados em 1536, começando por uma tradução do _Tratado da esphera_ de Sacrobosco, ampliado e corrigido, e encerrando differentes outros trabalhos, traduções e originaes, avultando entre estes o _Tratado em defeza da carta de marear com o regimento da altura_[13]. Mas alem d'essas obras, Pedro Nunes escreveu e publicou muitas outras, nas quaes tocou todas as altas questões das mathematicas puras e applicadas á astronomia por fórma a bem merecer o qualificativo que lhe dá Stockler de «o maior geometra que as Hespanhas tem produzido, e incontestavelmente um dos maiores que no seculo XVI floresceram na Europa».
Pedro Nunes foi principalmente um theorico, pois não consta que tivesse navegado. Como, porém, era um espirito esclarecido, de uma esphera muito elevada, as suas elucubrações nos diversos pontos da arte de navegar produziram resultados valiosos, que depois poderam ser applicados por homens praticos como D. João de Castro. D'esses estudos, os que mais principalmente chamaram a sua attenção, foram o aperfeiçoamento dos methodos para obter a latitude e a mais exacta determinação da variação da agulha, não devendo tambem deixar-se de mencionar a sua theoria da navegação pelo circulo maximo, que elle estabeleceu completa e perfeita.
Já sabemos que a latitude era determinada pela altura meridiana do sol ou das estrellas e principalmente da Polar, tomada com o astrolabio ou com o quadrante portuguez. Pedro Nunes, attendendo, porém, á impossibilidade frequente de _apanhar o sol_ ao meio dia, e ainda á difficuldade de determinar com exactidão a sua maxima altura por causa da marcha vagarosa do astro quando d'ella se approxima, inventou um apparelho denominado _instrumento de sombras_, o qual dava os elementos para um processo destinado a obter a latitude pela observação das alturas do sol antes e depois do meio dia. Não é aqui o logar apropriado para explicar o processo, cuja pratica se póde ver nos _Roteiros_ de D. João de Castro; apenas chamarei a vossa attenção para a importancia do problema, cujo enunciado basta para dar idéa do valor scientifico de Pedro Nunes. Lembrarei tambem que Pedro Nunes inventou o _annel graduado_ instrumento de uso mais facil que o astrolabio, e destinado aos mesmos fins, cujo emprego se generalisou rapidamente.
Quanto ás agulhas de marear alguma coisa mais julgo dever dizer.
Tem-se escripto e repetido que foi Christovam Colombo quem primeiro descobriu o phenomeno da variação da agulha. Assim será, posto que no meu espirito haja a tal respeito muita duvida. Que, se o facto fosse verdadeiro, em nada diminuia a importancia das descobertas nauticas dos Portuguezes, porque, senhores, a verdade é esta: Colombo foi um navegador da escola nautica de Portugal; nem mais... nem menos.
Mas conhecida a variação, imaginou-se que ella era constante em cada meridiano, e isto, que aliás não era exacto, deu logar a um artificio essencialmente portuguez, que bem mostra quanto os nossos navegadores se apressavam em aproveitar para a pratica as descobertas dos phenomenos naturaes. Refiro-me á construcção das agulhas portuguezas no principio do seculo XVI, as quaes tinham «os ferros aos dois terços da quarta de nordestear»; quer dizer, que se corrigia ou compensava a variação nordeste, que então o era, collocando a agulha em um angulo com a linha norte-sul da rosa igual a essa variação. _Nordestear_ significava, como vêdes, ser a variação oriental; _noroestear_ significava o contrario; são expressões que reputo essencialmente portuguezas. E aqui temos como o problema da compensação das agulhas, ainda hoje tão incompletamente resolvido, foram Portuguezes os primeiros que o atacaram!
É claro que essas agulhas assim compensadas só podiam servir na navegação ao longo da costa de Africa, onde então a variação era nordeste e tinha approximadamente a grandeza que se julgava; póde bem imaginar-se que fóra d'aquella navegação, feita quasi pelo mesmo meridiano, as indicações das agulhas haviam de ser erroneas. Outra causa concorria para esses erros, e era a propria rudeza da fabricação. As primitivas agulhas portuguezas tinham verdadeiramente a fórma de uma grande agulha de alfayate, e eram fabricadas de ferro e não de aço; em cada extremidade havia duas pontas, e eram estas que se _cevavam_, isto é, que se tocavam com a pedra iman. Por este processo rudimentar era de pequena intensidade a força magnetica das agulhas; d'ahi a necessidade de as _cevar_ frequentes vezes, operação considerada a mais mysteriosa e sublime que os pilotos tinham de realisar durante a navegação.
Ora bem depressa foi reconhecido não só que a variação mudava com o decorrer do tempo, mas ainda que ella variava para os differentes logares da terra, e por isso Pedro Nunes, reprovando o uso das agulhas que chamaremos compensadas, inventou novos methodos para determinar a variação, os quaes D. João de Castro foi encarregado de experimentar nas suas viagens. Foi d'essas experiencias, feitas por um homem altamente apto para as realisar, que resultaram grandes progressos no conhecimento das leis do magnetismo, e entre elles a descoberta do phenomeno do desvio local, ácerca do qual não posso furtar-me ao prazer de citar o respectivo trecho do Castro. «Este dia, mandando vir algumas agulhas para as cotejar com o instrumento, achei-as tão desconcertadas que foi cousa espantosa, porque onde uma fazia o leste, a outra mostrava o norte. Isto me teve muito suspenso, até que entendi a causa, e foi um berço (peça de artilheria) que estava no mesmo logar onde eu queria fazer as operações, o ferro do qual berço chamava a si as agulhas e as fazia desvairar d'esta maneira; do que tirei que uma operação que fiz a 30 de junho... a qual achei que me vinha muito desconcertada, e assim algumas outras... onde achei notaveis differenças, que foi por as fazer perto de onde estava alguma peça de artilheria, ancoras, ou qualquer outro ferro, como me passava a todas as partes da nau, buscando logar conveniente a esta obra[14]».
E aqui, senhores, permitti-me que interrompa o fio da narrativa para vos repetir uma consideração já tantas vezes feita. Os Portuguezes foram excellentes em muitos ramos das sciencias. Os nomes dos nossos sabios que as honraram, foram por vezes conhecidos lá fóra. Mas quantas foram elles desprezados, e os seus trabalhos ignorados ou postos acintemente de parte! Assim aconteceu com Pedro Nunes, que tendo inventado o conhecido _nonnio_, que de seu auctor tirou o nome, vemos por toda a parte attribuido o invento a um estrangeiro. Assim com tantas outras invenções ou descobertas, como esta do desvio local das agulhas, a qual pertencendo, como acabaes de ver, ao nosso Castro, é por todos referida a outro estrangeiro[15]!
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O phenomeno da variação da agulha deu muito que pensar aos nossos mareantes, e originou uma idéa, que por muito tempo occupou o espirito tanto dos theoricos como dos praticos.
Como já tive occasião de lembrar, a maior difficuldade da navegação d'aquelles tempos era a determinação da longitude ou da _longura_, como se dizia ainda no seculo XVI, por opposição a _ladeza_ ou _altura_, synonimo de latitude. Um dos methodos scientificos mais rigorosos era sem duvida a observação dos eclipses; conhecida a hora em que o phenomeno se dave sob certo meridiano, e determinada a hora em que elle fosse observado no meridiano do logar, a differença do tempo reduzida a graus daria a longitude. Mas, alem de que o phenomeno, pela sua pouca frequencia, não podia servir para as necessidades da navegação, a grande difficuldade estava em determinar a hora do logar com uma approximação que désse resultados praticos. O processo empregado consistia em determinar bem o meio dia pela altura maxima do sol, e desde então em diante ir virando _relogios_, isto é, ampulhetas d'areia, até ao momento do eclipse. Basta dizer isto para mostrar a rudeza da operação; succedendo alem d'isso que a imperfeição das ampulhetas, as quaes eram de meia hora, dava logar ás mais extraordinarias differenças entre ellas.
Por isso os navegadores serviam-se pela maior parte de indicações tiradas da pratica, e entre estas, quando se achavam proximos de terra (que era o momento mais para receiar) da observação das diversas especies de sargassos e algas, peixes, e sobretudo de aves, que lhes appareciam, taes como entenaes, feijões, mangas de veludo, gaivotões, borrelhos, calcamares, rabi-forcados, garajaos e garajinhas, e outros de que, nos falla o bom Pimentel, não esquecendo os cagalhos que pela singularidade do nome não percam. Já se vê que os nossos mareantes precisavam de ter um curso completo de ornithologia.
Ora, todas estas difficuldades pareceram desapparecer quando se começou a attender no phenomeno da variação da agulha. Suppoz-se que esta em determinados meridianos _feria directamente o polo do mundo_, e depois ía nordesteando ou noroesteando até chegar a um ponto onde o augmento da variação cessava, passando então a diminuir para depois chegar a outro meridiano onde a variação era igual a zero. Sendo isto assim e havendo constancia no phenomeno, se se podesse conhecer quaes os meridianos sem variação, e qual a regra do seu augmento e diminuição de um a outro d'esses meridianos, bastaria determinar a variação do logar para por ella se conhecer a longitude, praticando assim a _arte de leste a oeste_, como então se dizia.
Tal era a theoria. Segundo os pilotos portuguezes do seculo XVI, a agulha era _fixa_, isto é, não tinha variação alguma, em quatro pontos: no meridiano a oeste da ilha do Corvo, no Cabo das Agulhas (que d'esse facto tirou o nome), na Pedra Branca junto a Malacca, e em Carthagena na America.
Com estes dados trabalharam muito investigadores, entre elles um Filippe de Guilhem, castelhano, a quem o nosso D. Manuel deu uma tença e o habito de Christo, apesar de ser a sua doutrina refutada pelo portuguez Simão Rodrigues, e um italiano domiciliado em Portugal, o jesuita Christovam Bruno ou Borro, a quem a fatalidade do appellido fez que escriptores estrangeiros transformassem em Burro, o que elle decerto não merecia. Este trabalhou muito no assumpto, indo de proposito á India para fazer observações durante a viagem; formou um mappa com as linhas magneticas ou isogonicas, como hoje diriamos; e foi a Madrid solicitar do Filippe, que então reinava, o premio de 50:000 cruzados proposto para quem resolvesse o problema; não o obteve. Tão notaveis talvez como o Bruno, ainda que menos conhecidos, tinham sido os portuguezes Luiz da Fonseca Coutinho e Gaspar do Couto, que muito se dedicaram a este estudo no principio do seculo XVII. Couto foi mandado á India em 1608 na esquadra em que ía o conde da Feira, nomeado vice-rei, e levava minuciosas instrucções, ou _regimento_, como então se dizia, para fazer um roteiro, observações astronomicas e sobretudo as relativas á agulha[16]. Citarei finalmente o nome do nosso Antonio de Mariz Carneiro, que foi cosmographo-mór nos ultimos annos da dominação castelhana, o qual tanto scismou no caso que mereceu aos seus contemporaneos a alcunha de _O Agulha fixa_; e ainda os de Jeronymo Osorio da Fonseca e José de Moura Lobo, que no tempo de D. João IV trabalharam no problema.
A theoria era errada, como hoje sabemos, pois as linhas isogonicas nem coincidem com os meridianos terrestres, nem são constantes no tempo. Mas o pensar-se n'ella mostra cabalmente que os Portuguezes procuravam resolver os problemas do mar do melhor modo possivel.
E comtudo, convem dizer, parece que Pedro Nunes não dava muito credito á hypothese, o que mais uma vez prova a superioridade d'aquelle grande espirito.
Nós que sabemos a quasi superstição com que os marinheiros ainda hoje contemplam a agulha, o respeito com que a tratam, a afflicção que por vezes se apossa d'elles quando a vêem endoidecer em occasião de grandes balanços, bem podemos imaginar o que seria n'essas epochas de rudes conhecimentos, em que da agulha tudo se esperava, e dos seus desvarios tudo se temia. E, lançando um ultimo olhar de respeito a esses esforços da intelligencia nautica dos nossos antecessores, nós para quem hoje a navegação parece um brinco, tantas são as facilidades dos processos modernos, tão exactas as approximações a que podemos chegar nos calculos, lembremo-nos de que ainda ao presente a determinação da variação e sobretudo do desvio é, porventura, o maior cuidado do navegador.
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Muito mais poderia dizer-vos, senhores, ácerca da arte de navegar portugueza, para vos mostrar á saciedade como se progrediu immensamente desde os escassos conhecimentos dos mareantes do Infante até aos fins do seculo XVI. Teria que fallar ainda do successivo aperfeiçoamento das cartas, do _tronco das leguas_, destinado a corrigir o inconveniente da equidistancia dos parallelos, como podereis ver na carta do Atlantico, de Gaspar Viegas, que tendes presente[17], do uso da _balestilha_, que parece remontar entre nós aos fins d'aquelle seculo, dos processos de sondar, dos levantamentos das costas e barras, da determinação dos ventos geraes e das correntes, das differentes derrotas para a India _por dentro ou por fóra_ da ilha de S. Lourenço, da famosa questão de Molucas que tanto agitou os theoricos e praticos do tempo de D. João III, de muitos e variados pontos que todos concorreriam para confirmar a minha these[18].
Mas baste o que já tenho dito. O tempo corre, e, tendo fallado tanto da arte de navegar, é bem que diga alguma cousa a respeito dos que a praticaram.
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Quando o Infante D. Henrique começou a mandar _a descobrir_, empregou n'esse serviço homens que, á dedicação pelas novas idéas e aos desejos de bem merecer, juntavam conhecimentos das diversas partes da marinharia e por conseguinte da _arte de navegar_. Póde, pois, suppôr-se que Gonçalves Zarco, Tristão Vaz, Gil Eannes, Baldaya, Nuno Tristão, Gonçalo de Cintra, e tantos outros, eram ao mesmo tempo _commandantes_ dos navios para os fins politicos dos descobrimentos e seus _pilotos_ para fazerem a derrota e _arrumarem_ as novas terras.
Mais, tarde, porém, e sobretudo a datar da viagem de Bartholomeu Dias, começa a historia a individualisar os nomes dos pilotos que d'aquelle segundo serviço eram especialmente encarregados nas expedições maritimas. Depois, quando a carreira da India passou a ser annualmente frequentada pelas armadas, quando, attingido o objectivo no Oriente e no Atlantico, se tratou mais da conquista que do descobrimento, os capitães das naus e os capitães-móres das armadas eram por via de regra tirados de entre os filhos da nobreza, a quem se queria adiantar em fortuna, posto que quasi sempre depois de já terem dado provas de valor militar e saber politico, ou nos serviços da metropole ou na defeza das praças de Africa. Succedia então que aquelles chefes, por vezes, ignoravam os rudimentos da manobra e da arte de navegar, e por isso estes serviços, até certo ponto reputados inferiores em comparação com o nobre exercicio das armas, eram das attribuições exclusivas dos mestres e pilotos.