O General Carlos Ribeiro Recordações da Mocidade

Chapter 3

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Consintam, porém, que eu me imagine, em 1845, na rua Escura, a interrogar o segredo da miseria humana, DEUS, o _Motor Immovel_, assim chamado por Aristoteles. Como cahiu na esterqueira do aljube das ladras aquella pasta de estrume, o farrapo roixo das escareas de uma ulcera cancerada que, uma só vez, Jesus, com os seus olhos abrasadores de fogo divino, poderá cauterisar no peito da meretriz de Magdala? Para resgatar uma judia formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascivia oriental, foi preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom exito, fez-se mister que o Deus--mais conhecido entre as familias pelo _Padre Eterno_--baixasse da sua metaphysica immaterial ao anthropoide, encorporando-se n'um gentil nazareno; aliás, talvez não fizesse nada--palpita-me. Um Deus extreme, categoria ideal incomprehensivel, sem mescla de homem, com uma organisação desconhecida aos biologos, não vingaria, com todo o seu _mise en scène_ de trovoens e relampagos, infiltrar contrição no peito d'aquella mundana, calafetado pelos beijos dos tetrarcas, dos pretores e dos opulentos chatins da Assyria. É bem notorio que os feios cornudos diabos do vicio, dispersos no ambiente, muito familiares com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e _blasés_ em trovoadas, não largam as suas victimas, ainda que a faisca eléctrica de um corisco lhes queime aquella parte do cavallo morto a que o anexim portuguez deita a cevada. O diabo tem a enorme força que Deus lhe deu sobre a nossa fragilidade. Nós somos a pluminha volatil da pomba redemoinhando vertiginosamente nas convulsoens de uma tromba terrestre. Fez-se, por tanto, mister a humanidade gentilissima de Jesus, adoravel na sua vida casta e na sua indulgente misericordia com as peccadoras, para reduzir aquella á honestidade. Elle tinha escripto com o dedo na poeira da praça a sentença absolutoria d'uma adultera. Alem d'isso, o valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de esparto as costas da quasi sempre respeitavel classe commercial, que armara vitrines de modas e confecçoens no templo. Seria ali que provavelmente a espaventosa Magdalena, com grandes uzuras, e talvez a gis, ou á custa de meiguices fraudulentas, comprára as suas pompas--a escarlata persica dos seus mantos roçagantes, as meadas de pérolas de que ennastrava as suas tranças loiras, e as essencias aromaticas com que ungira, a despeito de Judas, os pés do mavioso acariciador das creanças innocentes, e juiz compadecido das filhas de Jerusalem iscadas da corrupção romana.

Creio na conversão de Maria Magdalena; porém a de sancta Maria Egypsiaca e das trez sanctas Margaridas, uma de Cortona, outra do _Fausto_, e a terceira de appellido _Gauthier_, essas são fallacias de agiologos e dramaturgos.

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A filha do Cavalleiro de Christo, esposa do ex-almoxarife, foi para Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1.ª classe. Carlos Ribeiro hypothecára talvez o seu soldo de seis mezes. Se me dessem a escolher, eu preferiria ter praticado este acto a ter feito a descoberta do _Anthropopithecus Ribeiroii_.

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Em 1845, ao deixar o Porto e a chimica para ir jurar bandeiras na bohemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o vi. Trinta e sete annos de separação absoluta como exordio da eternidade!

Pois que as nossas pesquisas paleontologicas eram em mundos diversos, nunca mais nos encontramos. Olhavamos as cumiadas de montanhas em horisontes oppostos: elle--para o acume da Sciencia, a desvendar os segredos do genesis; eu--para a Arte, a subjectividade esteril. O archeologo, pelo pregão dos mestres europeus, assumiu a eminencia; depois, morreu; mas está na posse da immortalidade. Bem boa coisa. Em quanto eu, graças á magnanima concessão dos meus patricios lettrados, estive toda a vida, ao sopé da montanha alcantilada, a descrever coisas feitas pessoas por essas terras quentes dos Brasis, onde ha fermentaçoens, e avatar e os transformismos darwinistas como em nenhuma outra fauna.

A este rude caboucar de um terço de seculo, devo eu--ó celestiaes bebedeiras de gloria!--a exultação atordoante de me ver, aqui ha dias, conceituado em certa gazeta da capital como _romancista conhecido_. Li-o em lettra redonda e resisti á apoplexia do jubilo. «Romancista» _tout court_ era já uma apotheose hyperbolica; porém, de mais a mais «conhecido», isso transcende os extasis de uma idolatria catholica, que me colloca na jerarchia litterata de S. Cypriano, de Sancto Athanazio e d'outros Sanctos Padres romancistas mystagogos maiores da marca. Mas, visto que assim o querem, este culto pagão muito me penhora. Pois bem! Quando um plumitivo arrojado, sovando aos pés os conspiradores do silencio, trepa até não ser de todo desconhecido no Chiado--5.ª essencia de Babylonia com perfumes de Marrocos--esse petulante genio não transporá as fronteiras da modestia, se almejar as doidas delicias de ouvir, um bello dia, nomear a sua pessoa conhecida no não menos conhecido Poço do Borratem.

Pois é verdade: eu, como novellista, descobri mais anthropoides do que elle como geologo. Mas faz pena que eu não procurasse ensejo de pedir aos setenta annos do general as recordaçoens do tenente.

Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, ao atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma, se chamára _Aurora_, se isto fosse um romance, pode ser que eu, n'esta idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia rara para fazêl-a morrer de alcoolismo, no catre do hospital, para onde a levaram esfragalhada, mordida pelos cães vadios, apupada pelos gaiatos, sovada pelos pontapés da guarda-municipal, espumando gromos de sangue nos ultimos vómitos da aguardente.

Mas eu não sei como, nem quando ella morreu; nem sei se é viva e se está na quinta dos seus avoengos restaurando com capilés e agua de Lourdes o estomago e os erros da sua mocidade.

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Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha trinta annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas da poesia que ainda n'essa epoca de transição enfeitava as suas dissecçoens nauzeabundas das paixoens animaes. Todo analysta da vida e da morte vestia umas luvas brancas quando expunha sobre a sua banca de trabalho uma peça anatomica, um coração para descoser, e sahia com as luvas sem nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo poetico inflorava as putrefaçoens com côres e subtilezas taes de pétalas e aromas que, em vez da repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as vertigens dos abysmos. Essa perversa missão da Poesia soffreu o exterminio de todos os flagellos que estão ao alcance desinfectante e hygienico da Sciencia. Pouquissimos e esporadicos são já os poetas no termo genuino de «deturpadores da realidade». Os que ainda rimam deteriorando a verdade experimental com embustes methaphysicos são uns atavismos que fazem lembrar, na sociedade actual, as aberraçoens genesicas que remontam o homem á torpeza selvagem da Australia e á civilisação refinada da Roma de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel da besta humana esvurmará sempre a sua peçonha já em brochuras, já nas partes da policia por ultrages á veneranda Moral--uma velhinha tão trôpega que, assim que lhe embarram, cáe no asphalto, e entra a gritar pelo habil Antunes e por outros habeis que não ganhariam a sua vida officialmente gloriosa, se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se é uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja indulgente com este jogo de vocabulos que tambem é um ataque desmoralisado á lingua.

Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que seja a sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse tem de desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo. Ainda hontem, na França, Eugène Véron, no seu livro de ESTHETICA, escreveu que _tout le monde, sauf les idiots, est poète_. A condicional _sauf_, poderia excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron inverteu paralogicamente a excepção em regra. Elle, se fosse um digno interprete da Sciencia implacavel, deveria ter escripto: _Ninguem é poeta, excepto os idiotas._

FIM.

[1] Bibliothéque des sciences contemporaines. _Le préhistorique antiquité de l'homme_, par Gabriel de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105.

[2] Obra citada, pag. 106.

[3] _La Sociologie_, pag. 44. Paris, 1880.