O General Carlos Ribeiro Recordações da Mocidade
Chapter 2
Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de menina e môça, etherisava-se. Ora, é regra corrente que o alcool, submettido aos acidos, transforma-se em ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram. Todas as commoçoens internas são chimica. Isto, que d'antes se chamava alma, é uma retorta de cristal da Bohemia em uns sujeitos, e de barro de Estremoz em outros sujeitos. O grito das paixoens que desfibram e matam é o estampido da retorta que rebenta. Agora, a differença: se a retorta é de crystal, os estilhaços, embora embaciados de lagrimas, tem ainda rutilaçoens que encantam a Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos abeberados nas lagrimas repellem a vista porque parecem lôdo. Edgard Pöe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool, são hostias immoladas a um meio social responsavel--são retortas de crystal feitas pedaços pela paixão. O Sena cospe ás margens, cada mez, dezenas de suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa exposição na Morgue. São os cacos da retorta de barro dissolvidos em lama.
Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no gesto, bastara-lhe uma regra que não se acha bastante inculcada nas prelecçoens do Conservatorio Real das Artes scenicas, isto é: carregar-lhe no copo.
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Ácerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes scenicas--necessidade physiologica (o copo, intenda-se, e não as _Artes_) do sangue luzitano de origem celtibera--não sei quaes sejam as cogitaçoens actuaes do meu Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio Real. Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e opilaçoens (opilaçoens, no sentido casto de _chloroses_) d'aquelle aviario de roussinoes e outros passaros que regorgeiam em perpetuo abril, estofando os seus ninhos com o pollen das flores.--_Pollen das flores_, notem a figura que é rara n'estes tempos hostis á rhetorica. Ora pois. Que aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de interjeiçoens tremicullosas como calefrios, arranques tragicos, morbidezas de bemóes e sustenidos; e que, depois de um purgatorio de rabecas e pianos,--supplicio indispensavel--rutilem, ao diante, pelas trapeiras das aguas-furtadas do Bairro-alto as constellaçoens sidereas das Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de _Manoel Mendes Enchundia_, da _Canna-verde_, do _Passarinho trigueiro_ e do _Fado choradinho_. Notem que o dr. Letourneau escreve que uma ponta de vinolencia é a poesia da digestão[3]; e tambem affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha praticamente. Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta de editores pouco serios.
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D. Gloria, não obstante, seria ridicula hoje em dia que a sciencia glacial esfriou a admiração pelas mulheres de talento menos methodico, desvairado por exorbitancias Vadias.
N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar, e tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da Restauração, eram assim. Reinavam os _parvenus_, uns devassos broncos, algum tanto desbastados pelo esmeril da emigração, ou sahidos das cadeias com uma grande fome de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do corpo, como explica methaphysicamente a _Cartilha da doutrina_ para uso dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens do nitro das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios de patacos regeitados á sege do sacrificado duque de Bragança que lhes dera patria sem os inconvenientes da forca, e dilacerára o coração nos sobresaltos das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos com titulos azues e rebatiam a 17 p. c. os arriscados e sacratissimos emprestimos aos _Regeneradores_ de 20 e aos _pallikares_ empennachados da _Belfastada_.
Os _parvenus_ inculcavam como norma da perfeição feminil a _Corinna_ de madama de Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a Récamier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o _Genio do Christianismo_. Todas e todos muito devassos e eloquentes, boas e bons para começarem os seus romancinhos ao fogão e concluil-os nas alcôvas. Foi este o ideal da mulher que os emigrados trouxeram dos _boulevards_ e dos hoteis _garnis_ a 2 fr. e 50 cent., com uma de-mão do verniz de Mabille.
Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de Kock; e os hierophantas do reino restaurado folheavam com mão diurna e nocturna a _Republica_ de Platão, onde o grande legislador, em pleno luxo de policiamento hellenico, preceituava que as mulheres passassem de mão em mão. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as Xantipas com que os Socrates altruistas obsequiavam os Alcibiades, e floreciam as Marcias que os virtuosos maridos Catoens emprestavam aos Hortensios. Assim como nas lojas maçonicas muitos dos triumphadores de 34--um grupo sahido da barbaria da idade-media--se chamavam _Catoens_ e _Socrates_, por igual theor, no sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos. Foi por isso que, em 37, o apocalyptico autor da _Voz do Propheta_ denominou Lisboa uma _caverna de vicios e desenfreamentos_.
Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e frescor de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas do plectro e da sintaxe, a mestrança da versejadura--Castilho, Garrett e os outros da constellação. Esta bohemia trovista foi dada como typo de mulher emancipada pelo talento. Teve ovaçoens das lyras primaciaes. Damas da côrte, creadas em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas ás ortigas e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes. Viveu-se uma rasgada bacchanal á franceza, em que tomaram o seu quinhão _pro rata_ as mulheres dos marquezes, as filhas dos algibebes e as esposas dos ex-almoxarifes. É como foi. A D. Gloria era um fructo bichoso, sorvado, de arvore que não sevou a raiz em terreno alheio mal adubado. Era cedo ainda. Ás portuguezas faltava-lhes o _savoir-vivre_, para se aguentarem corrompidas e elegantes. _Jam novus rerum nascitur ordo._ Isto hoje está melhor--está como deve ser. A mulher cae; mas sabe cahir n'este palco; e não podia ser assim ha quarenta annos. _Go ahead!_
O certo é que aquella dama foi a primeira paixão de Carlos--a primeira que é tão forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima nona.
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Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto ao trabalho, a convicção da sua immaculada probidade, e já luctava com as duras hostilidades da pobreza. Quanto a Gloria, cada dia mais formosa, mais fascinadora e mais crapulosa. Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e de mãos erguidas que se abstivesse de beber tão destemperadamente; e ella, no lucido uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não podia,--que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque queria morrer.
Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de Gloria ainda vivia. Era um bom proprietario rural na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado particular do snr. D. João VI, cazára com uma retreta da snr.ª D. Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era mentecapto e velho. Perdera a rasão com a queda do snr. D. Miguel e do seu almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um industrioso, vivia de apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e era casado com uma peccadora acirrante, uma trigueira de bigode que se desforrava usurariamente das perfidias do marido, sendo perfida para todos os amantes.
Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na esperança de regenerar a dignidade de Gloria com a convivencia do pai venerando e das irmans honestas. O velho respondera a quem lhe pediu compaixão para a filha que a julgava morta, e morta devia estar para elle; mas que não a repulsaria do seu talher, porque a desgraçada tinha a seu favor como desculpa o haver casado constrangida.
Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a não desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a missão caritativa de a reconciliar com a familia, não tendo procuração para isso. Depois, trocaram-se palavras desabridas.
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No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e foi para o Bom Jesus do Monte com um dos leões d'aquelle tempo em que a cidade da Virgem parecia ser da Venus Callipygia--uma leoneira da Hircania, onde as epidermes roliças das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia d'Ouro eram o pastío nocturno d'aquelles dragoens, producto da concubinagem do romantico burro de Buridan com a classica burra de Balaão. D'esta progenie, que herdára da mãe o dom da palavra, e do pai um amor menos indeciso ás duas maquias, evolucionou-se o _crevé_, o estoiradinho, um phenomeno embryologico, que encaracola _bellezas_ na testa exigua de microcephalo, incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de Maraña simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas vigiadas pela policia medica. De resto e _au fond_, os estoiradinhos são grupos de moleculas, agregaçoens granulosas, saturadas de marisco, de cerveja barata da Baviera e nicotina, justificando a formula excentrica e um tanto paradoxal de Bacon: _o vacuo de mistura com o solido_. Protegidos pela lei geral do atomismo, agitam-se no turbilhão universal da materia inconsciente: são «acasos da concorrencia vital», como diria Darwin; mas não confundir _concorrencia_ com _selecção natural_; que a natureza é mais logica e demorada nos seus transformismos. Pela rapidez com que do _leão_ pujante de 1840 se engendrou o _catita_ escrophuloso de 1880, é claro que a _selecção_ foi _artificial_, estabalhoadamente, grande celeridade. A este respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, L'ANTROPOLOGIE, _passim_. Cumpre notar que, no arranjo organico do estoiradinho, collaboram 65 elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que prodigalidade! A não ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para construir um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos--os mesmos que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, os cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o Caneiro de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas recreativamente, e o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em escamas refulgentes; o Garrett que faiscava, como um cerebro de diamantes facetados, as _Viagens na minha terra_, e o cerebro do outro Garrett que supurava, como um tumor apostemado, as _Viagens a Leixões_! Com as ultimas palavras da biologia é que a Sciencia regeita o dogma da alma, e nos convence de que o estoiradinho, pelo que respeita á porção cinzenta do cerebro, deixa de ser o rei da creação para retroceder, por atavismo e sem hyperbole, á familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e pouco mais que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes delictos de brutalidade.
Em obsequio a estes irresponsaveis é que o bispo sr. D. Antonio Ayres de Gouvêa tanto e valorosamente impugnou a pena de morte. Todavia, o seu victorioso repto á forca, mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V. Hugo, seria socialmente mais completo, se s. ex.ª tambem conseguisse que, em vez do _menu_ pouco peitoral da strychnina municipalense, se servissem _côtelettes de veau sauté aux truffes_ aos magros cães vadios, inoffensivos na sua fome e na sua sêde. _Struggle for life._ Sei essa trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia não authorisa que os vereadores sejam carrascos dos cães, em quanto o equilibrio dos negocios publicos e o pagamento em dia dos 6 por cento das inscripções lhes permittir comerem o boi. Ora--digamol-o de passagem--o boi era um Deus entre os egypcios, o divino Apis, e entre nós é o manso e pingue holocausto de uma bestialidade carnivora; porque nós, os europeus, comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em hostias. Sacrilega pouca-vergonha!
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Voltando ao drama e ás palpitações do leitor por um pouco suspensas, a estanqueira contou depois que, emquanto o tenente estava na mathematica fazendo garatujas na lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um cacetete, pantalonas á _hussard_, fazia tilintar o tinido das suas esporas amarellas no pavimento de D. Gloria. Trabalhosa e fragil senhora!
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Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do Porto, um bêcco fetido de coirama surrada, em uma esquina que olha para a viella dos Pellámes. Eramos dois os estudantes que occupavamos o terceiro andar com uma retorcida varanda de páo, esmadrigada, n'um escalabro de incendio, debruçada em ameaças sobre os transeuntes como a varanda de Damocles, muito mais perigosa que a lendaria espada, cujo gume deve estar muito rombo e puido da esgrima dos eruditos em Damocles. No primeiro andar morava a proprietaria, uma adéla que nos cosinhava certas iguarias dignas de ser expostas ao sêvo das aves de rapina no peitoril d'aquella varanda. Quanto a ratos, era uma succursal de Montfaucon. O segundo andar tinha escriptos desde muito, e não havia homem desesperado, cançado da vida, que ousasse tentar o suicidio n'aquellas ruinas minacissimas. Quem procurava casa, olhava com terror, e seguia o seu caminho, como se ali morassem os leprosos de Xavier de Maistre.
Disse-me a patrôa, uma noite, alegremente, que tinha alugado o segundo andar por deseseis tostoens mensaes a uma creatura, que lhe parecia mulher de pouco mais ou menos; e acrescentou com uma sensata indulgencia: «Seja ella o diabo que for, o que eu quero é que me pague adiantado; senão, minha amiguinha, viella, viella!» e apontava para a rua com um gesto de braço e dedo perfurante como uma estocada.
Com effeito, a devoluta varanda do segundo andar, tão destroçada como a minha, aguardava uma Julieta adequada competentemente aos Romeus do terceiro.
A inquilina entrou e pagou.
Quando eu recolhia da chimica e subia ao meu terceiro andar fazendo gemer os degráos, olhei curiosamente para a saleta do segundo, e conheci a Gloria da rua da Sovella. Estava muito acabada, olheiras fundas, os angulos faciaes descarnados, os beiços roixos, calcinados pela combustão dos licores. Na epiderme transparente já não lhe revia o rubor setineo do sangue colorante. Sobre as saliencias malares, manchas rubras que poderiam ser de vermelhão ordinario ou da febre ethica; os tegumentos pareciam emplastados por uma camada de velha cêra amarellada. As cordoveias do pescoço, muito esbagachado, com umas saliencias nodosas como cordão de S. Francisco.
Havia um anno que ella tinha deixado Carlos Ribeiro immerso em uma grande commiseração, disia elle; mas eu sabia que era maior a saudade que o dó.
Procurei o meu amigo que havia concluido o curso e entrára na fileira. Estava fóra do Porto em serviço. Melhor foi assim, porque a noticia que eu lhe levava poderia magoal-o ou fazêl-o descer até ao vilipendio de a visitar.
Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a _Aurora_--nome de guerra que se dera D. Gloria--uma noite por outra, recolhia comsigo um engajado. Fallava sempre com figuras decentinhas a minha patrôa. «Engajado» era decente. Diziam então as senhoras nos bailes da Assemblea: «Já estou engajada para a terceira polka».
Quanto á natureza dos engajados, disse-me que eram velhos. Conhecêra o Rapozeira, um d'oculos. que tinha loja de batinas e galoens para esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense da camara do bispo--ambos muito borrachoens. E promettia pôl-a no olho da rua, se ella continuasse a fazer-lhe troça, por noite velha, em cima da cabeça, dansando o Sarambeque.
O Sarambeque era da natureza bordelenga do _Hulalá_, um bailado dissoluto, priapêsco das Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da visinha, nem o cavalheiro bestial ajoujado por tal dama ás suas _soirées_ dansantes. Quem quer que fosse, dava, no repicado sapateio da sua furia endiabrada de selvagem de Ceylão, oscillaçoens de terramoto ao predio. Muitas vezes, reciei que, _verbi gratia_, desabada aquella casa filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode expiatorio sacrificado no entulho da derrocada ás iras dos deuses e da senhoria. Depois, noite alta, havia comedorias--um aziumado de azeite rancido e alhos, estrugidos emeticos, emanaçoens sulphydricas d'aquellas almas latrinarias. Lamento, já agora, não ter então colhido notas para hoje me inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas ceias de Trimalcião com iscas de figado e o rascante de Cabeceiras de Basto.
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Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. O meu companheiro, o bom Machado de Carção, um medico que morreu ha muitos annos, foi examinar de perto a desordem, e contou-me que um velhote apopletico, com ares de jarrêta provinciano, estava gritando que Aurora lhe roubara vinte e cinco pintos da algibeira do collête, depois de o ter embebedado com genebra.
O roubado sahira em berros para a rua, e os calcêtas, que trabalhavam no lagêdo arrastando os grilhoens, assobiaram-no. Aurora dava gritos de innocente contra a calumnia, e a proprietaria intimava-lhe ordem de despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era preza pelo cabo de policia, conduzida á regedoria e de lá para o Aljube.
Fui para a chimica do eggresso e encontrei o tenente Ribeiro. Contei-lhe o caso que elle me ouviu com os olhos marejados. Depois, pediu-me que commettesse o delicto infando da vigesima quarta falta na aula, e o ajudasse a salvar, se possivel fosse, aquella enorme desgraçada, visto que elle não queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que soubesse onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para elle não ser parte á preza. Que lhe referisse eu a sinistra vida de Gloria para que elle, compadecido, a não mandasse ao tribunal. E que, depois, fosse eu ao Aljube, e lhe dissesse que, se ella embarcasse no primeiro vapor para Lisboa a procurar o amparo de seu pai, havia quem lhe pagasse as despezas.
Fui ao Aljube ás 3 da tarde. Lá dentro era noite. Gloria estava innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. Ella tinha sahido, quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital de Santo Antonio, quando a sua visinha, mais feliz, era levada, ainda morna, em uma padiola para o theatro anatomico. A devassidão emparceirada com a morte mandaram aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah! quantas curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para hoje poder, como testemunha de vista, jurar que o coração é um musculo ôco!
No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado lama. A enxerga era de uma preza, cujo cão de agua, gordo e muito sujo, dormia aconchegado dos quadris da outra. A dona do cão tinha uma cara cheia de enygmas, acidentada de periosteos cariados, exfoliados, com barbas. Seria uma riqueza craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim era simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher, quando nego a blasphema hypothese do Deus de Moisés e do sr. padre Grainha, um Deus que fez á sua imagem e semelhança e--o que mais é--á sua custa, um typo humano com o perfil divino d'aquelle feitio. Contou-me que estava ali por ter dado uns tabefes n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe deitava o raio do olho ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava a cumprir sentença de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar um padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da justiça social com seu marido que matára em collaboração um levita! Queria talvez que o premiassem como quem mata um lobo.
Com referencia á sua companheira, tambem a julgava innocentissima. Contou-me que se enchera de aguardente até cahir; e logo á entrada protestára que se havia de enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma irritação de quem tem soffrido injustiças exulcerantes, que a pobre da creatura não roubára nada; que todo o dinheiro que tinha eram seis vintens em prata que comprára d'aguardente.
Entretanto, Gloria ressonava.
Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos microbios de fóra, de parçaria com os microzimas de dentro--herança do Paraizo. Isso que ali tresandava era um dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos vieram do ventre primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos deriva--divina Iniquidade!--esta syphilisação das almas, transmissivel e incuravel a despeito dos vários _Robs_ depurantes, _brevet d'invention_, das pharmacias do Vaticano.
Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube pelas trazeiras, e rebusquei no estafado colchão de Gloria os vinte e cinco pintos, visto que ella os não tinha em si. Lá estavam em uma bolsa de camurça. Fui com o dinheiro á regedoria, onde compuz o meu primeiro e inedito romance oral, nada auspicioso, contando á authoridade inflexa que a preza estava innocente, porque o queixoso, antes de se embriagar, escondêra o dinheiro no colchão, e não sabia depois onde o mettêra. O meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como inverosimil--desastre que depois me tem succedido com outros muitos romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais verosimeis. Eu quizera salvar Gloria da imputação de ladra. Em todo caso, o funccionario, lavrado um auto que assignei como apresentante do roubo, embolsou o velho devasso, um negociante de fructa da Penajoia, que me queria dar um pinto de alviçaras, o qual eu regeitei com um pudor anachronico, arcadiano.
Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essencias das matas altas, vestidas do roziclér das auroras, da purpura vespertina dos crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalára á sargêta da rua Escura, fui como um archaico _Thesouro de Meninos_, cahido no enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano portuguez de 1845.
Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma bestificação, a queixar-se de fome, porque não comia desde a vespera, e o alcool causticava-lhe as mucosas. Fui á estalagem da rua de S. Sebastião, ali ao pé, e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quiz vinho. Pediu genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um quadrilheiro com a ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo andar. Ella olhava muito pasmada para o colchão que ainda tinha parte dos intestinos de retraço de palha moída por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em voz alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os meios que o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perdão do pai, na sua regeneração--fui tocante; e ella, com uma indolencia idiota, e um escancarar de bocca:
--Tanto se me dá como se me deu.
A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e Sand estava assim estylista: Tanto se me dá como se me deu!
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Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente até cahir no fôjo immundo de uma devassidão bestialmente suja é phenomeno que só espanta quem não sabe logica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece trez exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica?
Eis-me na rhetorica!
Eu não ignoro que esta especie de autopse em cadaver estampilhado com a infamia que não discutem pessoas que se prezam, é um archaismo, uma subjectividade obsoleta. A escola naturalista estabelece que a comprehensão publica está por tanta maneira salitrada d'estas podridoens que não carece da catechese psycologica para perceber o desabamento.
Pois se intendem como foi que aquelle corpo tábido de D. Gloria chegou assim no enxurro ao ergastulo das ladras, queiram desculpar esse pedaço de estylo quartenario, que ahi fica para admiração dos archeologos, como se fosse um craneo dos _Paraderos_ da Patagonia.