O General Carlos Ribeiro Recordações da Mocidade
Chapter 1
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O GENERAL
CARLOS RIBEIRO
(Recordações da mocidade)
por
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Porto Livraria Civilisação de Eduardo Da Costa Santos--Editor
MDCCCLXXXIV
O GENERAL CARLOS RIBEIRO
_A propriedade da primeira edição d'este livro pertence, no imperio do Brasil, aos srs. Faro & Lino, proprietarios da Livraria Contemporanea, moradores na rua do Ouvidor n.º 74--Rio de Janeiro._
O GENERAL
CARLOS RIBEIRO
(Recordações da mocidade)
por
CAMILLO CASTELLO BRANCO
Porto Livraria Civilisação de Eduardo Da Costa Santos--Editor
MDCCCLXXXIV
AO VISCONDE DE BENALCANFOR
_Meu querido Ricardo Guimarães._
_Recebe a dedicatoria d'este folheto como um cartão de despedida. Vou-me embora._
_Naturalmente, escreverás dez linhas sinceras da minha necrologia. Dize que fui teu amigo trinta e seis annos; e que, á medida que eu ia lendo as tuas prosas progressivas e remoçadas, nunca pude imaginar que tivesses envelhecido._
_Folgo de te não vêr ha muito tempo. Imagino que te deixo rapaz engrinaldando os festoens das tuas primaveras de ha trinta e seis annos para os offereceres aos nossos 50:000 leitores--um rico auditorio! Continua tu a ministrar-lhes os teus cabazes de flores, visto que, por impedimentos especiaes de regimen e outros estorvos complicados de engrenagens financeiras, não podes deitar-lhes perolas._
_Adeus, Ricardo. A Chimica subterranea espera a minha alma. Vou mineralisar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz reflexa do nosso passado, que me não deixa ir contente ao meu destino de azote, amoniaco e outros gazes. É a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de 1854. A proscripta ignominia do carroção do Torto--aquelle toiro de Phalaris, puxado a vaccas--que então esbatemos para a treva medieval, em outro paiz dar-nos-ia a celebridade immorredoura de Guesto Ansur, o salvador authentico das cem donzellas lusitanas tributadas ás prezas obscenas do khalifa. Tambem nós, visconde, salvamos centenas de donzellas portuenses das orgias do execravel defuncto «Manoel José d'Oliveira»--aquelle Mauregato coiraçado, com espaduas alcatroadas, musculatura de um lenho rijo e inflexo como os braços da forca, e articulaçoens de cobre azinhavado, onde eram contundidas as carnes virginaes. Se não fomos nós, quem foi que remiu das contusões e d'aquelle fôro ignobil as meninas portuenses, actualmente allodiaes e intactas, salvo seja, nos seus quadris e nas suas espaduas? Pois tens acaso noticia de que o Oliveira Martins, no seu livro sociologico das «Raças humanas e civilização primitiva», nos encadeasse nos elos do transformismo evolutivo do carroção em carro Ripert? Sabes que elle consagrasse um capitulo áquelle dolmen de castanho--a ara celta do sanguinario Irminsulf dos nossos ferocissimos avós? Nem uma palavra! «Isto faz vontade de morrer!» como disse Alexandre Herculano, muito menos offendido dos ingratos._
_Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma confirmação, quasi posthuma, de fidelidade no affecto a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te não menos agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas tem uma compensação--é acabarem com um sorriso. N'este paiz, os bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame de instrucção primaria, devem morrer com a serenidade de sabios. D'antes, havia a immortalidade da alma e as recompensas eternas como esteio a infelizes sub-lunares. Hoje em dia, aquelles dogmas, especie de _caput mortuum_, não amparam muita gente; mas ha coisa melhor: é a eschola primaria que levanta o discipulo ao nivel da felicidade do professor a tres tostões por dia com dez mezes de atraso. Depois, morre-se de uma anazarca de philosophia com uma ligeira complicação de fome. Assim se explica o grande furor da instrucção nacional que tu, com uma seriedade estranha aos nossos habitos, inspeccionas observantissimamente._
_Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as celullas conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e Algarve. Dá-lhes um elasterio grande, expansivo, na razão inversa das retracçoens da mucosa do estomago, á qual não chega a tua alçada tonica. Lembra eruditamente aos pedagogos que ninguem se exalça ás glorias do Thabor sem ser arrastado pela Rua da Amargura. Dize-lhes, afinal, que a posteridade, mediante as suas confrarias e os seus dobres a finados, lhes dará brindes de missas geraes em dia de Fieis Defunctos--muito distinctos dos defunctos infieis. E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos suffragios pios da Patria--esta querida mãe interessante, incapaz de tirar de difficuldades um filho vivo: mas, depois, tira-lhe a alma do purgatorio, sendo preciso._
_T. C.--S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883._
_C. Castello Branco._
Gabriel de Mortillet, professor de Anthropologia, publicou, n'este corrente anno (1883), o seu livro _Le préhistorique antiquité de l'homme_. Em mais de uma pagina o sabio professor menciona respeitosamente Carlos Ribeiro, o geologo portuguez, que tão brilhantemente fez as honras da casa lusitana aos congressistas estrangeiros que estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e archeologia prehistorica.
O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de novembro de 1882. A satisfação de se vêr tão culminantemente inaltecido no livro europeu de Mortillet não a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os galardões substanciaes que n'este _reinosinho_ _de 90 leguas_, como lhe chamava Garrett, auferem os sabios do quilate de Carlos Ribeiro são por tal modo notorios e fallados que a gente, pelo commum, apenas tem noticia dos taes sabios quando lhes vê o retrato posthumo no _Occidente_.
Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na Academia Real das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a respeito d'elles, com uma grande admiração do tamanho dos bocejos. Para os socios velhos a anthropologia apenas tem a caracteristica academica de ser palavra grega, e como tal a reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito pela rama, o _quantum satis_ d'umas sciencias abstruzas que assentam os seus laboratorios para além das fronteiras da historia. É inexacto, porém, que o insigne academico discursasse monologos paleontologicos diante dos seus confrades pouco porosos e assás impermeaveis ás infiltrações da sciencia nova. Não. Elle tinha socios no martyrio--o Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, o Aguiar, os quaes, se não encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios de um ser intelligente nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o achar, se o procurassem, o _Anthropopithecus_.
Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem litteratura, pretendo molestar os hereditarios joanêtes da Academia. Nego. Os meus joanêtes de socio correspondente acham-se tambem compromettidos. Considero a Academia Real uma arca da sapiencia humanal, de reserva para a catastrophe de um diluvio de ignorancias eminentes. Respeito-a como um banco das nossas riquezas espirituaes, banco sem transacções, com accionistas todos de prenda, dando-se ares de estar sempre em liquidação; mas não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario. Quando um socio vae continuar na vida eterna o somno das suas sessoens, os confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia em periodos redondos, _ore rotundo_, na prosa da fundação do estabelecimento; em seguida, recolhem-se a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas metaphoras de fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro confrade morto. De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus productos, os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubraçoens, são mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem livros mais em conta do que Santo Antão e S. Pacomio faziam balaios. Elles desdenham briosamente a cubiça gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da Academia franceza; mas prelibam com delicias a justiça posthuma, o galardão do elogio funebre--esta rica moeda portugueza incorruptivel em que não entra a liga do oiro vil.
Tornando ao _Anthropopithecus_. Toda a gente sabe o que é, na Prehistorica, o _Anthropopithecus_; mas eu não me dispenso de fallar d'este sujeito que nos precedeu ha 240:000 annos, pouco mais ou menos. Supponho que não serei desagradavel ás Senhoras menos lidas em anthropologia, para as quaes os vocabulos _pliocene_ e _miocene_, o _mammifero primata_, o _prognatismo_ são as jaças do limpido diamante da sua erudição.
Mortillet, com bastante logica e com lucidissima observação mais convincente que a logica, affirma que o homem quartenario primitivo era algum tanto differente do homem actual. O craneo do nosso antepassado das cavernas differe consideravelmente do craneo do leitor. O illustre professor de anthropologia é, portanto, obrigado a concluir que os animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras na época terciaria não eram homens na accepção geologica e paleontologica da palavra; mas sim animaes de outro genero, _precursores do homem_, na escala dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido e ao homem actual, chamou Mortillet um _Anthropopithecus_. Claro é que a especie humana conhece o avô, o _anthropoide_; mas não conhece o pai. Orfan e posthuma, a desgraçada!
Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex lascado em terrenos terciarios e quartenarios, accusando um trabalho intencional e intelligente no animal precursor do homem. No Congresso Internacional de Bruxelles (1872), duvidaram, mórmente o douto Bourgeois, que nos exemplares expostos por Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes que provassem a existencia de um individuo capaz de petiscar lume e lascar pedras na época terciaria. A favor do sabio portuguez apenas se insurgiu a opinião auctorisada de mr. Franks.
Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso geologo apresentou os exemplares, entre os quaes Mortillet apartou 22 com vestigios irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac abundou no parecer do seu collega e de outros especialistas.
Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em novos exemplares a sua opinião refutada em Bruxelles. Desde então, nos annaes da anthropologia e prehistoria foi assignalada como irrefutavel a existencia do Anthropopithecus em Portugal. Era o terceiro. Bourgeois tinha explorado um em Thenay. Em honra do inventor, esse vestigio do animal intelligente anterior ao homem chamou-se _Anthropopithecus Bourgeoisii_. Mr. Rames achára o segundo em Cantal, o qual foi chamado _Anthropopithecus Ramesii_. O de Portugal, descoberto por Carlos Ribeiro, recebeu o glorioso nome _Anthropopithecus Ribeiroii_.[1]
Uma observação caturra ao sabio Mortillet: Este genitivo alatinado e ligeiramente macarronico, _Ribeiroii_, parece pertencer tambem á época terciaria, á prehistorica da lingua de Plinio, o moço. _Ribeiroii_ em genitivo indica o nominativo _Ribeiroius_. O extremado anthropologista devera ter escripto _Anthropopithecus Riberii_, ou, mais euphonico, _Ribeirensis_. Espero e ouso pedir aos futuros congressistas que adoptem esta errata, afim de que o nome glorioso do nosso concidadão não vá latinamente deturpado pelas edades fóra.
Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha o _Anthropopithecus_. Os sabios não satisfazem cabalmente a curiosidade de sua excellencia. Calculam apenas que elle era muito mais pequeno que o homem, attendendo á pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, a respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex, presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os outros. Isto é concludentissimo e consolativo, minhas senhoras. Mr. Abel Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle nosso pai pequeno seria do tamanho dos actuaes macacos maiores.[2] Na verdade, os srs. bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios tambores-mores accentuam e affirmam a procedencia d'aquelle patriarcha mais avantajado no tamanho.
Bastará de sciencia? Mas o que não posso, minha senhora, é esquival-a ao desaire de proceder de macaco. Não lhe assevero que seja de chimpanzé, de gorilha, de orango. A minha esvelta leitora é o typo aperfeiçoado de todas estas familias. Segundo o genealogico Hoeckel, vossa excellencia promana de um pitheco, derivado de um lemur, producto de um kanguru. É a primeira vertebrada, e não direi primeira «mammifera» para evitar equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de geração, na verdade; mas, se a minha delicadeza se dóe, sciencia obriga; porque, emfim, este folheto é uma obra de vulgarisação, _à la portée des gens du monde_. Pertendo ser mais util que agradavel ás senhoras modernamente orientadas, as quaes, entre os flagicios acusticos dos seus pianos e o moinho estupidamente burguez das suas maquinas de costura, abrem um parenthesis á discreta biologia.
E tenham muita fé, minhas senhoras; _porque as sciencias de observação_, diz Letourneau na _Biologia_ mais avançada, _exigem primeiramente de quem as quer cultivar um acto de fé_. Acto de fé! Tambem a sciencia positiva reclama a sua _virtude theologal_. Pelos modos, é precisa tanta fé para acreditar no Jehovah de Moisés e no Messias de S. João Evangelista, como no «Pantheismo» de Espinosa, na «Vontade» de Schopenhauer, e no «Inconsciente» de Von Hartmann. Por tanto, façam suas excellencias um acto de fé como biologas, e outro acto de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola attenção.
* * * * *
Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de Perthes, a esgaravatar nas camadas do globo a certidão de idade do homem. Tambem elle borboleteou á flôr da terra, com as azas polvilhadas dos matizes da alegria juvenil, os seus devaneios.
Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na Polytechnica do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, já tenente, com 30 annos de idade, completava mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era de estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo, purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios muito nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e attençoens com os cabulas; e sympathisava com a minha modesta ignorancia que elle, confessando a actividade funccional do meu cerebro, ingenuamente attribuia a eu não possuir compendio de chimica,--uma coisa bastante necessaria a quem se matricula. Era o _Lassaigne_--parece-me ser este o nome do sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me emprestavam á porta da Academia, quando se avistava o lente, um ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e Liebig. Por que mãos sagradas andava então a chimica portugueza!
Aproveito a occasião para agradecer aos que ainda vivem, se algum vive, a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra do frade, sahisse crystallinamente e triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula de um R.
Já divulguei em um livro este caso á Europa culta.
* * * * *
Agora, vou contar outro caso mais trovadorêsco--um episodio da vida amorosa do defuncto anthropologista, o general Carlos Ribeiro.
Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da época, e com uma grande distincção de formosura, abandonára em Lisboa o esposo, e refugiára-se no Porto com um seductor de condição baixa e bens de fortuna parallelos. Este casal anticanonico habitava uma casinhola barata na rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de Carlos Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na janella de peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida visinha encaral-o com uma fixidez perturbadora como um envoltorio de fluidos galvanicos.
Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam aquelles amores clandestinos, informou-o da má vida intima dos adventicios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, choradeira, e ás vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella cahir no sobrado. D'estas altercaçoens nocturnas, a informadora podéra liquidar que o homem se chamava _Bramão_, ella _Gloria_, e que tinha marido na capital. Entre os epithetos que elle lhe desfechava, o mais accentuado e repetido era _bebeda, grandissima bebeda_; e a estanqueira justificava a qualificação, contando que a menina Gloria, assim que o Bramão sahia, mandava ao armazem da Companhia fronteiro duas garrafas vasias que se trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.--Acho que se emborracham ambos de dois!--conjecturava a mulher dos tabacos, offerecendo a sua opinião indecisa ao reflexivo freguez dos cigarros.
Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu á porta da estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no primeiro andar. A mulher, na sua impaciencia de estrenoitada, respondeu azedamente que era uma creatura com a sua pinga; que fossem os soldados á sua vida, porque não havia remedio a dar-lhe á carraspana senão cozel-a; e que cada qual em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando quizesse. Se percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim, que a cozesse ella e mais a visinha. E a estanqueira:--Malandros!
Eram então triviaes no Porto estas scenas do Baixo-Imperio, dialogadas entre o pequeno commercio e os pretorianos municipaes--os _janizaros_ do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se _pretorianos_ e _janizaros_--uns pobres diabos a 30 reis por dia e rancho de couve gallega com feijão fradinho. Depois é que expluiu o caceteiro, pago pelos edis, a 480 reis diarios, e mais, consoante a pressão exercida nos ossos parietaes do _patulea_.
O tenente estava á janella a escutar o alarido, sentia uma compaixão infinita por aquella formosa senhora; e scismava se a embriaguez seria refugio de grandes tribulaçoens n'aquella alma que se atirava a um charco de vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria--perturbar a vida afflictiva da consciencia escorreita.
Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão sahiu e não voltou mais.
A estanqueira soube d'ahi a dias da criada de Gloria que a sua ama tinha vendido a unica pulseira, porque o pelintra do patrão lhe não deixára vintém; e ajuntou que ella pouco mais tinha que vender, a não ser os vestidinhos, porque já tinha derretido as joias para sustentar o vicio do amante, que era jogador e perdia sempre.
A criada, aquecida pelo atríto das revelaçoens, confessou que sua ama tomava a piella todas as tardes, quando a não apanhava tambem todas as manhans, bemdito seja o Senhor! Que o patrão vinha de fóra levado de todos os diabos, e entrava ás testilhas com ella, palavra puxa palavra, e iam ás do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A senhora, coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lagrimas como punhos, a contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e casára, contra vontade sua, com um almofariz da casa real. A estanqueira não comprehendia o casamento com o almofariz. Carlos Ribeiro emendou para _almoxarife_, explicando o officio com a sua costumada bondade illustradora.
Como quer que fosse, a infeliz senhora embriagava-se depois que chorava lucidamente. Era isso mesmo o que o tenente havia conjecturado com a sua romantica intuição de 1844.
Da piedade não é trivial a passagem para o amor; mas, se á commoção do amor precede a do compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro é vulgar. Escreveu o meu amigo a D. Gloria offerecendo-lhe os seus serviços desinteresseiros n'uma terra em que sua excellencia era hospeda, e não tinha talvez relaçoens. A visinha respondeu-lhe com uma caligraphia ingleza, e uma grammatica impenetravel á unha da critica mais meticulosa. Em meio da sua prosa florida, alinhava-se o alexandrino de Victor Hugo:
Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe...
O mathematico ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do que ficaria trinta annos depois quando achou em Ota a garantia da sua immortalidade como homem de sciencia--o Anthropopithecus.
A correspondencia travou-se em phrases recheadas de versos de Hugo e Lamartine, até que o tenente entrou sósinho, sem os poetas auxiliares, e sómente com a sua prosa commovida, na alcova da visinha. Era uma alcova sem pretençoens bysantinas, nem cosmeticos caros; apenas algum _Patchouli_ nacional, e agua de Colonia, em parodia, fabricada por um pseudo Farina, e muito almiscar, perfumaria dos gyneceus infestos á Moral, perdição dos caixeiros de risca ao meio, e grandes absorventes de licor de Rosa e de Van Switen. Era, em summa, a alcova atrapalhada de uma _touriste_ que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem reparar se ha estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilhão de ondulaçoens setinosas, com lampejos crús de metaes esmaltados, no leito das reles estalagens onde pernoita.
Elle sentiu na ante-camara o fartum acidulado da baga alcoolisada dos vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma adega do Roncão. Foi uma nuvem de máos presagios no azul da sua felicidade aquelle cheiro.
Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do ultimo romance de Arlincourt, quando ella mandou servir vinho do Porto de oito tostoens com pasteis de Santa Clara e _queques_ da Palaia. O hospede sacrificou-se cortezmente a algumas libaçoens, pequenos goles intercalados de perguntas e respostas, deixando o calice opalino em meio. Ella, entretanto, n'uma exaltação theatral, defendia a these do adulterio, com reminiscencias peoradas da _Lelia_ de George Sand; e, como inconsciamente, na abstracção enthusiasta dos largos gestos, ia engatando uns calices nos outros, em rapida viagem para a região do Falstaff e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma actriz franceza _des Variétés_, com uma forte diáthese de bambochata, que viesse de cear no Café Tortoni com _champagne frappé_, na roda reinadia de Roger de Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afinação mais que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade; porque ella, carminada pela ebulição do sangue, esbandalhada, e escandecida pelo que havia sincero e logico na sua declamação, relampejava uns claroens electricos que pegariam fogo em carne menos combustivel que a do artilheiro; porém, a elle, faziam-no chorar as lagrimas entranhadas que os olhos téem pejo de mostrar, e, reprezadas na alma, chegam a cegal-a como um collyrio de acido sulphurico concentrado. Figura-se-me que estou a escrever isto em 1844! Que imagens! que botica!
E a dama, n'uma absorpção de visitada pelo _ecce Deus_, com o iris acceso e a pupilla retrahida pela atropina da Companhia, não despegava do fio das ideias, torrencialmente. Tregeitos exquisitos e sacudidos da escóla melo-dramatica de Emile Doux. Fazia vibraçoens gloticas, cavas, gutturaes de quem recita threnos. Arredondava phrases repolhudas, pomposas, de dramalhão, respigadas nos _Dous Renegados_ e no _Captivo de Fez_. Por baixo do vinho já estava o absintho do odio ao pai que a violentára a cazar-se; mas a losna não lhe calcinava os nervos sem a combustão inflammatoria dos extra-finos, muito sêccos, do Alto-Douro.