Part 4
--Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.
--É flato, respondeu Nicoláo.
--Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e tilia.
--Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre Ambrosio.
--Vinha eu dizendo que...
--Entrou no carro...--lembrou Nicoláo.
--Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra, que parecia um passaro a saltar, deixando ver os laços dos sapatos, e umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada: Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo! Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras, dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!... Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se, e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.--«Tudo delicias do peccado!»--exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido, exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então, comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito, para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano. Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos, dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do discurso, disse: «padre Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.» Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «--Na casa do impio não comerás nem beberás!»--São palavras da biblia santa. Peguei na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota. E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella. Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns bichos crus com sumo de limão!
--Credo! exclamou D. Sancha.
--Creio que se chamam ôstras!--continuou o padre, e teve logo de se interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos bichos crus, estava a luctar com o vomito.
Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor de amendoa, padre Ambrosio continuou:
--Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.
--Por mim! disse Nicoláo.
--Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa excellencia tinha casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim. Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.
N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre; mas o narrador repetiu ainda:
--Palavras, que eu não me atrevo a repetir.
--Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...--disse D. Sancha.
--Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo. Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.
--Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa senhoria é um... não ouso dizer.
--Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!
--E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...--ajuntou o capellão.
--Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse miseravel disse!
--Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.
--Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias, minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não perturbem a felicidade que devo a este anjo.
E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao seio esquerdo, disse admirada:
--Com que força o teu coração palpita, primo!
VI
Acabaram-se os festejos no Vidago.
Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.
Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do Porto.
Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.
Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.
Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.
Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao inculpavel beijo de um primo.
Para uma _fortuna_ desfalcada por grandes desbarates, um grande patrimonio de filha unica.
Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.
Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da insipida existencia dos senhores do Vidago.
Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do marido:
--Tu és feliz?
E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de amarga ironia de si mesma:
--Sou...
O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma aberta dizia ao genro:
--Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?
--Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo terreal--respondia o morgado.
--E receiaes ser desgraçados lá?
--Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.
--Não sei... murmurou Martinho.
--Por que dizes que não sabes?
--Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas regalias da sociedade culta.
--Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado, renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.
--Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na Inglaterra...
--É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.
--Não é isso...
--Então que é?
--É o estares gasto, primo.
--Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?
--Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.
--Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?
--Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta serenidade desfeche em fastio...
--Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher. Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.
--Está bom...--murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os hombros, fechando as palpebras.
Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto desbotado da filha.
--Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.
--Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear, e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá, e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha Pizarro fala de mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?
--Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade, e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido desmarcado!
--Elle falou-lhe de mim?
--Falou; perguntou-me se estavas contente.
--E o pae que lhe disse?
--Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.
--Fez bem. Não quero que elle se vingue.
--Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?
--Não... mas...
--Explica-te.
--O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.
--Uma brincadeira...
--Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.
--Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com quem casar...
--Quem sabe!...
--Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo casamento.
Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete cotovellos.
--Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.
--É admiravel!
--Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, duzentas e tantas variedades.
--Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.
--Ora essa!--acudiu Nicoláo.--Se deixavamos a nossa casa para ir ver as paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais para se ver na copia que no original!
--Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos--replicou o fidalgo flaviense.
--Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o _D. José_, da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.
--Está decidido que não saes de Vidago--retorquiu Martinho.
--Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se Beatriz o exigir.
--Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...--disse a senhora.
Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:
--Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...
--Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo. Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?
--É conforme...--atalhou Nicoláo.--Pois sim, iremos a Chaves.
--Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando conformidade.
--Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e contrariado.
--O que fôr da tua vontade--respondeu ella affavelmente, sopesando o despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.
De feito, ao outro dia partiram para Chaves.
Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do seio angustiado.
Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura sorte a havia creado o pae com tanto mimo.
Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse, para no dia seguinte voltar a Palmeira.
Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia do pae, pretextando impedimento de saude.
Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção entrou, vindo de Basto.
Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:
--Como está mudada, prima!
Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.
--E eu que a considerava tão afortunada!--tornou Raphael.
--E quem te disse a ti que ella o não é?!--interveiu Martinho Xavier, de má sombra.
--Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da alegria!--respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.
--Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...--contrariou Martinho.
--Isso não sei--contraveio o morgado de Fayões.
--Sei eu.
--Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve doença, tornou Raphael.
Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.
Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito. O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.
Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o coração para receber as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama, e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.
Concentrou-se.
Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse, mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel desgraça.
Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e trocavam expressões vãs.
--Porque soffres, prima?--perguntava elle.
--Eu não soffro.
--Mas que tristeza é essa?
--Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?
--Nada, Beatriz.
--Mas estás tão pensativo!...
--Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu casei tarde para lhes achar prazer.
O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.
E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva suffocada.
Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e viu intacto o almoço.
--Porque não comes?--perguntou elle.
--Não posso--respondeu seccamente a senhora.
--Queres que chame um cirurgião?
--A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a morte.
Nicoláo riu-se sarcasticamente.
Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para abafar soluços.
O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.
Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.
Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!
VII
Saudades de Margarida Froment?
A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem se dignou fazer-m’a.
Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.
Porque era ainda bella, quando foi abandonada.
Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a mostrava ao mundo com soberba de a possuir.
Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais extremadas formosuras da provincia.
Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores, galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral publica.
Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava lembrando agora.
Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.
Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser grosseiramente repellida.
Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.
Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.
E mais que tudo, porque era de outro.
Aqui estão os _porquês_ da miseria do coração de Nicoláo de Mesquita, barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa chorarmos todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde com lodo e lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.
Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.
Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!
Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!
Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe que Beatriz era o archanjo do montante de fogo, a repulsal-o eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe. Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas, se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.
Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens a mulher infamada!
Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado, e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.
Beatriz mandou secretamente chamar o pae.
Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da razão da fuga nem da vergonha.
A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O lance foi acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com voz balbuciante:
--Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!
Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata, gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:
--Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?