Part 1
Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA
VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS
DAS
LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.
Volumes in-8.ᵒ de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente edição, em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou 300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias accresce o porte do correio.
Volumes publicados
N.ᵒ 1--_Tristezas á Beira-Mar_, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol. N.ᵒ 2--_Contos ao Luar_, por Julio Cezar Machado, 1 vol. N.ᵒ 3--_Carmen_, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, 1 vol. N.ᵒ 4--_A Feira de Paris_, por Iriel, 1 vol. (2.ᵃ edição). N.ᵒ 5--_O direito dos filhos_, George Ohnet, 1 vol. N.ᵒ 6--_John Bull e a sua ilha_, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol. N.ᵒ 7--_O juramento da duqueza_, romance historico por P. Chagas, 1 vol. N.ᵒ 8--_A lenda da meia-noite_, romance phantastico, por P. Chagas, 1 vol. N.ᵒ 9--_A joia do vice-rei_, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1 vol. N.ᵒ 10--_Vinte annos de vida litteraria_, por Alberto Pimentel, 1 vol. N.ᵒ 11--_Honra d’artista_, romance de Octavio Feuillet, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol. N.ᵒ 12--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1 vol. N.ᵒˢ 13 e 14--_A aventura d’um polaco_, por Victor Cherbuliez, traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol. N.ᵒ 15--_Os contos do tio Joaquim_, por R. Paganino, 1 vol. N.ᵒ 16--_As batalhas da vida_, contos por Guiomar Torrezão, 1 vol. N.ᵒ 17--_Noites de Cintra_, romance por Alberto Pimentel, 1 vol. N.ᵒˢ 18 e 19--_Em segredo_, romance, trad. de Margarida de Sequeira, 2 vol. N.ᵒˢ 20 e 21--_A irmã da Caridade_, por Emilio Castellar, traducção de L. Q. Chaves, 2 vol. N.ᵒ 22--_Migalhas de historia portugueza_, por Pinheiro Chagas, 1 vol. N.ᵒ 23--_A Cruz de Brilhantes_, por A. Campos, 1 vol. N.ᵒ 24--_Contos_, de Affonso Botelho, 1 vol. N.ᵒ 25--_Contos phantasticos_, por Theophilo Braga, 1 vol. N.ᵒ 26--_O mysterio da estrada de Cintra_, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, 1 vol. N.ᵒ 27--_O naufragio de Vicente Sodré_ rom. historico de P. Chagas, 1 vol. N.ᵒ 28--_Vid’airada_, por Alfredo Mesquita, 1 vol. N.ᵒ 29--_O Bacharel Ramires_, por Candido Figueiredo, 1 vol. N.ᵒˢ 30 e 31--_Amor á antiga_ romance de Caiel, 2 vol. N.ᵒ 32--_As Netas do Padre Eterno_, por Alberto Pimentel. N.ᵒ 33--_Contos_, de Pedro Ivo, 1 vol. N.ᵒ 34--_O correio de Lyão_, por Pierre Zaccone. N.ᵒ 35--_Vida de Lisboa_, por Alberto Pimentel. N.ᵒ 36--_Historias de Frades_ por Lino d’Assumpção. N.ᵒ 37--_Obras primas_, por Chateaubriand. N.ᵒ 38--_O Exilado_, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo. N.ᵒ 39--_Poema da Mocidade_, por Pinheiro Chagas. N.ᵒˢ 40 e 41--_A Vida em Lisboa_, por Julio Cesar Machado. N.ᵒˢ 42 e 43--_Espelho de Portuguezes_, por Alberto Pimentel. N.ᵒ 44--_A Fada d’Auteuil_, por Ponson du Terrail, traducção de Pinheiro Chagas. N.ᵒ 45--_A Volta do Chiado_, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).
Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira _Rua Augusta, 50, 52, 54--LISBOA_
COLLECÇÃO ECONOMICA
Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320
ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES
A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)
* N.ᵒ 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de _Tartarin nos Alpes_; por A. Daudet. * N.ᵒ 2--Pedro e João, por Guy de Maupassant. * N.ᵒ 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet. N.ᵒ 4--O Sonho, por Emilio Zola. N.ᵒ 5--Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt. N.ᵒ 6--O medico assassino, por Octavio Féré. N.ᵒ 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot. * N.ᵒ 8--O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian. N.ᵒ 9--Vogando, por Guy de Maupassant. * N.ᵒ 10--Um romance de mulher, por Pierre Mael. * N.ᵒ 11--Vontade, por Jorge Ohnet. * N.ᵒ 12--O Nababo, por A. Daudet. * N.ᵒ 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget. * N.ᵒ 14--Beatriz, por Rider Haggard. * N.ᵒ 15--O crime, por Gabriel d’Annunzio. * N.ᵒ 16--Lise Fleuron, por Ohnet. N.ᵒ 17--Os dois rivaes, por Armand Lapointe. N.ᵒ 18--O ultimo amor, por Jorge Ohnet. N.ᵒ 19--Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff. N.ᵒ 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp. N.ᵒ 21--Forte como a morte, por Guy de Maupassant. * N.ᵒ 22--A alma de Pedro, de J. Ohnet. N.ᵒ 23--Camilla, de Guérin-Ginisty. N.ᵒ 24--Trahida, de Maxime Paz. N.ᵒ 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot. N.ᵒ 26--Magdalena Férat, por Emilio Zola. N.ᵒ 27--Os Reis no exilio, por A. Daudet. N.ᵒ 28--Divida de odio, por Jorge Ohnet. N.ᵒ 29--Mentiras, por Paul Bourget. N.ᵒ 30--Marinheiro, por Pierre Loti. N.ᵒ 31--A montanha do Diabo, por Eugenio Sue. N.ᵒ 32--A Evangelista, por A. Daudet. * N.ᵒ 33--Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest. N.ᵒˢ 34 e 35--Odio antigo, por Jorge Ohnet. N.ᵒ 36--Parisienses!... romance, por H. Davenel. N.ᵒ 37--Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband. N.ᵒ 38--A confissão de Carolina, romance. N.ᵒ 39--Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland. N.ᵒ 40--Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins. N.ᵒ 41--O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet. N.ᵒ 42--A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin. N.ᵒ 43--Memorias d’um burro, por Madame Ségur. N.ᵒ 44--A nihilista, por Catulle Mendés. N.ᵒ 45--O grande Industrial, por George Ohnet. N.ᵒ 46--Morta d’amor, por Albert Delpit. N.ᵒ 47--João Sbogar, por Carlos Nadier. N.ᵒ 48--Viagem sentimental, por Sterne. N.ᵒ 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
Todos os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser reimpressos.
OBRAS
DE
CAMILLO CASTELLO BRANCO
EDIÇÃO POPULAR
V
O ESQUELETO
VOLUMES PUBLICADOS
I--Coisas espantosas. II--As tres irmans. III--A engeitada. IV--Doze casamentos felizes. V--O esqueleto.
_CAMILLO CASTELLO BRANCO_
O ESQUELETO
ROMANCE
_TERCEIRA EDIÇÃO_
LISBOA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA--LIVRARIA-EDITORA _Rua Augusta, 50, 52, 54_ 1902
LISBOA _Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira_ =Rua dos Correeiros, 70 72=
PREFACIO
Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.
Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.
Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás vezes, da verosimilhança.
Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito poisal-os em alegretes de flores.
São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.
Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente?
Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.
Ha poucos dias, tivémos esta pratica:
--Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pantanos da sociedade--observou-me o meu amigo.
--Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães culpadas.
--Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios--redarguiu o cavalheiro.
--Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.
--Acho-lhe rasão--obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus livros--mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?
Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de familia.
I
Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.
Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio; apeiava no hotel do Pêxe,[1] saía a provêr-se de objectos de luxo nas lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.
O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida particular.
Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.
Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.
Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:
--A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...
--Não é possivel...--disse o francez abstrahido.
--Não é possivel?!--replicou o outro.
--A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber quem a não conhece.
--E conhece-a o senhor?
--Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava encontral-a. Onde vive ella?
--Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto, com um fidalgo transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita.
O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:
--A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante affronta!
O francez retirou-se apressado.
Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.
O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.
O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder explicitamente se nomeava testemunhas, disse:
--Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.
O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e replicou:
--Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se melhor nas estradas.
O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até sangrarem.
A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu assustada a indagar a causa.
Nicoláo respondeu glacialmente:
--Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não me bato.
--Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é temivel!--acudiu ella.
O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:
--Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.
Pungente grosseria!
A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...
É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.
Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! Amára até ao absoluto despreso de si mesmo. Seguira-a de Lyão á Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua industria.
Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação: penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação, começo de expiação muito longa.
Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si. Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim desprezada.
Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.
A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?
Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto, que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres que chegam até aqui, tocam a extrema do pudor.
D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as morde.
Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras. Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o fastio do amante.
Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se, lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda desenfeitada.
Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar _castigo_.
Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.
O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua dignidade.
Abandonal-a era coroar a infamia.
Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em deante.
Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.
Até que, no termo de seis annos, appareceu o chanceller, não sei se tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns processos especiaes de honrar os amigos.
Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle: _é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher_. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; do pundonor não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara tolhido para todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a mulher do homem, incapaz de reputal-o infame.
Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se sem ellas.
Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta; e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se immolava á tranquilidade do amante.
Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa ricamente alfaiada na Torre da Marca.
O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o encontro inesperado.
Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.
Por este lado, o acaso--não ouso dizer a Providencia--se amerceara do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade. _Habent sua fata_... os palacios!
II
O morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.
Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.
Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. Perguntava á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das mulheres suas contemporaneas.
Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza da saudade.
Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é renuncia. O ciume faz então prodigios que nivellam o mais descaroado orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.
Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.
Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis louros do seu cabello á espadua de outro homem.
De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:--Parece que tem vinte annos! Como está moço, e que airosidade na dança!
--Pois tem perto de quarenta!--Atalhava um moço de vinte, com um sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.
Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.
Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.
Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o leve incommodo de contar anecdotas joviaes, costumes estrangeiros, amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, iguarias para todos os paladares.
Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça, transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo, quasi que de si mesmo ria.