O Engeitado

Chapter 2

Chapter 23,891 wordsPublic domain

D. Leonarda replicou com azedume; e, quando D. Bernardo lhe pediu que se calasse, a freira retirou-se da sala com modo altivo, resmungando pelo corredor:

--Eu já o presumia! Bem me quiz parecer que para afilhado, era muito amor!

Denunciára-se a freira! A suspeita de que o engeitado fosse filho do irmão tinha-a sobresaltado. Nutrira sempre a esperança de ficar herdeira universal da casa da Tojeira. Á primeira noticia da existencia do afilhado, todos os seus calculos ambiciosos se abalaram. Teve o receio instinctivo do mendigo, que vê concorrente á mesma porta! Recebeu o pequeno com fingida ternura e piedade, mal podendo conter, mais tarde, o rancor que a sua presença lhe inspirava.

Quando reparou que elle estava desmaiado aos seus pés, a escorrer sangue, assaltou-a um sentimento de terror, julgando que o tinha morto. Chamou em altos brados pela criada, que appareceu no mesmo instante. O rapaz foi transportado em braços para o leito. Ao chegar D. Bernardo a casa, a criada referiu o que tinha succedido, desculpando a senhora da melhor maneira que pôde.

--Onde está a sr.ª D. Leonarda?--perguntou o morgado com ar grave e carrancudo.

--Está no quarto--respondeu a velha.--A senhora tambem ficou doente. Isto abalou-a muito.

Ao quarto dia a febre remittiu. Os receios do facultativo desvaneceram-se. No fim de uma semana, o doente sahiu da cama para uma cadeira da sala.

Caminhava amparado ao braço do padrinho, muito desfallecido de forças, pallido e tremulo. A freira via então o pequeno duas vezes por dia. Falava-lhe sem rancor, mas visivelmente constrangida.

Durante a enfermidade, a tal ponto D. Bernardo se affeiçoou ao afilhado, que passava os dias sentado junto d'elle, conversando e lendo-lhe d'alto as noticias dos jornaes.

--Quando voltarmos para a terra--dizia-lhe elle--has de tambem aprender a ler. Queres?

--Quero, meu padrinho--respondia o Simão.

Um instante depois, perguntava:

--E a Lena?

--A Lena tambem ha de aprender como tu.

* * * * *

Á noitinha, logo depois do toque das _ave-marias_, a Josepha chegava á porta a chamar os filhos, que andavam fóra a brincar.

--Venham estudar, que é noite.

E accendia a candeia, que pendurava n'um gancho da parede superior a uma meza de pinho. Sentava-se depois ao lado, com a roca mettida á cinta, a fiar.

Como a mestra curava mais de ensinar ás discipulas a meia e a costura, pondo em ultimo logar a leitura e a escripta, o Simão, em poucos dias, adiantou-se na lição á Magdaena. Por isso era elle quem, estudada a sua, ensinava a lição á irmã. Debruçados sobre o mesmo livro, com as cabeças chegadas uma á outra, Simão ia apontando com o dedo as syllabas que Magdalena soletrava:

--_Ma-ri-nha._

E erguia os olhos do livro, hesitante, fitando-os em Simão, que a animava risonho.

--Marinha--dizia a pequena. O Simão irradiava de jubilo.

--Bem!--exclamava elle.--Agora para diante.

Então apparecia uma palavra enorme, que era um martyrio para Magdalena. Era ainda o Simão que a auxiliava amorosa e pacientemente, Fazendo-a reter bem as primeiras syllabas. Diziam simultaneamente:

--_Na-tu-ra-li-da-de._

E se a Magdalena dizia bem, o Simão, n'um impeto de contentamento, tomava-lhe a cabeça entre as mãos, e beijava-a na testa.

--Muito bem, Lena, muito bem!

No dia seguinte, sahiam de casa juntos para a escola. Mettiam por um atalho aberto no meio d'um pinhal. Era um caminho triste e sombrio, com um chão humido e molle todo sulcado pelas rodas dos carros e murado d'ambos os lados pelos taludes barrentos, onde, no inverno, escorriam as chuvas. Acabava n'um terreno baixo desmoutado e areiento, ao qual vinham dar as aguas d'um regueiro. Á tardinha vinha ali beber uma revoada de pombas brancas. Mais adiante, o caminho bifurcava-se pelo meio de campos de milho. Junto ao portão d'uma quinta murada havia um grande sobreiro, a cujo tronco estava arrumada uma pedra tosca coberta de musgo requeimado. Era ali que os dois pequenos tinham de se separar, mettendo Magdalena por uma azinhaga, onde ficava a mestra-regia, e Simão por outro lado, na direcção da escola dos rapazes. Nunca o faziam, porém, sem se sentarem algum tempo a conversar. N'esses instantes Simão contava á irmã os acontecimentos da Povoa de Varzim. Magdalena ouvia-o muito attenta, com os olhos abertos, que se embaciavam de lagrimas nos lances mais commoventes.

--Eu perguntava sempre á mãe quando tu vinhas--dizia Magdalena, enxugando os olhos nas costas da mão.--Não gostava de estar sem ti. Olha Simão--pedia ella, lançando-lhe um braço sobre os hombros--agora, nunca mais has de ir embora, não?

--Quem sabe lá!--respondia o engeitado, incerto do futuro, muito triste, com os olhos fitos n'um grupo de arvores, que havia defronte...

Ás vezes, no inverno, quando um aguaceiro os surprehendia no caminho, corriam a abrigar-se debaixo d'aquella arvore. Ficavam ambos ali, muito achegados ao tronco, e tão esquecidos e abstractos, que nem davam tino da chuva que escorria dos ramos--como os dois namorados vistos por Diderot!

Decorreram assim tres annos.

Magdalena já costurava e bordava com tal perfeição, que era o espanto das visinhas. Quando a Josepha mostrou uma toalha de linho bordada pela filha, para ser offerecida ao fidalgo da Tojeira, a Joaquina do Espinhal levantou nos braços a rapariga, beijou a na bocca e exclamou:

--És uma rosa, Magdalena! Louvado seja Deus! Tens umas mãos, que são uma riqueza!

O Simão lia correntemente, escrevia com boa caligraphia, sabia as quatro operações, e até já auxiliava o mestre. Era o decurião da aula. Os discipulos mais venturosos eram ensinados por elle, propenso sempre á complacencia e ao perdão, em quanto os desafortunados se viam nas mãos do sr. mestre, um velhote estupido e rabujento, que se vingava das horrendas miserias a que o lançavam os governos relapsos no calote, macerando as mãosinhas tenras das crianças com estrondosas palmatoadas!

Um domingo, na occasião em que os freguezes da missa sahiam da egreja para o adro, o mestre-escola foi ao encontro de D. Bernardo, que vinha da porta lateral da sachristia, e deu-lhe do afilhado as melhores informações. Era uma grande cabeça que ali se perdia, se o deixassem seguir a lavoura--dizia elle. O pequeno, além d'isso, era fraco e doente; e parece que estava talhado para seguir a vida ecclesiastica.

D. Bernardo recolheu a casa, pensando no que o mestre lhe dissera. Era realmente preciso tratar do futuro do afilhado. Se a vocação o não contrariasse, a vida tranquilla de sacerdote era a que mais se coadunava com as qualidades physicas do pequeno. Passados dois dias chamou-o a jantar comsigo. No fim, perguntou-lhe se queria ser padre. O pequeno não respondeu. Poz-se a correr entre os dedos a dobra da toalha, com os olhos no prato e sem proferir palavra.

--Queres, ou não queres?--insistiu D. Bernardo.

--Não, senhor--respondeu o pequeno a medo.

Desejava seguir uma vida que o não affastasse da Magdalena. O fidalgo discordou. Ponderou com palavras carinhosas que era preciso seguir uma carreira que o fizesse um homem de bem. Elle que o mandára á escola, não era de certo para o deixar ficar assim, sem um modo de vida...

--Não,--disse D. Bernardo--se não queres ser padre, ninguem te fórça. Serás outra coisa. Mas previne a tua mãe de que para a semana has de ir para Braga.

O pequeno desatou a chorar.

--Não chores--disse-lhe D. Bernardo, que se recordava das scenas da Povoa--não chores. Vaes para um collegio de meninos como tu; e nas ferias vae tua mãe buscar-te para vires á terra!

A proposito, e para desanuvear o coração do afilhado, contou-lhe varias brincadeiras do seu tempo de collegial.

* * * * * * * * * *

Simão foi acompanhado pela Josepha a casa do padre Barreiros, na rua da Conega, em Braga. A mulher entregou uma carta do fidalgo da Tojeira. O padre montou os oculos, e leu a recommendação do seu amigo e antigo protector.

--Muito bem--disse no fim, retirando os oculos, e dobrando a carta.--Então, este pequeno é o afilhado do sr. D. Bernardo?

--É, meu senhor--respondeu a Josepha.

--E é seu filho?--perguntou o padre.

A Josepha hesitou na resposta. Olhou para o pequeno, e disse baixinho:

--Elle é engeitado; mas quem o criou fui eu.

Na tarde d'esse mesmo dia o Simão entrava como alumno interno no collegio de Jesuitas do _Campo das hortas_.

Foi recebido carinhosamente pelo director--um homem alto, rubicundo, vestido com uma ampla batina de clerigo. O padre Barreiros mostrou a carta do fidalgo da Tojeira, e accrescentou:

--O meu amigo é um dos membros mais valiosos do partido do sr. D. Miguel! Este pequeno é seu afilhado; e, pelos modos, o sr. D. Bernardo dedica-o aos estudos.

Os primeiros dias foram uma nova tortura para o pobre coração do engeitado! Andava pelos cantos da casa a chorar. A cada momento, chegava-se ás janellas, e detinha-se a contemplar a paizagem. Faziam-lhe inveja os homens que trabalhavam no campo. Procurava ver entre o arvoredo o caminho por onde viera para Braga, e ia seguindo quasi instinctivamente a estrada, que ora se perdia encoberta pela ramaria dos carvalhos, ora surgia em retalho n'uma clareira para apparecer depois ao longe, ondeando pela encosta acima, muito branca entre a verdura do monte!...

Mas ao terceiro dia, o director chamou-o ao quarto, e entregou-lhe um pacote de livros, batendo-lhe carinhosamente na cara. Recommendou-lhe que estudasse muito.

--Ouviste? Para seres agradavel a Deus, Nosso Senhor, e aos teus paes.

O Simão retirou-se vivamente commovido. A idéa de que tinha de estudar todos aquelles livros, despertava-lhe na alma um agradavel sentimento de orgulho!

Nas ferias do Natal, o padre Barreiros foi buscal-o ao collegio, e enviou-o para a terra, muito recommendado a um almocreve, que passava perto da Tojeira. O pequeno não cabia em si de contente! Caminhava ao lado do recoveiro, revendo com immenso prazer os sitios por onde tinha passado mezes antes, quando viera para o collegio. Ia impaciente! A cada passo perguntava:

--Agora já devemos estar perto? O almocreve dizia:

--Ainda temos muito que andar.

E continuavam os dois pela estrada fóra, sem dizerem palavra. O almocreve, segurando no sovaco a arreata do primeiro macho da recova, caminhava n'um passo regular, assobiando. O Simão ia ao lado. A perspectiva triste e melancolica da paizagem n'uma manhã fria de dezembro tinha para elle encantos indefinidos! As arvores despidas da folhagem, os campos sem verdura, o ceo baixo e ennevoado, toda aquella desolação do inverno apresentava-se a elle com um aspecto risonho e seductor!

--Ainda temos muito caminho a andar?--tornava elle ancioso.

O almocreve respondia:

--Vê o menino além aquella ermida, que fica na chapada? pois em lá chegando, já póde ver o telhado da casa do fidalgo da Tojeira.

Era ainda uma boa meia hora de caminhada! Quando iam a dobrar uma curva da estrada, Simão soltou um grito de alegria, e deitou a correr para a frente. Ao longe, vinha a Lena ao lado da mãe para o esperarem no caminho. A pequena correu tambem; e apenas se encontraram, abraçaram-se os dois n'uma grande expansão de ternura!

O pequeno teve umas ferias deliciosas. O padrinho tinha recebido excellentes informações dos padres do collegio. O alumno era intelligente, estudioso e bem comportado.

--Se tiveres sempre juizo--recommendava-lhe D. Bernardo satisfeito--podes ainda vir a ser um doutor! Queres?

O Simão não respondia. Ruborisava-se todo e, olhando para Lena, que assistia ao lado, sorriam-se os dois!

Na vespera de voltar Simão para Braga, a Lena deu-lhe uma pequenina cruz de metal suspensa d'uma fita verde.

--Toma--disse, ella, pondo-lhe a fita ao pescoço.--É a cruz de Nosso Senhor, que eu beijo sempre ao deitar. Não te esqueças de fazer o mesmo, não, Simão?

* * * * *

N'esse dia, um mez depois das ferias, o director, antes de terminarem as autos, mandou reunir na grande sala d'estudo todo o collegio. Ao lado d'elle collocaram-se os professores e os prefeitos. O director subiu ao estrado, e pronunciou de lá um longo discurso, falando em amor de Deus, em humildade, em dedicação ao estudo, em obediencia a mestres, e superiores! Os alumnos, agglomerados na vasta sala, ouviam silenciosamente, n'uma compostura grave, com os braços cahidos ao longo do corpo. Ia distribuir-se um premio a um estudante, que pela sua applicação, pela sua intelligencia e pelo seu comportamento exemplar, se tornava digno d'aquelia distincção honrosa!

O director fez uma pausa, e em seguida proferiu com voz cheia e solemne o nome do alumno distincto:

--Simão Ferreira, filho de...

E, como na registo não houvesse designação de nome dos paes, emendou:

--Natural de S. Silvestre.

O Simão sahiu d'entre a multidão, muito vermelho e commovido, adiantando-se na sala com um passo hesitante. O director fel-o subir ao estrado; e, collocando a mão sobre a cabeça do pequeno, proferiu ainda uma breve allocução laudatoria, e entregou-lhe um livro encadernado em marroquim azul com letras doiradas no frontispicio. Os professores bateram palmas, abraçaram o estudante; e Simão atravessou por entre os condiscipulos no meio d'uma saudação enthusiastica!

Á tarde, quando estava no recreio, um criado veiu chamal-o para ir á presença do sr. director. Ao entrar na sala, Simão viu ao lado do director o padre Barreiros. Tinham ambos um ar sombrio e pesado. O director, logo que o pequeno entrou, disse-lhe pausadamente, pondo-lhe uma mão no hombro:

--Meu filho! O sr. padre Barreiros acaba de me annunciar a morte do teu padrinho...

O Simão fez-se pallido, e volveu para o padre os olhos marejados de lagrimas.

--Morreu hontem de repente--disse o padre Barreiros.

--Por isso--continuou o director--vaes-te vestir para ires com o sr. padre Barreiros. Não sei se voltarás para o collegio, meu filho. Se não vieres, lembra-te sempre dos teus amigos, e continua a ser obediente e trabalhador.

O pequeno tinha o presentimento vago de que na sua vida aquelle acontecimento funesto devia ser de alta importancia. Ficou meio atordoado, como se viesse de assistir a uma catastrophe!

Que iriam fazer d'elle, sem o auxilio do seu padrinho?

Esteve dois dias mettido em casa do padre Barreiros. Ao cabo d'esse tempo, o padre disse-lhe, durante o jantar, que o sr. D. Bernardo tinha morrido repentinamente, sem deixar testamento.

Simão mal comprehendia o alcance d'aquella revelação; mas, pelo modo como o padre falava, pareceu-lhe que era de gravidade o caso.

--Procurei a mana no convento--proseguiu o padre Bar\-reiros--e perguntei-lhe se queria continuar a proteger-te. Disse-me que o não fazia, por ora, sem saber o valor da sua casa. Ahi tens tu, Simão, como estão as coisas! Por isso, entendo que deves procurar outro modo de vida. Tens hoje treze annos, sabes ler, escrever e contar, um bocado de francez e de latim. Deves seguir o commercio para, em pouco tempo, poderes proteger a mãe que te criou, que ha de carecer do teu amparo. Queres?

De todas as considerações feitas pelo padre, Simão concluiu apenas que estava desamparado, e que era preciso trabalhar! Disse que sim, que fizesse o sr. padre Barreiros o que entendesse.

No dia immediato, o padre Barreiros foi procurar um sobrinho estabelecido com loja de ferragens na _Fonte da Corcova_, e offereceu-lhe o pequeno. O ferragista annuiu; mas declarou logo que o facto do rapaz ter andado no collegio «era o diabo»! Elle preferia os que sahiam das aldeias, sujeitos a toda a casta de trabalhos. Emfim, uma vez que o tio queria...

Simão entrou para a loja ao anoitecer. O patrão falou-lhe com ar carrancudo, tratando-o por tu, e dando-lhe a entender que, se o recebia, era por ser do agrado do tio. Simão não respondeu.

O tratamento grosseiro e aspero do patrão e do caixeiro mais velho da loja, a rudeza do trabalho, as condições pessimas do quarto em que dormia, sem luz, com pouco ar, entre quatro paredes humidas e pegajosas, a lida continua desde o amanhecer ate á noite, transformaram em pouco tempo o pobre rapaz, como se o minasse uma doença grave. Tinha perdido a côr sadia e a vontade de comer. Dormia mal, sobresaltado por aquella subita mudança nos habitos da sua vida! O patrão obrigava-o a trabalhos pesados; e, quando o via fraquejar sob o pezo das grandes cargas de ferragem, gritava-lhe:--Anda, avia-te! Quem não póde, arreia! Não sei de que te serve a comida!

E outras brutalidades, que melindravam e aviltavam o pequeno.

De uma vez, chamou-o para pesar n'uma grande balança, que havia ao fundo da loja, n'um armazem escuro e frio, umas canastras de fechaduras. Simão, com o suor a escorrer-lhe na testa, segurava a cesta d'um lado, o patrão do outro, e, a um impulso simultaneo, collocavam-n'a sobre o prato da balança. Á terceira carga, o pequeno não pôde mais, e deixou cahir das mãos a canastra. O patrão deu um salto, e applicou-lhe dois pontapés valentes, dados com a biqueira do tamanco. Simão principiou a chorar.

--Mexe-te--berrava o ferragista--mexe-te, ou levas outros!

Na madrugada do dia seguinte, quando o caixeiro o foi acordar para ir para a loja, Simão queixou-se d'uma forte dôr de cabeça, e pediu-lhe que o deixassem ficar na cama. Logo que o patrão appareceu, o caixeiro disse-lhe que o rapaz estava doente.

--Eu lá vou!--rosnou ameaçador o ferragista; e entrou no quarto do rapaz, ordenando que se levantasse immedia\-tamente.--Eu tiro-te o mimo, meu menino!--dizia elle ao pequeno.--O que tu tens é ronha, grande mandrião!

Simão ergueu-se a tremer de frio. Vestiu-se á pressa, e desceu para a loja, adiante das ameaças e injurias do patrão. Passado um instante, vendo que o caixeiro se tinha ausentado, levantou a porta do mostrador, e fugiu para a rua. O patrão, que o avistara do fundo do armazem, saltou fóra, e veiu agarral-o por uma orelha no _Campo da vinha_. Quando se viu preso, Simão julgou-se perdido. Foi levado para casa, perseguido de successivos pontapés. Umas mulheres que passavam, pararam na rua, ao ver a furia do homem, e compadecidas do rapazinho, que, a cada momento se voltava para traz, pedindo perdão com as mãos postas:

--Perdôe ao rapazinho--imploravam ellas segurando o ferragista.--Perdôe-lhe por esta vez. sr. José.

O ferragista, porém, era implacavel.

Chegado a casa, subiu com o rapaz a uma sala do andar superior, fel-o despir a jaqueta e as calças, pegou n'um junco, e gritou-lhe pallido e tremulo de raiva:

--Ajoelhe-se, e peça perdão!

Simão cahiu de joelhos no sobrado, e ergueu as mãos.

--Agora--disse o ferragista--vamos ao correctivo.

E, com o junco vibrado com toda a força, principiou a vergastar as costas do rapaz. Simão retrahia-se d'encontro á parede, clamando por soccorro. O patrão enfurecia-se mais aos brados do padecente, e, cego de indignação, quasi sem respirar, n'um impeto convulso de fera, saltou sobre o rapaz a bater-lhe com tanta violencia, que o fez cahir no chão, soltando gritos afflictivos, com as costas retalhadas e a escorrer em sangue!

O patrão cançado e offegante abriu então a porta da sala, e sahiu.

Simão, quando se viu só, ergueu-se d'um impeto, desceu á pressa as escadas, e saltou para a rua a gritar. Ao dar meia duzia de passos, cahiu extenuado sobre o lagedo do passeio.

Reuniu-se muita gente em volta d'elle. As mulheres, em grande alarido, davam _morras!_ contra o malfeitor.

Alguns homens tentaram levantar do chão o pequeno; mas as mulheres oppozeram-se. Uma d'ellas retirou um lençol d'uma trouxa que levava á cabeça, e embrulhou n'elle o rapazito.

--Matem este patife!--gritavam as mulheres raivosas, com as lagrimas a saltarem-lhes dos olhos.--Matem!

A multidão crescia. Logo que constou no mercado, quasi todas as vendedeiras acudiram a ver. O Simão ia já levado nos braços d'uma, com a cabeça pendente no hombro d'ella, quando d'entre o povo, que seguia atraz, se ouviu este grito dilacerante:

--Ai! que elle é o meu filho!

E uma pobre mulher da aldeia correu para elle afflicta com os braços abertos. Era a Josepha, que, n'esse dia, tinha vindo a Braga. Andava a mercar na feira umas camisolas, que ia levar ao filho. Ao ouvir os clamores do mulherio, adiantou-se para ver. Pobre mulher!

Tomou ella o Simão nos braços; e, perdida pela afflicção, caminhava á toa, sem destino, lamentando que lhe tinham matado o filho do seu coração.

--Leve-o ao hospital--disseram as mulheres que a acompanhavam.

Atravessaram as ruas, seguidas da multidão, que ia engrossando de cada vez vez mais, ate ao largo dos Remedios. Chegadas ao hospital de S. Marcos, a Josepha entrou só, subindo as escadas a chorar. O facultativo fez deitar o pequeno, observou-lhe as contusões do corpo, e disse:

--O homem que fez isto deve ser preso!

O pequeno só cobrou os sentidos, quando lhe applicaram as compressas de arnica sobre os vergões. Principiou a gemer, e a chamar pela mãe.

--Eu estou aqui, Simão--dizia a Josepha debruçando-se sobre elle.--Não chores, meu filho.

--Eu morro, minha mãe--dizia o pequeno, segurando-lhe as mãos, e levantando para ella os olhos supplicantes e cheios de lagrimas.

O povo, que acompanhou o Simão ao hospital, desandou em grande turba para casa do ferragista. Ali, ajuntou-se a um magote, que estava já estacionado á porta. O patrão tinha desapparecido da loja. Ao canto do balcão, o caixeiro, muito assustado pelo aspecto ameaçador da gente, não se mexia.

--Morra o patife!--gritou uma mulher.

--Morra! repetiram as outras.

E a multidão cresceu sobre a loja.

Foi precisa a intervenção da auctoridade, reclamada pelos visinhos do ferragista.

O administrador appareceu seguido do escrivão e de alguns policias, e ordenou ao povo que se dispersasse.

--Não sahimos, sem que o malvado seja preso--berrou um operario face a face ao administrador.

O agente da auctoridade entrou na loja. Passado pouco tempo a policia foi reforçada pela cavallaria, que conseguiu dispersar o ajuntamento. E, logo em seguida, o ferragista, pallido, a tremer, olhando assustado para os dois lados da rua, atravessou-a a correr, entre policias, para dar entrada na cadeia!

* * * * *

No outro dia de manhã, o medico do hospital mandou collocar o biombo em volta da cama do Simão.

--Está a manifestar-se a congestão--explicou elle baixo á enfermeira.

Os outros doentes da enfermaria, quando viram o medico falar confidencialmente, olharam uns para os outros, desconfiados, com um ar abatido e triste. Ao longo de toda a sala havia um grande silencio, percursor do silencio frio da morte. Os serventes do hospital atravessavam por entre as filas das camas em bicos de pés.

Ás nove horas, a enfermeira acendeu as velas de cêra de dois tocheiros, que ladeavam a imagem do Senhor crucificado, ao fundo da sala. Em seguida aproximou-se do leito do Simão. Estava deitado de costas, com os olhos fixos já meio embaciados... Respirava com oppressão; e a bocca entre-aberta formava-lhe um traço escuro na pallidez cadaverica do rosto.

--Quer alguma coisa?--disse-lhe a enfermeira ao ouvido.

--A minha mãe?--perguntou baixo o moribundo.

--Ainda não veiu.

Houve uma grande pausa.

--Quando ella vier--pediu o Simão com uma voz debil--se eu tiver morrido, dê-lhe a cruz que tenho ao pescoço; sim?

Parou um instante para respirar, e accrescentou:

--É para a Lena.

A enfermeira tentou animal-o, dizendo-lhe que elle havia de melhorar.

Simão fez um leve sorriso de descrença, e respondeu:

--Eu bem sei que morro... Ouvi o medico dizel-o ha pouco... Ai! já me falta o ar! Oh! minha mãe!

Quando a Josepha chegou á porta do hospital, o sino da capella começava a tocar a agonia!

A enfermeira esperou-a no patamar, e disse-lhe que o filho estava a morrer. Havia então na sala um silencio lugubre! Alguns enfermos, sentados no leito, murmuravam orações, com as mãos postas em supplica. Ouvia-se, de quando em quando, um gemido que partia do biombo.

A Josepha foi direita á cama do Simão. Estava a expirar! Ainda reconheceu a mãe; porque, fixando n'ella os olhos quasi apagados, procurou com anciedade a Lena. Como a não visse, rebentaram-lhe duas grossas lagrimas, e murmurou baixinho: