Chapter 2
A Morte, já a cavalo, segurando Na mão, a velha Fouce relusente, Olhae! a propria aurora reflectindo... Reintegrada, de novo, no seu funebre Esqueleto que um manto de crepusculo Em mortuarias dobras envolvia, Na sua voz de Espectro, murmurou:
"Vim de fechar os olhos a uma Virgem; Vou apagar os olhos d'uma estrêla."
E o Doido viu a Morte e o seu eterno Riso rasgado em marmor de sarcasmo, Ocultar-se na branca e fria nevoa Que, ao receber, no seio, aquele Espectro, Como que cheia de agua, escureceu.
E riu tambem na luz da madrugada... E o seu riso, tocando as cousas mortas, Não era luz que acorda, mas penumbra De esquecimento, inercia, indiferença.
E o Doido então cantou aos quatro ventos:
"Tive nos braços a Morte. Tu bem viste, Noite triste! Tu nos beijaste a ambos, vento norte! Teu beijo nos casou. Pôz-te o luar na fronte a branca flôr, Ó meu amor, Que a luz da aurora me roubou!
Tive a Morte nos braços, ó Loucura! Que lindo corpo gentil! Seu Phantasma era um abril, Seus ossos eram feitos de ternura!
E ri, de noite; e o meu riso Na sombra do ar chorava... E tudo abria os olhos e falava... A noite é como o _dia do juizo!_
Vi Mortos resurgidos, Mostrando a carne em flôr sobre o esqueleto, Quando o frio crepusculo se espalha, E os môchos piam nos pinhaes tranzidos De terror secreto, E a dôr, suspensa no ar, a terra orvalha...
E eu ri de noite. E fiz mais: Bebi o riso na origem, Nesses labios espectraes Da Morte Virgem! Vi o riso verdadeiro, O riso desmascarado; Não esse riso envolto em nevoeiro, Amortalhado... Mas o riso--relampago fendendo A nossa magua, E revolvendo, Ó lagrimas de dôr, teus seios de agua!
Vi o riso que alumia O nosso fim... O cirio eterno a arder ao pé da cova, A eterna flôr do edenico jardim: A luz do dia, Sempre nova.
E ri na cara da Morte, Ó vento norte, O riso que ela me deu! E de traz d'um rochedo, Ergueu-se o vulto pálido do Mêdo... Que frio gesto e lugubre estatura Ébria de ceu, Somnambula de Altura...
E vi o fundo ao Riso. A minha dôr Tocou-lhe o fundo. E vi de perto, então, A sombra inicial da Creação, A luz final do Amor!
E eu ri na noite triste! E á luz da aurora, O meu sorriso empalidece e treme, E geme E chora: Assim uma candeia Brilha na sombra, e, triste, bruxuleia Á luz do sol tão forte, Que ás outras pobres luzes traz a morte.
E o dia vem nascendo... Que tristêsa! Manhã cinzenta e baça! Como perde a paisagem a belêsa: A penumbra que a veste, e é sonho e graça...
Adeus, ó Morte, ó velha irmã Da sombra, do silencio e do luar... Ó frio desencanto da manhã! Já vejo naufragar, Na voragem da aurora, o meu cantar! Ó claridade! Ó sol! Ó sol! Aparições do Ruido! Movimento desmedido! Poeira humana... Actividade!
Levou-me a luz do dia o que me trouxe A noite, a solidão, a luz do luar... E a Morte, que em meus braços foi Donzela E corpo de beijar, Pegou da fria Fouce Saltou ligeira, rindo, á dura séla E foi ceifar, ceifar!
E emquanto o Doido ao vento assim cantava, Trotava a Morte ao longo do planalto, Na meia luz, na meia realidade... E a sombra da sua Fouce, em negra curva, Ia da aurora ao poente; e a do seu corpo, Parecia manchar toda a Paisagem.
Ficára a sós o Doido e a sua vida; E tres noites cantou aquela estranha, Milagrosa aventura que, depois, O Imaginar do Povo consagrou N'esta Lenda, em que a noite e a luz do sol, A vida e a morte, as lagrimas e os beijos, São como a propria Sombra da Saudade.
E ele viu, através do seu delirio, Pela primeira vez, sua figura Enigmatica, occulta, transcendente... Viu que existia n'ele um outro sêr: O que domina as trevas e possue Sempiterna Presença Espiritual... Parte da sua vida inominada Que não é propriamente a sua vida, E constitue as vagas e remotas Fronteiras da sua alma que se perde, Em humildade e amor, na luz de Deus.
Sim: foi a Morte, foi, que lhe mostrou O que havia de belo e de perfeito Na sua escura e misera existencia, Com esse gesto descarnado e gélido Que os sorrisos apaga e que amortece Todas as vãs palavras e ironias, Derramando nas Cousas esta sombra Infinita e profunda que se chama Seriedade, Religião, Misterio...
Novembro de 1912.
Biblioteca da RENASCENÇA PORTUGUESA
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NO PRELO:
Daquem e Dalem Morte (Contos)--_Jaime Cortesão_. O Último Lusíada--_Mário Beirão_. Camilo Inédito--(_Notações de Vila Moura_). Só--_António Nobre_ (3.^a edição, com notas).
200 réis
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