O Descobrimento Do Brazil Prioridade Dos Portugueses No Descobr

Chapter 2

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E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem aonde estava a ilha.»

Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é importantissima.

Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados, como nós outros, _antes que nós outros não muitos annos_.»

Mas, não fica nisto.

Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500) foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar ligada com as Antilhas.»

Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo, contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios _novamente_ achada.»

E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta _adivinhação_ que proclama, apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador _é muito surprehendente_.»

Nem foi _adivinhação_ nem _cousa para surprehender_; os élos intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo aportasse ás Antilhas.

Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa africana e nas ilhas dos seus mares.»

Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as. Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações commerciaes.

A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva, da conquista, da occupação.»

Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas, ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»

Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei _achada_ era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.

Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»

Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo, contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,» que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra, que Dulmo queria dar _achada_ ao seu rei, já elle havia estado, havendo encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.

Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar _achada_ á corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem, ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria, seguindo com o seu socio para o desconhecido.

Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80 dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para a sujeição dos indigenas.

A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.

Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil, _apesar da calmaria que encontrou_, e ainda a circumstancia de ter gasto Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra _achada_ por elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.

Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim, que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490, seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.

Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da ilha ou ilhas que elle _descobrir ou achar novamente_. Não tendo meios para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente, forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.

A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e donatario.

Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da existencia da terra que _ia achar_ porque nella estivera com Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra anteriormente achada.

Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de 1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.

Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:

1436--Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.

1447--Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros desembarcam.

1448--Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.

1452--Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e chegam á latitude da terra do Lavrador.

1472--Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova, ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.

1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.

1487--Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito, acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.

1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.

Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da America.

A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes das terras americanas.

Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam um novo continente, formando a parte quarta do universo até então conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a _largura do mar_, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde _nem frio nem calma os anojara_ e mais navegaram a _praia oriental_ sob uma temperança (temperatura) muito temperada do ar e do mar.»

Nestas expressões--_navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos Açores_--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo. Empregou a expressão _praia oriental_ suppondo sempre que era a India cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança, indo em busca do reino do Prestes João.

Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que, atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo occidente para a India.

Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer, existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro, transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.

De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram muito antes do genovez.

Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o primeiro a pôr o pé no solo americano?

Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a _Terra Nova_, que os mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa denominação, pela de _Terra dos Bacalhaus_, pela de _Terra de João Vaz_ e ainda de _Terra dos Corte Reaes_, em homenagem ao grande navegante luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados de engrandecerem a sua patria.

* * * * *

Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para _descobrir_, mas para _chegar_ á America e de uma parte della tomar posse official para a corôa de Hespanha.

Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez ás Antilhas.

Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua _Historia das Indias_, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo, que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «_com estes se crê haver sido instigada a sua natural inclinação_.»

[Nota de rodapé 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a 1484.]

Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas applicadas á navegação.

Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos portuguezes apprendeu a navegar.

É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada _Historia das Indias_: «resolveu ter por experiencia o que então do mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa já residente e quasi natural de Portugal.»

Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.

Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado Affonso Sanches.

Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d. João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.

Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos christãos.»

Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia, da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do descobrimento da India pelo poente.

Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.

Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «_Colombo tinha a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas pessoalmente tivesse estado_.»

E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.

Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa portugueza, que esta já não conhecesse?

Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores, elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.

Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem renome, mas no de ganhar dinheiro.

Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, _por inveja_, maltratado em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.

Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender, para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.

Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz: «fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»

Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, _por inveja_, tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d. João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio das nossas justiças _por razão de algumas cousas a que sejaes obrigado_, nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»

Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.

Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto, Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle, Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.

Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...

[Nota de rodapé 2: O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.]

Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem escrupulos!...

Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se _Colon_ na Hespanha e _Colombo_ na Italia e em Portugal!!!...