O Descobrimento Do Brazil Prioridade Dos Portugueses No Descobr

Chapter 1

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Notas de transcrição:

Pg 26: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha aspas.

Pg 28: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D. João II (não corrigido).

Pg 37: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472, ..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de base a esta transcrição.

GARCIA REDONDO

(DA ACADEMIA BRASILEIRA)

O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL

PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA

Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911

SÃO PAULO CASA VANORDEN 1911

GARCIA REDONDO

(DA ACADEMIA BRASILEIRA)

O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL

PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA

Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911

SÃO PAULO CASA VANORDEN 1911

Assistiram a esta conferencia, além do ministro de Portugal, Snr. Dr. Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da França, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S. Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia portugueza de S. Paulo.

Esta conferencia é impressa no formato do livro _Conferencias_ do auctor para que possa ser annexada a esse livro.

O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL

Prioridade dos portugueses no descobrimento da America

_O orador, depois de agradecer a presença do numeroso e luzido auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico para ouvir a sua palavra rude e, depois de varias explicações que deu sobre o grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua conferencia, diz:_

_Minhas senhoras, meus senhores:_

Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e querendo visitar a exposição internacional de Milão, em vez de fazer a viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de Montreux a Milão, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.

Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a minha homenagem de americano á memoria de Christovam Colombo, visitando a casa onde elle nasceu.

Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas á moderna com venezianas verdes.

Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.

Mas, veio-me depois ás mãos um livro--_A descoberta do Brazil_--do sr. Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento do Novo Mundo, livro que, em abono da civilização portugueza, que, em abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio mostrar-me, á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.

Colombo e Cabral--o primeiro ao aportar, em 1492, ás Antilhas, e o segundo, em 1500, á costa brazileira, não fizeram mais do que _reconhecer e tomar posse_ officialmente de terras que muitos annos antes já haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.

Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doações feitas pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes, roteiros, mappas, relações, cartas de testemunhas dos acontecimentos e outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos hespanhóes e açorianos e na Torre do Tombo.

É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.

Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer todos, _una voce_, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!

* * * * *

Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente, o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo pontifice do Oriente.

O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre, para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.

Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos, os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.

As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo, marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!

Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando aportou ás Antilhas.

Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir, demandando novas regiões.

Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo XV.

Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique, projecto que revolucionou o systema do mundo.

Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o summo pontifice da christianidade indiana.

Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.

«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do Norte e do Brazil.»

«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»

* * * * *

Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal descoberta.

Esmiucemos o interessante assumpto.

Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde 1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico, estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.

As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431, começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho Cabral descobre as _Formigas_. Um anno depois, em 1432, descobre ainda _Santa Maria_. As expedições maritimas portuguezas, desde então, succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.

Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:--_Insule de novo reperte_ (ilhas recentemente descobertas.)

Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços, as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em 1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os marinheiros desembarcaram.

No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em frente á costa africana, sendo designado por _ilha authentica_ e assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo Verde.

Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436 mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia noticia nessa época.

Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome) não desembarcando nella com receio do inverno.

Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.

A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d. Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira, que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra senão a America.

Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no _mar oceano_, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos da época, a expressão _mar oceano_ era usada para designar o mar que banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos da costa americana.

Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d. Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.

Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar dellas posse para a corôa da Hespanha.

Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos portuguezes na descoberta da America.

Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.

Vejamos quaes são.

Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a Alvaro Martins.

Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E considerando eu, de outra parte, _os muitos e grandes serviços_ que o dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d. Fernando), e depois a mim e a elle, _em galardão_ dos ditos serviços, lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»

Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de d. Beatriz, alludiu aos _grandes serviços_ de João Vaz Côrte Real a seus paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos _muitos serviços_ que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim, espero que ao deante fará.»

Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal galardão?

Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_, trazendo essa nova descoberta americana para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.

As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:

1.º--Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á Terra Nova, a seguinte designação: _B. de João, Terra de João Vaz_.

2.º--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra Nova se encontra.

3.º--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por extenso, designando a Terra Nova--_Terra de Joam Vaz_, _Rio de Joam Vaz_.

4.º--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a _Terra do Bacalhau_; estes pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira, a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes fidalgos, ficou a de Angra.»

5.º--Finalmente, nestes trechos das _Saudades da Terra_, de Gaspar Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por _capitão de grossa armada_; do qual dizem que foi _tão grande aventureiro no mar que neste Reino não tem segundo_; e alguns querem dizer que descobriu a mesma ilha Terceira e _algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo Verde_, onde foi o primeiro que houve vista da _ilha do Fogo_... e vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do _descobrimento da Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer_, lhe foi dada a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz Côrte Real... e vinha do _descobrimento da Terra Nova do Bacalhau_ e o Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha, a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz, por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»

Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude, nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real da _Terra Nova_ ou _Terra do Bacalhau_, na America do Norte, em 1472, vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.

Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.

João Vaz Côrte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar Côrte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes, principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e refere-se _ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho, despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e homens_. Diz ainda essa carta de doação que _elle vae continuar a descobrir_ ou reconhecer _ilhas e terra firme_ das quaes lhe são outorgadas as capitanias.

A expressão vae _continuar a descobrir_, empregada na carta regia, significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.

Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.

Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz. Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4 de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios mandaram descobrir a Terra Nova».

Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d. Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d. João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes Reaes uma data anterior a 1495.

Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou _6 annos depois_) como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a _Terra Nova_ ou _dos Bacalhaus_, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a 1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua _Historia das Indias_, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar _aquella terra_.»

E isto prova ainda que o descobrimento da _Terra Nova_ ou _dos Bacalhaus_ e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484, porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de 1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo textualmente: «_Disse_, pois, Christovam Colombo entre outras cousas _que poz em seus livros por escripto_... e accrescentou mais que tinha visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, _ir em diversos tempos a buscar aquella terra_.»

_Aquella terra_ era a _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_.

Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio... parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para demonstral-o.»