O Descobrimento do Brazil Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America

Part 4

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No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no ilhéu em que disséra a primeira, mas junto á cruz erguida em terra e á qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.

Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que viram fazer aos portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao pescoço de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que elles beijaram com satisfação e receberam com visivel empenho.

Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de véla para o Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas, capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse para a corôa portugueza.

A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao grande commercio do pau brazil que ella produzia.

Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil feito por Cabral, disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos da frota explicou depois que esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram, mostrando ter piedade delles.

Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, além desses dois degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.

Vem talvez dahi a herança dessa proverbial hospitalidade brazileira, que tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.

Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já pertencia pelo tratado de Tordesillas.

Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas coube-lhe a não pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os hespanhoes, que depois vieram á conquista da America, accenderam entre os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os barbara e deshumanamente _com cães amestrados na caça do homem_, como quem caça hyenas e lobos!

Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os serviços inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta terra abençoada.

Bastava a sua caridade christã para com os filhos deste paiz para que lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e a do seu feito incruento.

Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com élo de ouro o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou o mundo e fez avançar a civilização.

Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d. Henrique, avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Açores, todas as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, uma parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o mappa com conquistas suas!...

E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga de terra erguida á beira mar, no occidente da vasta Europa!...

Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em côr vermelha, traçada a epopéa desses grandiosos feitos.

Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitação e com ufania:--Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]

[Nota de rodapé 5: Vide _Nota B_ no fim da conferencia.]

* * * * *

Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmãos; a monarchia tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou a dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com a quéda e com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro de 1910.

Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos não deixou avançar mais.

Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados, manietados, sem poder dar expansão ao vosso genio irrequieto e aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto sacrificio e perigo.

Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da Republica em vossa terra.

Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para conquistar o antigo esplendor.

Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril, da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou, que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.

Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos, em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.

Tenho dito.

Notas e Noticias

NOTAS

NOTA A

A revista hespanhola _España Moderna_, de Junho de 1910, consagrou um longo artigo, á nacionalidade de Colombo e chegou á conclusão de que elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita o facto da caravela _Santa Maria_, uma das trez da frota com que Colombo foi ás Antilhas, ser appellidada vulgarmente _La Gallega_.

O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de Pontevedra, sustentou a affirmação da _España Moderna_ em um longo artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou no _Heraldo_, de Madrid.

A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a Colombo, que ainda é lá conhecido por Colon.

Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo, considera-o portuguez!...

Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje é discutida.

NOTA B

Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito de affirmarem que elle legou o seu nome á America, della ainda foi menos descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de America a terra, que João Vaz Corte Real e outros navegantes lusos descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na sua _Cosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes_, publicada em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:[6]

[Nota de rodapé 6: A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a Historia!...]

«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e que, por essa razão, poderiamos chamar America, isto é, Terra de Americo.»

O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta deu-se o nome desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo, que veio ás terras americanas com Hojeda, muito depois que os Corte Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que já foi um retardatario.

Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. Vart) que o nome America, dado ao Novo Mundo, provêm, não do prenome de Vespucio, mas da denominação que os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expressão equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que serviu para designar, não só as terras altas de Nicaragua, mas todo o novo continente.

A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome America é de origem americana.

NOTA C

A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr. Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei no _O Paiz_ da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro Alvares Cabral, em 1500:

«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso, porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril, pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.

Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.

Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.

Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.

Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite, porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas sempre á vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.

Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente que o seu pincel produziu.

A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.

Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.

Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.

Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos que denominou _A Historia e a Legenda_.

Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?

É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.

E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.

Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano, nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.

Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente consagrada para assim manter-se na tradição popular.

De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII, limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da chegada de Cabral ao Brazil.

Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou, para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.

Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»

GARCIA REDONDO

NOTICIAS

Conferencias portuguezas

Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez desta capital.

A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.

Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana, official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio Egas, e muitas outras pessoas gradas.

O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela directoria do Centro.

Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt Rodrigues.

Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas, dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio dar maior solennidade á primeira conferencia.

Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr. Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.

Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil--Prioridade dos portuguezes no descobrimento da America.»

Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos, hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua conferencia.

As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.

Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:

O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas magnificas conferencias.

«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da familia brazileira.

E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).

Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome é tido entre portuguezes e brazileiros.

Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já larga obra na sciencia e nas letras.

E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo algum do mundo. (Muito bem.)

A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos tres pontos que observaes naquelle mappa.

Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente, que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.

Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.

Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.

Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes acontecimentos.

Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em duzentos annos.

É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força, tinha talento, tinha sciencia.

Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a parte da grandesa do genio de sua raça.

Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo produza bem rapidamente seus frutos.