O Descobrimento do Brazil Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America

Part 3

Chapter 33,939 wordsPublic domain

Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de que carecia para ir á India pelo occidente e _achar_ terras que já tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada, os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»

Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido á America,--como os Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador--que armavam as caravelas á sua custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir favor nem retribuição alguma!

Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e de alviçaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana. Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, já havia visto uma _luz_ e, estabelecendo com essa _luz_ a prioridade, apossou-se da gratificação que ao seu subordinado competia!

Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua caridade christã, esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas, nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja; que, ao chegar ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, atacando os indigenas nús e quasi desarmados; que, não podendo enviar aos reis de Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem vendidos e com o preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493 a 1496, governando a Hespaniola, que é o Haiti de hoje, exterminou barbaramente a terça parte da população; que, quando mandou Pedro Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os indigenas que lá encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda (um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique Cahonaboa, deu-lhe instrucções para que o fizesse á traição, attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e apoderando-se delle em seguida!!...

Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.

Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter enriquecido, sempre suspeitou desse _descobridor_, que a seu soldo trazia, pois, logo após a sua segunda viagem á America, perseguiu-o tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da terceira, após dois mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!

Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcançara para a Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia, nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba, de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.

E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu uma estatua, não reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade é ainda hoje discutida.[3]

[Nota de rodapé 3: Vide _Nota A_ no fim da conferencia.]

Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu á Hespanha terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.

Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio de contestação séria, que Colombo não descobriu a America, porque, 15 annos, pelo menos, antes delle nascer, já a America havia sido descoberta pelos navegantes lusos do primeiro terço do seculo XV.

Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem ás Antilhas e communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. João II, logo este monarcha protestou energicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegára.»

A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, «que o não sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que não fosse á Guiné nem á Mina.»

Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a certeza que nisso não haveria mistér de terceiros».

Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia esquivava-se á responsabilidade directa do delicto por elle commettido, sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido ás Antilhas ou que o tivessem induzido a ir até lá!...

Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do continente americano que se chama o Brazil.

Desde o começo desta conferencia, vos disse que não foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil já estava designado e marcado nos mappas que a corôa portugueza possuia desde 1436, fixando André Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em 1500 milhas.

Nesse mappa de 1448, que André Bianco traçou em Londres, _depois de haver passado por Portugal_, estava o Brazil representado ao sul das ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que têm hoje a denominação de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda: _Ixola otincticha xe longa a ponente 1500 mia_, cuja traducção é esta: «Ilha authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»

Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas das ilhas de Cabo Verde.

Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500, Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia, no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.

Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e até o testamento de João Ramalho, escripto nas notas do tabellião Lourenço Vaz, na villa de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho, na presença do dito tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto é, desde 1490, dois annos antes da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes da chegada de Cabral a Porto Seguro.

Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal e a Hespanha, o qual, marcando para limites entre os dois reinos uma linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos limites foram traçados por esse meridiano.

O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de accordo com o tratado, na parte portugueza, não só o Brazil como a Terra Nova ou de João Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava á direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte á esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:--«Este é o marco dantre Castella e Portugal.»

O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle «descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto, esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em 1496.

Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus _Annaes da Ilha Terceira_, sabe-se que, antes de 1496, tambem o navegante João Coelho veio ao Brazil.

Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrir e que vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»

O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.

No seu _Esmeraldo de situ orbis_ refere Duarte Pacheco, o celebre cosmographo, _que em 1498 estivera no Brazil_, provavelmente, como suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela linha divisoria do tratado de Tordesillas.

Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral, que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que a terra onde chegara, _já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo_, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa alteza escripta tambem a Mina...»

Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa terra tinha estado em 1498.

Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em 1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas terras de Portugal».

Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras não lhes pertence.

Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro que pisou o solo brazileiro.

Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435, ou antes.

Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse official para a corôa de Portugal.

O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India. O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança, em demanda da India.

Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral, havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem veio na frota cabralina. O autor do _Esmeraldo de situ orbis_ aqui estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse official.

Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India, mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.

Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo, Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da Cunha.

Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do _Esmeraldo de situ orbis_, Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné, alguns interpretes e varios degredados.

Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de armas brancas, como espadas e lanças, e, em cada nau, havia uma botica. Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos, pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso, levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.

Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota que partia da Europa.

Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a rota que devia seguir.

Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capitão mór que «se afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho pelo sul, _bordejando pelas bandas do sudoeste_... e, depois, na volta do mar, até metterem o Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»

O regimento não fala claramente em aportar á Terra dos Papagaios, mas estipula que, ao deixar Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul, bordejando pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão secreta de Cabral tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou á India, para abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso á marinhagem, a terra do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no Brazil, saberia guiar Cabral com segurança a esse ponto de escala forçada da gran viagem, de antemão indicada pelo Gama.

A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a frota de Lisboa á ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul, bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios, dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.

Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canarias onde encontra calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e, exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]

[Nota de rodapé 4: Vide _Nota C_ no fim da Conferencia]

Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de Cabral ao Brazil, attribuem uns ao _acaso_ esse feito, dizem outros que a frota fôra impellida para a nossa costa por um _forte temporal_, que a apanhou.

Nenhum delles porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo este durou.

Ora, contra esse _forte temporal_ protestam energicamente os dois melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que Mestre João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1.º de maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.

Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. Temporal soffreu a frota, mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu o seu descobridor Bartholomeu Dias.

Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brazil, nem o acaso interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portuguezes perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e sabiam aproveital-os de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, éra, como já o disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso á marinhagem e tomar posse official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.

O _acaso_ e o _temporal_ têm, portanto, de ser banidos dos livros que se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.

O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e da permanencia de Cabral na terra brazileira.

Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.

É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.

Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que «os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».

Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.

A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não tinham receio.

E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram, porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á antiga capitania de S. Vicente.

Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada, dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois, folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados, sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus. Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar, a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem bem a sua fala, não duvido, _segundo a santa tenção de vossa alteza_, fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será assim.»

Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.