O descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601
Chapter 2
É certo, comtudo, que a França estava n'aquelle tempo muito pobre, e muito implicada em cuidados politicos para entremetter-se em longinquas investigações nauticas. Se assim o tivesse feito, toda a America do norte e o Brasil poderiam agora pertencer-lhe. Todavia sabemos ao mesmo tempo, que os portuguezes tinham anteriormente a 1529 estabelecimentos nas ilhas das Indias orientaes; e a existencia de nomes portuguezes nos territorios de que fallamos, como se acham delineados n'estes mappas francezes, é de si mesma o reconhecimento de terem sido descobertas pelos portuguezes; como sem duvida a opinião dos francezes, com respeito á cobiça e exclusivismo dos portuguezes, não só devia ter tornado os primeiros mais diligentes em reclamarem tudo que lhes fosse possivel em materia de descobrimentos, mas tambem devia ter estorvado a gratuita introducção de nomes portuguezes em regiões tão remotas, se elles proprios as houvessem descoberto. No tomo 3.º da Collecção de Ramusio, na noticia do «Discorso d'un gran capitano di mare francese del luogo di Dieppa, etc.,» que sabemos agora ser a viagem de João Parmentier a Sumatra em 1529, e com toda a probabilidade escripto pelo seu companheiro e elogiador o poeta Pedro Crignon, encontra-se esta expressão: «Io penso che li Portoghesi debbano haver bevuto della polvere del cuore del re Alessandro..... e credo che si persuadino che Iddio non fece il mare nè la terra, se non per loro, e che l'altre nationi non siano degne di navigare, e se fosse nel poter loro di mettere termini e serrar il mare del Capo di Finisterre fin in Hirlanda, gia molto tempo saria che essi ne haveriano serrato il passo.» Mas, demais d'isto, pois que tira d'ahi muita força este argumento, não devemos deixar de ter em conta o ciume dos portuguezes, que vedavam a communicação das informações hydrographicas relativamente aos seus descobrimentos n'aquelles mares. Humboldt affirmou, _Histoire de la Geographie du Nouveau Continent_, tom. 4.º, p. 70, sobre a auctoridade de cartas de Angelo Trevigiano, secretario de Domenico Pisani, embaixador de Veneza na Hespanha, que os reis de Portugal defenderam, sob pena de morte, a exportação de cartas maritimas que revelassem a derrota a Calecut. Achamos igualmente em Ramusio, _Discorso sopra el libro di Odoardo Barbosa_, e _Sommario delle Indie Orientali_, tom. 1.º, p. 287 b, imposta similhante prohibição. Diz elle que estes livros «estiveram occultos por muito tempo, e não se consentiu que fossem publicados por convenientes razões, que não devo aqui manifestar.» Tambem falla da grande difficuldade que elle mesmo tivera de obter uma copia, posto que imperfeita, em Lisboa, «Tanto possono» observa elle «gli interessi del principe.»
Póde formar-se alguma idéa do conhecimento que possuiam os hespanhoes no meiado do seculo XVI ácerca da parte do mundo de que tractamos, pelo seguinte extracto d'uma obra intitulada _El Libro de los Costumbres de todas las Gentes del Mundo y de las Indias_, traduzida e compilada pelo bacharel Francisco Thamara, Antuerpia, 1556: «A treynta leguas de Java la menor, está el Gatigara a nueve y diez grados de la Equinocial de la otra parte azia el sur. Desde aqui adelante no ay noticia de mas tierras, porque no se ha navegado por esta parte mas adelante, y por tierra no se puede andar por los muchos lagos y grandes y altas montarias que por aqui ay. Y aun dizese que por aqui es el parayso terrenal.» Ainda que isto não foi escripto originariamente em hespanhol, porém traduzido de Johannes Bohemus, não é facil de crêr que fosse apresentado aos hespanhoes, se entre elles houvessem mais exactas informações a este respeito.
Os factos assim reunidos levam-me á conclusão de que a terra descripta como «la Grande Java» nos mappas francezes a que tenho feito referencia, não póde ser senão a Australia; e que foi descoberta antes de 1542, quasi que póde acceitar-se como certeza demonstrada; porém, quanto tempo antes, não é claro. Creio tambem que tenho conseguido fazer sentir a grande probabilidade de terem sido os portuguezes os seus descobridores.
Em um mappa destinado a servir de esclarecimento ás viagens de Drake e Cavendish por Jodocus Hondius, é apresentada a Nova Guiné como uma ilha perfeita, sem uma só palavra que faça nascer duvida ácerca da exactidão do desenho; emquanto que a terra Austral, separada da Nova Guiné apenas por um estreito, tem um perfil notavelmente parecido ao do golpho de Carpentaria. Estas indicações dão a este mappa um interesse especial, principalmente porque se mostra que é anterior á passagem de Torres pelo estreito de Torres, em 1606, pois que tem as armas da rainha Elizabeth, antes que o unicornio da Escocia expulsasse o dragão dos Tudors.
No artigo _Terra Australis_, na obra de Cornelio Wytfliet, _Descriptionis Ptolemaicae Augmentum_, Louvain, 1598, encontramos o seguinte passo: «Australis terra omnium aliarum terrarum australissima tenuique discreta freto Novam Guineam orienti objicit, paucis tantum hactenus littoribus cognitam, quod post unam atque alteram navigationem, cursus ille intermissus sit, et nisi coactis impulsisque nautis ventorum turbine rarius eo adnavigetur. Australis terra initium sumit duobus aut tribus gradibus sub aequatore, tantaeque a quibusdam magnitudinis esse perhibetur, ut si quando integrè delecta erit, quintam illam mundi partem fore arbitrentur.» A declaração que fica citada foi impressa, convém recordal-o, antes d'algum descobrimento da Australia de que tenhamos noticia authentica.
Porém quando se examinam estas indicações do descobrimento da Australia no XVI seculo, é natural perguntar quaes explorações haviam sido feitas pelos hespanhoes n'aquella parte do mundo, no decurso do dito seculo? Depois do periodo da viagem de D. Alvaro de Saavedra ás Molucas em 1527, cessamos de encontrar a actividade do espirito de investigação por parte dos hespanhoes nos mares do sul. Embaraçados pela sua situação politica, e pelos apuros do thesouro, o imperador, em 1529, renunciou definitivamente as suas pretenções ás Molucas a troco de uma somma de dinheiro, posto que manteve a sua reclamação ás ilhas descobertas pelos seus vassallos, ao nascente da linha de demarcação limitada agora aos portuguezes. Em 1542 foi mal succedida a tentativa de formar um estabelecimento nas ilhas Philippinas que fez Ruy Lopez de Villalobos; porém tendo-se attribuido o mau resultado á falta de direcção, foi enviada com igual intento nova expedição em 1564 sob o mando de Miguel Lopez de Legaspi, que obteve completo exito, e uma colonia hespanhola foi estabelecida em Zebu. Não é impossivel que este estabelecimento désse occasião ás viagens de descobrimento feitas n'este tempo pelos hespanhoes, das quaes nenhuma noticia foi publicada. Em 1567 Alvaro de Mendanha deu á véla de Calláo para uma viagem de descobrimentos, na qual descobriu as ilhas de Salomão e varias outras. Ha grande divergencia nas differentes relações d'esta viagem. Em 1595 fez segunda viagem ao Perú, na qual descobriu as ilhas Marquezas, e o grupo depois chamado por Carteret ilhas da rainha Carlota. O objecto d'esta expedição era fundar uma colonia nas ilhas de Salomão, que elle descobrira na precedente viagem, mas que pela inexactidão dos seus calculos não foi capaz de encontrar. Tentou estabelecer uma colonia na ilha de Santa Cruz, mas não o conseguiu, e falleceu n'esta ilha. N'esta segunda viagem teve por principal piloto Pedro Fernandez de Quiros, que póde ser considerado como o ultimo dos distinctos marinheiros de Hespanha, e cujo nome reclama especial menção em uma obra que tracta das primeiras indicações da Australia, posto que elle mesmo nunca visse as praias d'aquella grande ilha continental[2].
O descobrimento da ilha de Santa Cruz suggeriu ao espirito de Quiros que o grande continente sul estava emfim descoberto, e encontramos em duas memorias por elle dirigidas a D. L. de Velasco, vice-rei do Perú, o primeiro debate circumstanciado ácerca d'esta grande questão geographica, a qual, posto que elle proprio não estava destinado a demonstrar por via d'algum descobrimento actual, não obstante póde dizer-se que, directamente mediante elle mesmo, foi posta no caso de ser resolvida. É certo que, nutrindo estas vagas hesitações com respeito á existencia de um continente sul, se torna difficil fazer distincção entre a Australia propriamente dita e o grande continente descoberto no presente seculo, vinte ou trinta graus ao sul d'aquella vasta ilha. Dalrymple, que, ha perto de dois seculos, advogava com energia a causa sustentada por Quiros, fallando d'este navegador, diz: «O descobrimento do continente sul em qualquer tempo, e por quem quer que tenha de ser effeituado completamente, de justiça é devido a este nome immortal.» Deveria advertir-se, que, de feito ha tres motivos de duvida relativamente ao nome d'aquelle navegador, o que convém notar, porque podem transviar o juizo do leitor superficial da historia da navegação d'aquelle periodo, quanto á sua connexão com o descobrimento da Australia. Em primeiro logar, com quanto geralmente seja reputado hespanhol, é descripto por Nicolau Antonio, auctor da _Bibliotheca Hispana_, que era hespanhol, e não deixaria de querer, como deve suppôr-se, reclamar um tão distincto navegador para seu concidadão, como «lusitanus, eborensis, ut aiunt lusitani» (portuguez, que os portuguezes affirmam ser natural d'Evora), e o estylo dos seus escriptos justifica a supposição. Em segundo logar, Antonio de Ulloa, no seu _Resumen_, p. 119, cita uma relação da viagem de Quiros, que se diz dada na _Historia de la Religion Serafica_, de Diogo de Cordova (obra que eu não tenho tido a boa fortuna de encontrar), onde se menciona o descobrimento de uma larga ilha no vigesimo oitavo grau de latitude sul, a qual latitude fica mais ao sul do que de qualquer modo se sabe terem chegado Quiros ou os seus companheiros. Em terceiro logar, as memorias impressas de Quiros têem o titulo de _Terra Australis Incognita_, em quanto que a terra Austral sul, descoberta pelo mesmo Quiros, e por elle denominada «del Espiritu Santo» não é senão a «New Hebrides» dos mappas de hoje.
A Quiros e Dalrymple somos de feito devedores indirectamente da primeira designação que dá algum sentido á nomenclatura moderna que se refere á Australia, a saber, em relação ao estreito de Torres. Que Quiros, portuguez, ou hespanhol por nascimento, estava ao serviço de Hespanha, não padece duvida nenhuma. O vice-rei do Perú favoreceu com ardor os seus planos, porém considerou a execução d'elles como fóra dos limites da sua propria alçada. Em consequencia, instou com Quiros para que puzesse a questão na presença do monarcha hespanhol em Madrid, e lhe deu cartas para recommendar a sua pretenção. Se Philippe III foi movido pelos argumentos de Quiros relativamente ao descobrimento do continente do sul, ou antes pelo desejo de explorar a estrada entre a Hespanha e America pelo nascente, com a esperança de descobrir as opulentas ilhas que demoram entre a Nova Guiné e a China, não precisamos deter-nos a disputal-o. É possivel que pesassem ambos estes motivos, porque Quiros foi enviado ao Perú com plenos poderes, dirigidos ao vice-rei, conde de Monterey, para pôr por obra o seu plano, e foi assistido amplamente com dois navios bem armados e uma corveta, com cujas forças deu á vela de Calláo a 21 de dezembro de 1605. Luiz Vaez de Torres commandou o _Almirante_, ou segundo navio, d'esta expedição. A viagem foi considerada como da maior importancia, e Torquemada, na relação que faz d'ella na _Monarchia Indica_, diz que os navios eram os mais alterosos e bem armados que se tinham visto n'aquelles mares. O objecto era fazer um estabelecimento na ilha de Santa Cruz, e partir d'ali para procurar a Tierra Austral, ou continente sul.
Depois do descobrimento de varias ilhas, Quiros chegou a uma terra que nomeou Australia del Espiritu Santo, julgando fazer parte do grande continente sul. Á meia noite do dia 11 de junho de 1606, em quanto os tres navios jaziam ancorados na bahia a que deram o nome de São Philippe e São Thiago, Quiros, por motivos ignorados, e sem dar signal nem aviso, ou foi arrojado por uma tempestade, ou largou do porto, e achou-se apartado dos outros dois navios.
Subsequentemente á separação, Torres achou que a Australia del Espiritu Santo era uma ilha, e então continuou a derrota para o poente, proseguindo as suas investigações. Pelo mez de agosto de 1606 cahiu sobre uma costa no undecimo e meio grau de latitude sul, que chamou principio da Nova Guiné--apparentemente a parte sudoeste da ilha, ao depois chamada Luisiada por M. de Bougainville, e que se sabe hoje ser uma cadéa de ilhas. Como não pôde passar para a parte do vento d'esta terra, Torres margeou na extensão do lado sul, e elle mesmo deu a seguinte relação do rumo que seguiu. «Navegámos trezentas leguas de costa, como já disse, e encurtámos a latitude 2 1/2 graus, o que nos trouxe a 9 graus. Dahi achámo-nos sobre um banco de tres a nove braças, que se estende ao longo da costa por espaço de cento e oitenta leguas. Proseguimos, acompanhando a costa, até 7 1/2 graus de latitude sul; e o seu termo é em 5 graus. Não podémos ir mais além por causa das muitas restingas e fortes correntes, de sorte que fomos obrigados a navegar ao sudoeste, n'aquelle fundo d'agua, até 11 graus de latitude sul. Todo aquelle espaço é um archipelago de ilhas sem numero pelas quaes passámos; e no fim do undecimo grau o banco torna-se mais areento. Ha aqui mui grandes ilhas, e outras apparecem mais ao sul. São habitadas por negros, corpulentos e nús. As suas armas são lanças, settas, e massas armadas com pedras mal affeiçoadas. Não podémos obter nenhuma das suas armas. Colhemos em toda esta terra obra de vinte pessoas de differentes nações, a fim de podermos, por via dellas, dar melhor informação das coisas a Vossa Magestade. Dão larga noticia de outro povo, posto que não se fazem entender com facilidade. Detivemo-nos sobre este banco dois mezes, ao cabo do qual tempo nos achámos em vinte e cinco braças, 5 graus de latitude sul, e dez leguas de distancia da costa; e, tendo caminhado quatrocentas e oitenta leguas, a costa corta ao nordeste. Não a examinei, porque o banco torna-se muito baixo. Assim, pois, navegámos para o norte.»
As grandes ilhas vistas por Torres no undecimo grau de latitude sul, são evidentemente os serros do cabo York; e os dois mezes de difficil navegação foram consumidos em passar o estreito que separa a Australia da Nova Guiné. Uma cópia da carta de Torres foi guardada felizmente nos archivos de Manilha, e até que foi tomada aquella cidade em 1762 pelos inglezes, não se sabe que este documento fosse descoberto por Dalrymple, que pagou merecido tributo á memoria do distincto navegador hespanhol, dando a este perigoso passo o nome de _estreito de Torres_, que desde então ha conservado.
Quiros chegou ao Mexico a 3 de outubro de 1606, nove mezes depois da sua partida de Calláo. Tomado profundamente do sentimento da importancia dos seus descobrimentos, dirigiu varias memorias a Philippe III, manifestando vehemente desejo de investigações ulteriores n'aquellas regiões desconhecidas; porém, depois d'alguns annos de frustrada perseverança falleceu em Panamá no anno de 1614, deixando após de si um nome que, no merito, com quanto não no resultado, foi o segundo sómente depois de Colombo; e com elle expirou o heroismo naval da Hespanha. «Raciocinando» como diz Dalrymple «segundo os principios da sciencia, e com profunda reflexão, affirmou a existencia do continente sul, e votou-se durante o resto da vida, com diligencia infatigavel, posto que mal apreciada, a fazer vingar esta concepção sublime.» Em um documento dirigido ao rei d'Hespanha por frei João Luiz Arias, dá-se noticia do teor energico com que se houve Quiros para resuscitar as empresas hespanholas nos mares do sul, e com especialidade em relação ao grande continente sul.
Comtudo, em quanto a gloria das empresas navaes hespanholas assim declinava, essa mesma nação que a Hespanha tinha esmagado e perseguido, preparava-se para supplantal-a na carreira da audacia e da prosperidade. A guerra da independencia tinha excitado a energia das provincias dos Paizes-Baixos, que se haviam libertado do jugo hespanhol; ao passo que as crueldades, perpetradas nas provincias que os hespanhoes tinham conseguido novamente subjugar, levavam ao exilio um numero de familias quasi incrivel. A maior parte d'estas estabeleceu-se nas provincias do norte, e por conseguinte, levou para ali o influxo de prodigiosa actividade. Entre os emigrados havia numerosos commerciantes emprehendedores, principalmente de Antuerpia, cidade que por largos annos teve quinhão muito consideravel, posto que indirecto, no commercio transatlantico de Hespanha e Portugal, e que de sobejo conhecia as suas immensas vantagens. Estes homens estavam naturalmente animados com o odio mais rancoroso dos desterrados, exacerbado pela differença da fé, e pela memoria de muitas injurias. A idéa que tomou vulto entre elles foi privar a Hespanha do commercio transatlantico, e por este meio acanhar-lhe os recursos, accrescentar os dos protestantes, e d'esta arte resgatar eventualmente as provincias do sul dos Paizes-Baixos do poder dos seus oppressores. Esta idéa, ao principio praticada vagamente entre poucos, tornou-se geral quando os hespanhoes prohibiram aos navios hollandezes o empregarem-se em qualquer sorte de trafico com a Hespanha. Esse trafico existira apesar das guerras, e havia subministrado aos hollandezes os principaes meios de as sustentarem.
Vendo-se expulsos com tal violencia do quinhão que lhes cabia no commercio transatlantico, os hollandezes determinaram rehavel-o com juros. A geographia e hydrographia tornaram-se então objecto do estudo e applicação mais desvelada; e este periodo distinguiu-se pela apparição de homens como Ortelius, Mercator, Plancius, De Bry, Hulsius, Cluverius, etc., que somos agora obrigados a considerar como paes da moderna geographia. D'estes, o mais ardente em transformar os recursos da sciencia em arma contra os oppressores da sua patria, foi Peter Plancius, ecclesiastico calvinista, que abriu em Amsterdam uma escola nautica e geographica, com o expresso designio de ensinar os seus concidadãos a acharem o caminho da India, e outros mananciaes d'onde a Hespanha derivára a sua força. Não nos detemos em apreciar os seus esforços de achar pelo norte vereda para o oriente. O conhecimento do caminho que levava directamente áquella opulenta porção do mundo, accrescentou-se notavelmente com o apparecimento da grande obra de João Huyghen van Linschoten (Amst. 1595-1596). Linschoten havia vivido quatorze annos com os portuguezes nas suas possessões do oriente, e colligira ali abundante cabedal d'informações. A companhia hollandeza da India oriental foi estabelecida em 1602; e em 1606, encontramos um navio da Hollanda fazendo o primeiro descobrimento authentico do grande territorio sul, a que deram o nome de Nova Hollanda. No nosso tempo, aquella designação foi trocada por indicação de Matthew Flinders, a quem somos devedores dos conhecimentos da hydrographia d'aquelle paiz, pelo distincto e apropriado nome de Australia.
Dos descobrimentos feitos pelos hollandezes nas costas da Australia, pouca noticia tiveram os nossos antecessores ainda ha cem annos, e os proprios hollandezes. O que então era conhecido, conserva-se na obra _Relations de divers Voyages Curieux_ de Melchisedech Thevenot (Paris 1663-72, fol.); em o _Noord en Oost Tartarye_ de Nicoláo Witsen, (Amst. 1692-1705, fol.); na de Valentyn _Oud en Nieuw Oost Indien_ (Amst. 1724-26, fol.); e na _Inleidning tot de algemeen Geographie_ de Nicolau Struyk, (Amst. 1740, 4.º). Temos obtido, todavia, depois d'isso varios esclarecimentos, por via de um documento que chegou ás mãos de sir Joseph Banks, e foi publicado por Alexandre Dalrymple (áquelle tempo hydrographo do almirantado na companhia da India oriental), na sua collecção concernente a Papua. Este curioso e interessante documento é cópia das instrucções dadas ao commodoro Abel Jansz Tasman para a sua segunda viagem de descobrimentos. Aquelle distincto commandante já tinha descoberto, em 1642, não só a ilha agora do seu nome chamada Tasmania, mas tambem a Nova Zelandia, e, rodeando o lado oriental da Australia, mas sem o vêr, navegou na viagem de volta ao longo da praia-norte da Nova Guiné. Em janeiro, 1644, foi enviado a fazer segunda viagem; e acompanhou as instrucções assignadas pelo governador geral, Antonio Van Diemen e pelos membros do conselho, de um preambulo, no qual, segundo a ordem chronologica, se referem os precedentes descobrimentos dos hollandezes.
Por esta narração, combinada com um passo de Saris, inserto em _Purchas_, vol. I, p. 385, sabemos que: «Em 18 de novembro, 1655, o hiate hollandez, Duyfhen (o Pombo), foi enviado de Bantam para examinar as ilhas da Nova Guiné, e navegou ao longo do que se pensava ser a parte occidental d'aquelle territorio, até 19 3/4 graus de latitude sul». Este extenso territorio achou-se pela maior parte deserto; mas em alguns logares era habitado por negros selvagens, bravios e crueis, que mataram alguns homens da tripulação, por cujo motivo não se póde saber coisa alguma ácerca da terra e das aguas, como se pretendia; e por falta de provisões, e de outros objectos necessarios, foram obrigados a deixar o descobrimento incompleto. A extremidade mais saliente da terra tem nos seus mappas o nome de cabo Keer Weer, ou «Torna-viagem» segundo observa Flinders. «A navegação de Fuyfhen da Nova Guiné foi para o sul, ao longo das ilhas do lado occidental do estreito de Torres, para a parte da terra Austral um tanto ao poente e sul do cabo York. Porém pensava-se que todas estas terras eram continuadas, e que formavam a costa occidental da Nova Guiné.» Assim que, sem ter d'isso advertencia, o commandante da Duyfhen fez o primeiro descobrimento authentico de uma parte da grande Terra-Sul pelo mez de março de 1606; porque se mostra que tinha regressado a Banda no começo, ou antes de junho d'aquelle anno.
A honra d'aquelle primeiro descobrimento authentico, como até aqui a historia o tem acceitado, estou agora no caso de a disputar. Ainda ha poucos dias descobri no Musêo Britannico um Mappamundi Ms. em o qual, na extremidade noroeste de um territorio, que ao presente poderei demonstrar sem nenhuma duvida ser a Australia, occorre a seguinte legenda: «Nuca antara foi descuberta o anno 1601 por mano (sic) el godinho de Evedia (sic) por mandado de (sic) Viço Rey Aives (sic) de Saldaha» (sic) o que quasi não precisava de ser traduzido. «Nuca Antara foi descoberta no anno de 1601, por Manuel Godinho de Eredia, por mandado do vice-rei Ayres de Saldanha».
A desgraça é ser este mappa sómente uma cópia, porém creio que seria capaz de responder, fundado nas provas internas, que nenhuma duvida póde padecer a authenticidade da informação que n'elle se contém. O original foi feito pelo anno de 1620, depois do descobrimento da terra de Eendraght (Eendraght's Land), na costa occidental da Australia, pelos hollandezes em 1616, porém antes do descobrimento da costa sul por Pieter Nuyts em 1627. Longe do auctor suspeitar a existencia da costa sul, persevera no antigo erro, que prevalecera pelo decurso de todo o seculo XVI, representando a terra Austral como um vasto continente, cujas partes, as que tinham sido realmente descobertas, se prolongam para o norte até á parallela, em que jazem respectivamente áquelles descobrimentos. Assim, pois, temos n'este mappa a Australia, como foi já descripta, ao lado direito do mappa; e a ilha de Santa Cruz nas Novas Hebridas (New Hebrides), alli chamada Nova Jerusalem, descoberta por Quiros, ao lado esquerdo, porém ligadas ambas e formando parte de um grande continente sul.
[Ilustração: Fac simile de uma porção do mappa Ms. que se acha no Musêo Britanico.]