O culto da arte em Portugal

Chapter 6

Chapter 63,651 wordsPublic domain

Em Lisboa, por exemplo, onde não ha uma sala de concertos populares, nem vem tocar para a rua a musica dos regimentos, onde no theatro de Dona Maria se não representa Gil Vicente nem Garrett, onde no theatro de S. Carlos se não canta Marcos Portugal, onde não ha um museu de arte decorativa, nem um simples mostruario da nossa producção industrial, nem um museu de pintura, coordenado, catalogado e etiquetado de maneira que communique ao publico, assim como em todas as outras capitaes da Europa, a lição que um museu contém, ha pelo contrario escaparates de apparatosos armazens, que são para quem anda pelas ruas o contagioso exemplo da mais corrompida perversão, do mais provocante e pomposo relismo a que pode chegar o desvairamento do gosto. Mobilias em tal maneira degeneradas que n'ellas desappareceu de todo o material de construcção. A almofada que em toda a antiguidade e em toda a edade média era um accessorio movel, e só no seculo XVI se principiou a fixar com pregos ao banco ou á cadeira, invade boçalmente todo o movel, armado em ripes de pinho, como uma eça de defunto, embrulhado em pelucia, que nos esburaca os olhos pela insolente má creação da côr. E horripilantes lindices de toucador, de escriptorio ou de sala, em que tudo parece apostado em ser fingido, desde a etrusca ondulação do contorno até o material empregado, porque todas as linhas são aleijadas, a prata é zinco, o marfim é gesso, o charão é de papel e o marmore esculpido é de sabão. E tudo isso se compra e se leva para casa, para infectar a familia, para corromper o lar e para escrofulisar moralmente os meninos, desconjuntando-os de dignidade domestica, inoculando-os de pelintrice e de canalhismo de casta para a vida toda.

Ha uma avenida monumental em que, ao longo dos passeios destinados ao transito do publico, em vez da ornamentação da flora regional, em vez dos longos massiços de castanheiros, de laranjeiras, de palmeiras e de bananeiras, como em Barcelona e em Sevilha, esverdinham e apodrecem dois miseros e infectos arroios artificiaes no fundo de flexuosas ravinas, gretando sinuosamente o solo, como canos dissimuladamente abertos em fosquinhas para trambulhões do viandante.

Nos predios a prodigalidade vesanica das janellas percorre a superficie das fachadas, havendo frontarias que parecem construidas unicamente com hombreiras contiguas e sobrepostas; e, ao passo que em cidades amoraveis e artisticas se criam premios e se abrem concursos de janellas floridas, em Lisboa é prohibido ornamentar de flores o frontespicio das casas.

Os lindos _empedrados_ e _embrechados_ de tradição portugueza caem em desuso, substituidos por cimentos incompativeis com a acção do nosso clima.

O tão commodo, tão modico e tão gracioso typo da nossa antiga casa de campo é substituido nas construcções modernas pelas fórmas de um exotismo composito, as mais delambidas, mais pretenciosas e mais chinfrins, hybrida confusão allucinada do châlet suisso, do cottage inglez, da fortaleza normanda, do minarete tartaro e da mesquita moira,--nodoa e vexame da paizagem portugueza nas redondezas de Lisboa. Em presença de um tão inverosimil scenario de magica, de operetta ou de revista do anno, ninguem, desajudado de outras indicações, anedocticas e chorographicas, será capaz de adivinhar em que parte do mundo e entre que casta de gente se está passando a peça. Tal é a delirante epidemia de que estão combalidos os constructores contemporaneos, que, para ter um indicio nacional da nossa tradição, entre as casas de campo ou de praia construidas em torno de Lisboa nos ultimos vinte annos, temos de ir a Cascaes vêr o typo, unico, da habitação dos condes de Arnozo, tão saudosamente semelhante á casa de nossos avós, com o seu pequeno eirado sobre uma arcaria de meio ponto, a sua porta de alpendre n'um patamar de escada exterior, ao lado do retabulo em azulejo do santo padroeiro da familia, as janellas de peitos guarnecidas de rotulas entre cachorros de pedra, destinados ás varas do estendal, e servindo de misula aos vasos de craveiros e de mangericos, em frente do poço de roldana, no mais doce e tranquillo sorriso d'outr'ora.

Nos mesmos letreiros das esquinas de ruas encontram-se denominações que esbofeteiam o pundonor patriotico, a cultura historica e a dignidade esthetica dos habitantes.

No Bairro Alto, onde a nomenclatura das ruas tão sympathicamente suggeria a lembrança bucolica da antiga fazenda suburbana, em que os jesuitas de S. Roque delinearam a nova cidade, como a rua da _Vinha_, a do _Moinho de Vento_, a do _Poço_, a do _Carvalho_, a da _Rosa_, a da _Atalaia_, ou os nomes dos officios que ahi primitivamente se arruaram, como os _Calafates_ e as _Gaveas_, apaga-se, como n'uma rasura de conta falsificada, esse lindo e piedoso vestigio da tradição lisboeta, para dar ás ruas nomes novos e incaracteristicos, de sujeitos que n'ellas moram ou se diz que por lá passaram. E com egual afouteza se dissolvem, n'um borrão de brocha, sagrados disticos, ainda mais estreitamente vinculados á historia do povo e á historia da cidade, como o da Rainha Santa Isabel, como o dos Martyres de Marrocos.

Os trages populares, alguns tão pittorescos, tão suggestivos e tão bellos, como os das mulheres da Murtosa, da Maia, de Santa Martha e de Portuzello, como o dos boieiros do Ribatejo, dos pescadores de Ilhavo e da Povoa, e dos montanhezes do Alemtejo e do Algarve, degeneram e abastardam-se ridiculamente, porque não ha entre a gente culta quem preze esse trage, quem o honre e quem o entenda.

Egualmente se desdenham e repudiam, por espirito de inconcebivel extrangeirismo, os productos primorosos de algumas das nossas industrias populares.

Nenhum outro povo matiza com mais harmonia de côr e mais graça de risco esses tecidos dos teares ou dos bastidores caseiros, combinados com estopa, com linho, com lã ou com algodão, de que se fazem os panos liteiros, as sirguilhas, as saias e os aventaes das mulheres de Vianna, e bem assim as colxas de linho bordadas a frouxo na Beira, e os tapetes chamados de Arrayolos. Nenhum outro povo sabe tornear na roda do oleiro com mais esbelteza e mais puro atticismo o pote ou a bilha de barro, a pucara, o gomil e o pichel, de Coimbra, do Prado, de Mafra, de Redondo, de Loulé.

Se ninguem mais artisticamente do que o portuguez sabe vestir a mulher, arrear o cavallo, engatar a mula, e moldar a vasilha, ninguem, tão pouco, melhor do que elle emalha a rede e enastra o cesto.

Dizem inglezes que metade da sua arte contemporanea se deve á iniciativa e á propaganda do grande critico nacional John Ruskin, que Tolstoï considera um dos maiores homens do seculo, e a quem Carlyle chamava o _ethereal Ruskin_. Este glorioso campeão da esthetica e da arte em todas as suas mais complexas e mais variadas manifestações não pode deixar de ser lembrado por todos os que se interessam em taes assumptos. Os seus numerosos livros sobre historia da arte, sobre a architectura, sobre a pintura, sobre as artes decorativas e as artes industriaes, os seus profundos estudos de _Turner e os antigos_ e dos _Pintores modernos_, a sua triumphante campanha em favor dos monumentos historicos, das industrias ruraes, dos preraphaelitas, das paizagens inglezas, são um verdadeiro monumento litterario, e a bibliographia que se lhe refere constitue toda uma litteratura, famosa na Inglaterra sob o nome consagrado de _ruskineana_. Grande homem de acção, gloria dos da sua raça, tomando por divisa _To day_, Ruskin não se emparedou, como a maioria dos criticos, na torre eburnea dos extases poeticos e das contemplações expeculativas. Tendo consumido rapidamente mil contos de réis da legitima paterna em subvenções das mais generosas empresas sociaes, em dadivas aos museus, em soccorro dos pobres, em fundações de escolas e de officinas, reconstituindo pela venda dos seus livros, (a trinta contos a edição) um rendimento de riquissimo proprietario, elle fez-se gratuitamente professor de desenho, industrial e operario. Organisou a casa editora das suas proprias obras, a _Ruskin House_, fundou a _Saint-George's Guild_, em Londres, a Sociedade Protectora dos Monumentos Architectonicos, e as sociedades de leitura de Manchester, de Glascow e de Liverpool; ensinou a Inglaterra a comprehender a obra de Turner; fundou o culto dos primitivos, introduzindo na _National Gallery_ os preciosos quadros de Benozzo Gozzoli, de Perugino, de Botticelli, de todos os grandes predecessores de Raphael; e deu á arte todo um novo ideal e uma religião nova, creando uma pleiade brilhantissima de proselytos, de collaboradores e de discipulos, entre os quaes figuram Madox Brown, Rosseti, Collingwood, Millais, Morris, Thomaz Dean, Woodward, Munro, Hunt, Burne Jones, Hook e Brett, e Giacomo Boni, o actual conservador dos monumentos nacionaes da Italia. Foi elle emfim que deu a mais alta expressão á auctoridade esthetica em nossos tempos, impedindo, em nome da arte, que um traçado de caminho de ferro deturpasse a belleza de uma collina na paizagem ingleza, e levando uma commissão da Camara dos Lords a consultar uma commissão de artistas sobre se a passagem de uma linha ferrea não affectaria ruinosamente a parte de riqueza publica representada pela tranquilla e doce poesia de certo valle.

É porém com um intuito especial,--a proposito das nossas tão resistentes industrias tradicionaes e domesticas,--que eu invoco o nome glorioso de Ruskin.

O trabalho rural da fiação á mão e da tecelagem no estreito e primitivo tear caseiro achava-se totalmente extincto na tradição ingleza. Ruskin, considerando os poderosos elementos de economia, de moralidade, de satisfação, de educação esthetica e de intima poesia, destruidos pela suppressão d'essa antiga actividade artistica da familia no campo inglez, dedicou-se com um esforço portentoso a fazer reviver em Langdale e em Keswick a extincta industria caseira dos panos de linho e dos panos de lã em pequenas manufacturas domesticas, tendo por unico auxiliar da força individual uma vela de moinho nos cabeços das collinas ou a corrente da agua á beira dos riachos. Elle mesmo dá o exemplo da nova organisação do trabalho na familia, construindo o seu famoso moinho de Laxey. Recompõe-se uma antiga roda de fiar com as peças desarticuladas e esquecidas de um d'esses abandonados apparelhos encontrados em casa de uma velha tecedeira. É reconstruido um primitivo tear sobre o modelo florentino e medieval de um quadro de Giotto. Ruskin envolve esse novo movimento retrogrado do trabalho na propaganda mais activa e mais eloquente. A sua palavra calorosamente apaixonada, colorida e mordente, encontra em todo o Reino Unido um ecco extraordinario. As teias do novo linho caseiro, um tanto rugoso, um tanto irregular, cegado no campo, espadelado, assedado, fiado, córado e tecido pela mesma mão de mulher, á porta ou á janella de uma cabana, ao ar dos campos, ao ramalhar das faias, ao canto das cotovias, denotando nos accidentes da factura, como n'uma obra d'arte, a caracteristica individualidade do artifice, substituida á banal perfeição estupida e antipathica do apparelho mechanico, desbanca rapidamente a obra da fiação a vapor, cae em moda entre as pessoas de gosto aperfeiçoado, recebe a alta protecção da princeza de Galles, torna-se de rigor em todos os enxovaes elegantes, e faz-se pagar mui remuneradoramente por preços consideravelmente superiores ao dos productos da grande industria mechanica.

Exito egual ao dos panos de linho na industria caseira dos lanificios na ilha de Man. É conhecida não só em toda a Inglaterra mas em toda a Europa a fama d'esses resistentes tecidos ruraes fabricados á mão, de desenhos combinados na urdidura e na trama com as côres naturaes da lã, sem preparo algum chimico ou mechanico, de tintura ou de acabamento; e a mais cara de todas as fazendas de luxo para traje de trabalho, de caça, de viagem, de equitação, é o famoso _homespun_ ou _Laxey homespun_, do nome da localidade em que se estabeleceu o primeiro moinho de Ruskin. É a esta evolução das pequenas industrias ruraes, hombreando em valor remunerativo com as grandes industrias, e não a destructiva absorpção do trabalho da familia pelo trabalho das grandes empresas fabris que eu chamo _transformação de industrias caseiras em industrias de concorrencia_,--formula que geralmente se toma em sentido diverso d'aquelle que eu lhe ligo.

Em Portugal é certo que definham de dia para dia, e que successivamente se vão extinguindo as nossas velhas industrias ruraes. Esmorece calamitosamente, por culpa da administração economica dos nossos governos, a industria delicadissima das obras de filigrana de ouro e de prata, ainda em nossos dias servida por numerosas familias ruraes dos districtos do Porto e de Braga. Morreu em Bragança a industria da sericultura e a da fabricação do veludo. Acabou em Guimarães, entre outras industrias interessantissimas, a da manufactura caseira das sedas e dos brocados. No Algarve talvez que já hoje se não faça um unico trabalho de pita. Tem diminuido consideravelmente o numero dos teares caseiros na Covilhã, na serra de Monchique, na serra da Estrella. Nas margens do Lima, porém, entre Vianna do Castello e Ponte de Lima, ha ainda algumas das mulheres mais lindas e das mais bem educadas de todas as portuguezas, que fiam e tecem em suas casas o linho, a lã, o algodão, e se vestem completamente, da maneira mais elegante, com os tecidos mais consistentes e mais bellos, de sua fabricação exclusiva em todas as phases por que passa a materia prima, desde que é cegada no campo ou tosquiada no carneiro até se converter em vestido. Á feira semanal de Vianna as raparigas d'essa região trazem em lindas canastras, além dos ovos e dos frangos que criam, além da manteiga que fabricam, as teias de pano de linho, os cortes de saias de lã e de algodão, as peças de sirguilha, que tecem, e as rendas que fabricam a bilros ou á agulha. As de Villa Nova de Ourem fazem ainda fitas excellentes; e no mercado de Thomar vende-se em graciosos novellos da fórma de casulos a melhor linha, branca ou preta, que se pode comprar em Portugal. Conserva-se ainda a antiga tradição das _mantas do Alemtejo_, citadas já por Gil Vicente na _Farça dos almocreves_, a dos liteiros e mantas de retalhos, a dos lindos alforges da Extremadura, do Alemtejo e do Algarve, de Minde, d'Alte e de Redondo, e a d'esses famosos tecidos de lã, que são o _homespun_ portuguez, e que em sua variedade se denominam bureis, estamenhas, briches, saragoças, jardos, sorrubecos.

Meditemos na maravilhosa obra operada por Ruskin n'um sentido esthetico, que á primeira vista se figura retrogrado, mas que encerra talvez em germen o destino futuro, preciosamente moralisante de todas as industrias, desde que os aperfeiçoamentos da electricidade desloquem o eixo do trabalho fabril, levando a casa de cada artifice por meio de um tenue fio de arame o quinhão de força que tem para distribuir por cada operario do seculo que vem o immenso e incalculavel esforço propulsôr do sopro dos ventos, do fluxo e refluxo das marés, da corrente dos rios, dos cyclones das Pampas ou das cataractas do Niagara. E em presença da revolução das industrias caseiras da Inglaterra, onde todo o vestigio de tradição desapparecera, ponderemos o que se pode fazer em Portugal, onde a tradição sobrevive com uma energia prodigiosa a todos os desdens e a todas as oppressões que a esmagam!

É notoria desde o seculo XVI a aptidão artistica, que distingue o nosso marinheiro em todas as pequenas industrias de bordo, nos mais delicados, pacientes e engenhosos trabalhos tendo por base o cabo ou o fio de linho torcido ou entrançado. Ninguem como elle manusêa os ferros e as amarrações, o poleame e o talhame, o cabo, a adriça ou o pano. Ninguem como elle confecciona o coxim, a gaxeta, o mixelo, o unhão, a boça, a linga, o estropo, o repuxo, o massete ou a agulha. E não o ha mais dextro em lançar a volta, em enastrar a pinha e em dar o nó de escota, de fateixa ou de botija, o nó direito e o nó torto, o de cogula, o de borla de pescador, ou o de espia. Em toda a nossa costa, desde o Minho até o Guadiana, a enorme variedade de fórmas nas embarcações da pesca maritima, da pesca fluvial e da pesca lacustre, basta para evidenciar a persistencia da tradição no grande genio maritimo de tão pequeno povo.

Os que ainda vão á pesca do bacalhau, á Terra Nova, equipam de uma maneira especial a escuna ou o patacho, preferindo porém o typo latino do hiate e do lugre. Os que vão á cavalla, á pescada e ao sarrajão, no mar de Larache, embarcam nos cahiques de Olhão, semelhantes aos de toda a costa algarvia e aos de Lisboa e Setubal, de prôa redonda, apparelhando com dois bastardos. Á pesca do alto vae a lancha de Caminha, construida no portinho de Gontinhães; a lancha póveira, de bocca aberta, apparelhando com um só mastro e a verga munida de uma grande vela latina; o _barco da pescada_, de Buarcos, de borda alta e duas pequenas toldas, apparelhando com dois mastros; o catraio da Nazareth; o _barco da sacada_, de Peninhe, de convez corrido com quatro escotilhas e dois mastros, com as vergas preparando em cruz; a _rasca da Ericeira_, a da Figueira da Foz e a da Vieira; as canôas de Belem, de Cezimbra, de Setubal e do Algarve, chamadas em Lisboa _enviadas_ ou _canôas da picada_, e no Algarve _andainas_. Na pesca maritima costeira empregam-se embarcações numerosas e variadissimas. Na arte de galeão agrupam-se: o _galeão_, coberto, de prôa direita e arrufada, apparelhando com o latino triangular, que amura ao bico de prôa e caça á pôpa, em mastro inclinado para vante; o _galeonete_; o _buque_, curvo na roda de prôa e sem coberta; a canôa do galeão, e o _acostado_, que se emprega no transporte do peixe. Na armação fixa do atum e da sardinha, nas _almadrabilhas_, ou _almadravas_, como antigamente lhes chamavamos, do nome arabe que os hispanhoes conservam, labuta o _calão_, grande lancha, de bocca aberta, armando com estropo oito ou dez remos por banda, tendo na prôa arredondada, rematada no alto por duas femeas, uma saliencia vertical de puas em serra, semelhando um lombo de peixe, e, pintado de cada lado, um olho arregalado para o horizonte; a _barca da testa_; a _barca das portas_; a _barca da gacha_, e o _laúde_.

Na costa do Algarve, as almadravas occupam hoje approximadamente os mesmos logares que tinham no seculo XVI; e o _calão_ é, como alguns barcos do Douro, de prôa comprida e alta, propria para atracar a margens escarpadas ou para varar com facilidade na praia, o typo mais analogo ao das embarcações portuguezas de ha trezentos ou quatrocentos annos.

_Nas artes de arrastar para terra_ figuram as _xavegas_ do Algarve, os _saveiros_ e as _meias-luas_, de Espinho, Furadouro, S. Jacintho, Costa Nova, Mira, Tocha, Buarcos, Lagos, e outros logares, desde o sul do Douro até a Vieira, reapparecendo, mais abaixo, na costa de Caparica e da Galé, e na praia de Sines. _Nas redes de alar a reboque_ trabalham as _muletas_ e os _bateis do Seixal_.

O sr. Arthur Baldaque da Silva, no seu precioso livro _Estado actual das pescas em Portugal_, enumera ainda, entre os diversos typos de embarcações empregadas em varios systemas de pesca, o _batel de Espozende_, o _barco de Vianna do Castello_, a _barquinha do rio Lima_, a _bateira da Figueira da Foz_, a _lancha de Buarcos_, a _lanchinha do Tejo_, o _ilhavo da Tarrafa_, o _batel de Peniche, o cahique_ e a _lancha de Peniche_, os _poveiros_ de Lavos, de Buarcos, da Nazareth, de Cascaes, de Cezimbra, de Setubal; o _catraio_, a mais genuina embarcação portugueza da nossa costa meridional, a _caçadeira_ e a _focinheira de porco_ da Ericeira, a _maceira_ da costa do Norte, o _cahique de Sines_, o _barco minhoto_, construido em Lanhellas e em Forcadella, o _batel do Cavado_, o _barco do Douro_, o _esgueirão da ria de Aveiro_, a _lancha de Villa Franca_, a _bateira do Mondego_, a _lanchinha_ e a _chata do Tejo_, e outros do continente, sem contar os barcos de cabotagem, os typos da Africa, dos Açores, da ilha da Madeira, não descriptos, infelizmente. São ainda de notar, entre as jangadas mais caracteristicas, as de Marinhas, para a pesca do polvo; as de Fão e da Apulia, para a apanha do sargaço; as de Neiva e as de Sedovem.

Com essa phantastica riqueza de documentos maritimos, assombro de todos os outros povos, é verdadeiramente inacreditavel que em Portugal não haja um museu naval, em que estes documentos se confrontem e se estudem. Não ha tal museu.

Em terra é tão variada a collecção popular das vasilhas, dos fogareiros e dos cestos caseiros, como é variada na agua a fórma das embarcações. A simples nomenclatura do vasilhame portuguez dá, só de per si, uma idéa, ainda que bem incompleta, da multiplicidade das suas fórmas, porque ha typos que variam de região para região, de dez em dez leguas de perimetro. Esses typos principaes são a talha, o pote, o cantaro, o caneco, o tenor, a tarefa, a pucara, o gomil, a escudella, a tijela, a infusa, a meia, a quarta, a quartinha, a pinta, a sumicha, a sangradeira, a alquara, a vieira, o almude, a tamboladeira, o alguidar e o alguidarinho, o alcadafe, o moringue, o boião, o tarro, o cantil, a almofia, o alcatruz, o porrão, o côcho, o picho, o pichel, a almotolia, a ancoreta, a taleiga, a galheta, o caldeirão, a caldeira e a caldeirinha, o tacho, a caçoila, a copa, a bateia, o jarro, a batega, a pichorra, a botija, a cabaça, a malga, etc. Alguns d'estes nomes jogam com o antigo systema de medidas abolidas no seculo XVI, quando se estabeleceu o systema novo, tendo por base o quartilho. A vasilha correspondente á velha medida, condemnada no reinado de D. Sebastião, sobreviveu porém na tradição e no costume. A _sumicha_, por exemplo, com quatro decilitros de capacidade, tão maneira, tão graciosa, tão bem proporcionada a uma sêde d'agua, é ainda hoje na olaria de Coimbra o pucaro consagrado, que no pote da região, de uma elegancia tão fina e tão attica, se encasa no alguidarinho que lhe serve de tampa.

As fórmas populares d'essa vasilharia, umas trazidas do Peru e do Mexico, como a do moringue e seus derivados, outras, provenientes de typos gregos e etruscos, da cratera, da amphora, da ambula, do askos, do bombylio, etc., são por toda a parte, em nossos districtos ceramicos, as mais bellas, as mais engraçadas ou as mais nobres, as mais irreprehensivelmente puras, parecendo que á roda mechanica do operario as foi delineando, contornando, envolvendo sempre, a peça por peça, o sorriso acariciante de um artista.

De uma humilde panellinha portugueza de barro preto, de Prado ou de Molellos, deduziram em França o assucareiro, a leiteira, a cafeteira e o bule de um serviço de almoço, que ficou tradicional na fabricação de Sèvres.