O culto da arte em Portugal

Chapter 5

Chapter 53,504 wordsPublic domain

Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão, abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol, que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa, ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da civilisação moderna.

E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões despejados.

Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores genealogicas.

Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus e do marquez de Borba em Santa Martha.

O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle incomparavel monumento.

Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas--almafres, capellinas, bacinetes, barbudas e morriões--, couraças, escarcellas, grevas, manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.

A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.

Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.

Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:--«Aquella é a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos, morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da padeira Brites--_Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit_,--a qual pá uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.

Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.

Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das conquistas, mas de simples prata dourada.

Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.

A restauração dos antigos quadros está constituindo na historia da nossa arte uma catastrophe ainda mais destruidora que a da restauração da nossa architectura.

Alguns annos mais sobre o systema devastador que se está seguindo, e ninguem poderá reconhecer nas taboas da nossa grande época uma só pincelada dos admiraveis discipulos e dos emulos que tiveram em Portugal os Van Eik, os Memling, os Gerard David, os Van der Weiden, os Quinten Massys ou os Dierik Bouts.

N'essa prodigiosa pintura nacional, em que tivemos por mestres os flamengos, acha-se todavia registrada a historia de toda a vida portugueza desde o meiado do seculo XV até o fim do seculo XVI, isto é, durante o periodo do nosso maior brilho e da nossa maior riqueza, no apogeu da nossa gloria. São raras as puras composições historicas e raros os retratos d'esta época. Os grandes feitos da navegação e da guerra celebravam-se de preferencia nas tapeçarias, que se perderam, e constituiam o principal adorno d'arte dos paços dos reis e dos palacios dos nobres. Na pintura religiosa, porém, e nos quadros votivos, conservados nas egrejas e nos conventos, as figuras do seculo misturam-se em brilhante anachronismo ás figuras sagradas, e muitas authenticas physionomias se accusam energicamente nos pomposos cortejos que envolvem as scenas biblicas. A memoria do que fomos está ahi, por nós mesmos consagrada, com o maior esplendor a que chegou o nosso genio artistico, nas taboas dos paineis, no pergaminho das biblias e dos devocionarios portuguezes. Ahi estão os reis, as rainhas, os sacerdotes, os guerreiros e os letrados portuguezes do cyclo da renascença. São essas as caracteristicas figuras dos nossos avós: as faces cheias, a pelle tostada, a carne rija, os olhos rasgados, as boccas imperativas. A essas nobres e delicadas cabeças femininas serviram de modelo as mais lindas mulheres da Lusitania, de olhos de amendoa, malicioso olhar avelludado, obliquo e enygmatico, sobrancelhas longas alteando nas fontes, rostos ovaes, boccas quentes e vermelhas, queixo carnudo vincado na base, testa arredondada e lisa, cabello espesso e fino apartado ao meio em duas curvas de bambolim, e uma gesticulação leve, sinuosa e ondulante. Teriamos que interrogar longamente, laboriosamente, esses venerandos paineis para apprender tantas coisas que ignoramos da physionomia do nosso passado, o trage, as armas, as joias, a mobilia, os utensilios da casa e os estados do espirito.

O estudo completo d'esses quadros constituiria a mais importante, a mais bella obra da nossa historiographia.

_A patria portugueza segundo os documentos da pintura nacional nos seculos XV e XVI_, poderia ser o titulo d'esse incomparavel livro, em que collaborariam todas as aptidões intellectuaes de que dispõe o paiz, por meio de successivas monographias, relativas a cada ramo do saber e comprehendendo todos os pontos de vista em que pode ser considerado o quadro:

1.º _Os aspectos da paizagem_, os caracteres da _flora_ e da _fauna_ portugueza, que nós tão opulentamente enriquecemos, pelo commercio das conquistas e dos descobrimentos; no tempo em que Lisboa era o primeiro jardim de acclimatação, o primeiro jardim zoologico e o primeiro mercado da Europa, pela introducção do chá, do café, do assucar, do algodão, da pimenta, do gengibre do Malabar, da canella de Ceylão, do cravo das Molucas, do sandalo de Timor, das teccas de Cochim, do bejoim do Achem, do pau de Solor, do anil de Cambaya, da onça, do elephante, do rhinoceronte, do cavallo arabe.

2.º _O mobiliario_, cuja fabricação tão fecundamente desenvolvemos por meio de officinas estabelecidas em Lisboa por artifices indianos, e estabelecidas na India por artifices portuguezes, sob a administração de Affonso de Albuquerque.

3.º _A indumentaria_, comprehendendo, além da historia do _traje_, a dos _tecidos_, a dos _bordados_ e a das _rendas_, industrias procedentes da China, da Persia, de Benguella, tão profundamente influenciadas pelo nosso contacto nas suas origens, tão especialmente desenvolvidas no Reino, pelo lavôr do paço, onde trabalhavam ao bastidor e á agulha as mais pacientes e subtis _lavrandeiras_ mandadas á rainha pelos capitães da India.

4.º _As armas_, de guerra, de torneio e de côrte.

5.º A _ourivesaria_ e a _joalharia_, abrangendo a analyse das alfaias religiosas, lampadas, tocheiros, relicarios, thuribulos, retabulos, a tão curiosa evolução em Portugal da fórma e do ornato dos calices, das custodias e das cruzes; e na ourivesaria profana as innumeraveis peças em ouro ou prata da baixella e da joalharia portugueza da Renascença, como escudellas de faldra e de orelhas, salseiros, oveiros, vinagreiras, almofias, tumadeiras, almaraxas, escalfadores, confeiteiras, perfumadores, esquentadores, brazeiros, pomas-candis, alcaforeiros, taxos de perfumar luvas, copas, taças, gomis, bacias d'agua ás mãos, maças, chaparias de gualdrapa, andilhas, estribos, taboas de cavalgar, guarnições de cavallo, com rosas, sostinentes e copos; cofrinhos, arrecadas, firmaes, pontas de ouro, brochas de livro, cadeias, guarnições de coifa, trançadeiras, crochetes, cintas, tiras de cabeça, tiratestas, dormideiras de ouro para volantes, e as contas variadissimas de filigrana mourisca, de ambar das Maldivas, de almiscar da China, de rubis do Pegu, de diamantes de Narsinga, de perolas de Kalckar.

6.º _As embarcações_--galeões, naus, caravellas, bergantins, fustas, toda essa portentosa collecção dos nossos barcos de guerra e dos tão variados typos empregados na cabotagem e na pesca, testemunhos sobreviventes ainda hoje do nosso genio maritimo e das suggestões do mais remoto trato do oceano, como se demonstra na forma dos saveiros, que trouxemos do Bosforo, e na da muleta do Seixal, que é o navio grego do tempo de Herodoto.

7.º _A olaria e a cestaria popular_, em que tão atticamente se affirma o hereditario engenho artistico da nossa raça, e cujos productos tanto se compraziam em reproduzir os nossos pintores.

8.º Emfim: _A psychologia das figuras_ pela physionomia, pelo gesto, pelo sorriso, pelo olhar; os usos e os costumes; os temperamentos predominantes; a moda, o toucado; o corte do cabello, o talho da barba, etc.

Da pintura portugueza, que constitue a mais importante parte da riqueza artistica da nação, não ha porém catalogo, nem inventario, nem rol. Nos nossos depositos de antigos quadros, em Lisboa, em Coimbra, em Vizeu, em Thomar, em Lamego, em Evora, em Setubal, o povo portuguez passa indifferente, abstrahido, expatriado, sem guia que o condusa ás fontes da tradição e da nacionalidade, em que cada um de nós tem a mais restricta e a mais instante obrigação de ir retemperar e fortalecer de portuguezismo o seu sangue, dessorado pela mais falsa educação a que se pode condemnar um paiz.

Não ha collecção publica, chronologicamente completa, dos nossos incomparaveis azulejos. Esta industria artistica é no emtanto d'aquellas de que mais legitimamente nos podemos gloriar. Até o seculo XVII o azulejador portuguez acompanhou a evolução peninsular, de influencia mudegar e de influencia italiana. Desde o seculo XVII adoptamos o gosto hollandez, e no seculo XVIII os nossos artistas desenvolvem no azulejo azul e branco, em vastas composições historicas e de genero, paizagens, merendas, caçadas, allegorias religiosas e lendas monasticas, enquadradas em bellas grinaldas polychromicas, o mais seguro e adestrado talento de composição historica e decorativa.

Raro será o anno em que de Portugal não tenha desapparecido um quadro inestimavel ou um codice precioso, sem qualquer apparencia de coherção, sem o minimo reparo, ao menos, do poder executivo, das côrtes ou da imprensa. Á hora a que escrevo estas linhas me dizem que está á venda ou vendido em Londres um livro de horas com que o rei D. Manoel brindára um fidalgo da sua côrte, ordenando-lhe que vinculasse esse manuscripto, que era uma gloria da nação.

Não é, em rigor da verdade, muito mais risonho que o destino das obras d'arte que saem para o estrangeiro o destino das que ficam no paiz.

É bem conhecida a historia do primeiro dos nossos museus industriaes, fundado em Lisboa por Fradesso da Silveira. Esse museu extinguiu-se suavemente, a pouco e pouco, até chegar a não existir do deposito primitivo senão unica e exclusivamente as prateleiras em que elle havia sido collocado.

O rico museu das antiguidades do Algarve, recolhidas ha dezeseis annos por Estacio da Veiga, ainda hoje se não acha instalado.

Da inestimavel collecção das antigas peças de louça e de obras de barro, que haviam pertencido ao convento da Madre de Deus, e que o architecto Nepomuceno recolhera em uma das casas d'aquelle edificio, desappareceu tudo.

Tão vasta é a nossa riqueza artistica e tão profundo o desleixo de a escripturar, que são quasi tão frequentes as surpresas no que se encontra como no que se perde.

Como exemplo direi que era assentado não haver em Portugal vestigio algum da influencia immediata de Van Eik na pintura portugueza, e não existir do infante D. Henrique, o Navegador, mais que um retrato, na miniatura annexa ao bello manuscripto de Azurara, presentemente propriedade da _Bibliothèque Nationale_, em Paris. É entretanto nosso, e existe em Portugal, um retrato egualmente contemporaneo e authentico, em tamanho natural, magistralmente pintado a oleo sobre madeira. Esse retrato precioso, inteiramente desconhecido do publico, eu mesmo o vi no dia 19 do mez de julho de 1895. Faz parte de um grupo de varios personagens, é da segunda metade do seculo xv, e pertence a um jogo de quatro paineis, de dimensões eguaes, relacionados entre si por analogia de data e de assumpto. Está bem conservado, e acha-se, com os tres da serie a que pertence, no corredor do claustro de cima no edificio de S. Vicente de Fóra, no vão de uma janella, junto dos aposentos habitados n'essa occasião por s. ex.^a revd.^{ma} o sr. arcebispo de Mitylene.

O illustre escriptor inglez sr. Prestage mandou fazer d'esse retrato uma reproducção photographica, destinada a illustrar a nova edição ingleza da _Chronica da Guiné_.

Na linda egreja do convento de Santa Iria, que o fallecido architecto Nepomuceno comprou por 300$000 réis, e se achava encorporada no mosteiro fundado por D. Maria de Queiroz, viuva de Pedro Vaz de Almeida, veador da fazenda do infante D. Henrique, ha um retabulo em baixo relevo de bella pedra d'Ançan, que é simplesmente, pelo desenho, pelo stylo, pela mão d'obra e pelo estado de conservação em que se acha, uma das obras capitaes da esculptura da Renascença em Portugal. Compõe-se de dezesete figuras. Junto da cruz, de que pende a mais ideal figura do Redemptor, está prostrada Santa Maria Magdalena. Acompanham-a a Senhora da Soledade, as tres Marias, Nicodemus, José de Arimathea e S. João Evangelista. No primeiro plano, dois soldados a cavallo, em magnifico trage do seculo XVI. Enquadra a composição um bello portico, de columnas e tabellas preciosas, chancellado pelo brazão dos Valles. Só outro Calvario, o do claustro do Silencio, em Coimbra, obra, por certo, do primeiro dos esculptores de Santa Cruz, hoje profundamente cariada e quasi delida, se poderia comparar, de par com o pulpito da mesma egreja, á esquecida esculptura da abandonada egreja de Thomar.

Em egual descaso e esquecimento, ignorado da grande maioria dos viajantes e dos estudiosos, o monumental e sumptuosissimo panthéon dos Silvas, da preclara familia de D. Ruy Gomes, em S. Marcos, cerca de Coimbra. O bello portal alpendrado d'esta egreja tem a data de 1510. Os cinco sarcophagos de que se compõe o jazigo verdadeiramente regio dos Silvas, assim como o retabulo em pedra no altar mór da egreja constituem uma preciosidade esculptural de valor incomparavel. Este admiravel repositorio da nossa esculptura quinhentista foi ha poucos annos vendido, com a cerca adjunta do extincto mosteiro, pela quantia de seis contos de réis.

Os preciosos quadros da pintura portugueza do seculo XVI, completamente desarrolados, despercebidos dos compradores extrangeiros, e ainda hoje dispersos pelo paiz, são em numero talvez superior aos dos quadros de mesma época recolhidos pelo estado depois da abolição das ordens religiosas. O illustre critico sr. Joaquim de Vasconcellos tem, só á sua parte, noticia de não menos de cem obras desconhecidas do publico. Das que existem no Museu Nacional de Lisboa, na arrecadação da Academia das Bellas Artes e nos demais depositos do paiz, não ha uma só photographia registrada pelo Estado, á semelhança do que se faz em todos os museus do mundo.

Por occasião da ultima exposição, tão interessante, realisada nas salas devolutas, das Janellas Verdes, para celebrar o Centenario de Santo Antonio, a direcção das Bellas Artes não respondeu ao pedido da modesta quantia de 50$000 réis que a commissão executiva da mesma exposição lhe dirigiu para que se publicasse o respectivo catalogo, que ficou em manuscripto na mão do redactor.

Por essa mesma occasião os peritissimos e benemeritos photographos portuenses Emilio Biel & Companhia, aos quaes tão valiosos e desinteressados serviços devem as artes portuguezas, dirigiram ao governo uma proposta para reproduzir pela photographia,--sem subsidio algum do thesouro--todos os objectos expostos no palacio das Janellas Verdes. Esta proposta ficou egualmente sem despacho.

Inutil me parece alludir ainda á dispersão das mais ricas peças do mobiliario portuguez do seculo XVI e d'essa segunda renascença artistica e industrial do nosso seculo XVIII.

Bufetes, arcas, armarios, contadores, tapeçarias da Persia, bordados e rendas do reino, couros lavrados e guadamecins, azulejos, porcellanas antigas da India, do Japão e da China, credencias, leitos torcidos ou empennachados, canapés e cadeiras curvilineas ao gosto da Pompadour de Odivellas, espelhos afestoados, de toucador e de sacristia, damascos da Real Fabrica das sedas, louças artisticas do Rato, da Bica do Sapato, do Porto, de Vianna, do Cavaquinho, da Panasqueira, de Darque, das Caldas, de Estremoz, de Coimbra, tudo o bric-à-brac extrangreiro nos leva em cada anno, com uma cubiça e uma rapacidade que bem melancholicamente lembra a dos enviados de Verres no saque da Sicilia, do qual dizia Cicero que só ficou da arte o que a ganancia não quiz. Ainda ha Verres, como no tempo do velho mestre romano, mas já não ha verrinas.

D'esta desorganisação geral de toda a policia da arte resulta mais ou menos lentamente, a quebra da tradição esthetica nacional, que é a seiva de toda a producção artistica.

Á infecundação do individuo pelo espirito da raça corresponde o desfallecimento do poder creativo, a inercia da intelligencia, a esterilidade do estudo, a degeneração da phantasia, o abandalhamento do gosto, a atrophia do proprio caracter, e, em ultimo resultado da decadencia geral, a desnacionalisação pelintra de todo um povo.

Com o rebaixamento da arte rebaixa-se tudo, porque no mundo é producto da arte tudo o que não é unicamente obra da natureza.

O homem degenera, porque, sempre e em toda a parte, o homem toma fatalmente a configuração das coisas que o rodeiam e, para assim dizer, lhe enformam a personalidade.

Dissolvido o culto artistico pela negligencia ou pela inepcia de abastardadas classes dirigentes, os fieis debandam por não haver egreja que os reuna, e é já evidente esta enorme catastrophe: que na arte de Portugal faltam corações portuguezes.

Fere-nos já esse phenomeno consternador em todos os aspectos da vida intellectual.

Em resultado de não termos uma historia geral da arte portugueza, devidamente systematisada e integralmente documentada em cada um dos seus capitulos, vemos grassar, não só entre o vulgo mas entre pessoas de saber, incumbidas de guiar e de reger a opinião, o erro criminoso, profundamente desmoralisante, de que somos um povo inesthetico, incapaz de concepções artisticas originaes.

A juventude litteraria, dotada de uma consideravel força de applicação e de talento, traz-nos uma poetica exotica, de climas nevoentos, anti-meridional, e vem falando uma lingua secreta, cabalistica, interessantemente engenhosa, incomprehensivel para o povo e para todos os que não estiverem iniciados na morphologia espiritica das novas seitas.

Em toda a historiographia contemporanea se nota uma glacial frieza de critica, uma anemica pallidez de expressão, um geral entono de apagada tristeza, em que bem se demonstra que não circula o sangue vermelho da raça, nem se retrata do vivo o genio do nosso povo, meigo, docil, de apparencia branda, mas ainda hoje eminentemente sociavel, amando a grande alegria estridente das feiras, das tardes de touros, das romarias dos seus santos populares, conservando nas infimas camadas sociaes um residuo trovadoresco, de paladino e de menestrel, susceptivel ainda das paixões mais profundas, todo de improvisação e de repentismo, capaz das coisas mais imprevistamente grandes, poetico, aventuroso e destemido.

Na poesia, assim como na pintura e na musica, não ha uma escola portugueza, porque, na falta de laço social que congregue os nossos artistas, sem elementos coordenados de estudo, sem modelos patentes, sem lição commum, não ha entre elles mutuamente, nem entre elles e o povo de que derivam, communhão alguma de ideal ou de sentimento.

Por egual razão não teem caracter nacional, sendo portanto destituidas de originalidade, e como taes inaptas para a luta da concorrencia mercantil, todas as nossas industrias.

A decapitação official da nossa educação artistica manifesta-se ainda de mais perto, acotovelando-nos e contundindo-nos por toda a parte, no aspecto do povo, na apparencia das casas, na esthetica das cidades, na apparencia dos predios, na decoração das praças, das avenidas, dos cemiterios, dos jardins publicos, das lojas, das repartições do estado e das habitações particulares.