O culto da arte em Portugal

Chapter 4

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Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo para bebedouro especial dos cavallos com mormo.

As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se continham.

A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na egreja da Graça, um dos bellos templos da fundação da monarchia em Santarem. Esta egreja é cedida pelo governo á pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de meios para custear o decoro do culto e a conservação do edificio. Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo á egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de Santarem está portanto, a bem dizer, desamparada. A quem é que se acha confiado o tumulo de Pedro Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são grandes, como pessoalmente tive occasião de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar com o depositario das chaves para ver a egreja. Ás gloriosas cinzas d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.

O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.

Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria, e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro oculos.

Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este verão, um raio fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mór, despedaça a madeira do arco que a separa da nave, e põe a descoberto, por baixo d'esse revestimento de taboas pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes de uma arcaria da Renascença, em que cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laçaria afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da esculptura haviam sido desbastados a picão para nivelar a superficie da pedra em que assentara a madeira.

Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as columnas, os artezões e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa camada de pintura. O material subjacente é o lindo marmore polychromico da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a intenção esthetica de imitar a borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie tão sordidamente conspurca.

Quando ha quatro annos o governo mandou pôr em hasta publica uma parte do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do qual é do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, é a mais delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza n'esse interessante periodo da transição do stylo romanico para o advento do gothico, na evolução capital da arte na Edade Media. A virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da preceituação hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, é invasivamente tocante na concepção de varios episodios d'esta composição, como o da Annunciação, o do Sonho de Nossa Senhora, o da Adoração dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificação de Jesus, que, pela primeira vez nas representações d'este periodo, nos apparece flagellado pela corôa de espinhos e com os dois pés sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. Acompanhando e envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pôr em suggestão o pensamento que d'essa obra deriva.

É uma construcção ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religião, no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpção ou de orgulho. Nem um só nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, corôa, paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambições, a força, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos, nem espheras. A mesma aconchegada dimensão do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de violetas em flôr.

Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se recolhessem n'um museu!

Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.

Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e mais villôa cantaria.

Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.

Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés decepados aos joelhos das figuras.

Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D. Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões, cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em 1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se tudo de branco--madeiras e cantarias.

A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de Evora.

Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da egreja da Varzea.

Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se liga a qualquer pedreira.

Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o _pae dos pobres d'Evora_. A varanda demolida, da qual pela primeira vez se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas _alterações_, tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua _Epanaphora politica_, parece ter sido obra de D. João II.

Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da Porta Nova.

Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.

A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos do seu tempo.

Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando, estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos reporters.

Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas, estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de _Valdevinos_, o de _Alconchel_, o das _Amas do Cardeal_, o do _Alfaiate da_ _Condessa_; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal; são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria, a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.

Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello, Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.

Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.

A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber porque, nem para que.

A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra, tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.

Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.

Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto, como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite, formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso, gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos, houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado de carvão como um chéché de entrudo.

Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que, perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.

Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo, mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe puzemos ao pé, para o deshonrar.

Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.

Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o que ainda resta do nosso patrimonio artistico.

Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.

Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o typo das habitações nobres em Lisboa.

Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde de Almada, e o do conde de Sampaio.

A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza, verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D. Manoel, por artistas indianos.

Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes desenhos persas.

Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias famosas de Lisboa.

Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes, as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,--restos de coifas, de face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.

As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes festas do anno em todas as casas de jantar.

O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze, representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D. João V e de D. Maria I.

Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de Coimbra.

O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.

Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral. Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e Julia.