O culto da arte em Portugal

Chapter 3

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Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado, dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha, seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.

Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra, ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.

Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo, excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital, sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na restauração da Batalha.

Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,--sete se me não engano--para chegar ao pavimento da nave central. Um dos restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema, rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta approvação.

Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão vasta affirmativa de desoladora ignorancia.

Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um architecto.

Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de proporção e de relacionação que se chama a _escala_. Sem escala não ha obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente, por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.

Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.

Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento--diz Quatremère de Quincy--é de tal modo combinado, que n'elle se não pode nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As dimensões das portas--já dizia Vinhola--devem ser de uma proporção relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora avante--proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval--a porta deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»

A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a condição de representar na fachada do templo como que um summario de toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio. Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas constitutivas da porta principal do templo?

Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem d'aquelle a que me refiro:--para que um architecto proponha, para que uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa sanccione--sem protesto do districto, do municipio ou da parochia--que se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!

Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru, de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados, na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.

O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.

Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações, inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.

Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte, em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar as ameias da alludida ponte.

Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A junta de parochia prefere derretel-os.

No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias e de pyrotechnica.

Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.

A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das _Viagens na minha terra_, é arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem, _que por mais tempo se não podia protrahir_, fôra vantajosamente arrematada pela quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.

A porta do _Bom Successo_ veio abaixo, como a de Atamarma, por disposição do respectivo municipio.

A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes, com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas, absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.

Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.

O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D. Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito seculos de existencia.

Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda _Viella das Tripas_, onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.

Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.

O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião municipal da cidade invicta.

O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva de ouro.

Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a Torre das Cabaças.

Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de entalação para o trajecto da real berlinda.

No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra, presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a lei de Mahomet.

A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no _Alfageme de Santarem_, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto, sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de _relogio das cabaças_ ou de _cabaceiro_ se allia harmonicamente no ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da região em que surgiu.

Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas, abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.

Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.

Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando grande da publica administração para muito peior do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.

A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação. Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre: «...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez, em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia e resolução que V. Ex.^a tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga que não servia mais que de ser um _Padrasto sombrio e infimo_, só proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»

Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D. Affonso Henriques.

Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala do convento que lhe servia de encontro.

No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia de um bebedouro publico.

A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento. Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão breve formalidade de respeito.

As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu rei.

O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação dos architectos trazido para o museu do Carmo.