O culto da arte em Portugal

Chapter 2

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Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos attributos--lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas, béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.

A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da _Abobada_ no _Panorama_, até hoje, o _grande livro de marmore_, o _immortal poema_, a _Divina Comedia portuguesa_, a triumphante affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.

Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria, destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos _Luziadas_, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria, medeia--me parece--um largo abysmo.

Olhemos por um momento a historia d'esta construcção.

Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de longes terras os mais celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de cantaria déstros e sabios; convidara a uns com honras, a outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto.» Este testemunho é precioso e está acima de toda a suspeita, porque nos vem de um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundação.

Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte na direcção das obras nos primeiros annos da fundação, e não consta de documento authentico que qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que medeiam entre o seu começo e o anno da morte de Affonso Domingues, em 1402.

Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta opinião; de modo que se tornou uma cousa tão corrente como se estivesse demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.

James Murphy, porém, no seu livro _Travels in Portugal_, affirma, por _informações que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do Tombo_, que o encarregado da construcção foi o architecto inglez Stephan Stephenson, socio das _free and accepted masons_, que tinham a sua séde principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por intervenção da rainha D. Filippa, mulher de D. João I, ingleza de nação, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III.

O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as gravuras do convento da Batalha, na obra _in folio_ de Murphy, se convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de York não permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois edificios. «Que o plano da igreja da Batalha--diz Rakzynski--seja obra de um portuguez ou de um inglez, a verdade é que as duas igrejas nasceram de inspirações artisticas analogas, homogeneas e contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impressão tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.»

Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.

Na Torre do Tombo não se encontra documento algum relativo á construcção da Batalha, nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.

É claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou não em Portugal o architecto de York. Não consta tão pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se fóra de toda a contestação.

O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz que não vê razão para pôr em duvida a habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. João I, na qual, exceptuadas as italianas, _nenhuma nação da Europa se achava mais adeantada que a nação portugueza, tanto na arte da architectura, como em todas as outras_.

O patriotismo imprudentemente levado até ás affirmações da natureza das de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicação dos nossos sentimentos civicos á historia da arte européa.

Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente se chamou _Opus francigenum_, teve a sua origem na ilha de França e na região circumstante. Foi n'esses logares que até o seculo XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega em França aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de Chartres.

Os allemães e os inglezes teem contestado á França a prioridade do emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle procedem. O que, porém, está acima de todo o litigio, é que o systema ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, não procede da invenção dos paizes meridionaes, de céu azul, mas sim das regiões nevoentas de longos e rudes invernos.

No norte da Europa, durante a edade média, tratou-se de edificar a grande cathedral que désse um abrigo espaçoso ás numerosas congregações de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, como a neve cahia em abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de construcção, que, sem difficultar a circulação da gente com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que, não pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os, deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltração da humidade no interior do templo.

Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas condições sociaes, e não de um mero capricho inventivo, que resultou para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado, puzeram de parte, para o fim de dar logar na construcção das basilicas christãs á enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.

Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fóra das influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e da indole da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico da egreja da Batalha.

A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, com excepção da Italia, se achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, nas artes da architectura, sómente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou não viajou nunca em França e na Allemanha, ou não visitou n'estes paizes os monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.

A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é chronologicamente um dos ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e como magnificencia monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame (1275), etc.

Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construcção do convento da Batalha, encorporada na collecção das memorias da Academia, tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma idéa do enorme abysmo que no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.

Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha, Burgos e Toledo.

Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento algum que prenuncie, prepare e explique a apparição d'este.

Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulações estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe chegava o tempo para desbravar o sólo e para bater os inimigos, que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e aguerrida.

A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, já então consagradas na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma planta exotica.

D'onde é que foi transplantado para terra portugueza este producto de uma civilisação superior, em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada pelas fortes corporações operarias e mercantis, impellira as communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo, nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco de vida civil?

Não sei responder peremptoriamente a esse quesito.

O problema assim estreitado é, no fim de contas, de pura curiosidade.

O architecto inglez Hope, na sua _Historia da Architectura_, diz que o estylo ogival não tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade. Só poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma corporação de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres eram as unicas corporações que na edade média possuiam os conhecimentos necessarios para o plano e para a execução dos edificios sagrados, quer para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.

Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as _lojas_ dos pedreiros livres se compunham de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam a supremacia da egreja romana, não seria possivel determinar positivamente os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o logar preciso do seu berço.

Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas não são a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma congregação encerrando no seu gremio homens de todas as nações.

Na _Real Encyclopedia_ de Leipzig lê-se com referencia ás associações maçonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes formando uma só corporação dirigida por um ou por varios chefes. «Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construcções em toda a Europa e são auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e que antes se deveriam chamar _Altdoutsch_. Achamos o stylo de todas as construcções d'essa época fundamentalmente identico. As associações alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemães, flamengos, francezes, inglezes, escocezes e até gregos. Foi d'essa maneira que nasceram os monumentos seguintes: o _mosteiro da Batalha em Portugal_, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de Milão, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da Inglaterra.»

Esta hypothese--e chamo-lhe hypothese, porque não conheço os documentos positivos em que se baseia o escriptor allemão--condiz perfeitamente com a lição de Frei Luiz de Sousa, e é talvez de todas a mais verosimil com relação aos constructores da Batalha.

Que fosse, porém, uma associação de artistas e de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que não inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhança offerece é a de ter sido o monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.

O mais superficial exame aos edificios anteriores á Batalha manifesta do modo mais evidente que não tinhamos nem escola, nem tradições, nem tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu a egreja da Batalha.

Vilhena Barbosa, nos _Monumentos de Portugal_, repete ainda a versão relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas accrescenta: «É muito para admirar, não devo negal-o, que houvesse n'aquella época em Portugal um artista tão consumado como o que fez o risco do monumento, achando-se a architectura entre nós, antes da execução d'esta obra em um estado, que, se não era de grande atrazo, tambem não se lhe poderá chamar de adiantamento; em um estado pelo menos que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como escola d'onde pudesse sahir um artista tão completo.»

A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo com a tradição geralmente recebida, exclama um tanto contricto: «N'este caso lançarei mão de uma conjectura, não pela necessidade de sahir do embaraço, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da acclamação do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeiçoar na sua arte. Bem sei que n'essa época não eram dados os artistas, pelo menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmão natural, filhos de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues, levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da architectura gothica no genero da Batalha.»

Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir por força a Affonso Domingues uma obra que este não podia fazer, para formular a conjectura de que _talvez elle se tivesse resolvido_ a ir a Inglaterra com os filhos de Duarte III.

Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de seu irmão com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e de que não ha o minimo vestigio historico, não será talvez inutil reflectir que depois d'essa excursão a Inglaterra--paiz tão debilmente _classico na architectura gothica_, no tempo de Duarte III, que não tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa pôr em confronto com as obras magnificas do continente--Affonso Domingos voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar, proximamente no mesmo estado em que para lá tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como vamos vêr.

Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas associações de artistas seculares, architectos, esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira renascença da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento universal.

Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral de _franco-maçonaria_ ou de _pedreiros livres_, e compunham-se de associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de exercer a profissão na qualidade de mestres.

Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados adjacentes.

Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras em que empregar a associação, cada vez mais numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a sua actividade fora do solo natal.

Este expatriamento não representava unicamente uma expansão artistica mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista internacional da egreja latina.

Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do Norte da Europa, constituia como que um solido reforço esthetico, temporal, naturalista e humano á sagrada legião espiritual vulgarisadora do credo latino pela ramificação das ordens religiosas sobre todas as latitudes da terra.

Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos eram--diz Hope--um novo feudo adquirido ao papa.

A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, tão importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a influencia da antiga civilisação hellenico-romana.

Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a que se aventuravam os denominados pedreiros livres receberam então da auctoridade pontificia, emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados a assegurar á confraria errante uma especie de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia resultar de um congresso universal, tendo em vista pôr acima de qualquer contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.

Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem reconhecido a fé catholica apostolica romana, todos os privilegios que a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era oriunda.

Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposição obrigatoria para os naturaes do paiz em que se encontrasse.

Só á associação caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem appellação nem aggravo, a quanto dissesse respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o artista não iniciado nem admittido na associação estabelecer para com ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena de excomunhão, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia ás prescripções da egreja.

Esta _Internacional_ carolingiana, bem mais poderosa do que a _Internacional_ napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas confederados, vindo em seguida allemães, francezes, belgas e inglezes.

Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em communicação com os chefes das demais decurias e com a direcção central.

Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam a força e o prestigio da associação, alistando-se como membros da irmandade.

Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes distincções e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.

Para o fim de evitar que individuos estranhos á associação aproveitassem fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e bem assim para que, em qualquer região do mundo, cada irmão pudesse communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os _signaes maçonicos_, por meio dos

quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o acto de iniciação e matricula de formalidades solemnes, de provas especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade se obrigava não sómente a não revelar a quem quer que fosse os signaes, com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de que a associação tinha a posse. Esta collaboração phenomenal dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este periodo á mais alta perfeição scientifica e technica, a que jámais chegou a obra da intelligencia e da mão do homem.

Quando a longa e laboriosa gestação de todos os demais ramos do saber humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma confusão tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se os mais complicados e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica, acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos, que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande confraria dos maçons morreu a tradição de que elles tinham a guarda e o segredo.

No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.