O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 9
--Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor parocho. Muito boas tardes, senhor parocho.
E através das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os lados do olival.
A snr.^a D. Maria da Assumpção ainda lá estava, sentada n'uma pedra, tagarellando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.
--Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que doida!
--Vim a correr, disse **ella** toda vermelha, suffocada.
Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com as mãos cahídas no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos n'uma abstracção. Todo o seu sêr se abysmava n'uma só sensação:
--Gosta de mim! Gosta de mim!
Estava ha muito namorada do padre Amaro--e ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por imaginar que elle não percebia nos seus olhos a confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de passaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não conhecia o seu passado; e, lembrada do frade d'Evora, pensou que elle se fizera padre por um desgosto d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pallida se desprendia uma fascinação. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave fallar do paraiso! Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se pallida à idéa de o poder abraçar na sua longa batina preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto d'elle, beijava a travesseirinha, guardava os cabellos curtos que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.
Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava todo o dia impertinente, ralhava com a _Ruça_, ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito». Quando elle fallava d'alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua antiga devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago amor physico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos demorados, o altar, o orgão, o missal, os santos, o céo, porque não os distinguia bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando n'elle como no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ella em cima o escutava, regulando as palpitações do seu coração pelas passadas d'elle, abraçando o travesseiro, toda desfallecida de desejos, dando beijos no ar, onde se lhe representavam os labios do parocho!
A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, emquanto D. Maria da Assumpção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente erguidas, decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe então domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a benção dos degraus do altar-mór; e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a senhora baroneza de Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa, com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambem bonitos os seus olhos negros! E era elle que a tinha apertado nos braços, ao pé do vallado! Sentia ainda no pescoço a pressão calida dos seus beiços: uma paixão flammejou como uma chamma por todo o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma n'uma devoção:
--Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, faze que elle goste de mim!
No adro lageado conegos passeavam, conversando. A botica defronte já tinha luz, os bocaes reluziam; e por detraz da balança a figura do pharmaceutico Carlos, com o seu boné bordado a missanga, movia-se magestosamente.
VIII
O padre Amaro voltára para casa aterrado.
--E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o coração encolhido.
Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! Não podia continuar alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquelle atrevimento com a pequena».
Que ella não ficára muito indignada--apenas atordoada; contivera-a talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a attenção para com o amigo do conego. Mas podia contar á mãi, ao escrevente... Que escandalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna e fitando-o,--que era a sua attitude de reprehensão--dizer-lhe com pompa:--«São esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. Não se comportaria d'outro modo um Satyro no monte Olympo!»--Poderiam desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a senhora condessa de Ribamar?
E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, ter constantemente presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma covinha no queixo, a curva d'aquelle peito--a sua paixão, crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma asneira»!
Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca necessitava sempre receber forças d'uma razão, d'uma experiencia alheia: costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminario, a sua dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio do conego, que conhecia Leiria como se a tivesse edificado.
Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos d'uma pulverisação de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a _Trigueira_ estirada dormitava como elle.
Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:
--Ia adormecendo, hein!
--É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que preguiça é essa?
--Ah! é vossê? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é feito?
--Vim por aqui.
--Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mão cheia! Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa do Breviario.
Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o brazido:
--Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. Ia acrescentar:--Aconteceu-me um caso!--Mas reteve-se, murmurou:--Estou hoje exquisito; tenho andado ultimamente fóra dos eixos...
-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o. Purgue-se, homem!
Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.
--Sabe? estou com idéa de mudar de casa.
O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:
--Mudar de casa! Ora essa! Porquê?
O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:
--Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é assim exquisito estar em casa de duas mulheres, com uma rapariga...
--Ora, historias! Que me vem vossê contar? Vossê é hospede... Deixe-se d'isso, homem! É como quem está na hospedaria.
--Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...
E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as confidencias.
--Então só hoje é que pensa n'isso, Amaro?!
--É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razões.--Ia a dizer:--Fiz uma tolice,--mas acanhou-se.
O conego olhou para elle um momento:
--Homem, seja franco!
--Sou.
--Vossê acha aquillo caro?
--Não! disse o outro com uma negação impaciente.
--Bem, então é outra coisa...
--É. Vossê que quer?--E n'um tom magano, com que julgou agradar ao conego:--A gente tambem gosta do que é bom...
--Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Vossê, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!
--Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.
--Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braços. Vossê quer sahir da casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...
--É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita barata com alguma mobilia... Vossê entende melhor d'essas coisas...
O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o queixo.
--Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.
--Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A casa da S. Joanneira...
Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a doença de figado que ia minando o engraçado conego Sanches--Amaro sahiu, quasi contente agora de se não «ter desabotoado com o padre-mestre».
O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquella resolução d'Amaro de deixar a casa da S. Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com a S. Joanneira diminuir-lhe a mezada que havia annos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede, dormia só no primeiro andar: o conego podia então saborear livremente os carinhos da sua velhota,--e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este «conchêgosinho». Quando veio o padre Amaro, a S. Joanneira cedeu-lhe o quarto e dormia n'uma cama de ferro ao pé da filha: e o conego então reconheceu, como elle disse, desconsolado--«que aquelle arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as doçuras da sésta com a sua S. Joanneira era necessario que Amelia jantasse fóra, que a _Ruça_ estivesse na fonte, outras combinações importunas; e elle, conego do cabido, na egoista velhice, quando precisava ter recato com a sua saude, via-se obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S. Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas. É verdade que tinha de dar a antiga mezada... Daria a mezada!
--Que diabo! ao menos está um homem á sua vontade, resumiu elle.
--Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou a snr.^a D. Josepha despertando do quebranto em que ia cahindo, ao pé do lume.
--Estava cá a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...--disse o conego com um riso grosso.
A essa hora a _Ruça_ chamava o padre Amaro para o chá: e elle subia devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joanneira muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amelia--que tendo-lhe sentido os passos na escada tomára rapidamente a costura e, com a cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço que abainhava para o conego.
--Muito boa noite, menina Amelia.
--Muito boa noite, senhor parocho.
Amelia costumava sempre ter um _olá!_ ou um _ora viva!_ muito amavel; aquella seccura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:
--Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe... Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui. Até já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...
Fallava com o rosto baixo--e não via Amelia erguer os olhos para elle, surprehendida e toda desconsolada.
N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da porta, abrindo os braços:
--Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá!
Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discussão theologica; depois fallaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,--o que era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostões por dia!
Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro, pela manhã, antes d'ir ao côro. O parocho fazia a barba á janella:
--Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?
--Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes, que vai mudado para o 5.
Aquella precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio á navalha:
--Tem mobilia?
--Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem tudo.
--Então...
--Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, vossê tem razão. Estive a pensar no caso... É melhor para vossê viver só. De modo que vista-se, e vamos vêr a casita.
Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a mobilia, como disse o conego, «podia passar a veteranos»; algumas lithographias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prégos negros; e o immundo major Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até sobre um poial da janella duas piugas quasi negras.
Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o conego ajustou-lhe uma criada, a snr.^a Maria Vicencia, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o conego Dias) era a propria irmã da famosa Dionysia!
A Dionysia fôra outr'ora a _Dama das Camelias_, a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozára a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas que inspirára tinham sido para quasi todas as mães de familia de Leiria causa de lagrimas e de fanicos. Agora engommava para fóra, encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado o _infame_, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados publicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos--mas a que faltavam já os dois dentes de diante.
O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira da resolução d'Amaro. Foi um grande espanto para a excellente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratidão do senhor parocho.
O conego tossiu grosso e disse:
--Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto em cima, etc., está-me a arrazar a saude.
Deu outras razões de prudencia hygienica e acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoço:
--E o que é perder a conveniencia, não se afflija a senhora! Eu darei p'r'á panella como d'antes; e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça, hoje como-lhe cá as sopas.
Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava um _ai_ triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde elle lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.
--Nunca mais! pensava. Nunca mais!
Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás, ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!
A S. Joanneira e o conego appareceram então á porta do quarto. O conego resplandecia; e a S. Joanneira disse, muito magoada:
--Já sei, já sei, seu ingrato!
--É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu sinto...
--Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, não se offenda com o que lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho...--E levou o lenço aos olhos.
--Tolices! exclamou o conego. Pois então elle não póde vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não vai para o Brazil, senhora!
--Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era tel-o de portas a dentro!
Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor... Fez-lhe então grandes recommendações sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quizesse, louças, lençoes...
--E veja lá não lhe esqueça alguma coisa, senhor parocho!
--Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...
E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora contra a resolução que tomára. A pequena evidentemente não tinha aberto bico! Para que sahiria então d'aquella casa tão barata, tão confortavel, tão amiga? E odiava o conego pelo seu zelo tão precipitado.
O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua pallidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao café o conego quiz a sua «dóse de musica»; e Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a canção querida:
Ai! adeos! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado! Sôa a hora, o momento fadado, É forçoso deixar-te e partir!
Então, áquella chorosa melodia repassada das tristezas da separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os dedos d'Amelia embrulhavam-se tambem no teclado; até a mesma S. Joanneira disse:
--Oh filha, toca outra coisa, credo!
Mas o conego erguendo-se pesadamente:
--Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou comsigo até a rua das Sousas...
Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas, depois d'um forte accesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.
--Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando a mão á S. Joanneira:--Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...
Calou-se, com um soluço na garganta.
A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.
--Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias!
--A gente é pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joanneira.
Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.
Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da Misericordia, muito bebedo, cantarolando o _Bemdito_,--levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bebedo tambem, mas trauteando o _Rei-chegou_.
Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente e um tedio tão negro da vida, que, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar alli a morrer!
Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatorio, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janella; tudo alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia sem cessar a chuva triste. Que existencia! E seria sempre assim!...
Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a, com o punho fechado, das commodidades que perdera, da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo? Ella, com as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixára-o emmalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar com estrondo a valsa do _Beijo_!
Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-a como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericordia o conego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór, á missa do domingo; dar a entender que a mãi era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, emquanto elle, á porta, de proposito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois prégaria um grande sermão, na quaresma, e ella ouviria dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem, o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades ecclesiasticas: e o que pensaria ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do orgão? E ella o que seria então? Uma magra creatura murcha, embrulhada n'um chale barato! E o snr. João Eduardo, o escolhido d'agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e invejando baixo! E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe até ao céo, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!--E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!
Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.
Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam--ella roçava-lhe talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu pé, o bocadinho da meia que vira quando ella saltava as lamas na quinta; e essa curiosidade inflammada subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo bellezas que suspeitava... O que elle gostava d'aquella maldita! E era impossivel obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericordia pedil-a á mãi, vir á Sé dizer-lhe: «Senhor parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob a protecção da Igreja e do Estado, aquelles braços e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra aquella infernal pêga da marqueza d'Alegros!...