O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 7

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--Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. Joanneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...

Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:--elle estava alli para o que quizessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do senhor parocho, «que até tocavam o coração»! Ás vezes Amelia pousava a costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mão pela espinha do _Maltez_ que se arredondava, fazendo um _ron-ron_ de gozo.

--Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, com os olhos muito ternos.

E a voz de Amaro murmurava, perturbada:

--Bichaninho gato! bichaninho gato!

Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio á idiota ou ir palrar á cozinha. Elles ficavam sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente. Então Amelia cantarolava baixo o _Adeus_ ou o _Descrente_: Amaro accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.

--É tão bonito isso! dizia.

Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.

Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que era _ella_ ou vinha d'_ella_ lhe parecia perfeito: gostava da côr dos seus vestidos, do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava até com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar á janella do seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficára sobre o bahú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, andar com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em baixo, longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se vêem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.

Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o pé:

--Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima, o _tic-tic_ das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção cahia como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava então a sua liberdade perdida: como desejaria não a vêr, estar longe de Leiria, n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o--e o encanto recomeçava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha. A _Ruça_, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia ás vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro queria levantar-se logo, attencioso.

--Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E punha-lhe a mão no hombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; ás vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amelia debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava não ter uma irmãzinha assim»!

Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no môlho do guisado; a mãi dizia-lhe sempre:

--Embirro que faças isso diante do senhor parocho.

E elle então rindo:

--Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! magnetismo!

E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o crepusculo crescia, a _Ruça_ trazia o candieiro. O brilho dos copos e das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. Joanneira _mamã_; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.

Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada:

--Licença para dois!

Era elle e a cadella, a _Trigueira_.

--Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! dizia assomando á porta.

--Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.

Elle sentava-se, exhalando um profundo _uff!_--Vá lá a gotinha do café! E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:

--Então como vai cá o seu menino?

Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso o _Diario Popular_; Amelia interessava-se pelo romance, a S. Joanneira pelas correspondencias amorosas nos annuncios.

--Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.

Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contára a tia, dos fidalgos que conhecera «em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia, enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quasí imperceptivel, fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.

--É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem vêr como está.

A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:

--Ah! é o menino!

--É o menino, é, diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

--É o menino, é o menino!

--Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe dê uma boa morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:

--Ora vá um bocadinho de musica, pequena!

Amelia ia sentar-se ao piano.

--Ó filha, toca o _Adeus_! recommendava a S. Joanneira começando a sua meia.

E Amelia, ferindo o teclado:

Ai! adeus! acabaram-se os dias Que ditoso vivi a teu lado...

A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.

Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a lêr os _Canticos a Jesus_, traducção do francez publicada pela sociedade das _Escravas de Jesus_. É uma obrasinha beata, escripta com um lyrismo equivoco, quasi torpe--que dá á oração a linguagem da luxuria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado do meu coração, corpo adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavras _gozo_, _delicia_, _delírio_, _extase_, voltam a cada momento, com uma persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se exhala um bafo de cio mystico, vêm então imbecilidades de sacristia, notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e orações para as dôres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as educandas lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem as eloquencias do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e dá-se ás confessadas: é a cantharida canonica!

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros, tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça ás costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vêl-a em collete diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.

Começára então a recommendar-lhe a leitura dos _Canticos a Jesus_.

--Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse elle, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, com as olheiras até ao meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitações.

--E então, gostou dos _Canticos_?

--Muito. Orações lindas! respondeu.

Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste--e sem razão, ás vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.

Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando João Eduardo vinha passar as noites «em familia». Até ás nove horas o parocho não sahia do quarto; e quando subia para o chá desesperava-se de vêr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.

--Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S. Joanneira.

Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os olhos fitos na chavena.

Amelia, na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o parocho a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se sentia o vento uivar, encanado na rua.

--Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo devagar a sua meia.

--Safa!... acrescentava João Eduardo.

As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.

--Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.

--Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira, com um suspirosinho de fadiga.

A S. Joanneira, então, que não gostava de «vêr gente mona», propunha uma _bisca de tres_; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de latão, descia para o quarto, muito infeliz.

N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a _casmurra_. A intimidade do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar á S. Joanneira, dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a dentro não podia ser agradavel a Deus». Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a, pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se então Amelia com a sua corôa de flôres de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus lençoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo «idiota do escrevente» cravavam-se-lhe no peito como punhaes...

--Pois que casem, e que os leve o diabo!...

Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como para impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o _frou-frou_ das suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o coração aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima ao despir-se, palrando ainda com a mãi.

Um dia Amaro jantára em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção; fôra depois passear pela estrada de Marrases, e á volta, ao fim da tarde, encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no patamar, estavam os chinelos de ourelo da _Ruça_.

--Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte e esqueceu-se de fechar a porta.

Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.^a D. Joaquina Gansoso, n'uma fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em ir á irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu á cozinha a accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da S. Joanneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou.--Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia branca, atacava o collete; e, sentado á beira da cama, em mangas de camisa, o conego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas de chuva cahiam.

--E esta! E esta! dizia elle assombrado.

Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S. Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição, as dignidades ecclesiasticas! Que faria então um homem novo e forte, que sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:--«Todos são do mesmo barro!» Todos são do mesmo barro,--sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em Deus como n'uma absolvição permanente, e têm no emtanto, n'uma viella, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das attitudes devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!

Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquella, a S. Joanneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita, desejavel--outr'ora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos declives da idade, áquelles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da concubinagem. Amelia ia sósinha á igreja, ás compras, á fazenda; e com aquelles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante!--Resumia, filiava certas recordações: um dia que ella lhe estivera mostrando na janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e ella, muito córada, puzera-lhe a mão sobre o hombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra occasião ella roçára-lhe o peito pelo braço! A noite cahira, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa, cheio de uma só idéa deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa vida escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,--Amelia desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um chale sobre os hombros nús... Com que phrenesi a esperaria! E já não sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a idéa muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava áquelle homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos pulinhos pela rua.--Que pechincha de casa!

A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar. Subiu.

--Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a humidade da nevoa.

Sentada á mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: João Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joanneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica: e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam--vendo alli Amelia ao pé do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candieiro de familia!

E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu papel de ramagens verdes, o armario cheio de louça luzidia da Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme nos seus tres pés torneados; o paliteiro tão querido de todos--um Cupido rechonchudo com um guardachuva aberto erriçado de palitos, e aquella tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo tão decente!

Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S. Joanneira, como para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha duvida, és «uma barregã de clerigo ». Mas Amelia! com aquellas longas pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da mãi; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se solidamente na segurança d'um amor legal!--E Amaro, da sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade do seu passado.

--Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para João Eduardo:--Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar?

O escrevente, namorado, distrahia-se.

--É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.

Depois elle esquecia-se de _comprar cartas_.

--Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas!

Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto com botões de vidro, que lhe disfarçava a fórma do seio.

E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar! Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a brancura d'aquelles peitos! Queria casar--e guardava _tudo_ para o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...

--Está incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.

--Não, disse elle sêccamente.

--Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.

O escrevente, baralhando as cartas, começára a fallar de uma casa que queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.

--Traze-me luz! gritou Amaro à _Ruça_.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a vela sobre a commoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio, ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por traz a corôa hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que tinha um bigode, o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; elle só poderia dar-lhe sensações criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma situação legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a consideração dos lojistas, todos os proveitos da honra!

Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida, que não percebia que ao pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou que ella fosse como a mãi,--ou peor, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma femea facil como uma porta aberta ...

--Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!--pensou, recahíndo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos pensar em mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!

Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; a chuva cessára; o piar das corujas na Misericordia cortava só o silencio.

Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, aquella mudez de villa adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sêr, o amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo devoto: via a sua linda cabeça, d'uma belleza transfigurada e luminosa, destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um desfallecimento d'adoração, como no culto a Maria e na Saudação Angelica; pediu-lhe perdão anciosamente de a ter offendido; disse-lhe alto: És uma santa! perdôa!--Foi um momento muito dôce, de renunciamento carnal...

E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente em si, pôz-se a pensar com saudade--que se fosse um homem livre seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de joelhos, todo d'adorações! Como amaria o _seu_ filho, muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas felicidades inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldiçoou, n'um desespero, «a pêga da marqueza que o fizera padre», e o bispo que o confirmára!

--Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.

Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor das saias de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no beiço, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.--Mas a sensação d'amor mystico que o penetrára um momento, olhando a noite, passára; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.

VII

Dias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham ido jantar com o abbade da Cortegassa.--Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das visinhanças conhecia a sua famosa _cabedella de caça_. O abbade fazia annos, havia outros convidados--o padre Natario e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, sêcca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pelle picada das bexigas e extremamente irritavel. Chamavam-lhe o _Furão_. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de ferro; e dizia-se d'elle: _é uma lingua de vibora_! Vivia com duas sobrinhas orphãs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhes sempre a virtude, e costumava chamar-lhes as _duas rosas do seu canteiro_. O padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beirão que maneja bem o cajado, emborca um almude de vinho, péga alegremente á rabiça do arado, serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas séstas quentes de junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correcto nas suas comparações mythologicas, chamava-lhe--o _leão de Nemeia_.

A sua cabeça era enorme, de cabello lanigero que lhe descia até ás sobrancelhas: a pelle cortida tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos muito miudos e muito brancos do uso da brôa.

Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:

--Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!

A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou então com a vasta terrina do caldo de gallinha; e o Libaninho, saltitando em roda d'ella, começou os seus gracejos:

--Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!

A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a massa do seio.

--Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!...

--Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovêlos. Então é que é chupal-as!

Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se á mesa.

O jantar fôra todo cozinhado pelo abbade: logo á sopa as exclamações começaram:

--Sim, senhor, famoso! D'isto nem no céo! Bella coisa!