O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 6
Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé. Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia então da barraca com o seu vestido de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinha-se persignado ás escondidas e toda tremula, agarrada á mão do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua salgada. Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor vozes amigas perguntavam:
--Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?
Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme!
D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz, filho do snr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moço delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de caloiros, fazia _partidas_, e era famoso na Vieira, entre os homens, «por saber conversar com senhoras».
--O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça áquella. Lá para sociedade não ha outro!
Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr. Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, «p'ra namoro». Amelia córava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e admirava-o, achava-o muito «dengueiro».
Um dia em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção pediram a Agostinho para recitar.
--Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro! exclamou elle, jovial.
--Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.
--Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.
--A _Judia_, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.
--Qual _Judia_! disse elle, ha de ser mas ha do ser a _Morena_!--E olhou para Amelia.--Foi uma poesia que fiz hontem.
--Valeu, valeu!
--E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caçadores, tomando logo a guitarra.
Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou a luneta, apoiou as duas mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:
--Á _Morena_ de Leiria! disse.
Nasceste nos verdes campos Onde Leiria é famosa, Tens a frescura da rosa, E o teu nome sabe a mel...
--Perdão! exclamou o recebedor, a snr.^a D. Juliana não está boa...
Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os **braços** pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovêlo, olhou em redor, começaram a tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os homens em grupo, commentavam:
--Foi o calor, diziam.
--O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caçadores.
O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa acompanhar a snr.^a D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S. Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um criado levava um lampeão, e todos caminhavam na areia, calados.
--Tudo isto é teu proveito, disse a snr.^a D. Maria da Assumpção baixo á S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.
--Meu!?
--Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!
--Ora essa!... disse a S. Joanneira.
--Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as tias. É um partidão!
Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca, e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.
--Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.
Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar a areia com a sombrinha. O snr. Agostinho suspirou, alisou outro pedaço d'areia com o pé, escreveu--Amelia. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mão.
--Então! disse elle. E debruçando-se, baixo:--É o nome da _Morena_, bem vê. _O seu nome sabe a mel!_...
Ella sorriu:
--Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.
--Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo! Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não importo com ella, como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...
--Quem é? É a snr.^a D. Bernarda?
Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.
--É, disse elle rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado, é pela D. Bernarda.
--Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos, riscando a areia.
--Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.
Amelia pôz-se de pé.
--Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou elle offendido.
--Eu é que estava cansada de estar sentada.
Calaram-se um momento.
--Já tomou banho? disse ella.
--Já.
--Estava frio hoje?
--Estava.
As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.
--Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe de leve a mão no hombro.
Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo risonho, exclamou com vehemencia:
--Estou mesmo doido por si!
--Chut!... disse ella.
A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de lenço amarrado na cabeça.
--Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéo de palha.
--Estava por aqui?
--Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?
--Se é servido... disse a S. Joanneira.
Agostinho, muito galante, offereceu o braço á mamã.
E desde então seguia sempre Amelia, de manhã no banho, de tarde á beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos--o _Sonho_. Uma estrophe era violenta:
Senti-te contra o meu peito Tremer, palpitar, ceder...
Ella murmurava-os com grande commoção, de noite, suspirando, abraçando o travesseiro.
Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da snr.^a D. Maria da Assumpção e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céo, cahíram gotas d'agua. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:
--Estou doido por ti, filha!
--Creio lá n'isso! murmurou ella.
Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:
--Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.
--Vai-se?
--Talvez; não sei ainda. Além d'ámanhã é a matricula.
--Vai-se... suspirou Amelia.
Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com furor:
--Escreve-me! disse.
--E a mim escreve-me? disse ella.
Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.
--Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.
De repente teve um gemido dôce como um arrulho de ave, e abandonava-se--quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:
--Ha uma aberta. É andar! é andar!
E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guardachuva da mamã.
Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mãi, a snr.^a D. Maria da Assumpção voltaram para Leiria.
Passou o inverno.
E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpção deu parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento justo com a menina do Vimeiro.
--Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus trinta contos! Olha o méco!
E diante de todos Amelia rompeu a chorar.
Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada d'aquelle moço da historia do _Tio Cegonha_, que por amor se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendencias que desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na igreja, accumulando Salve-Rainhas á Senhora da Encarnação. Ouvia todos os dias missa, quiz commungar todas as semanas--e as amigas da mãi achavam-na «um modêlo, de dar virtude a incredulos»!
Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irmã, a snr.^a D. Josepha Dias, começaram a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o conego tornou-se o «amigo da familia». Depois do almoço era certo com a sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.
--Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o senhor chantre não ha dia nenhum que me não lembre d'elle!
A irmã do conego tinha então organisado com a S. Joanneira a _Associação das Servas da Senhora da Piedade_. A snr.^a D. Maria da Assumpção, as Gansosos «filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; «a Sé, como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da Misericordia». Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um homem--_não é temente a Deus_, havia o dever de o desacreditar santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham tomado um certo vestuario entre o preto e o rôxo: toda a casa cheirava a cera e a incenso; e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o commercio das hostias.
Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se: a ligação do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem--como era de tradição n'aquella diocese, fatal aos chantres; e já não eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; crescera: fizera-se uma bella moça de vinte e dois annos, d'olhar avelludado, beiços muito frescos--e achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice de criança». A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na religião e na igreja era o apparato, a festa--as bellas missas cantadas ao orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mór na gloria das flôres cheirosas, o roçar das correntes dos incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no côro das alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre Brito ou ao conego Saldanha.--Mas em certos dias, como dizia a mãi, «murchava»: voltavam então os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam, lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas occasiões horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que só a consolava cantar pela casa o Santissimo ou as notas lugubres do toque da Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre--e lamentava então que a Sé fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um altar ornado como uma _étagère_.
Fizera vinte e tres annos quando conheceu João Eduardo, no dia da procissão de _Corpus-Christi_, em casa do tabellião Nunes Ferral, onde elle era escrevente. Amelia, a mãi, a snr.^a D. Josepha Dias tinham ido vêr a procissão da bella varanda do tabellião, guarnecida de colchas de damasco amarello. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde, reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe «muito bom rapaz».
Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:--É tirar pares, é tirar pares!--emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio estridente uma mazurka franceza. João Eduardo aproximou-se de Amelia:
--Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar sêcco.
João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a mão na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia, desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar accommodando os folhos de sêda, agradada. O escrevente, embaraçado, torcia o bigode com a mão tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:
--Então o senhor não dansa tambem?
--E a snr.^a D. Amelia? disse elle baixo.
Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:
--Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.
--Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma intenção fina.
--Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella olhando-o de lado.
--De mim, por exemplo.
--De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque me hei de eu rir do senhor? Boa!... Então o senhor que tem que faça rir?--E agitava o seu leque de sêda preta.
Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.
--Então sério, sério, não dansa?
--Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!
--É porque me interesso por si.
--Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.
--Palavra!
Mas a snr.^a D. Josepha Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa muito franzida--e João Eduardo levantou-se, intimidado.
Á sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de chapéo na mão:
--Cubra-se bem, não apanhe frio!
--Então continúa a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor do pescoço as pontas da sua manta de lã.
--O mais possivel, creia.
Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de _zarzuela_. Fallava-se muito da contralto, a _Gamacho_. A snr.^a D. Maria da Assumpção tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia--que duas noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido de cassa todo florido de laços de sêda azul. João Eduardo na platéa--emquanto a Gamacho, empastada de pó de arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com uma graça decrepita o leque de lentejoulas, garganteava malaguenhas agudas--não se fartou de contemplar, de desejar Amelia. Á sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o braço até á rua da Misericordia: a S. Joanneira, a snr.^a D. Maria da Assumpção seguiam atraz com o tabellião Nunes.
--Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?
--A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.
--Então que fez?
--Olhei para si, respondeu elle resolutamente.
Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:
--Onde vem a mamã?
--Deixe lá a mamã!
E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe «a sua grande paixão». Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:
--Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!
Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de verão, com a sua vasta scintillação de estrellas, tornava-a toda languida. Abandonou a mão, suspirou baixinho.
--Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.
--Sim, respondeu ella--e apertou os dedos de João Eduardo, com paixão.
Mas, como ella pensou, «fôra decerto um fogacho»--porque, dias depois, quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde fallar livremente com elle, reconheceu que «não tinha nenhuma inclinação pelo rapaz». Estimava-o, achava-o sympathico, bom moço; poderia ser um bom marido; mas sentia dentro em si o coração adormecido.
O escrevente porém começou a ir á rua da Misericordia quasi todas as noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu «proposito» e pela sua honradez. Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o á janella pela manhã quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dôces á noite,--mas só para o não descontentar, para ter na sua existencia desoccupada um interessesinho amoroso.
João Eduardo um dia fallou à mãi em casamento:
--Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.
E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:
--Mais tarde, por ora não me parece, veremos.
Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até que elle obtivesse o lugar de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor Godinho--o temido doutor Godinho!
Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a _Ruça_ na sala de jantar:
--É o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vão á Sé.
Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, ergueu uma pontinha da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina de pano fino.
VI
Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades, Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o «quarto do senhor parocho andava que nem um brinco»! Amelia tinha com elle uma familiaridade picante de parenta bonita: «tinham calhado um com outro», como dissera, encantada, D. Maria da Assumpção. Os dias iam assim passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colchões macios e a convivencia meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tilias floresceram no jardim do Paço: «quasi milagre»! disse-se: o senhor chantre, contemplando-as todas as manhãs da janella do seu quarto, em robe-de-chambre, citava versos das _Eclogas_. E depois das longas tristezas da casa do tio da Estrella, dos desconsolos do seminario e do aspero inverno na Gralheira--aquella vida em Leiria era para Amaro como uma casa sêcca e abrigada onde o alegre lume estala e a sôpa cheirosa fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.
Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As manhãs estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, com o mantéo escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de branco.
Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no lagedo, emquanto o sacristão, pachorrento, contava «as novidades do dia».
Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava á igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade pallida na larga luz da manhã, juntava as mãos, murmurava, curvado:
--_Introibo ad altare Dei._
--_Ad Deum qui lætificat juventutem meam_, resmungava, n'um latim syllabado, o sacristão.
Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma devoção enternecida. «Estava agora habituado», dizia. E como não ceava, e áquella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos. Por traz o sacristão, com os braços cruzados, passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando de revez para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. Largas resteas de sol cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sêccos adocicava o ar.
Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas, apresentava-as, curvado--e Amaro sentia o cheiro do oleo rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um antigo habito de emoção mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido: com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza, a exhortação universal á oração--_Orate, fratres!_ E as velhas encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios negros. Então o sacristão ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando ligeiramente com uma das mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a hostia--_Hoc est enim corpus meum!_--elevando alto os braços para o Christo cheio de chagas rôxas sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à volta do mercado.
--_Ite, missa est!_ dizia Amaro emfim.
--_Deo gratias!_ respondia o sacristão respirando alto, com o allivio da obrigação finda.
E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus dar a benção, era já pensando na alegria do almoço, na clara sala de jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora já Amelia o esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca um bom cheiro de sabão d'amendoas.
Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S. Joanneira e Amelia costuravam. «Estava aborrecido em baixo, vinha um bocado para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao pé da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos de cera, oscillavam, faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras leves côr de _bistre_ esbatiam-se delicadamente sobre a pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda, espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:
--Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!
Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando a _Ruça_ vinha ao armario buscar um prato ou uma colhér: então fallava-se do preço dos generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas, traçava a perna e, balouçando o pé calçado n'uma chinela d'ourelo, punha-se a dizer os pratos:
--Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor parocho gostará, foi para variar...
Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria affinidade de gostos com Amelia.
Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrára uma carta; perguntou-lhe pelo _derriço_; ella respondeu, picando vivamente o posponto:
--Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...
--Não é tanto assim, acudiu elle.--Mas suspendeu-se, muito vermelho, affectando tossir.
Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.