O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Chapter 5

Chapter 53,922 wordsPublic domain

--Tudo, senhor parocho, disse a snr.^a D. Joaquina Gansoso: está sempre de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ella peça tem a graça do Senhor; é a gente apegar-se com ella e cura-se de toda a molestia. E depois, quando communga, começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar, com os olhos erguidos para o céo, que até chega a fazer terror.

Mas n'este momento uma voz disse á porta da sala:

--Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!

Era um rapaz extremamente alto, amarello, com as faces cavadas, uma grenha riçada, um bigode á D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca, porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante; e nos seus olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra na mão.

--Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.

--Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se. Sempre as dôres no peito, a tossesita ...

Então não se dava bem com o oleo de figados de bacalhau?

--Qual! fez elle desconsoladamente.

--Uma viagem á Madeira, isso é que era, isso é que era! disse a snr.^a D. Joaquina Gansoso com auctoridade.

Elle riu, com uma jovialidade subita:

--Uma viagem á Madeira! Não está má! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense de administração com dezoito vintens por dia, mulher e quatro filhos... Para a Madeira!

--E como vai ella, a Joannita?

--Coitadita, lá vai! Tem saude, graças a Deus! Gorda, sempre com bom appetite. Os pequenos, os dois mais velhos é que estão doentes; de mais a mais agora a criada tambem cahiu de cama! É o diacho! Paciencia! paciencia!--E encolhia os hombros.

Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe uma palmada no joelho:

--E como vai a nossa Madre-Abbadessa?

Todos riram: e a snr.^a D. Joaquina Gansoso informou o parocho que aquelle rapaz, o Arthur Couceiro, era muito engraçado e tinha uma bella voz. Era a melhor da cidade para modinhas.

A _Ruça_ tinha então entrado com o chá; a S. Joanneira, enchendo as chavenas d'alto, dizia:

--Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é do bom! É da loja do Sousa...

E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo:

--Se está azedinho é carregar-lhe no sal!

As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente as torradas, sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos pingos da manteiga e das nodoas do chá estendiam prudentemente os lenços sobre o regaço.

--Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia, apresentando-lhe o prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.

--Obrigado.

--Aquelle alli. É toucinho do céo.

--Ah! se é do céo... disse elle todo risonho. E olhou para ella, tomando o bolo com a ponta dos dedos.

O snr. Arthur costumava cantar depois do chá. Sobre o piano uma vela alumiava o caderno de musica; e Amelia, logo que a _Ruça_ levou a bandeja, accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarello.

--Então hoje que ha de ser? perguntou Arthur.

Os pedidos cruzaram-se:

--_O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O descrido! o Nunca mais!_

O conego Dias disse do seu canto, pesadamente:

--Ó Couceiro, vá lá aquella do _Tio Cosme, meu bréjeiro!_

As mulheres reprovaram:

--Credo! por quem é, senhor conego! Que lembrança!

E a snr.^a D. Joaquina Gansoso resumiu:

--Nada: uma coisa de sentimento para o senhor parocho fazer idéa.

--Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento, ó Arthur, uma coisa de sentimento!

Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente á face uma expressão dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:

Adeus, meu anjo! eu vou partir sem ti!

Era uma canção dos tempos romanticos de 51, o _Adeus!_ Dizia uma suprema despedida, n'um bosque, por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem solitario e precito, que inspirára um amor funesto, ia errar desgrenhado á beira do mar; havia uma sepultura esquecida n'um valle distante, brancas virgens vinham chorar á claridade do luar!

--Muito bonito, muito bonito! murmuravam.

Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervallos, durante o acompanhamento, sorria em redor--e na sua boca cheia de sombra viam-se os restos de dentes pôdres. O padre Amaro, ao pé da janella, fumando, contemplava Amelia, enlevado n'aquella melodia sentimental e morbida: o seu perfil fino, de encontro á luz, tinha uma linha luminosa; destacava harmoniosamente a curva do seu peito; e elle seguia as suas palpebras de grandes pestanas, que do teclado para a musica se erguiam e se abaixavam com um movimento dôce. João Eduardo, junto d'ella, voltava-lhe as folhas da musica.

Mas Arthur, com a mão sobre o peito, a outra erguida no ar, n'um gesto desolado e vehemente, soltou a ultima estrophe:

E um dia, emfim, d'este viver fatal, Repousarei na escuridão da campa!

--Bravo! bravo! exclamaram.

E o conego Dias commentou baixo ao parocho:

--Ah! para coisas de sentimento não ha outro.--E bocejando enormemente: Pois menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar cá por dentro.

Mas chegára a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartões habituaes; e a snr.^a D. Josepha Dias, com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava já vivamente o grosso sacco dos numeros.

--Aqui tem um logar, senhor parocho, disse Amelia.

Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto espaço, e veio sentar-se um pouco córado, ageitando timidamente a _volta_.

Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz dormente, o conego começou a tirar os numeros. A snr.^a D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto, resonando ligeiramente.

Com o _abat-jour_ as cabeças estavam na penumbra; e a luz crua, cahindo sobre o chale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartões ennegrecidos do uso e as mãos sêccas das velhas, pousadas em attitudes aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela derretia-se com uma chamma alta e direita.

O conego rosnava os numeros com as pilherias veneraveis da tradição: 1, cabeça de porco!--3, figura de entremez!

--Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.

--Ternei, murmurava outra com gozo.

E a irmã do conego, sôfrega:

--Chocalhe esses numeros, mano Placido! Vá!

--E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o Arthur Couceiro, com a cabeça entre os punhos.

Emfim o conego _quinou_. E Amelia olhando em redor pela sala:

--Então não joga, snr. João Eduardo? disse ella. Onde está?

João Eduardo sahiu da sombra da janella, por traz da cortina.

--Tome lá este cartão, ande, jogue.

--E receba as entradas, já que está de pé, disse a S. Joanneira. Seja o senhor recebedor!

João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam dez reis.

--Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, excitados.

Fôra a irmã do conego que não tocára no seu cobre acastellado. João Eduardo disse, curvando-se:

--Parece-me que a snr.^a D. Josepha não entrou.

--Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas! Até fui a primeira! Credo! Duas moedas de cinco reis, por signal! Que tal está o homem!

--Ah! bem, disse elle então, fui eu que me esqueci! Cá ponho.--E rosnou: Beata e ladra!

E a irmã do conego dizia no emtanto baixo á snr.^a D. Maria da Assumpção:

--Queria vêr se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!

--Só quem não está feliz é o senhor parocho, observaram.

Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; ás vezes mesmo esquecia-se de marcar, e Amelia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovêlo:

--Olhe que não marcou, senhor parocho!

Tinham já apostado dois ternos: ella ganhára; depois faltou a ambos para _quinarem_ o numero trinta e seis.

Em roda repararam.

--Ora vamos a vêr se _quinam_ ambos, disse a snr.^a D. Maria da Assumpção, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.

Mas o trinta e seis não sahía; havia outras quadras nos cartões alheios; Amelia receava que _quinasse_ a snr.^a D. Joaquina Gansoso, que se mexia muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria, involuntariamente interessado.

O conego tirava os numeros com uma pachorra maliciosa.

--Vá! vá! ande com isso, senhor conego! diziam-lhe.

Amelia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:

--Dava tudo para que sahisse o trinta e seis!

--Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego.

--_Quinamos!_ gritou ella, triumphante; e tomando o cartão do parocho e o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito córada.

--Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial, entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de dez reis.

--Parece milagre! considerou a snr.^a D. Maria da Assumpção, piedosamente.

Mas tinham dado onze horas; e depois da _tumba_ final as velhas começaram a agasalhar-se. Amelia sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polka. João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:

--Muitos parabens por ter _quinado_ com o senhor parocho. Que enthusiasmo!--E como ella ia responder:--Boa noite! disse elle sêccamente, embrulhando-se no seu chale-manta com despeito.

A _Ruça_ alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam ganindo _adeusinhos_. O snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o _Descrido_.

Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviario; mas distrahia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes pôdres de Arthur, sobretudo o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama, com o Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçosinho gracioso...

Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da monotonia do _quino_, com uma grande sêde além d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz beber, mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então que na sala de jantar havia uma bilha d'Extremoz com agua fresca, muito boa, da nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu devagarinho. Havia **luz** na sala, estava o reposteiro corrido: ergueu-o e recuou com um _ah!_ Vira n'um relance Amelia, em saia branca, a desfazer o atacador do collete: estava junto do candieiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus braços brancos, o seio delicioso. Ella deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos cabellos. Poderiam suspeitar uma offensa! Palavras indignadas iam sahir decerto através do reposteiro do quarto, que ainda se balouçava agitado!

Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:

--Que queria, senhor parocho?

--Vinha buscar agua... balbuciou elle.

--Aquella _Ruça_! aquella desleixada! Desculpe, senhor parocho, desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa, a bilha. Achou?

--Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a agua escorria-lhe pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos hombros e em chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.

V

Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda, dentro de uma bacia, a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de murrão de azeite; brancuras de saias cahidas no chão destacavam; e os olhos do gato, que não socegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade phosphorica verde.

Na casa visinha uma criança chorava sem cessar, Amelia sentia a mãi embalar-lhe o berço, cantar-lhe baixo:

Dorme, dorme, meu menino, Que a tua mãi foi á fonte!

Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente Sousa deixára com um filho no berço, e gravida d'outro--para ir casar a Extremoz! Tão bonita era, tão loura--e mirrada agora, tão chupada!

Dorme, dorme, meu menino. Que a tua mãi foi á fonte!

Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mãi dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmãosinho que morrera!

Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, ao pé da estrada de Lisboa; á janella do seu quarto havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao sol. Não conhecera o papá. Fôra militar, morrera novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e branca, que fôra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus oculos redondos, junto á janella, empurrando a agulha, morria-se por contar historias do convento: as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando:--Augusto! Augusto!

Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava então tanto de festas d'igreja e da convivencia dos santos, que desejava ser uma «freirinha, muito bonita, com um véosinho muito branco.» A mamã era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhe _padrinho_. Quando ella voltava da mestra, á tarde, encontrava-o sempre a palestrar com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando vêr o longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O senhor chantre perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a taboada.

Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fôra frade franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da mãi, com as suas _meias_; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silencio, e o capitão, repenicando a guitarra, cantava o _lundum da Figueira_.

Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos: sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas mãos papudas e molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o cabello todo branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho, comprimentando com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer «bagatella» fallavam-lhe sempre dos castigos do céo; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe dar o soffrimento e a morte e que é necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cahir na escada.

Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de musica. A mãi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um pano verde, tão desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas da mãi diziam-lhe:

--Tu tens ahi um piano, porque não mandas ensinar a rapariga? Sempre é uma prenda! olha que lhe póde servir de muito!

O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé d'Evora, extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praça, que ia muito á capital, vira-a descer a rua do Norte, de _garibaldi_ escarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira em grande melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer até aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia muito transido, no seu capote côr de vinho que só lhe chegava á cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o _Tio Cegonha_ pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe chamado _Tio Cegonha_; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.

O velho poz-se a sorrir:

--Ai, chame, minha rica menina, chame! _Tio Cegonha_?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem cegonha!

Era então no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a aspera estação opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias esfomeadas indo á camara pedir pão. O _Tio Cegonha_ vinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e não o deixava escrever no cartorio.

--Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.

Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro mez das lições, o velho appareceu muito contente, com umas grossas luvas de lã.

--Ah, _Tio Cegonha_, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.

--Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias de lã. Deus a abençôe, minha menina, Deus a abençôe!

E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornára-se a «sua rica amiguinha». Já lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora, quando diante do senhor **arcebispo**, vistoso na sua sobrepelliz escarlate, acompanhava o _Lausperenne_.

Amelia não se esqueceu das meias de lã do _Tio Cegonha_. Pediu ao chantre que lhe désse umas meias de lã.

--Ora essa! para quê? para ti? disse elle com o seu riso grosso.

--Para mim, sim senhor.

--Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a idéa!

--Não deixe fallar, não! dê, sim?

Lançou-lhe os braços ao pescoço, fez-lhe olhinhos dôces.

--Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! ha de ser o diabo!... Pois sim, ahi tens.--E deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.

No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fóra em letras garrafaes: _Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula_.

Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:

--Ó _Tio Cegonha_, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartorio?

O velho sorriu-se:

--Ora, minha rica menina, quanto me hão de dar? uma bagatella. Quatro vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...

--E chegam-lhe, quatro vintens?

--Ora! como hão de chegar!

Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando gravemente a attitude de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.

E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãi a dar de almoçar e de jantar ao _Tio Cegonha_ nos dias de lição. Assim se estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre _Tio Cegonha_, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se áquella amizade inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua musica; e via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, ás recordações da velha Sé d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se fallava de procissões ou de festas de igreja:

--Para isso Evora! em Evora é que é!

Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua vida: já tocava contradansas e antigas arias de velhos compositores; a snr.^a D. Maria da Assumpção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o _Trovador_.

--Coisa mais linda! dizia.

Mas o _Tio Cegonha_ só conhecia a musica classica, arias ingenuas e dôces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos dôces tempos freiraticos.

Uma manhã o _Tio Cegonha_ encontrou Amelia muito amarella e triste. Desde a vespera queixava-se de «mal-estar». Era um dia nublado, muito frio. O velho queria ir-se embora.

--Não, não, _Tio Cegonha_, disse ella, toque alguma coisa para eu me entreter.

Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente melancolica.

--Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé junto ao piano.

E quando o velho deu as ultimas notas:

--O que é? perguntou ella.

O _Tio Cegonha_ contou-lhe que era o começo de uma _Meditação_ feita por um frade seu amigo.

--Coitado, disse, teve bem o seu tormento!

Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu chale:

--Diga, _Tio Cegonha_, diga!

Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ella morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade, fizera-se frade franciscano...

--Parece que o estou a vêr...

--Era bonito?

--Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao orgão: «Olha o que eu fiz», disse-me elle. Era um papel de musica. Abria em ré menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que musica! Mas não me lembra o resto!

E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes da _Meditação_ em ré menor.

Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade frasciscano, na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus olhos profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos seus habitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos caminhava para o côro: elle ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava: era um vasto céo negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta escuridão ella via apparecer um grande coração em carne viva, todo trespassado de espadas--e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o céo d'uma chuva escarlate.

Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa tranquillisou a S. Joanneira com uma simples palavra:

--Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze annos da rapariga. Hão de lhe vir ámanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temol-a mulher.

A S. Joanneira comprehendeu.

--Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixões fortes! acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.

Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço d'açorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternação inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpção, as snr.^{as} Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.^a D. Josepha Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:

--Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te ampare!

Era então no começo de setembro; a snr.^a D. Maria da Assumpção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia para a estação dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis, em logar differente, aquella dôr.

--É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a vêr-me costurar!

--Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e bebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.

--Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha!

Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta e de bonitas fórmas. Foi uma alegria para ella a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul, muito mansa, cheia de sol; ás vezes no horisonte passava um fumo delgado de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céo azul-ferrete.