O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
Chapter 4
--Não diga isso, primo! Jesus, brada aos céos! Pois então o padre Liset, tão respeitavel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma bondade... Vê-se que é um coração delicado...
--Pois sim, mas o padre Felix...
--Ai, nem diga isso! Que o padre Felix é uma pessoa de muita virtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais...--E com um gesto delicado procurava a palavra:--mais fina, mais distincta... Emfim, vive com outra gente.--E sorrindo para Amaro:--Pois não acha?
Amaro não conhecia o padre Felix, não se recordava do padre Liset.
--Já é velho o senhor padre Liset, observou ao acaso.
--Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que enthusiasmo!... Ai, é outra coisa!--E voltando-se para a senhora que estava junto do piano:--Pois não achas, Thereza?
--Já vou, respondeu Thereza, toda absorvida.
Amaro afirmou-se então n'ella. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com a sua alta e forte estatura, uma linha de hombros e de seio magnifica; os cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a pallidez do rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Marie Antoinette; o seu vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom monotono das alvuras da sala; o collo, os braços estavam cobertos por uma gaze preta, que fazia apparecer através a brancura da carne; e sentia-se nas suas fórmas a firmeza dos marmores antigos, com o calor d'um sangue rico.
Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que Amaro não comprehendia, cerrando e abrindo o seu leque preto--e o rapaz louro, bonito, escutava-a retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado de vidro entalado no olho.
--Havia muita devoção na sua parochia, snr. Amaro? perguntava no emtanto a condessa.
--Muita, muito boa gente.
--É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ella com um tom piedoso.--Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos captiveiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, conversar com as boas almas da aldeia!--e a sua voz tornára-se terna.
O rapaz rechonchudo ria-se:
--Ora, prima! dizia; ora, prima!--Não, elle, se o obrigassem a ouvir missa n'uma capellinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!... Não comprehendia, por exemplo, a religião sem musica... Era lá possivel uma festa religiosa sem uma boa voz de contralto!?
--Sempre é mais bonito, disse Amaro.
--Está claro que é. É outra coisa! Tem _cachet_! Ó prima, lembra-se d'aquelle tenor... como se chamava elle? O Vidalti. Lembra-se do Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglezinhos? O _tantum ergo_?
--Eu preferia-o no _Baile de mascaras_, disse a condessa.
--Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!
No emtanto o rapaz louro viera apertar a mão á senhora condessa, fallando-lhe baixo, muito risonho. Amaro admirava a nobreza da sua estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma luva, e apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu Thereza, depois de se ter aproximado vagarosamente da janella e olhado para a rua--foi sentar-se n'uma _causeuse_ com um abandono que punha em relêvo a magnifica esculptura do seu corpo; e voltando-se preguiçosamente para o rapaz rechonchudo:
--Vamo-nos, João?
A condessa disse-lhe então:
--Sabes que o senhor padre Amaro foi creado commigo em Bemfica?
Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava sobre elle os seus bellos olhos d'um negro humido como o setim preto coberto de agua.
--Está na provincia agora? perguntou ella, bocejando um pouco.
--Sim, minha senhora, vim ha dias.
--Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando vagarosamente o seu leque.
Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse, acariciando o cabo do guardasol:
--Na serra, minha senhora.
--Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Ha sempre neve, diz que a igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao ministro a vêr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem...
--O quê? disse Thereza.
A condessa contou que Amaro requerera para uma parochia melhor. Fallou de sua mãi, da amizade que ella tinha a Amaro...
--Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe dava... Não se lembra?
--Não sei, minha senhora.
--Frei _Maleitas_!... Tem graça! Como o snr. Amaro era amarellito, sempre mettido na capella...
Mas Thereza, dirigindo-se á condessa:
--Sabes com que se parece este senhor?
A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.
--Não se parece com aquelle pianista do anno passado? continuou Thereza. Não me lembra agora o nome...
--Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. No cabello, não.
--Está visto, o outro não tinha corôa!
Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano.
--Sabe musica? perguntou, voltando-se para Amaro.
--A gente aprende no seminario, minha senhora.
Ella correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas, e tocou a phrase do _Rigoleto,_ parecida com o _Minuete de Mozart_, que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da senhora de Crécy--e cujo rhythmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.
Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o collo de Thereza que elle via sob a negra transparencia da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquillos arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéa d'uma existencia superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em _coupés_ acolchoados, com arias de operas, melancolias de bom gosto e amores d'um gozo raro. Enterrado na elasticidade da _causeuse_, sentindo a musica chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu prazer--pensando que vai voltar á dureza das côdeas sêccas e á poeira dos caminhos.
No emtanto Thereza, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga aria inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:
_The village seems dead and asleep When Lubin is away!..._
--Bravo! bravo! exclamou o ministro da justiça apparecendo á porta, batendo dôcemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!
--Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, disse Thereza erguendo-se logo.
O ministro veio, com uma pressa galante:
--Que é, minha senhora? que é?
O conde e o sujeito de magnificas suiças tinham entrado discutindo ainda.
--A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse Thereza ao ministro.
--Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.
--Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se confortavelmente, com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? É uma coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente...
--Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é a melhor parochia vaga?
--Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando para Amaro, que vergou os hombros, córado.
O homem das suiças, que estava de pé fazendo saltar circumspectamente os berloques, adiantou-se, cheio de informações:
--Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do districto e séde do bispado.
--Leiria? disse Thereza. Bem sei, é onde ha umas ruinas?
--Um castello, minha senhora, edificado por D. Diniz.
--Leiria é excellente!
--Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, séde do bispado, uma cidade... O senhor padre Amaro é um ecclesiastico novo...
--Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor não é novo?
O ministro sorriu, curvando-se.
--Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coçava ternamente a cabeça da arara.
--Parece-me inutil, o pobre Correia está vencido! A prima Thereza chamou-lhe novo!
--Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja uma lisonja excepcional; eu não sou tambem tão antigo...
--Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em 1820!
--Era meu pai, calumniador, era meu pai!
Todos riram.
--Snr. Correia, disse Thereza, está entendido. O senhor padre Amaro vai para Leiria!
--Bem, bem, succumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é uma tyrannia!
--_Thank you_, fez Thereza, estendendo-lhe a mão.
--Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse o ministro fixando-a.
--Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento para o chão, distrahida, dando pequeninas pancadas no vestido de sêda, levantou-se, foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a dôce aria ingleza:
_The village seems dead and asleep When Lubin is away!..._
Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.
--É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se com o bispo. D'aqui a uma semana está nomeado. Póde ir descansado.
Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto do piano:
--Senhor ministro, eu agradeço...
--Á senhora condessa, á senhora condessa, disse o ministro sorrindo.
--Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á condessa, todo curvado.
--Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, parece.
--Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.
--Lembre-me nas suas orações, senhor padre Amaro, disse ella. E continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano--as tristezas da aldeia quando Lubin esta ausente!
Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. Mas não tornára a esquecer aquella manhã em casa da senhora condessa de Ribamar,--o ministro de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo o seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia _yes_...Cantava-lhe sempre no cerebro aquella aria triste do _Rigoleto_; e perseguia-o a brancura dos braços de Thereza sob a gaze negra! Instinctivamente via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em torno do pescoço airoso do rapaz louro:--detestava-o então, e a língua barbara que fallava, e a terra heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as fontes á idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher divina e sentir o seu vestido de sêda preta roçar pela sua batina de lustrina velha, na escura intimidade do confessionario.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para Santa Apolonia, com um gallego que lhe levava o bahú. A madrugada rompia. A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. Ás vezes uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe interminaveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; n'uma ou n'outra rua uma voz aguda já apregoava os jornaes; e os moços dos theatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.
Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do sol alaranjava o ar por detraz dos montes da Outra-Banda: o rio estendia-se, immovel, riscado de correntes de côr de aço sem lustre; e já alguma vela de falua passava, vagarosa e branca.
IV
Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada do parocho novo, e todos sabiam já que tinha trazido um bahú de lata, que era magro e alto, e que chamava _Padre-Mestre_ ao conego Dias.
As amigas da S. Joanneira,--as intimas--a D. Maria da Assumpção, as Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa d'ella _para se pôrem ao facto_... Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A S. Joanneira, radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas arregaçadas, nos arranjos da manhã; e immediatamente, com animação, contou a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
--Mas venham vossês cá abaixo, sempre quero que vejam.
Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bahú de lata, uma prateleira que lhe arranjára para os livros.
--Está muito bem, está tudo muito bem, diziam as velhas andando pelo quarto, devagar, com respeito, como n'uma igreja.
--Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso apalpando o panno das largas bandas que pendiam ao comprido do cabide.--É obra para um par de moedas!
--E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira erguendo a tampa do bahú.
O grupo das velhas curvou-se com admiração.
--A mim o que me consola é que elle seja um rapaz novo, disse D. Maria da Assumpção, piedosamente.
--Tambem a mim, disse com auctoridade a D. Joaquina Gansoso. Estar a gente a confessar-se e a vêr o pingo do rapé, como era com o Raposo, credo! até se perde a devoção! E o bruto do José Migueis! Não, lá isso Deus me mate com gente nova!
A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do parocho,--um crucifixo que estava ainda embrulhado n'um jornal velho, o album de retratos, onde o primeiro cartão era uma photographia do Papa abençoando a christandade. Todas se extasiaram.
--É o mais que se póde, diziam, é o mais que se póde!
Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na porque adquirira, hospedando o parocho, uma auctoridade quasi ecclesiastica.
--Vossês apparecem á noite, disse ella do alto da escada.
--Pudera!... gritou D. Maria da Assumpção, já á porta da rua, traçando o seu mantelete.--Pudera!... Para o vermos á vontade!
Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo de Leiria; e subindo a correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:
--Ó S. Joanneira!
--Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava á janella.
--Então o senhor parocho veio, hein? perguntou o Libaninho, mostrando á porta da sala de jantar o seu rosto gordinho côr de limão, a calva luzidia; e vindo para ella com o passinho miudo, um gingar de quadris:
--Então que tal, que tal? tem bom feitio?
A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
--Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota.--Mas não se podia demorar, ia para a repartição!--Adeus, filhinha, adeus!--E batia com a sua mão papuda no hombro da S. Joanneira.--Estás cada vez mais gordinha! Olha que rezei hontem a Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!
A criada tinha entrado.
--Adeus, _Ruça_! Estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãi dos Homens.--E avistando Amelia pela porta do quarto entreaberta:--Ai, que estás mesmo uma flôr, Mélinha! Quem se salvava na tua graça bem eu sei!
E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo:
--Adeusinho! adeusinho, pequenas!
--Ó Libaninho, vens á noite?
--Ai, não posso, filha, não posso!--E a sua vozinha era quasi chorosa.--Olha que ámanhã é Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de direito!
Amaro fôra visitar o chantre com o conego Dias, e tinha-lhe entregado uma carta de recommendação do senhor conde de Ribamar.
--Conheci muito o senhor conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso: ha que annos isso vai!
E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, fallou com satisfação do seu tempo: contou anecdotas da Junta, apreciou os homens de então, imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excellencia), os _tics_, as caturrices--sobretudo Manoel Passos, que elle descrevia passeando na Praça Nova, com o comprido casaco pardo e o chapéo de grandes abas, dizendo:
--_Animo, patriotas! o Xavier aguenta-se!_
Os senhores ecclesiasticos da camara riram com gozo. Houve uma grande cordialidade. Amaro sahiu muito lisonjeado.
Depois jantou em casa do conego Dias, e foram passear ambos pela estrada de Marrazes. Uma luz dôce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga tranquilidade; fumos esbranquiçados sahiam dos casaes, e sentiam-se os chocalhos melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da ponte, e disse, olhando em redor a paizagem suave:
--Pois senhores, parece-me que me hei de dar bem aqui!
--Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego, sorvendo o seu rapé.
Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joanneira.
As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candieiro de petroleo, Amelia costurava.
A snr.^a D. Maria da Assumpção vestira-se, como nos domingos, de sêda preta: o seu _chinó_, d'um louro avermelhado, estava coberto com as rendas d'um _enfeite_ negro; as mãos descarnadas, calçadas de mitenes, solemnemente pousadas no regaço, reluziam de anneis; do broche sobre o pescoço até ao cinto, um grosso grilhão d'ouro cahia com passadores lavrados. Conservava-se direita e ceremoniosa, com a cabeça um pouco de lado, os oculos d'ouro assentes sobre o nariz acavallado: tinha no queixo um grande signal cabelludo; e quando se fallava de devoções ou de milagres dava um geito ao pescoço, e abria um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas. Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico.
--Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joanneira.
Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, commovida.
--Estas são as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido..., disse a S. Joanneira ao parocho.
Amaro comprimentou timidamente. Eram duas irmãs. Passavam por ter algum dinheiro, mas costumavam receber hospedes. A mais velha, a snr.^a D. Joaquina Gansoso, era uma pessoa sêcca, com uma testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no seu chale, direita, com os braços cruzados, fallava perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia de opiniões. Dizia mal dos homens e dava-se toda á Igreja.
A irmã, a snr.^a D. Anna, era extremamente surda. Nunca fallava, e com os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar tranquillamente os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido preto de riscas amarellas, um rolo de arminho ao pescoço, dormitava toda a noite, e só accentuava a sua presença de vez em quando por suspiros agudos: dizia-se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor do correio. Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papeis para caixas de dôce.
Estava tambem a snr.^a D. Josepha, a irmã do conego Dias. Tinha a alcunha de _castanha pilada_. Era uma creaturinha mirrada, de linhas aduncas, pelle engelhada e côr de cidra, voz sibilante; vivia n'um perpetuo estado de irritação, os olhinhos sempre assanhados, contracções nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho chamava-lhe a _estação central_ das intrigas de Leiria.
--Então passeou muito, senhor parocho? perguntou ella logo impertigando-se.
--Fomos quasi até lá ao fim da estrada de Marrazes, disse o conego, sentando-se pesadamente por detraz da S. Joanneira.
--Não achou bonito, senhor parocho? acudiu snr.^a D. Joaquina Gansoso.
--Muito bonito.
Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas vistas: a snr.^a D. Josepha gostava muito do passeio ao pé do rio; até já ouvira dizer que nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja da Encarnação, no alto.
--Desfruta-se muito d'alli.
Amelia disse sorrindo:
--Eu por mim gósto d'aquelle bocado ao pé da ponte, debaixo dos chorões.--E partindo com os dentes o fio da costura:--É tão triste!
Amaro olhou para ella, então, pela primeira vez. Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito; pescoço branco e cheio sahia d'um collarinho voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes brilhava; e pareceu ao parocho que um buçosinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra subtil e dôce.
Houve um pequeno silencio--o conego Dias com o beiço descahido ia já cerrando as palpebras.
--Que será feito do senhor padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.
--Está talvez com a enxaqueca, pobre de Christo! lembrou piedosamente a snr.^a D. Maria da Assumpção.
Um rapaz que estava junto do aparador disse então:
--Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da Barrosa.
--Homem! disse logo com azedume a irmã do conego, a snr.^a D. Josepha Dias, é milagre ter o senhor reparado!
--Porquê, minha senhora? disse elle erguendo-se e chegando-se ao grupo das velhas.
Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pelle branca, regular, um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, cahido aos cantos, que elle costumava mordicar com os dentes.
--Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.^a D. Josepha Dias. O senhor, que nem lhe tira o chapéo!
--Eu!?
--Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante. E acrescentou: Ai, senhor parocho, bem póde chamar o snr. João Eduardo para o bom caminho!--E teve um risinho maligno.
--Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, disse elle rindo, com as mãos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amelia.
--É uma graça! exclamou a snr.^a D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o senhor disse hoje lá em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não ha de ganhar o céo!
--Ora essa! gritou a irmã do conego voltando-se bruscamente para João Eduardo. Então o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é uma impostora?
--Credo, Jesus! disse a snr.^a D. Maria da Assumpção apertando as mãos e fitando João Eduardo com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer isso? Cruzes!
--Não, o snr. João Eduardo, affirmou gravemente o conego, que espertára, desdobrando o seu lenço vermelho--não era capaz de dizer uma d'essas.
Amaro perguntou então:
--Quem é a Santa da Arregassa?
--Credo! Pois não tem ouvido fallar, senhor parocho? exclamou n'uma admiração a snr.^a D. Maria da Assumpção.
--Ha de ter ouvido, affirmava a snr.^a D. Josepha Dias com auctoridade. Diz que os jornaes de Lisboa vem cheios d'isso!
--É com effeito uma coisa bem extraordinaria, ponderou com um tom profundo o conego.
A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:
--Ai, não imagina, senhor parocho, é o milagre dos milagres!
--Se é! se é! disseram.
Houve um recolhimento devoto.
--Mas então...? perguntou Amaro, todo curioso.
--Olhe, senhor parocho, começou a snr.^a D. Joaquina Gansoso endireitando-se no chale, fallando com solemnidade: a Santa é uma mulher que aqui ha n'uma freguezia perto, que está ha vinte annos na cama...
--Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assumpção, tocando-lhe com o leque no braço.
--Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.
--Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S. Joanneira. E o conego apoiou-a, oscillando gravemente a cabeça.
--Está entrevadinha de todo, senhor parocho! rompeu a irmã do conego, avida de fallar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto!--E mostrava o dedo minimo.--Para a gente a ouvir é necessario pôr-lhe a orelha ao pé da boca!
--Pois se ella se sustenta da graça de Deus! disse lamentosamente a snr.^a D. Maria da Assumpção. Coitadinha! que até a gente lembrar-se...
Houve entre as velhas um silencio commovido. João Eduardo, que por traz das velhas, de pé, com as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode, disse então:
--Olhe, senhor parocho, a coisa é o que os medicos dizem: é que aquillo é uma doença nervosa.
Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas, um escandalo; a snr.^a D. Maria da Assumpção persignou-se logo «á cautela».
--Pelo amor de Deus! gritou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor diga isso diante de quem quizer, menos de mim! É uma affronta!
--É que até póde cahir um raio, dizia para os lados, baixo, a snr.^a D. Maria da Assumpção, muito aterrada.
--Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor é um homem sem religião e sem respeito pelas coisas santas.--E voltando-se para o lado de Amelia, muito azeda:--Olhe, filha minha é que eu lhe não dava!
Amelia córou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho tambem, curvou-se sarcasticamente:
--Eu digo o que dizem os medicos. E de resto, acredite que não tenho prentenções a casar com pessoa da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.^a D. Josepha!
O conego deu uma risada muito pesada.
--Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa.
--Mas que faz então a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.